Eu hoje enfiei o pé no urinol e, antes que o dia começasse, já fiz do amanhecer uma grande meleca, bem ao gosto do país que vou enfrentar até que seja meia-noite outra vez.
Sou desastrado assim quando não ouço o galo cantar e, ao invés de ser um metalúrgico a caminho do metrô, me espreguiço bem mais tarde, como faz bem a um cientista político com modos e costumes de sociólogo. Hoje, pois, sou doutor em sociologia. Uma espécie de Honóris Causa Própria da política.
E cá estou eu, diante do desjejum, lendo os jornalões sem qualquer azia e pensando com meus botões de madrepérola. Se você quer saber, não tô nem aí pra você. Se quiser, acompanhe o meu raciocínio. Seja um pouco assim como eu: pense...
De todas as heranças malditas que os dois governos Lula deixaram para Dilma, o pior legado foi ter estabelecido a cultura imoral da "estratégia da coalizão pela governabilidade". Isso quer dizer apenas que basta saber o preço para se ganhar um aliado. Um governo que tem amigos assim, custa caro. Pode-se pagá-lo com moeda sonante, ou cargos retumbantes.
Imagine, no tempo de colégio, você ter que dar caderno, lápis, borracha para o colega da carteira ao lado, para que ele em troca ficasse seu amigo. Se você fez isso, decerto, ele comeu você primeiro e depois não lhe deu. É que no dele, arde. Pois Lula se fortaleceu assim, sondando o valor de cada um e prometendo dar o que eles quisessem. Nada foi por amor e graça, nem de graça. Foi tudo só uma questão de preço.
Esse costume implantado na in/consciência coletiva pela era lulática desmantelou a estrutura do Estado. O conceito de nação hoje no Brasil é que o Estado é uma grande ação entre "amigos". A população foi rifada e não teve sorte. Caiu no conto de um pacote que embrulha falta de pudor e nenhum respeito à ética. As leis são apenas instrumentos para mostrar quem é que manda; quem é que pode e quem é que se sacode.
Mais que governo isso é poder. Coisa antiga, do tempo de se escrever farmácia com PH. E quem phode mais chora menos. Mais que isso, quem phode mais dá risada, debocha, gargalha. A herança deixada para o governo da primeira-presidenta ensina que o phoder consiste em saber que o povo é mais covarde que os governantes.
Os que tocam esse sistema de governo que se estabeleceu há pouco mais de oito anos, ainda não entenderam que depois de estabelecido o poder, nada é mais grandioso do que saber usar com dignidade o poder. O que nos resta ainda de consolo é o que a história da humanidade comprova: todo poder excessivo tem vida curta.
O mal do brasileiro engambelado, embasbacado é a aceitação da opressão por parte do oprimido. Isso termina em cumplicidade. Você vai se acovardando, se acostumando e consentindo. Quando você menos espera vive uma espécie de solidariedade notável e uma sem-vergonhice compartilhada entre o governo que lhe faz mal e você, o povo que o aguenta.
Ainda há tempo, no entanto, para elevar o tom da voz rouca das ruas. Cuide-se, porém, já que não é apenas com a ira das desigualdades sociais que se processa a verdadeira mudança de uma nação. Sem um verdadeiro ideal de justiça, um povo é capaz de fazer um motim, uma passeata, jamais uma revolução.
Bem, até aqui você me acompanhou. O que você vai fazer com essas minhas elucubrações sociológicas, pouco se me dá. Tô me lixando. Sou um metalúrgico que virou cientista político, um sociólogo, uma "pessoa não-comum" você é um reles popular que nem sequer anda à cata de uma doutrina.
Faça o seguinte: esqueça o que eu pensei. Agora, dê licença, saia das minhas idéias que eu ainda nem botei o pé na cozinha e não quero entornar o urinol outra vez.
MORAL DA HISTÓRIA - Um urinol chutado pela manhã pode espelhar a face matinal de uma nação. Não é um aparelho fora de moda, posto que os ouvidos de qualquer brasileiro têm servido de penico para os discursos de seus amos e senhores - os governantes, políticos e seus coalizados dos três Poderes da República.
23 de set. de 2011
20 de set. de 2011
UM OLHAR NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA
Eis que este seu Garanhão de Pelotas tinha mandado o mundo parar pra dar uma decidinha, cofiar os pelos de um cavanhaque mal aparado - eis que andava meio troncho de saudade, meio macambúzio, de bofes virados, de saco cheio de, uma vez mais na vida, ter bolado as trocas e me aperreado por coisa pouca, bobagem.
Causo é que nem me dei conta de que, mais do que primavera, o dia bonito que nem gaúcha faceira era 20 de Setembro. Porra! Uma data, galo véio! Dia 20 de Setembro, um naco da história bem contada; talvez um pouco aumentada... Mas um bocado, um fatiaço de um baita bolo, uma tremenda guerra intestina que botou muito cabreiro a correr.
Dia 20 de Setembro, tchê! Revolução Farroupilha! Sabe lá o quiéisso, guampudo? Dia da Revolução e eu aqui, com saudade da chinoca, com ciúme dos que foram seus maridos. Sabe lá do que foi que me esqueci? Botei as minhas dores na frente dos ais e dos requebros de bota e espora dos colorados e dos maragatos!
Pois me separei dos separatistas e nem dei pelas quebradas que há coisas na vida, sob o céu dos Pampas e o zunir do Minuano que são maiores que as tristezas de um caboclo que, desde mandinho, se vestiu de rendas e calças justas, que nunca matou passarinho - a não ser bentevi a soco - que trocou as pradarias pelos pátios de colégio...
Tinha minhas razões para fugir da raia, afinal eram 40 mil separatistas republicanos contra 60 mil soldados imperiais. E eu queria ser separatista. Achei que era mais que tempo, guerra perdida. Não fui. Mas o que passou, passou. Voltemos, pois, ao dia de ontem.
Pombas! Era Dia 20 de Setembro. Revolução Farroupilha. Guerra dos Farrapos. Revolta para instalação da República Rio-Grandense! Mas tem uma coisa: isso tudo já faz tempo. Minha memória não é mais lá essas coisas. Só sei que tudo começou no 20 de setembro de 1835 e se foi até março de 1845.
Não é nada, não é nada, lá se foram 10 anos de baionetas muito mais berrantes do que caladas. E eu não estava lá. E se estivesse daria no pé. E a pé, pois jamais caí de égua porque nunca montei um cavalo. Como um nobre e requintado Garanhão de Pelotas eu tinha mais o que fazer.
Era só o que me faltava tomar chimarrão com o tal de Bento Gonçalves, eu queria mais era saber de Anita. Imagine-me num churrasco de chão com Giuseppe, tão Garibaldi quanto Anitinha - aquilo sim é que era guerrilheira, não essas que andam por aí de bolsa família à tiracolo.
Pense um pouco, tenha juízo: eu seria macho bastante para trocar idéias com Antônio Souza Neto, Davi Canabarro, Manuel Marques de Souza, Lima e Silva, Bento Manuel Ribeiro, Pedro II e outros nomes de rua?!? Macho eu sei que sou, sempre fui. Pero no mucho; nem tanto assim.
Aqueles guascas eram bons de briga, tchê. Toscos, rudes, chucros e valentes, eles gostavam dum entrevero. Disso eu também gosto. Mas tem que ter no meio, lençol e uma prenda bonita, de boca pintada e olhar guarani.
Pois então, como eu ia dizendo lá no princípio de tudo: eu me esqueci do 20 de Setembro. Me esqueci, da Revolução Farroupilha. Estava - disse e me garanto - macambúzio, cabisbaixo, de maus bofes, meio desesperado, depauperado, depau... Deixa pra lá.
Me esqueci, chinoca. E foi por causa tua! Estavas por perto. Mas eu tava longe. Me afastei até de mim mesmo, só pra ver se sozinho eu ficava bem acompanhado. Aí, me veio um lembrete. E eu, macanudo véio, me lembrei de tudo. Acho que ainda dá tempo de chegar pra algum desfile.
Vou pegar meu pingo, minha cúia, minha bomba, meus pedaços de carne e me aprochegar do meu rincão. Lá sou amigo do rei... Epa, não é lá que o rei é meu compadre, é em Pasárgada. Mas, vou agora mesmo botar sebo nas canelas e me mandar pra lá, acho que ainda vejo alguma parada de gaúchos e prendas, vestidos a caráter - que caráter é o que não lhes falta. Dá licença, que tô indo.
Ala putcha, tchê! Cai do cavalo. Esqueci que nunca montei na vida. Nem um alazão, um baio sequer. Sou Garanhão de Pelotas, porque nasci assim, o Patrão Velho lá de cima, me inventou desse jeito... Tô bem de Inventor, hein tchê?!?
Tô bem de Inventor, mas muito mal de montaria... E de memória. Ontem era Dia 20 de Setembro. E hoje, esse animalão aqui me olhando como se eu fosse um gaúcho bunda-mole... Bunda mole, doída e estatelada no chão da pátria neste instante. Sabe dum causo triste? Se há coisa que não agüento na vida é o olhar emburrecido de um cavalo!
Ei, táxi! Táxi!
MORAL DA HISTÓRIA - Se não é a alma de uma chinoca aconchegante, uma nação não vale uma guerra. Inda mais quando a prenda nos deixa em farrapos.
Causo é que nem me dei conta de que, mais do que primavera, o dia bonito que nem gaúcha faceira era 20 de Setembro. Porra! Uma data, galo véio! Dia 20 de Setembro, um naco da história bem contada; talvez um pouco aumentada... Mas um bocado, um fatiaço de um baita bolo, uma tremenda guerra intestina que botou muito cabreiro a correr.
Dia 20 de Setembro, tchê! Revolução Farroupilha! Sabe lá o quiéisso, guampudo? Dia da Revolução e eu aqui, com saudade da chinoca, com ciúme dos que foram seus maridos. Sabe lá do que foi que me esqueci? Botei as minhas dores na frente dos ais e dos requebros de bota e espora dos colorados e dos maragatos!
Pois me separei dos separatistas e nem dei pelas quebradas que há coisas na vida, sob o céu dos Pampas e o zunir do Minuano que são maiores que as tristezas de um caboclo que, desde mandinho, se vestiu de rendas e calças justas, que nunca matou passarinho - a não ser bentevi a soco - que trocou as pradarias pelos pátios de colégio...
Tinha minhas razões para fugir da raia, afinal eram 40 mil separatistas republicanos contra 60 mil soldados imperiais. E eu queria ser separatista. Achei que era mais que tempo, guerra perdida. Não fui. Mas o que passou, passou. Voltemos, pois, ao dia de ontem.
Pombas! Era Dia 20 de Setembro. Revolução Farroupilha. Guerra dos Farrapos. Revolta para instalação da República Rio-Grandense! Mas tem uma coisa: isso tudo já faz tempo. Minha memória não é mais lá essas coisas. Só sei que tudo começou no 20 de setembro de 1835 e se foi até março de 1845.
Não é nada, não é nada, lá se foram 10 anos de baionetas muito mais berrantes do que caladas. E eu não estava lá. E se estivesse daria no pé. E a pé, pois jamais caí de égua porque nunca montei um cavalo. Como um nobre e requintado Garanhão de Pelotas eu tinha mais o que fazer.
Era só o que me faltava tomar chimarrão com o tal de Bento Gonçalves, eu queria mais era saber de Anita. Imagine-me num churrasco de chão com Giuseppe, tão Garibaldi quanto Anitinha - aquilo sim é que era guerrilheira, não essas que andam por aí de bolsa família à tiracolo.
Pense um pouco, tenha juízo: eu seria macho bastante para trocar idéias com Antônio Souza Neto, Davi Canabarro, Manuel Marques de Souza, Lima e Silva, Bento Manuel Ribeiro, Pedro II e outros nomes de rua?!? Macho eu sei que sou, sempre fui. Pero no mucho; nem tanto assim.
Aqueles guascas eram bons de briga, tchê. Toscos, rudes, chucros e valentes, eles gostavam dum entrevero. Disso eu também gosto. Mas tem que ter no meio, lençol e uma prenda bonita, de boca pintada e olhar guarani.
