20 de jan. de 2011

Mais fel, por compaixão!...

O Garanhão de Pelotas, nesta passagem, é ainda estudante do Ginásio Gonzaga - colégio da elite citadina, como fazia bem ao seu sangue azul. Já era taludinho. Cursava o terceiro e último ano do Científico. Estava pronto para os vestibulares de Direito, Jornalismo, Filosofia, Psicologia e Sociologia que - mais tarde você verá - realizaria com enorme sucesso no final do próximo ano que já se aproximava.

Por enquanto, era apenas Sexta-feira da Paixão. O Gonzaga costumava celebrar a data com pompa e circunstância. Missas, rezas, teatralizações faziam parte da cartilha de devoção gonzagueana. Naquele ano o grupo de teatro do colégio não encontrou na série ginasial um intérprete para o personagem "Cristo Crucificado".

Por arte de escolha decidiu-se por um aluno do Curso Científico. Não deu outra, o Garanhão foi o ungido. Houve controvérsias: a turma sabia que o cara não tinha, digamos, o perfil mais apropriado para protagonizar um Cristo. Cultivava alguns alguns hábitos conhecidos que o catecismo não recomendava: namoriscos com as mulheres dos vizinhos, happy hours sistemáticos, jogador de futebol, bom de sinuca e de carteio... Mas, só tinha ele; foi ele mesmo.

Dia de teatro. Casa cheia. A encenação já ia lá pela metade. Até ali, tudo bem. A interpretação do Garanhão era perfeita. Platéia atenta, o parceiro de gandaia daquele Jesus de araque, fazia o papel do centurião que deveria mitigar a secura dos lábios do crucificado.

Safardana como ele só, o centurião resolveu aprontar. Ao invés de trocar vinagre por fel - como está na Bíblia - ele empapou a esponja afixada na ponta da lança com uma dose tripla de cachaça. Pinga pura.

Encarnando Cristo, como manda o figurino, mas ostentando num dos braços um inadequado relógio de pulso - mancada da produção - o Garanhão saboreou com surpresa e incontido prazer o inesperado nectar dos deuses daquela bendita bucha.

Atilado e expedito, o Garanhão remexeu-se na cruz e, com notável desempenho, simulou desatinada sede. Com voz embargada e dolorida, como só os grandes intérpretes sabem emitir, ele fez soar pela acústica do teatro uma dolorosa ladaínha de apelos desesperados:

- Mais fel... por compaixão, fel... Ó centurião, meu bom homem, me dê mais fel!

E assim o pinguço Garanhão morreu de mentirinha, pregado na cruz, gritando por fel o tempo todo, até que a peça chegasse ao ato final. Nunca antes nesse país o pano foi tão rápido num teatro, nem tão grande o porre de um sacrossanto ator.

MORAL DA HISTÓRIA - Bolas, tanto o Garanhão quanto o centurião, eram de fazer frege; faziam um verdadeiro charque em aula. Passavam coxando os outros e cristiando os trouxas. Tinham bicho carpinteiro no corpo. Não seria uma reles peça de teatro que iria modificá-los.