11 de jan de 2011

Tinta Fresca

Taí ó, Lula deixou para Dilma uma herança bendita de mais de 22 mil cargos em comissão para serem preenchidos. Isso quer dizer que muita gente boa vai ganhar uma boca rica e outras tantas, muito mais tantas do que outras, vão ficar do jeito que sempre estiveram: sem fazer absolutamente nada. Isso não é novidade. Acontece no Brasil desde que Pedro Alvares Cabral achou o caminho das índias do Brasil e disse que tinha descoberto a Terra de Santa Cruz.

Há coisa de meio século, o Garanhão de Pelotas resolveu trocar o Túnel do Tempo no Congresso Nacional por uma cadeira de prefeito na sua cidade natal. Eleito por esmagadora maioria - seus eleitores passaram por cima dos adversários - foi logo tomando posse da Prefeitura.

No seu primeiro dia como prefeito foi de seção em seção, cumprimentar cada um dos servidores que trabalhavam no prédio da Intendência Municipal. Chefes, diretores, secretários, contínuos, zeladoras - sem distinção - receberam seu cordial e politicamente correto aperto de mão. O Garanhão saudava a todos. Era como se ele desse as boas-vindas a quem já era dali há muito tempo.

Assim, o Garanhão se fazia mais próximo, mais amigo e menos chefe, mais prefeito. Tanto cumprimentou pessoas que, no sopé da escadaria principal que levava ao seu gabinete, ele saudou com abraço fraterno a um simples funcionário que, humilde e quieto, estava postado ao lado de fora do balcão de atendimento que atravessava o enorme saguão de entrada do paço municipal.

Eis que começa o governo Garanhão. Muitos dias decorreram de nova administração. E, porque ainda não havia elevador no prédio, o prefeito ia e vinha todo santo dia pela mesma escada. Muito subiu e muito desceu. E sempre, invariavelmente, encontrava o tal humilde servidor no mesmo lugar, ao lado do balcão, perto dos degraus da fama. O funcionário cumpridor não saía dali. E não faltava expediente.

Tanto o prefeito deu de cara com ele que, um dia, teve a administrativa curiosidade de saber quem era e o que fazia aquele impassível, atento e cordial funcionário. Foi ao seu encontro:

- Diga, meu bom homem, como é seu nome?
- Antônio, doutor.
- E o que o Seu Antônio faz aqui?
- Cumpro ordens do antigo secretário.
- E que ordens foram essas?
- Impedir que as pessoas se encostem aqui no balcão que foi pintado.
- Pintado... E quando foi isso?
- Ah, doutor, foi bem antes do senhor ganhar as eleições. Faz uns sete, oito meses mais ou menos.
- E você continua...
- Continuo sim, doutor. Ninguém me mandou fazer mais nada...

No dia seguinte, o velho e obediente servidor estava no lado de dentro do balcão. Distribuía senhas de atendimento para os contribuíntes citadinos.

Já o secretário de Recursos Humanos, só não foi demitido porque era um bom cabo-eleitoral. Mas perdeu o cargo e foi ser fiscal da obra do PAC de instalação do elevador da prefeitura.