Pois então, como eu ia dizendo lá no princípio de tudo: eu me esqueci do 20 de Setembro. Me esqueci, da Revolução Farroupilha. Estava - disse e me garanto - macambúzio, cabisbaixo, de maus bofes, meio desesperado, depauperado, depau... Deixa pra lá.
Me esqueci, chinoca. E foi por causa tua! Estavas por perto. Mas eu tava longe. Me afastei até de mim mesmo, só pra ver se sozinho eu ficava bem acompanhado. Aí, me veio um lembrete. E eu, macanudo véio, me lembrei de tudo. Acho que ainda dá tempo de chegar pra algum desfile.
Vou pegar meu pingo, minha cúia, minha bomba, meus pedaços de carne e me aprochegar do meu rincão. Lá sou amigo do rei... Epa, não é lá que o rei é meu compadre, é em Pasárgada. Mas, vou agora mesmo botar sebo nas canelas e me mandar pra lá, acho que ainda vejo alguma parada de gaúchos e prendas, vestidos a caráter - que caráter é o que não lhes falta. Dá licença, que tô indo.
Ala putcha, tchê! Cai do cavalo. Esqueci que nunca montei na vida. Nem um alazão, um baio sequer. Sou Garanhão de Pelotas, porque nasci assim, o Patrão Velho lá de cima, me inventou desse jeito... Tô bem de Inventor, hein tchê?!?
Tô bem de Inventor, mas muito mal de montaria... E de memória. Ontem era Dia 20 de Setembro. E hoje, esse animalão aqui me olhando como se eu fosse um gaúcho bunda-mole... Bunda mole, doída e estatelada no chão da pátria neste instante. Sabe dum causo triste? Se há coisa que não agüento na vida é o olhar emburrecido de um cavalo!
Ei, táxi! Táxi!
MORAL DA HISTÓRIA - Se não é a alma de uma chinoca aconchegante, uma nação não vale uma guerra. Inda mais quando a prenda nos deixa em farrapos.
3 de set. de 2011
ÀS MARGENS DO BAILE
Era um daqueles bailes bissextos do Clube Náutico Gaúcho, ou do Regatas Pelotense, não me lembro bem, afinal estávamos ainda no limiar da era da juventude transviada. Só sei que estávamos todos lá. E como sempre, no meio do baile, armamos uma tremenda confusão.
Sei mais um pouquinho. Lembro-me bem de cada um da nossa turma: eu, Bandeira, Pé de Anjo, Sérgio Siqueira – o que estas mal traçadas linhas subscreve – Petiz, Careca, Fervido, Fernandinho Leal e Patê. Tudo boa gente.
Sem dinheiro para pagar as despesas, armamos uma brigalhada de mentira entre nós mesmos. Os sopapos eram todos nossos velhos conhecidos. Até que, de repente, quem não era do bando já estava também batendo e levando. Uma zorra. Soco daqui, cadeira dali, tabefe pra lá, bofetão pra cá, acabamos encurralados pelos sócios de verdade e pela diretoria em peso.
Fomos levados aos tropeções e empurrões – uns bicos na bunda também - para uma sala que tinha apenas uma porta para o salão de festas e dois janelões que davam para dentro d’água. Os dirigentes além de nos proteger, nos davam também um corretivo: avisaram que já tinham chamado a polícia.
Estávamos todos enfurnados lá naquele galpão, quando resolvemos dar no pé. Escaparíamos pelas janelas. Diz então o Pé de Anjo:
- Vamos fugir logo.
- É pra já – disse Bandeira já enrolando os sapatos na camisa.
- Vou nessa – gritou Petiz.
- Tô me mandando – falou o veloz Fernandinho.
Aí, o Patê deu uma de bom:
- Eu fico. Vou encarar! Se vocês quiserem podem ir. Eu fico!
- Quié isso – reclamou Fervido – vamos fugir duma vez.
- Não, eu fico e vou bater de frente com esses bolhas – teimou Patê.
- Ei Garanhão, diz pro Patê que ele não é o John Wayne – ponderou Careca.
Quando eu ia argumentar com o irredutível audaz, Patê abriu o jogo:
- Eu fico! – gritou – Eu fico... Porque não sei nadar! – sussurrou.
Aí, pronto! Dramatizamos: se fosse para o Patê morrer afogado, então morreríamos todos lutando. Ficamos todos. Confinados ali mesmo. Até o fim do baile que foi até o sol raiar. Lá pelas seis e meia da matina levamos um sermão dos diretores e, depois de darmos nossos endereços, saímos com o rabo entre as pernas. A polícia não tinha sido chamada.
RODAPÉ – Os abusados são todos compadres uns dos outros e vivem da proteção que mutuamente se proporcionam.
UMA QUESTÃO DE ÓTICA
Por um bom tempo fui assessor de imprensa do deputado Pedrinho Germano que, além de político astuto era um bom parceiro das rodas de beliscatessens. Tinha grandes tiradas. Enorme presença de espírito. E estava sempre querendo fazer o melhor pra todo mundo.
Um dia, numa visita a um bairro de Cachoeira do Sul, sua terra e reduto eleitoral, Pedrinho aceitou da dona da casa o que tinha pra comer: uma tripinha de patê, um caqui e um refresco de limão ao natural. O limão e a temperatura.
Bebeu e comeu se aquela mistura estapafúrdia fosse uma lauta ceia, devolveu o copo design requeijão e agradeceu a preferência.
Durante a mesma campanha para reeleição, Pedrinho atacava - num salão paroquial da periferia – a inércia do prefeito da cidade:
- Na minha ótica – disse olhando para a platéia – é possível combinar o corte das despesas com o crescimento da cidade!
Mal disse aquilo e foi interrompido por um dos votantes que tinha cara e jeito de ser partidário do intendente municipal:
- O senhor poderia me conseguir um par de óculos?
- Como assim? Não, meu caro, não posso.
- Mas o senhor não acabou de dizer que tem uma ótica?!?
Pegou mal. Pedrinho ficou no contrapé. Sentiu que perdeu aquele voto. O mini comício durou pouco por ali. Mais tarde, conferindo o mapa das votações, Pedrinho Germano ficou sabendo que não tinha ido muito bem naquela urna. De qualquer maneira, foi reeleito. Com folga.
RODAPÉ – Nem sempre o eleitor vê o candidato com bons olhos.
Era um daqueles bailes bissextos do Clube Náutico Gaúcho, ou do Regatas Pelotense, não me lembro bem, afinal estávamos ainda no limiar da era da juventude transviada. Só sei que estávamos todos lá. E como sempre, no meio do baile, armamos uma tremenda confusão.
Sei mais um pouquinho. Lembro-me bem de cada um da nossa turma: eu, Bandeira, Pé de Anjo, Sérgio Siqueira – o que estas mal traçadas linhas subscreve – Petiz, Careca, Fervido, Fernandinho Leal e Patê. Tudo boa gente.
Sem dinheiro para pagar as despesas, armamos uma brigalhada de mentira entre nós mesmos. Os sopapos eram todos nossos velhos conhecidos. Até que, de repente, quem não era do bando já estava também batendo e levando. Uma zorra. Soco daqui, cadeira dali, tabefe pra lá, bofetão pra cá, acabamos encurralados pelos sócios de verdade e pela diretoria em peso.
Fomos levados aos tropeções e empurrões – uns bicos na bunda também - para uma sala que tinha apenas uma porta para o salão de festas e dois janelões que davam para dentro d’água. Os dirigentes além de nos proteger, nos davam também um corretivo: avisaram que já tinham chamado a polícia.
Estávamos todos enfurnados lá naquele galpão, quando resolvemos dar no pé. Escaparíamos pelas janelas. Diz então o Pé de Anjo:
- Vamos fugir logo.
- É pra já – disse Bandeira já enrolando os sapatos na camisa.
- Vou nessa – gritou Petiz.
- Tô me mandando – falou o veloz Fernandinho.
Aí, o Patê deu uma de bom:
- Eu fico. Vou encarar! Se vocês quiserem podem ir. Eu fico!
- Quié isso – reclamou Fervido – vamos fugir duma vez.
- Não, eu fico e vou bater de frente com esses bolhas – teimou Patê.
- Ei Garanhão, diz pro Patê que ele não é o John Wayne – ponderou Careca.
Quando eu ia argumentar com o irredutível audaz, Patê abriu o jogo:
- Eu fico! – gritou – Eu fico... Porque não sei nadar! – sussurrou.
Aí, pronto! Dramatizamos: se fosse para o Patê morrer afogado, então morreríamos todos lutando. Ficamos todos. Confinados ali mesmo. Até o fim do baile que foi até o sol raiar. Lá pelas seis e meia da matina levamos um sermão dos diretores e, depois de darmos nossos endereços, saímos com o rabo entre as pernas. A polícia não tinha sido chamada.
RODAPÉ – Os abusados são todos compadres uns dos outros e vivem da proteção que mutuamente se proporcionam.
UMA QUESTÃO DE ÓTICA
Por um bom tempo fui assessor de imprensa do deputado Pedrinho Germano que, além de político astuto era um bom parceiro das rodas de beliscatessens. Tinha grandes tiradas. Enorme presença de espírito. E estava sempre querendo fazer o melhor pra todo mundo.
Um dia, numa visita a um bairro de Cachoeira do Sul, sua terra e reduto eleitoral, Pedrinho aceitou da dona da casa o que tinha pra comer: uma tripinha de patê, um caqui e um refresco de limão ao natural. O limão e a temperatura.
Bebeu e comeu se aquela mistura estapafúrdia fosse uma lauta ceia, devolveu o copo design requeijão e agradeceu a preferência.
Durante a mesma campanha para reeleição, Pedrinho atacava - num salão paroquial da periferia – a inércia do prefeito da cidade:
- Na minha ótica – disse olhando para a platéia – é possível combinar o corte das despesas com o crescimento da cidade!
Mal disse aquilo e foi interrompido por um dos votantes que tinha cara e jeito de ser partidário do intendente municipal:
- O senhor poderia me conseguir um par de óculos?
- Como assim? Não, meu caro, não posso.
- Mas o senhor não acabou de dizer que tem uma ótica?!?
Pegou mal. Pedrinho ficou no contrapé. Sentiu que perdeu aquele voto. O mini comício durou pouco por ali. Mais tarde, conferindo o mapa das votações, Pedrinho Germano ficou sabendo que não tinha ido muito bem naquela urna. De qualquer maneira, foi reeleito. Com folga.
RODAPÉ – Nem sempre o eleitor vê o candidato com bons olhos.
21 de ago. de 2011
RECORDISTA MUNDIAL
Usando um dos meus múltiplos e bem dotados personagens, fiz história no futebol como Aranha Negra, o melhor goleiro de todos os tempos nas tardes de sábado da Charqueada São João.
Como se não bastassem as inigualáveis temporadas invictas consecutivas, de 1990 a 1999, levei meu time à vitória no torneio início do glorioso ano 2000, conquistando nos pênaltis, o primeiro título do terceiro milênio da humanidade.
Um feito que só poderá ser superado depois de passados esses próximos mil anos e, assim mesmo, se alguém repetir a façanha de pegar, como eu peguei, os cinco pênaltis da primeira série e os outros dois que foram cobrados contra mim, até que eu mesmo, bancando o Rogério Ceni, fosse lá cobrar a penalidade que, já no papel de Garanhão de Pelotas converti no gol da vitória que os atacantes saladeiros até então não tinham conseguido marcar.
Pronto, eu acabara de me consagrar como Aranha Negra, o primeiro goleiro do mundo a segurar, uma atrás da outra sete penalidades máximas. Conta de mentiroso, mas um feito memorável, um recorde mundial insuperável.
Na semana seguinte, diante do tédio de carregar nas costas a proeza de ser o único guarda-valas a defender sete penalidades consecutivas na história do futebol, resolvi deixar o gol e o Aranha Negra para trás, para desempenhar a função de center forward já como Garanhão de Pelotas.
