7 de jan de 2011

Garanhão, o Matador

O Garanhão de Pelotas é um matador de primeira. É de ofício. Um baita atacante. Com a número nove nas costas, é um Fenômeno tipo Romário na zona do agrião. Caiu no pé dele, é peixe. Bola na rede.
Só Pelé fez mais gol que o Garanhão. E assim mesmo, porque os tentos do Garanhão foram marcados à moda Caixa-2, não contabilizados.

Mais de mil, ele fez. Mais até que os mil e poucos do Romário. Não superou a marca do Pelé, porque deixou o futebol profissional pelos torneios de várzea. Teve nobreza bastante para isso. A peble merecia ver a excelsitude da sua arte e manha de fazer gols. E, afinal de contas, ele estava deixando o mundo da bola para entrar no campo da política.

Antes de se embrenhar de vez no mar de lama que começava a atrair sua atenção, o Garanhão ainda jogou muita pelada. Foi num desses campeonatos de quatro turnos, entre seis times amadores, que lhe apareceu pela frente um goleiro de parcos dotes técnicos, mas fanfarrão o suficiente para provocar a ira dos deuses do futebol.

Lughetti era o seu nome. Vinha da Argentina. Decerto era um desses filhos de foragidos do Mussolini que escapavam da 2ª Guerra Mundial, desembarcando para sempre em Buenos Aires.

O cara era só basófia. Saía mal do gol, defendia com os pés o que era de encaixar no peito, borboleteava nos escanteios, até os tiros de meta que ele batia vinham de volta para a sua pequena área. Era o desatino dos seus próprios zagueiros. Dos dentes pra fora, ninguém jogava mais que ele. Era um Yachin, um Aranha-Negra.

O Garanhão deu o desconto do vento e logo percebeu que Lughetti não era do ramo. Fez amizade com ele. Daquelas amizades assim, de se abraçarem antes do início do jogo; de desejar boa sorte e tudo de bom um para o outro e coisa e tal. O Garanhão, sempre gentil, pegou - ninguém sabia bem por quê - a mania de oferecer um chiclete Adams para o goleiraço, antes que a conversa preliminar acabasse e o jogo começasse.

Ao correr do campeonato, nos tres jogos em que se enfrentaram, o Garanhão manteve uma média de tres gols por partida. Fez 2, no jogo do primeiro turno; fez 3, no segundo turno e 4 na última partida da terceira fase do torneio. Assim mesmo, por caprichos do destino e do carnê, os times do Garanhão e de Lughetti, disputariam aquela noite o título do campeonato.

As duas equipes entraram em campo. Naqueles momentos de aquecimento, o Garanhão foi até Lughetti, cumprimentaram-se, conversaram um pouco e, como de hábito, o arqueiro argentino foi contemplado com duas pepitas de chiclete Adams de hortelã.

Cada um pro seu lado, o Garanhão rebolava de satisfação. Falava com os cadarços de suas chuteiras: - Barbadinha, hoje faço mais uns dois ou três nesse frangueiro. Sua certeza decorria não só de sua enorme capacidade de artilheiro nato, mas da estratégida de dar chicletes para o goleiro. O Garanhão já percebera há muito tempo que Lughetti era incapaz de mascar chiclete e caminhar ao mesmo tempo. As duas coisas, de uma vez só, eram demais para a sua capacidade motora.

Começa o jogo. Termina o primeiro tempo: 0 x 0. Começa a segunda etapa. Finda o tempo regulamentar: 0 x 0. Vem a prorrogação. Acaba a prorrogação: 0 x 0. A decisão vai para os penaltis. Lughetti pegou dois. Mas o goleiro do time do Garanhão pegou tres. Pronto, o Garanhão foi campeão!

Depois das comemorações de costume, o matador de ofício foi ao herói da jornada: Lughetti, o arqueiro quase intransponível. Cumprimentou-o pela atuação e ainda teve que escutar:

- E aí, Garanhão, dessa vez não deu?..
- É, pela primeira vez, não fiz gol em você.
- Nem podia mesmo... - desdenhou Lughetti.
- Ué, não entendo... Eu dei chicletes pra você...
- Deu, mas eu enganei você - disse o goleiro com um sorrisinho inteligente.
- Como assim?!?...
- Hoje eu não masquei o chiclete... Eu engoli!

O Garanhão de Pelotas, rendeu-se à esperteza do argentino e, aprendeu ali mesmo a lição de que o cara mais fácil de ser enganado é aquele que se acostuma a enganar os outros.

Isso vale tanto para a arte do futebol quanto para  a ciência política. Vale tanto para um artilheiro que engana um goleiro, quanto para um governo que engana o povo.

O Garanhão de Pelotas prometeu para si mesmo que, uma vez na política, jamais daria chicletes para o povo. Dito e feito, só dá banana.