25 de ago de 2010

Abandono de serviço e Desvio de Funções

Despido por si mesmo do manto de presideus da República, Lula da Silva voltou a ser aquilo que ele mais sabe fazer na vida: cabo eleitoral. É a sua única vocação. O resto é aporrinhação. Faz, quando faz, porque tem que fazer. Na segunda-feira, o presideus estava nu.


E foi assim que apresentou seu poste iluminado como a "presidenta" Dilma para os metalúrgicos do ABC paulista - únicos trabalhadores que contam para Lula, desde que se conhece por gente.

O streap-tease político se deu numa daquelas chamadas "assembleias especiais" que juntou quase 6 mil trabalhadores na porta da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

O presideus canonizou Dilma de "presidenta" e saltitou fora das tamancas altas dizendo que pesquisas não ganham uma eleição sozinhas. Aí, professorou: "Quanto mais as pesquisas ficam favoráveis, mais a gente tem de assumir responsabilidade".

Como assim?!? Quer dizer que pesquisas desfavoráveis merecem menos trabalho, menos responsabilidade?!? Ah, bom.

Ele fez o périplo com os candidatos que promove, depois das seis horas da tarde. Fim estabelecido por ele mesmo ao seu expediente como presidente do Brasil e início de suas atividades como cabo-eleitoral. O Brasil, daquele momento em diante, estava certamente sendo presidido pelo vice Zé Alencar que estava tratando de sua luta contra o câncer e, da paternidade rebelde que assombra parte da herança que vai deixar. Ou o cargo entrou em período de vacância. Mas isso, para Lula não é nada.

No esperto passeio Lula estava ladeado - e até meio que perseguido - por Aloizio Mercadante e Marta Suplicy. Com Dilma pela mão, Lula tomou ares de notalgia e cantou loas à "importância" de levar a postulante do PT ao Palácio para diante da porta de uma fábrica, onde a história política dele começou, quando a de metalúrgico já terminara há bom tempo.

Aí, deitou e rolou. Sua verborragia é boa para essas coisas e nessas horas: "Era importante Dilma pegar energia aqui, na porta de uma fábrica, onde tudo começou." A energia a que ele se referia por certo não era a mesma energia do Ministério das Minas que Dilma ocupou por unção, honra e glória do governo petista.

No cordão dos puxa-sacos estavam também Antonio Palocci e Zé Eduardo Martins Cardozo, coordenadores da campanha da nova versão da Mulher da Tesoura. Lá se encontravam também o ínclito senador Eduardo Suplicy e antigos companheiros sindicalistas do ABC.

Na caminhada pelas beiradas da fábrica, Lula saiu cumprimentando a platéia e assumindo o papel de mercador de ilusões: "Não é sempre que um trabalhador pode pegar na mão de uma mulher presidente da República". Pura retórica, já que Dilma não é presidente. Pura retórica, porque - se chegar a ser presidente - aqueles ali não apertarão de novo a mesma mão que hoje lhes foi estendida.

Os encargos presidenciais são exaustivos, consomem a agenda dos seus donos; há despachos, viagens, almoços e jantares que se antepõem ao contato direito com a massa. Massa, povo - fique bem entendido - porque massa e tempo para macarronada e pizza é o que não falta.

Na sua sessão nostalgia, Lula relembrou para Dilma: "Aqui, passamos um pouco de tudo". E preciso foi rememorar, posto que o passado de um não foi o mesmo de outra.

E assim passeando à vontade e bem disposto, desnudado das obrigações presidenciais, Lula passou a conversa uma vez mais nos trabalhadores que o cercavam. Ele se propôs até voltar a panfletar diante das fábricas. E então, boquirroto, fez piada: "Como vou perder o emprego em 1º de janeiro, nada como aprender a entregar panfleto outra vez".

Lula parece que usa band-aid, gosta de viver perigosamente. Brincou com uma coisa séria. É que se ele ainda fosse metalúrgico, não perderia o emprego em 1° de janeiro. Seria demitido na segunda-feira mesmo.

Demitido por abandono de serviço, por infidelidade aos patrões e desvio de funções: deixou de cumprir suas obrigações trabalhistas para com todos que pagam o seu alto custo de vida, para trabalhar apenas para a postulante Dilma e seus aloprados.

Nas relações entre empregado e empregador, infidelidade é pior do que jogo de bingo que, conforme o próprio Lula,"é pior que prostituição infantil". Infidelidade, desvio de função, abandono de serviço não tem hora para serem cometidos. Mesmo que o erro grosseiro seja depois do apito das seis. (Roteiro: base reportagem Estadão)