Era a primeira partida pra valer do terceiro milênio. A um minuto de jogo, meti um golaço de calcanhar. Nem o hoje combalido Sócrates faria igual. Pronto, outra façanha imbatível. Só daqui a mil anos, alguém terá chance de superar meu desempenho, e ainda assim terá que ser com um gol de letra marcado antes dos primeiros 60 segundos da competição.
Diante daquele empate em um gol e como estava em disputa o Troféu Carlinhos Mazza, eterno patrono da Charqueada São João, a posse da taça seria decidida em cobrança de pênaltis.
Tantas quantas fossem necessárias para apontar o vencedor. Como reconhecido atacante matador, eu fui escalado para ser o único e indivisível cobrador.
Naquele tempo, um só atleta - na verdade, o craque do time - cobrava as penalidades máximas. Mais que justo, posto que sempre e isso perdura até hoje, foi só um goleiro, nada mais que um único arqueiro, o encarregado de dar conta do recado.
Pelo sorteio, eu fui encarregado de bater primeiro as cinco penalidades. Fui lá e bati. Errei todas, uma atrás da outra.
Como o atrevido goleiro deles tinha agarrado os três primeiros pênaltis, eu bati os outros dois para fora, de propósito. Aqui ó, que ele iria igualar o recorde do Aranha Negra!
Até hoje eu não sei se o ponta-de-lança deles lá converteu algum dos pênaltis que bateu contra nós. Só sei que tão cedo não vai aparecer um craque com a devida estatura para quebrar o meu segundo recorde mundial no futebol de todos os tempos.
A não ser que algum Elano seja escalado por alguém parecido com um Mano Menezes para decidir alguma competição pela seleção brasileira.
MORAL DA HISTÓRIA – Triunfar é tirar partido das debilidades humanas e jamais compartilhá-las.
Como se não bastassem as inigualáveis temporadas invictas consecutivas, de 1990 a 1999, levei meu time à vitória no torneio início do glorioso ano 2000, conquistando nos pênaltis, o primeiro título do terceiro milênio da humanidade.
Um feito que só poderá ser superado depois de passados esses próximos mil anos e, assim mesmo, se alguém repetir a façanha de pegar, como eu peguei, os cinco pênaltis da primeira série e os outros dois que foram cobrados contra mim, até que eu mesmo, bancando o Rogério Ceni, fosse lá cobrar a penalidade que, já no papel de Garanhão de Pelotas converti no gol da vitória que os atacantes saladeiros até então não tinham conseguido marcar.
Pronto, eu acabara de me consagrar como Aranha Negra, o primeiro goleiro do mundo a segurar, uma atrás da outra sete penalidades máximas. Conta de mentiroso, mas um feito memorável, um recorde mundial insuperável.
Na semana seguinte, diante do tédio de carregar nas costas a proeza de ser o único guarda-valas a defender sete penalidades consecutivas na história do futebol, resolvi deixar o gol e o Aranha Negra para trás, para desempenhar a função de center forward já como Garanhão de Pelotas.
Era a primeira partida pra valer do terceiro milênio. A um minuto de jogo, meti um golaço de calcanhar. Nem o hoje combalido Sócrates faria igual. Pronto, outra façanha imbatível. Só daqui a mil anos, alguém terá chance de superar meu desempenho, e ainda assim terá que ser com um gol de letra marcado antes dos primeiros 60 segundos da competição.
Diante daquele empate em um gol e como estava em disputa o Troféu Carlinhos Mazza, eterno patrono da Charqueada São João, a posse da taça seria decidida em cobrança de pênaltis.
Tantas quantas fossem necessárias para apontar o vencedor. Como reconhecido atacante matador, eu fui escalado para ser o único e indivisível cobrador.
Naquele tempo, um só atleta - na verdade, o craque do time - cobrava as penalidades máximas. Mais que justo, posto que sempre e isso perdura até hoje, foi só um goleiro, nada mais que um único arqueiro, o encarregado de dar conta do recado.
Pelo sorteio, eu fui encarregado de bater primeiro as cinco penalidades. Fui lá e bati. Errei todas, uma atrás da outra.
Como o atrevido goleiro deles tinha agarrado os três primeiros pênaltis, eu bati os outros dois para fora, de propósito. Aqui ó, que ele iria igualar o recorde do Aranha Negra!
Até hoje eu não sei se o ponta-de-lança deles lá converteu algum dos pênaltis que bateu contra nós. Só sei que tão cedo não vai aparecer um craque com a devida estatura para quebrar o meu segundo recorde mundial no futebol de todos os tempos.
A não ser que algum Elano seja escalado por alguém parecido com um Mano Menezes para decidir alguma competição pela seleção brasileira.
MORAL DA HISTÓRIA – Triunfar é tirar partido das debilidades humanas e jamais compartilhá-las.
20 de ago. de 2011
5 de ago. de 2011
A SURDEZ DO RICAÇO ESPERTO
Te mete! Ninguém dava nada por ele, quando - com um diploma embaixo do braço - o Garanhão de Pelotas virou otorrinolaringologista. Virou otorrino mais por se deliciar ao ver seus pacientes não pronunciarem direito o nome completo de sua especilização do que por vocação e profissão.
Montou uma clínica no centro da metropole da Zona Sul - paraíso de compras e vendas dos moradores de pelo menos 20 cidades ali das redondezas. Só atendia gente rica. É que rico também tem dor de ouvido, de cabeça e gargantilha.
Naquele tarde, sua agenda de consultas reservava para a última hora do expediente - trinta minutos antes do happy hour - uma sessão de revisão geral nos ouvidos de Dom Pérrignon XVI, já com 72 anos de idade, vetusto descedente do monge aquele que "sorvia estrelas".
Era um produtor de vinho da colônia, concorrente direto do Emílio Ribas, senhor de um vinhedo que não dava bola, nem bolinha para Champagne - uma região francesa que emprestava o nome para uma bebida bem parecida com o vinho em garrafão colonial.
Pois, por pura sorte, Dom Pérrignon XVI ficou bilionário. mais até do que esses consultores republicanos que fazem negócios de botar dinheiro da vida pública na privada. Com seus 72 anos bem vividos, estava casado já há seis meses com uma jovem de 20 anos, perdidamente apaixonada por ele.
No horário marcado, em pontinho, o paciente chegou, para a revisão dos aparelhos auriculares que lhe enganavam a surdez. O galante otorrino, atendeu-o com a gentileza que sempre dispensava aos portadores de polpudos talões de cheque. Todo sorrisos e afabilidades. Assim que o ancião entrou, o médico foi puxando conversa:
- E aí Dom Pérrignon, o senhor vai bem? E sua jovem esposa, como vai?
- Tudo bem, tudo bem...
- E o aparelho auricular fez efeito?
- Fez. Uma beleza!
- E sua esposa já sabe disso?
- Quê nada...
- Você não disse nada, não fez nada?
- Fiz. Já mandei alterar o testamento.
O Garanhão fingiu-se surpreso. E logo aproximando-se do ouvido do velhote ricaço, disse-lhe em tom de confidência:
- Sabe, Dom Perrignon, eu nunca entendi como o senhor conquistou o coração daquela menina...
- Barbada, meu bom doutor, eu menti pra ela que tinha 87 anos.
Pronto. Desfeitos todos os mistérios. A revisão nos aparelhos foi minuciosa e Dom Pérrignon saiu dali escutando melhor do que nunca.
MORAL DA HISTÓRIA - Só cai no conto do vigário aquele que pretende passar o vigário para trás.
Montou uma clínica no centro da metropole da Zona Sul - paraíso de compras e vendas dos moradores de pelo menos 20 cidades ali das redondezas. Só atendia gente rica. É que rico também tem dor de ouvido, de cabeça e gargantilha.
Naquele tarde, sua agenda de consultas reservava para a última hora do expediente - trinta minutos antes do happy hour - uma sessão de revisão geral nos ouvidos de Dom Pérrignon XVI, já com 72 anos de idade, vetusto descedente do monge aquele que "sorvia estrelas".
Era um produtor de vinho da colônia, concorrente direto do Emílio Ribas, senhor de um vinhedo que não dava bola, nem bolinha para Champagne - uma região francesa que emprestava o nome para uma bebida bem parecida com o vinho em garrafão colonial.
Pois, por pura sorte, Dom Pérrignon XVI ficou bilionário. mais até do que esses consultores republicanos que fazem negócios de botar dinheiro da vida pública na privada. Com seus 72 anos bem vividos, estava casado já há seis meses com uma jovem de 20 anos, perdidamente apaixonada por ele.
No horário marcado, em pontinho, o paciente chegou, para a revisão dos aparelhos auriculares que lhe enganavam a surdez. O galante otorrino, atendeu-o com a gentileza que sempre dispensava aos portadores de polpudos talões de cheque. Todo sorrisos e afabilidades. Assim que o ancião entrou, o médico foi puxando conversa:
- E aí Dom Pérrignon, o senhor vai bem? E sua jovem esposa, como vai?
- Tudo bem, tudo bem...
- E o aparelho auricular fez efeito?
- Fez. Uma beleza!
- E sua esposa já sabe disso?
- Quê nada...
- Você não disse nada, não fez nada?
- Fiz. Já mandei alterar o testamento.
O Garanhão fingiu-se surpreso. E logo aproximando-se do ouvido do velhote ricaço, disse-lhe em tom de confidência:
- Sabe, Dom Perrignon, eu nunca entendi como o senhor conquistou o coração daquela menina...
- Barbada, meu bom doutor, eu menti pra ela que tinha 87 anos.
Pronto. Desfeitos todos os mistérios. A revisão nos aparelhos foi minuciosa e Dom Pérrignon saiu dali escutando melhor do que nunca.
MORAL DA HISTÓRIA - Só cai no conto do vigário aquele que pretende passar o vigário para trás.
O ASSALTO
Faz tempo isso, mas como sempre, o parque de estacionamento estava lotado. O Garanhão de Pelotas resolveu usar suas credenciais de lobista oficial de negócios relacionados com coalizão pela governabilidade e dirigiu-se ao estacionamento interno do ministério.
Não era mais do que três e meia da tarde. O nosso grande executivo, hábil piloto de um silencioso Honda Civic Hybrid mal encaixara a máquina vermelho-sanguessuga na vaga, quando viu que algo de estranho acontecia naquele lugar escuro e desértico do órgão público.
Estrategicamente, escondeu-se atrás da primeira coluna da garagem próxima ao veículo que lhe parecia familiar e, em silêncio, conseguiu observar o estranho acontecimento. Viu tudo. Era um assalto-relâmpago. Escutou direitinho:
- Mãos ao alto! Passe todo o seu dinheiro!
- Você sabe a quem está assaltando?
- Não.
- Eu sou o ministro dos Transportes.
- Então, passe todo o meu dinheiro!
O Garanhão, trancando o riso, deixou que aflorasse o ímpeto do grande herói que há dentro dele. Saltou de trás da coluna e gritou alguma coisa assim como "você está preso!". Foi o que bastou.
O bandido saiu em desabalada carreira deixando para trás a idéia do assalto. O ministro não sabia como agradecer ao seu providencial salvador. Isso, no entanto, não foi problema. Graças àquele ato de bravura, os tempos que se seguiram foram todos de vacas gordas. E muito bons e rentáveis, enquanto o ministro foi ministro.
Claro, o Garanhão religiosamente, pagava os tradicionais 10% do que recebia por seus prestimosos serviços como mais um dos grandes consultores da Esplanada dos Ministérios, para o assaltante frustrado que, ao primeiro grito de "teje preso!" fugira desabaladamente pela rampa do estacionamento oficial.
MORAL DA HISTÓRIA - Ambos estão perdoados por 100 anos.
Não era mais do que três e meia da tarde. O nosso grande executivo, hábil piloto de um silencioso Honda Civic Hybrid mal encaixara a máquina vermelho-sanguessuga na vaga, quando viu que algo de estranho acontecia naquele lugar escuro e desértico do órgão público.
Estrategicamente, escondeu-se atrás da primeira coluna da garagem próxima ao veículo que lhe parecia familiar e, em silêncio, conseguiu observar o estranho acontecimento. Viu tudo. Era um assalto-relâmpago. Escutou direitinho:
- Mãos ao alto! Passe todo o seu dinheiro!
