18 de nov de 2010

Um dia de Super por uma temporada no Caribe

O Garanhão de Pelotas, é quase como todo mundo que tem altos e baixos na vida. Sua formação superior, de reconhecida nobreza, lhe dá o direito de ter altos e abismos. Pois foi num desses estágios tipo transição governamental, à beira do precipício, que ele resolveu dar um passo à frente.

Sem emprego fixo, sem dinheiro, vivendo de bicos e algumas bordas rendadas, o Garanhão resolveu acabar com a pobreza de sua cozinha. Aquilo não era clima para um nobre, nem mesmo para um lorde falido. Enquanto exercitava a arte de dominar pelo controle remoto a rede Globo já ultrapassada pela rede Universal de templos abençoados por bispos nem tanto, decidiu que iria às compras. E foi.

Mas, deixe que lhes diga: não foi só por ir; não foi assim só para gastar o que tinha e o que não tinha; não foi para abastecer cozinha e adega, ficar gordo e flácido... Foi para fazer a vida; para se acomodar para sempre que, no seu caso e em nome de suas origens reais, quer dizer um bom tempo até novo retumbante fracasso. Foi pra isso... Mas permita que eu lhe conte aos poucos.

O Garanhão de Pelotas chegou ao supermercado Big Bang - um verdadeiro Big Brother de tanta câmera à disposição de nossos sorrisos - e estourou a conta em dois carrinhos superlotados de primeiras e últimas necessidades. Mais até que isso, cheios de supérfluos de urgência: uísques de maior idade, champanhes borbulhantes de cinco estrelas, vinhos de safras mais especiais que uma boa idéia de metalúrgico bem-sucedido - ou mal, no caso brasileiro.

Ele botou pra quebrar no Big Bang, de tal forma que deixaria pasmo qualquer cosmólogo do universo contemporâneo. Por incrível que pareça, foi ao Caixa, tirou da guaiaca os últimos bons reais que tinha na vida e pagou à vista e não bufou, um rol de produtos essenciais que chegava, a pau e corda, a um montante de R$ 2 mil 327 reais e 24 sugestivos centavos.

Pronto. Toma lá, dá cá! Saiu dali, foi para o estacionamento e colocou tudo no seu Renault Logan 1.0, modelo 2010. Telefonou para uma de suas três secretárias-executáveis e pediu que ela viesse no Pajero Sport até onde ele se encontrava.

Poucos momentos depois, ela chegava à garagem do Super. Ele passou-lhe a chave do Logan e recomendou: - Leve as compras para casa e, por favor, acomodea-as nos devidos lugares da cozinha e da adega. Cuidado para não deixar cair a caixa de Dom Pérignon...

Beijou-a no rosto, bem no cantinho do lábio e, com a chave da Pajero no bolso voltou para os corredores e as gondolas do supermercado.

Lá dentro, perdeu mais de uma hora para - com base em cada item da nota do Caixa - encher novamente dois carrinhos exatamente iguais aos que havia despachado pela secretária rumo a sua residência. Tarefa consumada, ignorou as Caixas à disposição e dirigiu-se a uma das saídas do Big Bang...

Mal ultrapassou a saída, foi flagrado e escandalizado pelos censores eletrônicos. Logo foi cercado por dois enormes seguranças da casa. Um escarcéu. Uma vergonha. Todos os curiosos que se aproximaram, viram que ele foi conduzido sob suspeita de roubo a um dos quartinhos de espera da polícia que entende mais desses assuntos escabrosos.

O Garanhão, cercado de fregueses - testemunhas oculares do fato - e por gaurda-costas do supermercado, aguardou os policiais e, na hora do flagrante, puxou do bolso a nota de pagamento correspondente a tudo que lotava os dois carrinhos sob sua condução. Pelo bilhete de caixa, estava tudo pago.

Caiu o queixo dos guardas, estourou o saco do gerente do supermercado, os policiais lavraram o flagrante e o Garanhão saiu lépido, faceiro e com ares de superioridade empurrando os dois carrinhos até ao box em que estava estacionado a Pajero Sport, sob os aplausos e a admiração dos circunstantes, todos testemunhas da enorme e irreparável injustiça que sofrera.

No mesmo dia, o Garanhão de Pelotas convocou seus advogados e entrou com uma ação de perdas e danos contra o Big Bang pelo vexame a que fora submetido. Coisa de dois anos depois, o Garanhão recebia uma indenização de alguns milhões de reais. Dinheiro suficiente para lavar sua honra e lhe proporcionar mais um  agradável período de férias numa ilha no Caribe.

Nesse exato momento, sorve um Dry Martini triazeitonado, cercado pelas secretárias-executáveis que não o abandonam por coisa nenhuma desse mundo.

Mesmo descontando os 20% de honorários advocatícios e os outros 20% destinados a instituições de caridade, o Garanhão ainda vai levar um bom tempo para voltar à praia do Laranjal.