27 de jan de 2011

O Fornecedor de Perfume

Sempre fiel a seus amigos, o Garanhão de Pelotas  toda vez que podia, dava uma mãozinha  e empurrava a caixa pro porão quando eles mais precisavam.

Tinha o Alemão, um antigo colega de classes colegiais que, por não ter continuado os estudos, acabou fornecedor de uísques legítimos do Paraguai e perfumarias de sotaque francês e de desembarques clandestinos no cais do porto da Raínha do Mar.

O Garanhão  sabia muito bem que o ambulante não era trigo limpo. Mas era velho parceiro, daqueles dos tempos de matar passarinho - não, a soco não! - com bodoque e de soltar pandorga nas cercanias da praça municipal. Então, merecia todo respeito e toda força.

Era do Alemão que o Garanhão  comprava, sistematicamente - quando pela terra natal aparecia - sempre o mesmo perfume de fragrância densa que lhe dava a sensação de estar pronto para um clima de competitividade sem limites.

 Garanhão  comprava o produto por duas razões: um empurrãozinho nos negócios do velho amigo e como uma espécie de homenagem ao criador daquele olor provocativo, o histrionico Jean Paul Gaultier, que estava na platéia do show "Brasiliah!" realizado pelo Garanhão  em Monastiraki, ao sopé da Acrópole, em Atenas. Foi num bom período do Garanhão  à Grega.

Jean Paul quase foi às lágrimas diante da performance do nosso herói pampesino cantando Garota de Ipanema em ingles, com sotaque de Santa Vitória do Palmar. De lá para cá, o Garanhão de Pelotas  só usa o perfume de Gaultier.

Pois, o Alemão sempre tinha a mercadoria. E, naquele entardecer, na esquina do Aquário - o café onde passa a vida da cidade, ele chegou com a muamba acondicionada em um pacote parecido com uma caixa de Sedex. Com ares furtivos e precavidos contra olhares estranhos, foi passando aquilo como se fosse por encomenda:

- Garanha, tá aqui a mercadoria.
- Boa, Alemão, passa um frasco desses pra cá.
- São cinco, Garanha - o diminuitivo era para dar mais intimidade à transação.
- Alemão, eu tenho uns dez ainda lá em casa...
- Quié isso, Garanha, encomendei esse lote só pra você. De barbadinha, ó: 115 dólares cada um.
- Ei, eu compro nas perfumarias por 85 a unidade...
- Não chora as pitangas, Garanha. Vou fazer a 100 dólares pra você.

Sabendo que o amigo estava com a corda no pescoço o requintado apreciador de perfumes mostrou que aceitava a oferta como precinho de ocasião.

- Tá legal... Quanto vai me sair isso?
- Barbadinha... Cinco frascos a 100 cada um, dá um total de... 850 dólares.
- Tá bom, tá bom... Tome aí 900 dólares.
- Tá certinho... Valeu, Garanhão.

E sem dar tempo para o freguês de caderno lhe pedir pelo menos os cinquentinha de diferença para tomar um cafezinho, ou coisa que o valha, o Alemão saiu separando um bolo de notas que enfiou no bolso direito, justo aquele que usava para guardar os lucros.

No lado esquerdo, embolsou 200 dólares para pagar ao fornecedor do cais, em Rio Grande - um explorador ganancioso que ousava lhe cobrar 40 dólares por um vidrinho de nada daquele perfume abichalhado.

MORAL DA HISTÓRIA - O que encontra um amigo, encontra um tesouro. (Sagrada Bíblia - Eclesiastes)