- Você sabe a quem está assaltando?
- Não.
- Eu sou o ministro dos Transportes.
- Então, passe todo o meu dinheiro!
O Garanhão, trancando o riso, deixou que aflorasse o ímpeto do grande herói que há dentro dele. Saltou de trás da coluna e gritou alguma coisa assim como "você está preso!". Foi o que bastou.
O bandido saiu em desabalada carreira deixando para trás a idéia do assalto. O ministro não sabia como agradecer ao seu providencial salvador. Isso, no entanto, não foi problema. Graças àquele ato de bravura, os tempos que se seguiram foram todos de vacas gordas. E muito bons e rentáveis, enquanto o ministro foi ministro.
Claro, o Garanhão religiosamente, pagava os tradicionais 10% do que recebia por seus prestimosos serviços como mais um dos grandes consultores da Esplanada dos Ministérios, para o assaltante frustrado que, ao primeiro grito de "teje preso!" fugira desabaladamente pela rampa do estacionamento oficial.
MORAL DA HISTÓRIA - Ambos estão perdoados por 100 anos.
4 de ago. de 2011
GORDO - O CONSELHEIRO
Em matéria de política, o Garanhão de Pelotas sempre contou com um grande consultor para assuntos de qualquer natureza - de rombo a roubo; de atalhos a desvios; de malversação a boa conversação: O Gordo - seu irmão de fé, amigo e camarada para todas as jornadas.
Quando abriu sua empresa de Consultoria "Programa de Aceleração e Crescimento", seu patrimônio só aumentou graças aos conselhos e ao jogo de cintura que o Gordo lhe repassava.
Certa feita, desencantado da vida e desiludidio com algumas atitudes do Pai dos Pobres como proprietário intocável e mandachuva absoluto do governo da sua pátria amada, o Garanhão estava decidido a largar tudo e voltar a ser um outro personagem qualquer desse enorme sítio de pica-paus, tucanos, picaretas e outras aves raras.
Andava chateado, com as frequentes explosões de mau humor e grossura que o Cara distribuía a torto e direito pra cima de todo mundo. Foi quando ouviu os conselhos do notável, mas não imortal, conselheiro Gordo:
- Garanhão, mermão... Tenha calma. O homem é bom.
- Como assim?!?
- Ele é que nem o Hitler, pô.
- Não tô entendendo.
- Seguinte: o Hitler era um cara bom...
- Bom?!?
- Era. O Hitler era um cara bom... Só não gostava de ser contrariado.
Dito isto, sorveu um bom gole da cervejinha de sempre e foi tratar da vida que a noite era sempre criança para ele. Ele adorava criança. Gostava de todo mundo. Do Hitler, do Cara... E do Garanhão que, por causa dele, ganhou muita grana como um dos grandes magos da consultoria republicana.
MORAL DA HISTÓRIA - Há alguns defeitos tão estreitamente relacionados com algumas virtudes que, às vezes, até podemos extirpar os vícios e as maldades, sem arrancar o que há de bom em uma lá que outra criatura "não comum".
Quando abriu sua empresa de Consultoria "Programa de Aceleração e Crescimento", seu patrimônio só aumentou graças aos conselhos e ao jogo de cintura que o Gordo lhe repassava.
Certa feita, desencantado da vida e desiludidio com algumas atitudes do Pai dos Pobres como proprietário intocável e mandachuva absoluto do governo da sua pátria amada, o Garanhão estava decidido a largar tudo e voltar a ser um outro personagem qualquer desse enorme sítio de pica-paus, tucanos, picaretas e outras aves raras.
Andava chateado, com as frequentes explosões de mau humor e grossura que o Cara distribuía a torto e direito pra cima de todo mundo. Foi quando ouviu os conselhos do notável, mas não imortal, conselheiro Gordo:
- Garanhão, mermão... Tenha calma. O homem é bom.
- Como assim?!?
- Ele é que nem o Hitler, pô.
- Não tô entendendo.
- Seguinte: o Hitler era um cara bom...
- Bom?!?
- Era. O Hitler era um cara bom... Só não gostava de ser contrariado.
Dito isto, sorveu um bom gole da cervejinha de sempre e foi tratar da vida que a noite era sempre criança para ele. Ele adorava criança. Gostava de todo mundo. Do Hitler, do Cara... E do Garanhão que, por causa dele, ganhou muita grana como um dos grandes magos da consultoria republicana.
MORAL DA HISTÓRIA - Há alguns defeitos tão estreitamente relacionados com algumas virtudes que, às vezes, até podemos extirpar os vícios e as maldades, sem arrancar o que há de bom em uma lá que outra criatura "não comum".
GARANHA'S SOUTH LAKE CLINIC
Logo que deixou a presidência da República, o Dr. Honório Card começou a sentir-se meio deprê, meio depauperado. Antes mesmo de começar a provar que o mensalão foi "uma farsa", ele resolveu procurar um psiquiatra. Algumas sessões não lhe fariam mal nenhum.
Mesmo sem desencarnar do governo, descartou logo os médicos do corpo oficial do Palácio do Planalto. Já bastava a azia que estava sentindo diante dos que os jornais escreviam a respeito dos quatro guarda-costas que os cofres públicos lhe garantem.
Correu o dedo na lista telefônica - ele ainda não descobriu o Google - e parou no Garanhão de Pelotas. Encantou-se.
- Taí ó, esse cara eu já ouvi falar dele. Eu mesmo, uma vez até falei pra um prefeito de lá que esse Garanhão fazia parte de uma fábrica de sapecas - falou Dr. Honório para si mesmo.
Acionou sua legião de assessores e porta-vozes e logo, logo a primeira sessão estava marcada. Deu-se numa sexta-feira, no complexo clínico "Garanha's South Lake Clinic". Sem espera alguma - que o Garanhão não dá bola para o SUS - foi atendido em seguidinha.
- Dr. Honório, pode começar pelo princípio.
- No princípio eu criei o céu e a terra...
Aquilo foi só o início. A clínica do Garanhão ganhou muito dinheiro; cresceu e multiplicou-se. O Garanhão é que, por muito tempo, precisou de um cuidadoso tratamento psiquiátrico
MORAL DA HISTÓRIA - Quando é assim, o melhor é contrariar!
Mesmo sem desencarnar do governo, descartou logo os médicos do corpo oficial do Palácio do Planalto. Já bastava a azia que estava sentindo diante dos que os jornais escreviam a respeito dos quatro guarda-costas que os cofres públicos lhe garantem.
Correu o dedo na lista telefônica - ele ainda não descobriu o Google - e parou no Garanhão de Pelotas. Encantou-se.
- Taí ó, esse cara eu já ouvi falar dele. Eu mesmo, uma vez até falei pra um prefeito de lá que esse Garanhão fazia parte de uma fábrica de sapecas - falou Dr. Honório para si mesmo.
Acionou sua legião de assessores e porta-vozes e logo, logo a primeira sessão estava marcada. Deu-se numa sexta-feira, no complexo clínico "Garanha's South Lake Clinic". Sem espera alguma - que o Garanhão não dá bola para o SUS - foi atendido em seguidinha.
- Dr. Honório, pode começar pelo princípio.
- No princípio eu criei o céu e a terra...
Aquilo foi só o início. A clínica do Garanhão ganhou muito dinheiro; cresceu e multiplicou-se. O Garanhão é que, por muito tempo, precisou de um cuidadoso tratamento psiquiátrico
MORAL DA HISTÓRIA - Quando é assim, o melhor é contrariar!
OPS! MUITO PRAZER.
Cena de balada. Clima de boate desse terceiro milênio, onde até os mais jovens são do século passado. Pois o Garanhão de Pelotas fez o seu primeiro xixi no mundo 21 anos antes que irrompesse a aurora do primeiro dia do ano 2000. Não é nada, não é nada, ele é de 1989 - quase uma lenda viva.
E lá estava ele com seu chopinho bem-tirado na mão, atravessando a pista congestionada por aves raras de todas as espécies - homens e mulheres de todos os sexos e aniversários - quando esbarrou inadivertidamente num baladeiro parrudão. Molhou a camisa do cara que, por sua vez, emborcou a própria tulipa de chope no chão...
- Ops, desculpe - disse amável o Garanhão.
A resposta foi um muchocho à beira de um rosnar e de um olhar fulminante em sua direção. O Garanhão não se abalou. Estava ali pra se divertir. Tentou mostrar que era de boa paz. Colocou amigavelmente a mão sobre o ombro do irrascível boêmio de arrabalde e convidou-o com um sorriso conciliador:
- Foi mal, cara. Venha comigo até o balcão, vou te pagar um chopinho novinho em folha...
- Sai de mim, cara... Eu queria tomar é aquele ali que você jogou fora...
- Quiéisso, parceiro... Faço questão, te pago um geladinho de colarinho maduro...
- Sai pra lá, eu quero é aquele ali no chão.
- Não faz assim, cara. Não procura encrenca, eu não sou de briga.
- Olhaqui, babaca! Você não é, mas eu sou. Tu sabe com quem cê tá falando?- indagou dizendo o truculento, já enrolando a língua e triturando o português.
- Sei não, amigo. Mas...
- Eu sou polícia. Polícia federal!
- Pô, parceirão, polícia federal? E além desse, quê outro defeito tu tem?! - debochou o Garanhão.
- Tu não entendeu, mané? Sou polía federal!
- Muito prazer, eu cheguei ontem do Japão...
- E eu com isso, por que ocê não ficou por lá?!? - continuou o implicante.
- Porque eu vim comemorar com a minha turma o título de campeão mundial de kickboxer que acabei de ganhar em Tokio!
Deliciou-se com a cara do provocador, deu meia volta, não pagou chope nenhum para o pitbundão e foi gozar as delícias de mais uma festa no Brasil, antes de voar na manhã seguinte para a Lituânia, onde tinha mais um torneio internacional pela frente. Um torneio de... Golfe.
MORAL DA HISTÓRIA - A cortesia é é um artifício das pessoas de boa paz para manter à devida distância os estúpidos e brutamontes.
E lá estava ele com seu chopinho bem-tirado na mão, atravessando a pista congestionada por aves raras de todas as espécies - homens e mulheres de todos os sexos e aniversários - quando esbarrou inadivertidamente num baladeiro parrudão. Molhou a camisa do cara que, por sua vez, emborcou a própria tulipa de chope no chão...
- Ops, desculpe - disse amável o Garanhão.
A resposta foi um muchocho à beira de um rosnar e de um olhar fulminante em sua direção. O Garanhão não se abalou. Estava ali pra se divertir. Tentou mostrar que era de boa paz. Colocou amigavelmente a mão sobre o ombro do irrascível boêmio de arrabalde e convidou-o com um sorriso conciliador:
- Foi mal, cara. Venha comigo até o balcão, vou te pagar um chopinho novinho em folha...
- Sai de mim, cara... Eu queria tomar é aquele ali que você jogou fora...
- Quiéisso, parceiro... Faço questão, te pago um geladinho de colarinho maduro...
- Sai pra lá, eu quero é aquele ali no chão.
- Não faz assim, cara. Não procura encrenca, eu não sou de briga.
- Olhaqui, babaca! Você não é, mas eu sou. Tu sabe com quem cê tá falando?- indagou dizendo o truculento, já enrolando a língua e triturando o português.
- Sei não, amigo. Mas...
- Eu sou polícia. Polícia federal!
- Pô, parceirão, polícia federal? E além desse, quê outro defeito tu tem?! - debochou o Garanhão.
- Tu não entendeu, mané? Sou polía federal!
- Muito prazer, eu cheguei ontem do Japão...
- E eu com isso, por que ocê não ficou por lá?!? - continuou o implicante.
- Porque eu vim comemorar com a minha turma o título de campeão mundial de kickboxer que acabei de ganhar em Tokio!
Deliciou-se com a cara do provocador, deu meia volta, não pagou chope nenhum para o pitbundão e foi gozar as delícias de mais uma festa no Brasil, antes de voar na manhã seguinte para a Lituânia, onde tinha mais um torneio internacional pela frente. Um torneio de... Golfe.
