5 de set de 2010

Terra de Anões

Esse Brasil de lullaputianos que Lula - o nosso Gulliver descobriu nessa viagem de oito anos é um elefante que incomoda muita gente. O que vem por aí são dois elefantes que incomodarão muito mais.

O Brasil de Lullaputi não usa o Estado de Direito; o Estado usa o Direito. Todos os grampos dos autos servem apenas para colocar a roupa suja dos aliados no varal do quintal da impunidade que cada vez aumenta mais.

O Brasil de hoje é um latifúndio de mensaleiros, aloprados, Vavás e Lulinhas de todas as camadas e um cabo eleitoral de luxo. Nem precisa de reforma agrária. O país já foi loteado.

A mentira, o engodo, a dissimulação, a hipocrisia, a esperteza são atributos que servem como currículo para dispensar a apresentação de diplomas para alcançar cargos públicos - de motoristas a ministros; são virtudes que substituem a mínima qualificação para conquistar votos em qualquer tipo de eleição.

É uma era tão mentirosa que até o crescimento do "emprego de carteira assinada" é uma espécie de passaporte falso para a classe trabalhadora. Não há registro, na estagnação que caracterizou esses oito anos de gabolice, de qualquer sinal significativo do uso de mão-de-obra especializada - engenheiros, cientistas, médicos, matemáticos, agrônomos...

O êxito cantado e decantado dos dentes pra fora é pelo ingresso de pedreiros e auxiliares de construção, em obras inacabadas do PAC que, quanto mais tempo levam para ser entregues, mais deixam a falsa impressão de que o governo gera emprego. O pobre trabalhador, desdentado, sem saúde, sem previdência, descamisado e pés descalços que mete a mão na massa, é usado e abusado como massa de manobra.

É esse naco enorme de Brasil que, alijado das salas de aula, não aprende o que deve nas escolas propositadamente despreparadas e desqualificadas, assimila com facilidade a cultura da desfaçatez, da semvergonhice. O exemplo que vem de cima é contagiante.

No Brasil de Lullaputi, nem mesmo uma das mais cínicas verdades antigas - "vergonha é roubar e não poder carregar" - tem qualquer importância. Isso não vale nada nesses tempos luláticos. Todo mundo sabe que pode roubar e ser flagrado que tudo fica pra depois, que tudo dá em nada. E que, assim, tudo pode ser carregado.

Este é um governo em que o governo tudo pode. Inclusive desmoralizar ditos de efeito popular como aquele pomposo "este governo não rouba, nem deixa roubar". Deixa, sim. Ou o próprio autor da frase quase slogan, o correntista majoritário Zé Dirceu e os seus 40 mensaleiros não estariam por aí, livres, leves, soltos e palpitando pelos subterrâneos políticos, com pinta de grandes formadores de opinião.

Este governo, é mais do que sabido, não inventou a corrupção, nem a mentira; apenas organizou-as e sistematizou-as. Não inventou sequer o sigilo de Estado dos cartões corporativos - isso foi coisa de FHC; esse governo apenas aprimorou o golpe.

Esse Brasil de Lullaputi é o país em que o nanico ministro da Fazenda vem a público banalizar a violação do sigilo fiscal, não apenas da filha de um candidato - a quê mesmo? - a presidente da República, mas de qualquer um que tenha a ousadia de ser um cidadão maior que comete a aventura de declarar suas perdas e ganhos ao Leão da Receita Federal.

Guido Mantega - com ares de pastor fiel, melhor amigo de Gulliver - querendo dar cobertura aos malfeitos dos aloprados que coordenam a campanha da postulante preferida do Palácio, disse que "a quebra de sigilo já foi até maior"... E, como se não bastasse, ainda emendou: "não há sistema perfeito; nenhum sistema é inviolável".

Na primeira alegação, Mantega caiu emborcado com a fatia de pão para cima. Falou como se estivesse comentando um campeonato tipo Brasileirão que no final vai apontar quem fica com o título de violador mais safado.

Na segunda alegação, nos deixou a todos com um pé atrás. Se "nenhum sistema é inviolável", o sistema das pesquisas pode ser manipulado; o sistema eleitoral também; o sistema de informação do governo, muito mais ainda. O que é intocável, inimaginável, inviolável - isso, sim - é o fantástico, incrível, extraordinário sistema de cartão corporativo do gigantesco presideus e seus apóstolos menores.

Se há nisso tudo, uma grande verdade é quando o grande mestre Lula ensina que "a mentira tem pernas curtas". Tem mesmo. E nesse governo - do Palácio aos 40 Ministérios e seus anexos - o que não falta é baixinho. Tá assim ó, de lullaputianos; botando anões do Orçamento pelo ladrão.

Mas, se por um lado o Estado está cheio de tudo que é tipo do já falecido João Alves, por outro, o notável Roberto Jefferson não chegou aos pés do pra lá de esquecido Zé Carlos Alves dos Santos, aquele chefe-de-assessoria do Orçamento do Senado que acabou preso por ter mandado matar e emparedar a própria mulher, Ana Elizabeth Lofrano que ameaçava dedurar a máfia que mandava no Brasil pré-Lullaputi.

Qualquer semelhança do Brasil dos Anões com o Brasil de Gulliver, é mera coincidência. De parecido, só a queda de Ibsen Pinheiro naquele Pré-Brasil e a cassação de Zé Dirceu, no Brasil Pós-Lula. A diferença é que, naquele tempo, uns lá que outros eram presos.

RODAPÉ - O que mete medo é que o povo nem se dá conta de que já se acostumou a adorar a baixeza desse, digamos, "sistema inviolável". E mais uma coisinha só: os grandes nos parecem grandes por que, se não estamos ajoelhados, também somos anões.