23 de dez de 2011

A um passo da eternidade

E então, certa feita - não dista isso muito tempo - estava eu à margem direita do arroio Pelotas, na antiga Colônia de Férias Mazza, junto à ponte que leva ao balneário do Laranjal, às frondes de uma centenária figueira ao lado da casa onde morou e conspirou Bernardino Rodrigues Barcellos, quando fiquei sabendo por Ricardo Ramos - senhor de engenho e arte daquele recanto - como é que nasce, cresce e se eterniza uma daquelas maravilhas verdes profundas que dão muita sombra e poucos figos, porque surgem para dar beleza às cenas da natureza.

Aquelas figueiras nascem do cocô do passarinho que se rebusca nos frutos do butiazeiro. O desforço da diminuta ave cai sobre o solo fértil, junto ao pé de butiá e o tempo se encarrega de dar cria às portentosas árvores que emolduram os Pampas e os caminhos da pátria pequena que tenho no Sul.

A descoberta me deu uma pequena visão do que pode ser um princípio da ideia de eternidade. Quando me cansar dessa vida e pular e andar muito mais do que pulo e ando para este mundo, eu quero ser cremado.

Que me desfaçam em pó, mas que não me desperdicem assim ao léu. Quero que liberem minhas cinzas, não ao vento, menos ainda ao Minuano. Quero que me joguem a um mar, a um rio, a um arroio, a um viveiro - pouco importa, desde que seja em Pelotas e tenha camarão.

Um deles há de me provar. E me parir de novo. E então estarei de volta à terra dos homens de todas as vontades. Com a mesma coisa que tenho hoje na cabeça. E vai ser bom uma vez mais. E o seu Garanhão de Pelotas será eterno.

MORAL DA HISTÓRIA - Todo ateu, porque não consegue provar que Deus não existe, tem seu dia de crédulo e fica a um passo da eternidade.

22 de dez de 2011

Eia, pois!

Eia, pois! O Garanhão de Pelotas, duas semanas de férias depois, é aquela que renasce das cinzas, que ressurge das brumas. Qual Fênix, como disse o faraó Beherensdorf há dois mil anos. O Garanhão é aquele que tenta esquecer todos os dias a sua paixão mais fresca. Mais fresca, no bom sentido. Mais recente. Mais profunda. Mais dorida pela descontinuidade. Pela despedida que não houve. Pelo adeus que não aconteceu. Pela perspectiva de que amanhã é outro dia. Outro começo de tudo quanto nem bem começou, já muito mal nem terminou. Pela saudade hoje do que será o amanhã. Pelos medos de não saber trilhar o chão que lhe faltou.

2 de dez de 2011

NEURO MORDAZ

Fernando Costa sempre foi meu neurologista. Meu e de todo o Cone Sul. Seu idioma clínico é e sempre foi de uma precisão suiça e de uma frieza patagônica. Nunca fez rodeios. Disse sempre na lata o que o paciente tinha. De bom ou de ruim.

Eu era seu parceiro de aventuras esportivas pelas quadras do Dunas Clube. Quadras de tênis e de pádel, já que de futebol ele não manjava nada. Era mais perna de pau do que cadeira dura em modalidades de raquete.

O melhor de todos os certames era sempre a rodada de uísque e acepipes de depois. As melhores jogadas eram as que ninguém tinha visto e as histórias eram todas verdadeiras, disfarçadas de mentira.

Fernando não se continha. Um dia notei marcas vermelhas nos meus braços. Onde eu batia com a raquete, ou onde quer que eu levasse uma pancada, logo ficava uma nódoa feia que persistia por meia dúzia de dias para depois sumir como que por encanto.

Eu quis saber de Fernado o que era aquilo:

- Fernando o que é isso aqui.
- Nada, Garanhão. Isso é bobagem.

Quinze, vinte dias depois. De novo as manchas apareceram. Voltei à carga:

- Fernando, e essas manchas?
- Nada, Garanhão, nada... Não dá bola pra isso.
- Para com isso. Diz logo do que se trata..
- Bem, já que você quer saber, isso é... Púrpura senil.
- Púrpura... Púrpura senil?!?
- É, só dá em quem tem mais de sessenta anos.

Bem feito. Quem me mandou ser curioso. Curioso e medroso. Eu achava que poderia ser aquilo que Lula tem hoje na garganta, ou coisa que o valha. Não era. Ora, púrpura senil eu tirava de letra.

E Fernando Costa, meu neurologista meio pisquiatra, analista e parceiro de jornadas clubísticas, era bem assim. Sua linguagem clínica era um estilete; tinha a precisão de um bisturi.

De outra feita, eu andei fazendo um regime de matar. Não deixava de comer nada do que eu gostava. Mas contava calorias. Não absorvia mais do que 900 por dia. Emagreci uns 12 ou 13 quilos.

Numa dessas saídas de quadra, gelinhos tilintando em copos atopetados de Chivas Regal, Fernando - vingativo como ele só e brabo porque havia perdido mais uma partida para mim, olhou-me e com a mordacidade que tirava dos confins da Patagônia, me disse entredentes:

- Todos os meus amigos que emagreceram desse jeito, foi sempre por duas únicas razões...
- Duas razões?
- É. Estavam com câncer ou arrumaram uma amante.

Calei-me. Fingi que me preocupava com uísque em minhas mãos, quando ele - com olhos de freguês de caderno - não me perdoou:

- Garanhão, você... Eu garanto, não tem câncer.

MORAL DA HISTÓRIA - As coisas que ouvimos quando as provocamos são sempre mais verossímeis do que as que escutamos antes de nos irritarmos.