MORAL DA HISTÓRIA - A cortesia é é um artifício das pessoas de boa paz para manter à devida distância os estúpidos e brutamontes.
CORREDOR DE MINISTÉRIO
Já faz algum tem o Garanhão de Pelotas cumpria a sua rotina de lobista pelos corredores do Ministério dos Transportes de Valores do Brasil. Andava ali pelo terceiro andar quando, de repente, saíram de braço dado do gabinete o ministro e um deputado que mandava e desmandava na pasta.
Nem se deram ao desplante de reparar na presença do Garanhão. Seguiram batendo um papo descontraído na direção do elevador. Era mais de cinco da tarde e o happy hour não podia esperar. O nobre frequentador dos corredores ministeriais escutou a conversa que os dois ilustres senhores jogavam fora:
- Ministro, você viu o relógio que o Pagot estava usando?
- Não, não vi... Me mostra.
MORAL DA HISTÓRIA - Nos corredores dos ministérios os bastidores andam de braço dado. Mais do que ouvido é preciso ter olho vivo.
Nem se deram ao desplante de reparar na presença do Garanhão. Seguiram batendo um papo descontraído na direção do elevador. Era mais de cinco da tarde e o happy hour não podia esperar. O nobre frequentador dos corredores ministeriais escutou a conversa que os dois ilustres senhores jogavam fora:
- Ministro, você viu o relógio que o Pagot estava usando?
- Não, não vi... Me mostra.
MORAL DA HISTÓRIA - Nos corredores dos ministérios os bastidores andam de braço dado. Mais do que ouvido é preciso ter olho vivo.
3 de ago. de 2011
O FISCAL E O PESCADOR
O Garanhão de Pelotas cumpria mais uma missão ministerial, como fiscal federal do Departamento de Escoamento da Produção do Ministério da Agricultura. Andava pelas beiradas da ponte da Amizade que liga o Brasil ao fim da picada, logo ali depois da Foz do Iguaçu.
Foi pelas quebradas - que ele não é maluco nem nada para seguir aquele caminho natural da rota da produção. Pelas cercanias da ponte, ele deu de cara um muambeiro que, mesmo sem saber de quem se tratava aquela figura imponente que se aproximava com pés de algodão, fingiu que estava pescando.
O Garanhão aprochegou-se do pescador e puxou conversa mole:.
- Você está fazendo o quê aí, amigo?
- Pescando…
- Já pescou alguma coisa?
- Xiiii…Uma cacetada…Peguei peixe de tudo que é espécie, tamanho e feitio!
- Você sabe quem eu sou?
- Não…
- Sou fiscal do governo e aqui é proibido pescar!
- E você, sabe quem eu sou, senhor fiscal?
- Não faço a menor idéia…
- Sou o maior mentiroso do mundo!
O Garanhão sorriu e deixou tudo por isso mesmo, afinal, o próprio ministro da Agricultura vivia alertando que era a favor de uma viligância mais branda, por que "fiscalização é um negócio antidemocrático". Era bem como o próprio mandachuva vivia repetindo, "detesto toda e qualquer atitude que possa sequer lembrar que vivemos num regime policialesco".
A firme convicção do ministro deu ao Garanhão de Pelotas a certeza de que o melhor mesmo era deixar pra lá. O muambeiro tinha se saído bem. E, se há uma coisa que o Garanhão admire nas pessoas é a presença de espírito.
E, além do mais, aquilo ali não é nada, não é nada, não era nada mesmo. O que significava aquele contrabandozinho ali na fronteira de Foz do Iguaçu, diante do estouro da boiada lá na Rússia e o escândalo que fez a Conab se transformar no Denit do Ministério da Agricultura?!?
MORAL DA HISTÓRIA - Se não se pega peixe graúdo, por que vai se fisgar um lambari?!?
Foi pelas quebradas - que ele não é maluco nem nada para seguir aquele caminho natural da rota da produção. Pelas cercanias da ponte, ele deu de cara um muambeiro que, mesmo sem saber de quem se tratava aquela figura imponente que se aproximava com pés de algodão, fingiu que estava pescando.
O Garanhão aprochegou-se do pescador e puxou conversa mole:.
- Você está fazendo o quê aí, amigo?
- Pescando…
- Já pescou alguma coisa?
- Xiiii…Uma cacetada…Peguei peixe de tudo que é espécie, tamanho e feitio!
- Você sabe quem eu sou?
- Não…
- Sou fiscal do governo e aqui é proibido pescar!
- E você, sabe quem eu sou, senhor fiscal?
- Não faço a menor idéia…
- Sou o maior mentiroso do mundo!
O Garanhão sorriu e deixou tudo por isso mesmo, afinal, o próprio ministro da Agricultura vivia alertando que era a favor de uma viligância mais branda, por que "fiscalização é um negócio antidemocrático". Era bem como o próprio mandachuva vivia repetindo, "detesto toda e qualquer atitude que possa sequer lembrar que vivemos num regime policialesco".
A firme convicção do ministro deu ao Garanhão de Pelotas a certeza de que o melhor mesmo era deixar pra lá. O muambeiro tinha se saído bem. E, se há uma coisa que o Garanhão admire nas pessoas é a presença de espírito.
E, além do mais, aquilo ali não é nada, não é nada, não era nada mesmo. O que significava aquele contrabandozinho ali na fronteira de Foz do Iguaçu, diante do estouro da boiada lá na Rússia e o escândalo que fez a Conab se transformar no Denit do Ministério da Agricultura?!?
MORAL DA HISTÓRIA - Se não se pega peixe graúdo, por que vai se fisgar um lambari?!?
O CASAMENTO NA AUSTRÁLIA
Pois o Garanhão de Pelotas, depois que passou de lorde falido para o mais bem-sucedido cidadão do mundo, sempre acalentou um sonho na vida. Trocar sua solteirice bem garantida da convivência com suas três secretárias executáveis, por uma vida pacata e cheia de ternura com uma esposa, amada, amante por todo o tempo do mundo, assim eterna enquanto estivesse acesa a chama que os versos alexandrinos e as rimas espúrias de Vinícius lhe inspiravam.
Estava a um passo de fazer da quimera uma realidade. Naquele novo amanhecer, levantou-se expedito como nunca e diligente como sempre. Cumpriu seus rituais de começos cotidianos - da escova de dentes ao desjejum e à escolha do traje de alto executivo da sua multinacional australiana.
Já estava instalado confortavelmente na poltrona de seu gabinete no centro de Brisbane, na Queen Street, calçadão comercial da cidade.
Dali, vendo pessoas pelas ruas, descortinando os edifícios históricos das redondezas do porto, rememorava rápidas a/venturas por aqueles pubs antigos que apareciam ao largo do Jardim Botânico.
Deixou de lado o romantismo no meio da manhã daquela terça-feira, para organizar-se rumo à realização do seu antigo sonho. Telefonou para a secretária loira:
- 'Morning, Marilyn Lewinskovka. Você cancelou, como eu lhe pedi, todos os meus compromissos para este fim de semana?
- Oh yes, my boss...
- E está tudo bem?
- Oh yes, my lord... Só tem uma coisinha...
- Uma coisinha?
- Yes, my love... A sua noiva ficou furiosa porque eu desmarquei o casamento de vocês no sábado!
- Oh, my God!...
O Garanhão bateu o telefone. O casamento não saiu. Passado um breve tempo, o atarefado representante da nova geração de líderes empresariais da Austrália, não só concedeu o seu perdão à diligente secretária, como a promoveu a diretora-presidente do saltitante trio de auxiliares que o acompanha até hoje a qualquer canto do planeta, para o que der e vier.
MORAL DA HISTÓRIA - O destino acaba sempre rindo das probabilidades, mas quem ri do destino descobre a fortuna e a sorte.
Estava a um passo de fazer da quimera uma realidade. Naquele novo amanhecer, levantou-se expedito como nunca e diligente como sempre. Cumpriu seus rituais de começos cotidianos - da escova de dentes ao desjejum e à escolha do traje de alto executivo da sua multinacional australiana.
Já estava instalado confortavelmente na poltrona de seu gabinete no centro de Brisbane, na Queen Street, calçadão comercial da cidade.
Dali, vendo pessoas pelas ruas, descortinando os edifícios históricos das redondezas do porto, rememorava rápidas a/venturas por aqueles pubs antigos que apareciam ao largo do Jardim Botânico.
Deixou de lado o romantismo no meio da manhã daquela terça-feira, para organizar-se rumo à realização do seu antigo sonho. Telefonou para a secretária loira:
- 'Morning, Marilyn Lewinskovka. Você cancelou, como eu lhe pedi, todos os meus compromissos para este fim de semana?
- Oh yes, my boss...
- E está tudo bem?
- Oh yes, my lord... Só tem uma coisinha...
- Uma coisinha?
- Yes, my love... A sua noiva ficou furiosa porque eu desmarquei o casamento de vocês no sábado!
- Oh, my God!...
O Garanhão bateu o telefone. O casamento não saiu. Passado um breve tempo, o atarefado representante da nova geração de líderes empresariais da Austrália, não só concedeu o seu perdão à diligente secretária, como a promoveu a diretora-presidente do saltitante trio de auxiliares que o acompanha até hoje a qualquer canto do planeta, para o que der e vier.
MORAL DA HISTÓRIA - O destino acaba sempre rindo das probabilidades, mas quem ri do destino descobre a fortuna e a sorte.
2 de ago. de 2011
UM PORRE À MEXICANA
O Garanhão de Pelotas estava em meio a mais uma reunião do conselho de propaganda da empresa de Joan Crawford, em Acapulco, quando o celular vibrou em seu peito fazendo o jacarezinho Lacoste saltitar no bolso da camisa esporte que o separava dos demais conselheiros.
Surpresa! Era Remi Gorga! Orra meu, Remi Figurelli Gorga Vírgula Filho! Ele estava no México. Na capital. Em missão cultural. Era adido em Quito, no Ecuador. E com ele sempre foi assim, onde há Remi há sempre algo que termina em dor. Tinha que ser Ecuador. No bom sentido, é claro.
A dor naquele caso, era de saudade dos velhos tempos de pautas jornalísticas no eixo Brasília-Porto Alegre. Fazia duas décadas que não se falavam. Combinaram logo um encontro para aquela noite e, pronto, o Garanhão pegou um Lear-Jet da Companhia e se mandou para Mexico City.
De noite, conversaram, mentiram, mataram saudade contando histórias que nenhum dos dois lembrava mais e, evidentemente, beberam todas. Quase comeram algumas. Mas, não era noite para aquilo. Melhor tequila com sal e limão na cavidade do punho que não mata a fome, mas mitiga a sede e dá um porre que beira o coma alcoólico.
Na porta do restaurante, onde - entre tacos, champurrados, bacanoras, barbacoas, buñuelos e burritos, tinham sorvido Dry Martinis pra começar, Koskenkorvas para fartar e tequilas para terminar - orientaram em jogral o taxista da melhor maneira que a língua lhes permitia enrolar o idioma:
- Por favor, nos leve já até o hotel coisa...
- Hotel coisa, onde fica isso?
- Pô, bem ali defronte ao Palácio coisa...
- Coisa?
- É, siga em frente que quando a gente chegar a gente avisa.
Sabe-se lá como, eles chegaram. O Garanhão e Remi ocuparam a mesma suíte no 58° ou no 92° andar do Four Seasons Hotel Mexico City - não estavam lá com muita capacidade de direção, imagine se teriam noção de altura. E aí se esbaldaram. Caiu cada um na sua cama; em cada cama um quase coma.
Correu a noite. Dormiram que nem duas pedras. Chumbaram. Desmaiaram de ebriedade. Por volta de oito horas da manhã, Remi acorda em sobressalto. E, por absoluta solidariedade, acorda também o Garanhão de Pelotas.
- Orra, Garanhão que porre!
- É. Que porre!...
- Olha só, a suíte parece que está balançando. Tá tudo rodando.
- É. Tá tudo rodando... Tá tudo balançando...
- Tá balançando pra você também, é?!?
- Tá, cara. Tá tudo rodando e sacudindo...
Aí, Remi teve um ataque de lucidez anti-etílica e telefonou para a portaria do hotel:
- Alô.
