30 de set de 2012

Uma tristeza de matar

Eu não andava lá essas coisas. A vida de Garanhão de Pelotas que levo, me multiplica facetas de personalidades que reparto com meio mundo e nego à outra metade do planeta. Hoje amanheci à noite. Cerca de 11 horas. Bem cabareteiro.

No mais puro estilo fanchão dos anos dourados, lá pelas cercanias de 1960, em frente ao espelho da espelunca que eu fazia de rendez-vous, "abotoei" a cabeleira com um pente Flamengo de estimação, escovei os dentes, comecei a mascar um chiclete Adams, ajeitei os suspensório, a gravata de linha preta trançada.

Enquanto vestia o paletó, olhei-me apaixonado por minha fina estampa, aprovei-me dos pés à cabeça que cobri com um chapéu Ramenzoni e sai a passos largos com meus sapatos Clark de duas cores e saltos três centímetros acima do nível da Lagoa dos Patos. Peguei meu Karman Ghia vermelho e me toquei para a Pensão da Isaura Ruiva, a mais nova concorrentes das duas outras isauras, a preta e a branca.

Estas últimas já tinham dono. Isaurinha Ruiva era meu alvo. Ela já tina me dado algumas "entradas". Chegava a hora do bote. Eu seria o seu rufião pro resto da minha chama.

Cheguei ao bordel da Ruiva por volta de meia-noite. Hora boa para dar uma volta pelo salão, aconchegar-me na mesa 5 bem pertinho do Jazz Lua de Prata, pedir um Dry Martini - que naquela época ainda não era "drinque de fresco" - e pegar a primeira mulher bonita que cruzasse seu olhar comigo. Um olhar que fosse bonito, de índia domada; um olhar adqueles misteriosos que fazem a gente pensar copisas que ñem sequer imagina.

Pois, eis que já armado de uma taça em cone, cheia de pedras de gelo e uma azeitona perfurada a palito, pego da mão de uma china linda e entristecida que passava pelas bordas de minha mesa, assim como quem vai pras pitangas.

- Guria bonita, vem comigo, vem... - murmurei, enquanto devorava seus seios num decote generoso.
- Largue minha mão, meu par foi ao WC e já volta - disse-me desvencilhando-se de mim.
- Mas eu gostei dos seus seios... - ousei, já prevendo a primeira frustração da noite.
Ah, você cobiça os meus seios... Então até logo! - E virou-se de costas pra mim, saindo dali.

Eu sou um gentleman, mas não aguento desaforo. Sou um cara bom que nem o Lula, só não gosto de ser contrariado. Antes que ela desse três passos, devolvi-lhe o adeus num tomo exibido o bastante para entrar pelos ouvidos dos cabareteiros mais próximos:

- Pois, olhando daqui, querida, gostei mais da sua bunda!... Mas pode ir que você não faz meu tipo.

Aqui ó que ia pagar o vexame de um "carão" de uma mulher de vida fácil. Aqui ó, uma banana pra ela! Nem bem tinha voltado toda a minha atenção para a minha taça fui surpreendido pela silhueta de Maria Julieta, uma potranquinha de metro e meio, pouco mais que isso e magra como um esqueleto ambulante. Ela sentou-se com ar desenxabido, mas com um olhar profundo, caído cheio de mistérios.

Opa! Era esse tipo de olhar que eu estava esperano enquanto fazia hora para conquistar Isaura Ruiva. Antes que eu lhe desse permissão para sentar-se a meu lado, ela já estava com os cotovelos sobre a mesa, as duas mãos ao redor do rosto extremamente expressivo que parecia querer dizer alguma coisa. Quando me aprumei para lhe dirigir a honra da minha palavra, ela foi se adiantando:

- Sou uma infeliz, Garanhão...
- Como assim?
- Ninguém me ama.
- E daí, guria, tu não caiu na vida por isso mesmo?
- Foi, mas é que o meu último romance acabou... Tô desiludida. Pra sempre.
- E o que tu pensas fazer? - dei trela para Mariazinha.
- Acho que vou me matar.
- Ah é, vais te matar? Então toma. Te mata!- tirei a mini garrucha do bolso e botei na frente dela.

Ela me olhou profundamente, olhos nos olhos, empurrou a arma na minha direção, a cadeira para trás, levantou-se e saiu com os olhos cheios de lágrimas.

Acompanhei seus passos até a escadaria que dava para os cômodos no segundo andar. Ela sumiu. Não ouvi tiro nenhum. Já era quase uma hora quando, desceu fulgurante pela mesma escadaria, a exuberante Isaura Ruiva. Tirei-a para dançar.

No meio do salão, esbarrei num par muito animado. O galã eu não conhecia, mas a dançarina era Mariazinha, lépida e faceira. A noite saiu melhor do que eu esperava. Só descobri que não gostava de Isaura Ruiva e ela não gostava de mim, cinco dias depois, quando o calendário de parede do meu chatô já anunciava outro final de semana.

MORAL DA HISTÓRIA - Quando você sabe usar do argumento certo na hora, no lugar e com a pessoa certa, você não precisa estar certo. 

9 de set de 2012

Rede McGaranha'S

Inventar a vida sempre foi fácil para mim. Ou então, eu jamais seria o impoluto, safo e resoluto Garanhão de Pelotas.

Naquela noite do Século XX, depois de muitas idas e vindas ao circuito de cinemas da cidade - arte que sempre curti - notei que a carrocinha de pipoca diante do Derby d'Oro, maior sala de espetáculos dos meus bons tempos, tivera o triplo do lucro que o dono do cinema alcançara naquela temporada pouco alviçareira.

Sai dali e já no outro dia comecei a comprar todas as carrocinhas de pipoca da cidade. Criei a primeira rede McGaranha'S Pop Corn do mundo. Fiquei rico.

