27 de jul de 2010

Easy Rider

Fim de primavera do inexpressivo ano de 2009 em pleno Planalto Central do Brasil.  O Garanhão de Pelotas acometido de profundo fastio pelo lamaçal que escorria da rampa, decidiu dar um tempo e viajar tipo assim easy rider, rumo ao extremo Sul do Brasil Da Silva.

Seu objetivo era deixar de lado um pouco do animal social, libertar-se do sentimento governista de ignorar escândalos e alcançar a tão almejada liberdade pessoal.

Despertou o motociclista - que motoqueiro é operário que faz entrega, ou assaltante de capacete - que havia dentro dele e largou-se pela estrada em sua possante máquina rubro-cinza que comprou para prestar homenagem aos bons tempos em que defendia, no estádio da Estação Ferroviária, a briosa camisa do Clube Atlético Bancário.

Tudo ia muito bem, quando de repente não mais que de repente, eis que senão quando - como versejava Vinícius - ele se deu conta de que sua carteira de habilitação estava vencida. Já percorrera uma boa quilometragem. Atravessara São Paulo e estava entrando no estado do Paraná, sem padecer a abordagem dos piratas infiltrados na polícia rodoviária. Resolveu apostar na sorte.

Mais do que isso, foi em frente porque "bolas, renovar a habilitação vai levar pelo menos um mes. Tá vencida, pago multa e tenho ainda que me submeter a exame de aptidão... Vou que vou assim mesmo". E foi. Não muito. Logo deu de cara com uma patrulha que, de inopino - como faz bem a historietas desse tipo - saiu detrás de uma moita à beira da rodovia.

Obedeceu ao sinal para parar. Imaginou uma desculpa. Não viu nada melhor do que fingir que nem sabia estar desabilitado para dirigir. O guarda, com bons modos, pediu-lhe os documentos. Mostrou-lhe todos, até chegar à habilitação. Dançou.

Com bons modos, o policial anunciou com fala macia o valor da multa e a apreeensão da moto, "já que com carteira vencida, ninguém pode dirigir". Cerca de trinta minutos depois, o Garanhão de Pelotas cortava, lépido e faceiro a estrada que o levaria a seu destino premeditado: uma semana em Punta del Este, capital do Uruguai e pelo menos, meia dúzia de noites ao derredor das roletas bem comportadas do Conrad, capital de Punta.

Lépido e faceiro, sim... Lépido - porque a moto era uma máquina, andava muito; faceiro - porque não fora multado, nem perdera pontos no cadastro de motorista. E a propina foi suave: doces R$ 50. Sorria. Não por muito tempo.

Coisa de 40 quilômetros dali, nova patrulha ambulante. Parecia o mesmo banco, a mesma praça, o mesmo jardim. A conversa foi a mesma; a propina também. Nem multa, nem ponto perdido.

Pilotou assim, feliz da vida, com menos cem pratas no bolso até chegar aos limites de Santa Catarina. Ali, deu de cara com os piratas de bandeira cáqui. Pagou e não bufou. Mais cinquentinha e votos de uma boa viagem. Desde que não abrisse o bico sobre as diligentes barreiras que, de quando em quando, surgiam pelas margens da vida. "Não vá denunciar a nossa estratégia de vigilância e proteção aos bons motoristas" - ainda debochara com maciez um deles.

E assim, de propina em propina, o Garanhão concluiu a primeira etapa de sua viagem. Já em sua terra natal, viu amigos e influenciou pessoas.

Logo se mandou para Punta del Este. Hospedou-se no Remanso, mas com cara de quem estava no Conrad. Toda noite foi às roletas; viu Armando Manzanero, um naco do Cirque du Soleil e até passou um fim de madrugada na praia bebericando um Chivas Reagal com o mexicano Luiz Miguel, cantador dos boleros de Manzanero e umas que outras guapas señoritas de ocasião.

Ganhou no jogo - andava meio azarado no amor - ganhou o bastante para pagar a hospedagem, os shows, as namoradas que namorou, o uísque que tomou e o amargo regresso ao ponto de partida, a insuspeita capital da República dos Calamares.

Foi, como se denota, uma viagem bem familiar: começou como Easy Rider, de Peter Fonda; estava acabando como Amargo Regresso, de Jane também Fonda. Esperto como um Lula motoqueiro, mandou disfarçar a moto dando-lhe as cores do áureo-cerúleo, time da Avenida Bento Gonçalves, onde jogou fora boa parte de sua adolescência esportiva.

Na verdade, o passeio do Garanhão foi como um filme que a gente já tinha visto. Fazendo o mesmo caminho de volta, o nosso aventureiro predileto pagou por três vezes as mesmas três propinas de cinquenta reais, aos mesmos piratas do asfalto, nos mesmos pontos estratégicos de abordagem.

Nenhuma multa, nenhum ponto perdido na carteira de habilitação, nenhuma apreensão da moto... Apenas R$ 600 a menos no bagageiro atulhado de garrafas de Chivas Reagal, trazidos do Uruguai por um sexto do preço de mercado.

Já na Grande Ilha, o Garanhão de Pelotas, aprontou-se para reencetar suas atividades de furungador político, financiado pela RIO - Rede de Intrigas da Oposição que continua fazendo drapejar a sua bandeira: "Hay gobierno, soy contra".

O Garanhão de Pelotas, um dia antes de voltar à ativa, recebeu um bilhete garatujado com uma ameaça apócrifa: "Nós sabemos o que você andou fazendo na última primavera... Podemos processá-lo por corrupção ativa!". Deu de ombros. Pulou e andou para a tentativa de chantagem. Sabia que o golpe não tinha como prosperar.

Como é um personagem da mais pura ficção, essa história nunca aconteceu. Nem a viagem, nem o contrabando de Chivas, nem as propinas, nem a tentativa de chantegem, nem a possante moto... Essa está lá, guardada e bem escondidinha na garagem da mansão do Lago Sul, pintada de rubro-negro, as cores do G. E. Brasil, o Xavante pelotense - pronta para o próximo verão.