- Alô. Que pasa señor?
- No pasa nada, señor... Es un temblor...
- Temblor? Ah bom.... Ah bom, nããão! Aaaaii ! É um terremoto!
Ele e o Garanhão não levaram mais do que dois minutos para trocarem de roupa, socarem tudo nas malas e descerem degrau por degrau quase cem andares até à porta da rua. Estavm bêbados, mas não eram loucos de entrar num elevador em dia de temblor.
Pegaram o primeiro táxi que passou e balançaram com ele pela avenida tremelicante até chegar ao aeroporto. Despediram-se rapidamente. E foi cada um pro seu canto. Remi Gorga para Quito e o Garanhão para Acapulco.
MORAL DA HISTÓRIA - Há porres que não vêm para o bem e que fazem até mal. De qualquer maneira, aquela tremedeira toda foi culpa dos champurrados, certamente. A amizade dos dois jamais foi estremecida.
Surpresa! Era Remi Gorga! Orra meu, Remi Figurelli Gorga Vírgula Filho! Ele estava no México. Na capital. Em missão cultural. Era adido em Quito, no Ecuador. E com ele sempre foi assim, onde há Remi há sempre algo que termina em dor. Tinha que ser Ecuador. No bom sentido, é claro.
A dor naquele caso, era de saudade dos velhos tempos de pautas jornalísticas no eixo Brasília-Porto Alegre. Fazia duas décadas que não se falavam. Combinaram logo um encontro para aquela noite e, pronto, o Garanhão pegou um Lear-Jet da Companhia e se mandou para Mexico City.
De noite, conversaram, mentiram, mataram saudade contando histórias que nenhum dos dois lembrava mais e, evidentemente, beberam todas. Quase comeram algumas. Mas, não era noite para aquilo. Melhor tequila com sal e limão na cavidade do punho que não mata a fome, mas mitiga a sede e dá um porre que beira o coma alcoólico.
Na porta do restaurante, onde - entre tacos, champurrados, bacanoras, barbacoas, buñuelos e burritos, tinham sorvido Dry Martinis pra começar, Koskenkorvas para fartar e tequilas para terminar - orientaram em jogral o taxista da melhor maneira que a língua lhes permitia enrolar o idioma:
- Por favor, nos leve já até o hotel coisa...
- Hotel coisa, onde fica isso?
- Pô, bem ali defronte ao Palácio coisa...
- Coisa?
- É, siga em frente que quando a gente chegar a gente avisa.
Sabe-se lá como, eles chegaram. O Garanhão e Remi ocuparam a mesma suíte no 58° ou no 92° andar do Four Seasons Hotel Mexico City - não estavam lá com muita capacidade de direção, imagine se teriam noção de altura. E aí se esbaldaram. Caiu cada um na sua cama; em cada cama um quase coma.
Correu a noite. Dormiram que nem duas pedras. Chumbaram. Desmaiaram de ebriedade. Por volta de oito horas da manhã, Remi acorda em sobressalto. E, por absoluta solidariedade, acorda também o Garanhão de Pelotas.
- Orra, Garanhão que porre!
- É. Que porre!...
- Olha só, a suíte parece que está balançando. Tá tudo rodando.
- É. Tá tudo rodando... Tá tudo balançando...
- Tá balançando pra você também, é?!?
- Tá, cara. Tá tudo rodando e sacudindo...
Aí, Remi teve um ataque de lucidez anti-etílica e telefonou para a portaria do hotel:
- Alô.
- Alô. Que pasa señor?
- No pasa nada, señor... Es un temblor...
- Temblor? Ah bom.... Ah bom, nããão! Aaaaii ! É um terremoto!
Ele e o Garanhão não levaram mais do que dois minutos para trocarem de roupa, socarem tudo nas malas e descerem degrau por degrau quase cem andares até à porta da rua. Estavm bêbados, mas não eram loucos de entrar num elevador em dia de temblor.
Pegaram o primeiro táxi que passou e balançaram com ele pela avenida tremelicante até chegar ao aeroporto. Despediram-se rapidamente. E foi cada um pro seu canto. Remi Gorga para Quito e o Garanhão para Acapulco.
MORAL DA HISTÓRIA - Há porres que não vêm para o bem e que fazem até mal. De qualquer maneira, aquela tremedeira toda foi culpa dos champurrados, certamente. A amizade dos dois jamais foi estremecida.
UM AMANHECER EM ACAPULCO
O Garanhão de Pelotas acordou achando que o mundo é um circo e a vida um carnaval. Estava com os bofes virados. Depois do desjejum foi à garagem, escolheu o Bentley Continental Supersports e saiu devagar pela rampa que cortava a grama verde-bandeira nacional e levava à alameda onde ficava o seu requintado solar, refúgio residencial de uma das regiões mais valorizadas de Acapulco.
Corria o ano douradíssimo de 1970, tão dourado que até o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, jogando em Guadalajara, no mesmo México que o nosso personagem escolhera para ser uma das mentes mais brilhantes da Diretoria Executiva de Publicidade e Marketing da Pepsico - gigante do ramo dos refrigerantes que, por capricho de Joan Crawford, combatia o império da Coca-Cola.
Na operação saída, o Garanhão interrompeu a marcha ré para não atropelar um garoto, filho do vizinho ao lado direito de sua morada. O garoto choramingava. Ao frear, o executivo dos refrigérios percebeu que a poucos passos do menino, estava a senhora que ocupava o palacete à esquerda de seu frontispício. Uma jararaca entruda que, seguidamente, bisbilhotava a vida dos outros por trás das cortinas de seus enormes janelões. Estava com cara de furiosa. E o garoto com cara de susto.
O Garanhão desceu do Bentley e resolveu entrar na sua primeira história do dia. Pegou o menino pelo braço, levou-o até onde se encontrava a vizinha enorme e pesadona, para saber do que se tratava:
- O que foi que aconteceu - perguntou ao garoto, já na frente da mulherona.
- Ela me bateu.
- Por que a senhora fez isso, madame?
- Porque ele me chamou de gorda!
- Ora, ora. E a senhora acha que batendo nele vai emagrecer?!?
Pegou o menino, conduziu-o até a porta de sua mansão e deixou a irrritadiça bisbilhoteira parada no calçadão cercado de flores. Definitivamente, o dia não começava lá essas coisas.
RODAPÉ - A conduta é um espelho em que cada um mostra a própria imagem.
Corria o ano douradíssimo de 1970, tão dourado que até o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, jogando em Guadalajara, no mesmo México que o nosso personagem escolhera para ser uma das mentes mais brilhantes da Diretoria Executiva de Publicidade e Marketing da Pepsico - gigante do ramo dos refrigerantes que, por capricho de Joan Crawford, combatia o império da Coca-Cola.
Na operação saída, o Garanhão interrompeu a marcha ré para não atropelar um garoto, filho do vizinho ao lado direito de sua morada. O garoto choramingava. Ao frear, o executivo dos refrigérios percebeu que a poucos passos do menino, estava a senhora que ocupava o palacete à esquerda de seu frontispício. Uma jararaca entruda que, seguidamente, bisbilhotava a vida dos outros por trás das cortinas de seus enormes janelões. Estava com cara de furiosa. E o garoto com cara de susto.
O Garanhão desceu do Bentley e resolveu entrar na sua primeira história do dia. Pegou o menino pelo braço, levou-o até onde se encontrava a vizinha enorme e pesadona, para saber do que se tratava:
- O que foi que aconteceu - perguntou ao garoto, já na frente da mulherona.
- Ela me bateu.
- Por que a senhora fez isso, madame?
- Porque ele me chamou de gorda!
- Ora, ora. E a senhora acha que batendo nele vai emagrecer?!?
Pegou o menino, conduziu-o até a porta de sua mansão e deixou a irrritadiça bisbilhoteira parada no calçadão cercado de flores. Definitivamente, o dia não começava lá essas coisas.
RODAPÉ - A conduta é um espelho em que cada um mostra a própria imagem.
O GARANHÃO E AS HARLEY DAVIDSON
O Garanhão de Pelotas estava em plena temporada de caminhoneiro brasileiro no Texas. Queria aprender a falar a língua do Tio Sam com todos os sotaques. Cansado de ser turista, resolveu dar uma de trabalhador em busca de pequenas aventuras por grandes rodovias naqueles desertos do primeiro mundo americano.
Green card e tudo no porta-luvas, o Garanhão resolveu dar uma parada num daqueles restaurantes de beira de estrada no meio do nada que não fosse apenas um posto de abastecimento da Texaco.
O mais feio chegou-se ao Garanhão e apagou o cigarro no donuts dele e foi se sentar lá na ponta do balcão. O outro mais feio que o mais feio, foi até o Garanhão cuspiu no copo de leite e sentou-se na outra ponta do balcão. Aí, o mais feio que os outros dois mais feios, aproximou-se e virou o pratinho de donuts no colo do Garanhão. Este ficou por ali mesmo, bafejando no cangote do nosso então pacato caminhoneiro incidental.
Sem dizer absolutamente nada, sem mover um só m´suculo da face, sem demonstrar qualquer reação animal, o Garanhão levantou-se, pagou a conta, botou o boné e foi embora, na mais santa paz.
Coisa de dois ou três minutos depois, o motoqueiro mais feio disse com voz de valente para o calmo e imperturbável garçom:
- Esse cara não era homem!
- Nem homem, nem bom motorista...
- Como assim?
- Ele acabou de passar com o caminhão por cima de três motos que estavam ali fora.
MORAL DA HISTÓRIA - Não há nada melhor do que devolver àqueles que me causam algum dano, do que devolver-lhes danos muito maiores. Nem há melhor vingança do que podermos nos vingar.
Green card e tudo no porta-luvas, o Garanhão resolveu dar uma parada num daqueles restaurantes de beira de estrada no meio do nada que não fosse apenas um posto de abastecimento da Texaco.
Saboreava sozinho - já que não havia sinal de mais nenhum cliente - um saudável copo de leite gelado com um farto donuts, quando entram no salão três motoqueiros típicos montadores de possantes Harley Davidson, parrudos, sujões, mal-encarados e vestidos com aquelas roupas de couro preto, cheias de penduricalhos cromados, tatuagens e piercings em profusão, coisas assim que exibem força e valentia dos que chegam em bando.
O mais feio chegou-se ao Garanhão e apagou o cigarro no donuts dele e foi se sentar lá na ponta do balcão. O outro mais feio que o mais feio, foi até o Garanhão cuspiu no copo de leite e sentou-se na outra ponta do balcão. Aí, o mais feio que os outros dois mais feios, aproximou-se e virou o pratinho de donuts no colo do Garanhão. Este ficou por ali mesmo, bafejando no cangote do nosso então pacato caminhoneiro incidental.
Sem dizer absolutamente nada, sem mover um só m´suculo da face, sem demonstrar qualquer reação animal, o Garanhão levantou-se, pagou a conta, botou o boné e foi embora, na mais santa paz.
Coisa de dois ou três minutos depois, o motoqueiro mais feio disse com voz de valente para o calmo e imperturbável garçom:
- Esse cara não era homem!
- Nem homem, nem bom motorista...
- Como assim?
- Ele acabou de passar com o caminhão por cima de três motos que estavam ali fora.
MORAL DA HISTÓRIA - Não há nada melhor do que devolver àqueles que me causam algum dano, do que devolver-lhes danos muito maiores. Nem há melhor vingança do que podermos nos vingar.
1 de ago. de 2011
O LÍDER
Por mais que lute e relute consigo mesmo, o Garanhão de Pelotas tem uma coisa assim por dentro que não o deixa mentir. Não é sempre. Mas há dias em que ele é assim e pronto.
Estava o nosso nobre numa daquelas noites de happy hour interminável em Brasília. Tinha começado a bebericar com os colegas deputados, senadores e lobistas, desde cedo. Saíra de um dos Ministérios em que mandava e desmandava por volta de seis e meia da tarde já com espírito de porco.