Rico e burro. Comprei todos os cinemas. Vendi pipoca e entradas como nunca. Até que vieram as locadoras de vídeo. Quase quebrado, vendi a rede McGaranha'S Film Circuit e comprei locadora por locadora. Fiquei rico, de novo.

Enriqueci da noite pro dia e empobreci mais depressa ainda: chegou a Internet. Dancei. Fui trocando a rede McGaranha'S Film Circuit por sítios eletrônicos. Fiquei rico, uma vez mais. E burro. Estou entupido com a McGaranha'S Rental Videos e sua matriz a McGaranha'S Eletronic Sites.

Até agora não consegui comprar o Google. Quero montar a McGaranha'S Google, alguém se habilita?!?

MORAL DA HISTÓRIA - Nem sempre o Garanhão de Pelotas tem que ser um vencedor. Mas, às vezes, ele é brasileiro. Não desiste nunca.

2 de set de 2012

Do Metrô ao show do Quintas de Fevereiro

Sexta-feira, prenúncio de fim de semana. Resolvi andar de metrô para desanuviar a cabeça. E lá fui eu, na pele do escritor Garanhão de Pelotas, da Estação Central de Brasília rumo a Águas Claras, núcleo habitacional classe média alta a meio caminho de Guará, Taguatinga e outras cidades satélites.

Coisa assim só para passar o tempo; ir e voltar; curtindo uma rápida convivência itinerante; viagenzinha de vai e vem em horário folgado de mais uma manhã de vida útil no Distrito Federal. Lá fora, o sol era um esplendoroso anúncio de que se tratava do Rei dos Astros.

Na primeira parada, descem dois comportados passageiros e sobe um grupo de quatro gazeteiros - um gay pra lá de assumido e três garotas, todas elas de dentes de lata, cheia de arames e pingos de solda nos risos tipo gargalhada debochada.

Barulhenta, a molecada se acomontoou na bancada à minha frente e, com o menosprezo pelo tempo, espaço e ouvido dos outros, foi gargalhando por um monte de besteira que saía da gazela deslumbrada, líder inconteste da turma de mal-educados falsos porta-vozes da geração que nos enche o saco.

Desviei os olhos daquele monturo, mas não consegui tampar os ouvidos o suficiente para evitar o som estridente, exagerado e agressivo de suas piadas desgraciosamente infames.

Mochila murcha sobre os ombros arqueados, o efebo de brinquinhos de argola nas duas orelhas, sombra nos olhos negros de jabuticaba e trejeitos de musa morena do subúrbio, arrancava aplausos esparsos e suspiros de admiração das suas três adoradoras de folguedos cotidianos. Aula que é bom, ninguém ali queria.

Fui obrigado a escutar. O babaquinha tresloucado, se exibia quanto podia:

- Aqui ó! Quero ver agora me chamarem de biba! Quero ver fazerem bullying comigo! Eu não sou mais uma biba! Eu sou um Bicha... Bichaaaa! Biiiicha poderoooosa! - e esperava a reação da galerinha.
- Quéquequé, quéquiqui, quaquaquá...
- Sou bicha poderoooosísssima! O delegado tá do meu lado. Qualquer coisa digo que é bullying e mato a pau! A pau, viram? Paaau!!!
- Quéquequé, quéquiqui, quéquequé...
- A lei tá do meu lado. Sou bicha, bichinha, bichona! Sou aquele que sou e pronto! Dou pra quem quero e quando quero!
- Quéquequé, quéquiqui, quéquequé...

Um senhor de boa idade. Boa idade é bondade. Um senhor pra lá de passado nos anos, incomodado pelo comportamento imbecil do grupelho, reagiu com sutileza:

- Ei, amiguinho, quanto é que está o jogo aí?
- Como assim, meu senhor?... - Fez-se de desentendida a biba exbicionista.
- É que você não para de irradiar desde que entrou aqui...
- Ah, vai te deitar vinaaagre! - desdenhou o safardana.

E o metrô ia que ia. Até que não aguentei. Aquilo era demais para o Garanhão de Pelotas. Larguei de lado a janela que me mostrava uma Brasília linda correndo a meu lado e me virei para o espalhafatoso:

- Dá pra ficar quieto, ô Bicha Poderoooosa?!?
- O quêêê... Bicha Poderosa? Você tá me chamando de biiicha?!? Quer um processo por discriminação, seu bosta velha?

Aí me levantei. Fui até o idiota e, esganando-o com a mão direita, enfiei-lhe a esquerda no saco, de tal forma que o dedo pai-de-todos se imiscuiu em seu esfíncter:

- Bosta velha é o que sai da tua cloaca, putão fedorento! Cala boca que ninguém aqui tem que escutar suas basófias, chinelão de almanaque!
- Aaaai, aaai, ocê tá me machucaaaando! Tenho meus - cof, cof, ufa! - tenho meus direeeeitos...
- Fecha a fossa, seu berdamerda! Eu já comi 20 vezes a tua mãe e não ando por aí fazendo estardalhaço dessa besteira.

A porção palhaço da biba que tinha assumido o seu lado poderoso se desmanchou em seguida e virou pranto social. Logo o exibidão virou um reles excluído da Lei Maria da Penha. Era só um perturbador, não um típico exemplar do terceiro sexo desse terceiro milênio. Um pernicioso que, com um pé na bunda, fiz descer na próxima estação.

Pouco depois, começava a viagem de volta. Cheguei na Estação Central do Metrô de Brasília a tempo de chegar em casa e sorver um bom uísque, tomar um banho melhor ainda e me arrumar todo para assistir a mais um show do Quintas de Fevereiro, a banda de rock mais afinada e comportada que conheço, num pub lá de Águas Claras. Ganhei o fim de semana.