Passou pela Churrascaria do Lago, se esbaldou numa Koskenkorva com nacos de laranja em casca, sentiu-se mais líder do que nunca e, abandonando suas cansativas amizades resolveu ir sozinho e mal acompanhado ao Gaf - um bunker, boate-bar-restaurante da moda, lá nos escurinhos do Gilberto Salomão - ilhota de grandes aventuras pretéritas na Capital da República.
Um pouco antes, passou pelo restaurante e choperia Bierfass na esquina daquela antiga vida agitada brasiliense, deu uma canja ao piano da casa, cantando Night and Day à moda Sammy Davis, bem melhor que Frank Sinatra homenageando Cole Porter.
Encaminhou-se para o Gaf. Entrou com seu mais despojado ar de nobreza e, só por isso, a boate se iluminou como se lua crescente tivesse ficado prenhe e, assim, cheia de si mesma tivesse invadido o salão. Seu olhar de lince caiu numa mesa redonda ocupada por quatro amigas estonteantes, alegres, descontraídas, bonitas, cercadas de queijos e vinhos.
O Garanhão dirigiu-se garboso e tentador para o balcão, onde já o esperava uma finlandesa Koskenkorva congelada, rodeada por laranjas in natura. O olhar do quarteto arrasador convergiu todinho para a figura de displicente elegância. Um par de olhos, no entanto, sobrepujou aos outros. Eram os olhos de Maria Rita. Olhos vivos, espertos que a levaram a tomar a dianteira sobre as demais companheiras sequiosas por aquele bom-partido:
- Gurias, olhali, olhali o meu ídolo! É ele! O Garanhão de Pelotas!!!!!!
- Quiéisso, menina?!? - espantou-se Dolores Sierra.
- É eeele, é eeele, meu ídolo, meu líder! Não acredito. Ele está aqui. Minha paixão.
- Você endoidou, guria - disse Isabel, moderadora.
- Quê quieu faço? Não posso perder essa chance... E ele tá me olhando, me olhaaaando!!!
- Então, dá um jeito. Chama o garçom e manda um torpedo - aconselhou Maria Joana.
Não demorou nada o torpedo foi detonado. Enquanto acertava o alvo, Maria Rita disse que para motel não iria com aquele seu ídolo maravilhoso, líder fantástico de suas jornadas de juventude rebelde com causa, de sonhos revolucionários e coisas assim que mudariam o Brasil se tivessem dado certo.
Isabel, louca para acabar com aquele mini-escândalo, foi lépida e faceira:
- Tome, pegue aqui a chave do meu apartamento. Eu e Maria Joana dormiremos nop apê da Dolores e você carrega o seu líder para o meu refúgio. Fique lá até a hora que quiser. Amanhã no almoço a gente se fala. E você nos conta as novidades.
- Combinado - disse Maria Rita, agradecida.
Passaram-se duas ou dez vodcas para o Garanhão e uma garrafa e meia de vinho para Maria Rita e suas amigas, até que o torpedo fez efeito. Consumada a aproximação, Maria Rita e o Garanhão de Pelotas saíram de braço dado e muito íntimos, pela porta principal do Gaf, deixando a noite quase sem brilho para trás.
As outras três amigas ainda estavam imaginando loucuras à bordo da mesinha de degustações, namoriscos alhures e mais vinho de idioma chileno com sotaque do Vale de Maipo, quando o telefone de uma delas tocou. Não eram duas horas da madrugada, ainda. A voz de Maria Rita reverberava nos ouvidos de Dolores Sierra:
- Gurias, gurias... Você não vão acreditar... Venham pra cá, venham pra cá - apelava a namoradeira.
- Mas, o que foi que houve?
- Nem conto nada procês... Venham, venham pra cá. Vamos terminar a noite por aqui.
Logo as três amigas se mandaram para a Asa Norte, morrendo de curiosidade. Loucas para saber as novidades. Invadiram o apartamento e ficaram frente a frente com Maria Rita, sozinha, vestida dos pés à cabeça e morrendo de rir no enorme sofá da confortável sala. Morria de riso nervoso.
- O que foi, sua maluca; o que foi que aconteceu? - quiseram saber as três.
- O meu líder é um horrooooor!
- Como assim? - tentou saber Isabel.
- Um horror, esse líder é um pavoooor!
- Brochou? - perguntou Maria Joana
- Pior... Que líder de merda!
- É picorrucho; tem aquilo roxo?... - tentou adivinhar Dolores.
- Quê nada. Que nada, não! Quê tudo! O cara é brocha; é picorrucho e grosso, sem noção!
- O que foi, então, conta logo - implorou o trio afinado e a uma só voz.
Aí, Maria Rita não aguentou e, aos risos largos e nervosos, contou o diálogo que mandou para os porões das mais frias noites de desilusão o que nem bem tinha começado a acontecer e já terminara:
- Chegamos aqui abraçados. Caímos nesse tapete aqui ó. Nos beijamos, meio que nos mordemos devagarinho, fomos tirando as roupas e eu, eu enloqueci nos braços daquele meu herói da juventude; aquele meu ídolo; meu líder...
- E aí, aí?... - quiseram saber mais.
- Aí eu consegui falar com ele... Quase sufocando.
- O cara é tardo, te bateu? Conta logo, porra!
E ela então descreveu a cena. Ele já estava sentado no sofá. Aquele homão, seu ídolo, seu líder.. E ela não resistiu. Ela própria que ronrornou para o líder:
- Vem, meu líder... Vem me faz sentir mulher.
O Garanhão de Pelotas prontamente tirou a roupa e jogou-a para os seus braços abertos:
- Toma! Amanhã de manhã, você as lava e passa pra mim.
Seu mundo caiu. Maria Rita só lhe deu tempo para enfiar-se de novo nas calças e sair porta afora. Escatafedera-se ali o sonho de uma revolucionária. Seu líder era um ídolo de pés de barro.
MORAL DA HISTÓRIA - Você pensa o quê? Que o Garanhão é que nem o Didi Mocó aquele dos Trapalhões que não perde nunca?!?
Estava o nosso nobre numa daquelas noites de happy hour interminável em Brasília. Tinha começado a bebericar com os colegas deputados, senadores e lobistas, desde cedo. Saíra de um dos Ministérios em que mandava e desmandava por volta de seis e meia da tarde já com espírito de porco.
Passou pela Churrascaria do Lago, se esbaldou numa Koskenkorva com nacos de laranja em casca, sentiu-se mais líder do que nunca e, abandonando suas cansativas amizades resolveu ir sozinho e mal acompanhado ao Gaf - um bunker, boate-bar-restaurante da moda, lá nos escurinhos do Gilberto Salomão - ilhota de grandes aventuras pretéritas na Capital da República.
Um pouco antes, passou pelo restaurante e choperia Bierfass na esquina daquela antiga vida agitada brasiliense, deu uma canja ao piano da casa, cantando Night and Day à moda Sammy Davis, bem melhor que Frank Sinatra homenageando Cole Porter.
Encaminhou-se para o Gaf. Entrou com seu mais despojado ar de nobreza e, só por isso, a boate se iluminou como se lua crescente tivesse ficado prenhe e, assim, cheia de si mesma tivesse invadido o salão. Seu olhar de lince caiu numa mesa redonda ocupada por quatro amigas estonteantes, alegres, descontraídas, bonitas, cercadas de queijos e vinhos.
O Garanhão dirigiu-se garboso e tentador para o balcão, onde já o esperava uma finlandesa Koskenkorva congelada, rodeada por laranjas in natura. O olhar do quarteto arrasador convergiu todinho para a figura de displicente elegância. Um par de olhos, no entanto, sobrepujou aos outros. Eram os olhos de Maria Rita. Olhos vivos, espertos que a levaram a tomar a dianteira sobre as demais companheiras sequiosas por aquele bom-partido:
- Gurias, olhali, olhali o meu ídolo! É ele! O Garanhão de Pelotas!!!!!!
- Quiéisso, menina?!? - espantou-se Dolores Sierra.
- É eeele, é eeele, meu ídolo, meu líder! Não acredito. Ele está aqui. Minha paixão.
- Você endoidou, guria - disse Isabel, moderadora.
- Quê quieu faço? Não posso perder essa chance... E ele tá me olhando, me olhaaaando!!!
- Então, dá um jeito. Chama o garçom e manda um torpedo - aconselhou Maria Joana.
Não demorou nada o torpedo foi detonado. Enquanto acertava o alvo, Maria Rita disse que para motel não iria com aquele seu ídolo maravilhoso, líder fantástico de suas jornadas de juventude rebelde com causa, de sonhos revolucionários e coisas assim que mudariam o Brasil se tivessem dado certo.
Isabel, louca para acabar com aquele mini-escândalo, foi lépida e faceira:
- Tome, pegue aqui a chave do meu apartamento. Eu e Maria Joana dormiremos nop apê da Dolores e você carrega o seu líder para o meu refúgio. Fique lá até a hora que quiser. Amanhã no almoço a gente se fala. E você nos conta as novidades.
- Combinado - disse Maria Rita, agradecida.
Passaram-se duas ou dez vodcas para o Garanhão e uma garrafa e meia de vinho para Maria Rita e suas amigas, até que o torpedo fez efeito. Consumada a aproximação, Maria Rita e o Garanhão de Pelotas saíram de braço dado e muito íntimos, pela porta principal do Gaf, deixando a noite quase sem brilho para trás.
As outras três amigas ainda estavam imaginando loucuras à bordo da mesinha de degustações, namoriscos alhures e mais vinho de idioma chileno com sotaque do Vale de Maipo, quando o telefone de uma delas tocou. Não eram duas horas da madrugada, ainda. A voz de Maria Rita reverberava nos ouvidos de Dolores Sierra:
- Gurias, gurias... Você não vão acreditar... Venham pra cá, venham pra cá - apelava a namoradeira.
- Mas, o que foi que houve?
- Nem conto nada procês... Venham, venham pra cá. Vamos terminar a noite por aqui.
Logo as três amigas se mandaram para a Asa Norte, morrendo de curiosidade. Loucas para saber as novidades. Invadiram o apartamento e ficaram frente a frente com Maria Rita, sozinha, vestida dos pés à cabeça e morrendo de rir no enorme sofá da confortável sala. Morria de riso nervoso.
- O que foi, sua maluca; o que foi que aconteceu? - quiseram saber as três.
- O meu líder é um horrooooor!
- Como assim? - tentou saber Isabel.
- Um horror, esse líder é um pavoooor!
- Brochou? - perguntou Maria Joana
- Pior... Que líder de merda!
- É picorrucho; tem aquilo roxo?... - tentou adivinhar Dolores.
- Quê nada. Que nada, não! Quê tudo! O cara é brocha; é picorrucho e grosso, sem noção!
- O que foi, então, conta logo - implorou o trio afinado e a uma só voz.
Aí, Maria Rita não aguentou e, aos risos largos e nervosos, contou o diálogo que mandou para os porões das mais frias noites de desilusão o que nem bem tinha começado a acontecer e já terminara:
- Chegamos aqui abraçados. Caímos nesse tapete aqui ó. Nos beijamos, meio que nos mordemos devagarinho, fomos tirando as roupas e eu, eu enloqueci nos braços daquele meu herói da juventude; aquele meu ídolo; meu líder...
- E aí, aí?... - quiseram saber mais.
- Aí eu consegui falar com ele... Quase sufocando.
- O cara é tardo, te bateu? Conta logo, porra!
E ela então descreveu a cena. Ele já estava sentado no sofá. Aquele homão, seu ídolo, seu líder.. E ela não resistiu. Ela própria que ronrornou para o líder:
- Vem, meu líder... Vem me faz sentir mulher.
O Garanhão de Pelotas prontamente tirou a roupa e jogou-a para os seus braços abertos:
- Toma! Amanhã de manhã, você as lava e passa pra mim.
Seu mundo caiu. Maria Rita só lhe deu tempo para enfiar-se de novo nas calças e sair porta afora. Escatafedera-se ali o sonho de uma revolucionária. Seu líder era um ídolo de pés de barro.
MORAL DA HISTÓRIA - Você pensa o quê? Que o Garanhão é que nem o Didi Mocó aquele dos Trapalhões que não perde nunca?!?
29 de jul. de 2011
O PISIQUIATRA E DONA DOLORES SIERRA MAESTRA
E lá estava no divã o Dr. Jekill Viktório Freud Frankl - alter ego do Garanhão de Pelotas em dias que ele assume a sua porção pisquiatra de dar com pedra, quando a mais loira das suas três secretárias executáveis intercomunicou-se:
- Dr. Viktório, sua paciente, dona Dolores, já está na sala de espera.
- Daqui a cinco minutos, pode encaminhá-la para o estúdio de consultas.
O cérebro do nobre psiquiatra entrou em ebulição. Parecia que sua cabeça ruminava como se fosse a Patagônia. Sua cliente, Brujita de las Dolores Sierra Maestra, era uma legítima Tierra del Fuego, gélida e quente a um só tempo, perigosa como ela só.
O Garanhão precisava concentrar-se, assumir logo a personalidade do Dr Jekill que era também Viktório, um pouco Freud e, não raro, Dr. Frankl também. Dolores Sierra Maestra era um caso raro de multiplicidade sobre-humana, super humana, sobrenatural em termos de fetiches e magias no terreno das instabilidades emocionais.
Em quatro minutos e meio, dominou a mente e os nervos e dirigu-se ao estúdio. Dolores Sierra Maestra lá estava, recostada languida e linda no vasto, confortável divã de couro de bezerro alemão, que acabava sempre revestido por um aconchegante e convidativo pelego.
Mantidas as devidas e adequadas distâncias entre médico e paciente, o Garanhão de Pelotas, usando a entonação britânica da voz do Dr. Jekill Viktório Freud Frankl, iniciou a sessão que não tinha hora para acabar de relaxar. Nem de gozar.
- Fale o que lhe vem à cabeça...
- Parafilia, Sadismo, Bondage, Fetichismo, Voyeurismo, Exibicionismo, Podolatria... Ei, doutor, onde foi que você comprou esses sapatos? Eles são liiiindos!
- Em Frankfurt, dona Dolores. Em Frank.... Ora, componha-se dona Dolores. Continue, por favor...
- Tá bem, doutor, mas seus pés... Tá bem, tá bem... Coprofagia, incesto, Coprofilia, Necrofilia... Nããããão! Necrofilia foi mal, doutor. Ato falho, ato falho!
- Prossiga, dona Dolores. Só palavras secas, curtas...
- Urofilia, Estupro, Assédio, dupla penetração... Ai, doutor dupla penetração é grande, né não? Tire fora, dupla penetração não vale. Falei demais.
- Siga, dona Dolores Sierra, siga.
- Pois então... Masoquismo! Masoquismo! Masoquismo, doutor!
E, sem conter-se mais, atirou-se sobre o Garanhão de Pelotas que, de jaleco e tudo, estava recostado no seu divã, também de couro e já revestido por igual ao outro, com um enorme e aconchegante pelego. Beijaram-se com sofreguidão.
Ele, do alto de sua frieza profissional, deu uma volta completa no corpo, deixando Dolores Sierra Maestra sob seu corpo. Levantou-se, estendeu a mão à escrivaninha ao lado e de lá muniu-se com um látego, um chicote, um rebenque, o popular relho de dar surras em gaúchos de todos os sexos, daqueles mais atrevidos.
Desancou relhaços de paixão em Dolores Sierra Maestra que tinha as costas largas e não dava um grito; só gemidos de gata mais braba do que manhosa, e miava de tal forma que seu maullidos só não partiam o coração do médico-monstro porque lhe provocavam um tesão que não sabia explicar e que, muito menos, o deixavam parar com aquele pequeno flagelo fingido de amor compartilhado.
De relhaço em relhaço, rasgou as vestes de Dolores e jogando fora as próprias roupas, invadiu-a na frente, mas por trás como se só existisse aquele espaço livre no universo do seu corpo.
Comeu-a com todo o seu rigor e ela, devorou-o com toda a sua falta de pudor. Bom tempo depois, já sem apetite, os dois saíram cambaleantes do pelego ensuarado e se higienizaram na Jacuzzi do gabinete ao lado.
Ele foi ao armário e renovou sua vestimenta de psiquiatra compenetrado e conscio de seus deveres profissionais; ela buscou no vestiário feminino um conjunto exatamente igual ao que vestia quando chegou à sala de espera de mais uma sessão de terapia intensiva.
Recompostos, os dois foram para a ante-sala do médico que, aos poucos foi assumindo os jeitos e trejeitos do Garanhão de Pelotas. Dolores Sierra Maestra, maquiada outra vez e bonita como sempre, aprumou-se para sair. Antes que se levantasse para ir embora, o Garanhão recostou-se outra vez, já no seu terceiro divã e lhe dirigiu uma última ordem:
- Diga agora o que lhe vem à cabeça.
- Eu te amo, Garanhão.
Despediram-se num adeus que duraria só até o amanhecer do outro dia. Ele se recolheu à solidão do seu consultório. Ela passou, linda de morrer, pela secretária loira. E como sempre, não pagou a consulta. Afinal, ela era sócia nas clínicas do doutor. De todas as clínicas e negócios do Garanhão.
MORAL DA HISTÓRIA - De médico e de louco, todos nós temos um pouco. Ou... é delicioso estar louco só por pouco tempo e dar por certo tudo quanto é louco o bastante para ser bom.
- Dr. Viktório, sua paciente, dona Dolores, já está na sala de espera.
- Daqui a cinco minutos, pode encaminhá-la para o estúdio de consultas.
O cérebro do nobre psiquiatra entrou em ebulição. Parecia que sua cabeça ruminava como se fosse a Patagônia. Sua cliente, Brujita de las Dolores Sierra Maestra, era uma legítima Tierra del Fuego, gélida e quente a um só tempo, perigosa como ela só.
O Garanhão precisava concentrar-se, assumir logo a personalidade do Dr Jekill que era também Viktório, um pouco Freud e, não raro, Dr. Frankl também. Dolores Sierra Maestra era um caso raro de multiplicidade sobre-humana, super humana, sobrenatural em termos de fetiches e magias no terreno das instabilidades emocionais.
Em quatro minutos e meio, dominou a mente e os nervos e dirigu-se ao estúdio. Dolores Sierra Maestra lá estava, recostada languida e linda no vasto, confortável divã de couro de bezerro alemão, que acabava sempre revestido por um aconchegante e convidativo pelego.
Mantidas as devidas e adequadas distâncias entre médico e paciente, o Garanhão de Pelotas, usando a entonação britânica da voz do Dr. Jekill Viktório Freud Frankl, iniciou a sessão que não tinha hora para acabar de relaxar. Nem de gozar.
- Fale o que lhe vem à cabeça...
- Parafilia, Sadismo, Bondage, Fetichismo, Voyeurismo, Exibicionismo, Podolatria... Ei, doutor, onde foi que você comprou esses sapatos? Eles são liiiindos!
- Em Frankfurt, dona Dolores. Em Frank.... Ora, componha-se dona Dolores. Continue, por favor...
- Tá bem, doutor, mas seus pés... Tá bem, tá bem... Coprofagia, incesto, Coprofilia, Necrofilia... Nããããão! Necrofilia foi mal, doutor. Ato falho, ato falho!
- Prossiga, dona Dolores. Só palavras secas, curtas...
- Urofilia, Estupro, Assédio, dupla penetração... Ai, doutor dupla penetração é grande, né não? Tire fora, dupla penetração não vale. Falei demais.
- Siga, dona Dolores Sierra, siga.
- Pois então... Masoquismo! Masoquismo! Masoquismo, doutor!
E, sem conter-se mais, atirou-se sobre o Garanhão de Pelotas que, de jaleco e tudo, estava recostado no seu divã, também de couro e já revestido por igual ao outro, com um enorme e aconchegante pelego. Beijaram-se com sofreguidão.
Ele, do alto de sua frieza profissional, deu uma volta completa no corpo, deixando Dolores Sierra Maestra sob seu corpo. Levantou-se, estendeu a mão à escrivaninha ao lado e de lá muniu-se com um látego, um chicote, um rebenque, o popular relho de dar surras em gaúchos de todos os sexos, daqueles mais atrevidos.
Desancou relhaços de paixão em Dolores Sierra Maestra que tinha as costas largas e não dava um grito; só gemidos de gata mais braba do que manhosa, e miava de tal forma que seu maullidos só não partiam o coração do médico-monstro porque lhe provocavam um tesão que não sabia explicar e que, muito menos, o deixavam parar com aquele pequeno flagelo fingido de amor compartilhado.
De relhaço em relhaço, rasgou as vestes de Dolores e jogando fora as próprias roupas, invadiu-a na frente, mas por trás como se só existisse aquele espaço livre no universo do seu corpo.
Comeu-a com todo o seu rigor e ela, devorou-o com toda a sua falta de pudor. Bom tempo depois, já sem apetite, os dois saíram cambaleantes do pelego ensuarado e se higienizaram na Jacuzzi do gabinete ao lado.
Ele foi ao armário e renovou sua vestimenta de psiquiatra compenetrado e conscio de seus deveres profissionais; ela buscou no vestiário feminino um conjunto exatamente igual ao que vestia quando chegou à sala de espera de mais uma sessão de terapia intensiva.
Recompostos, os dois foram para a ante-sala do médico que, aos poucos foi assumindo os jeitos e trejeitos do Garanhão de Pelotas. Dolores Sierra Maestra, maquiada outra vez e bonita como sempre, aprumou-se para sair. Antes que se levantasse para ir embora, o Garanhão recostou-se outra vez, já no seu terceiro divã e lhe dirigiu uma última ordem:
- Diga agora o que lhe vem à cabeça.
- Eu te amo, Garanhão.
Despediram-se num adeus que duraria só até o amanhecer do outro dia. Ele se recolheu à solidão do seu consultório. Ela passou, linda de morrer, pela secretária loira. E como sempre, não pagou a consulta. Afinal, ela era sócia nas clínicas do doutor. De todas as clínicas e negócios do Garanhão.
MORAL DA HISTÓRIA - De médico e de louco, todos nós temos um pouco. Ou... é delicioso estar louco só por pouco tempo e dar por certo tudo quanto é louco o bastante para ser bom.
NEM SEMPRE O PASSADO É TEIMOSO
Depois de mil anos, o Garanhão de Pelotas se encantou pelos olhos de uma gata de cabelos pardos, uma gata leo/parda, para ser bem franco. Uma tigresa, com certeza. E nessa fase de amor, sempre que se encontravam tinham mil histórias, claro, para contar.
Entre eles, o passado relutava em manter sua verdadeira identidade, estava sempre presente. E, não raro, o melhor das recordações que repartiam, é que elas nem eram assim tão verdadeiras. Alguns sonhos, assim como alguns filmes, haviam mudado de enredo.
Muitas coisas que repassavam e até muitos lugares que revisitavam, tinham mudado de cor, de tamanho, de estilo, de clima; em alguns bares, até de dono.
O próprio Conjunto Nacional já não era mais - apesar da revitalização - o maior shopping da América Latina.
Naquele início de noite, resolveram revisitar o velho e gostoso paraíso dos salsichões bávaros, o tedesco refúgio Fritzlang - numa das reentrâncias da Asa Sul que poderia ser chamada até de uma esquina de Brasília. Escolheram a mesa do canto lá do fundo, à beira do balcão que fazia fronteira com a boca da rua de movimento escasso.
Foram lá no velho Fritz rebuscar história, revirar passados, recapturar antigos bons momentos de vida que um e outro haviam desfrutado em outras queridas companhias. O passado não lhes despertava nenhum ciume. A não ser quando se transformava em presente. Quando o ontem vira hoje, ganha vida e mexe com a gente.
Os primeiros passos no Fritzlang revelaram ao Garanhão e à Tigresa que o lugar já não era mais o mesmo: menos charme, menos gente, menos algaravia, mais restaurante do que um bar legítimo da Bavária... Os rostos já não eram mais os de ontem; o pessoal de hoje ali da casa, muito menos.
Acomodaram-se. Veio o garçom. E foi. A entrada foi de beringelas recheadas de tomates desidratados. Um uísque com três pedras de gelo em uma dose chorada acima do nível do lago Paranoá para ele; um xarope light com o sigilo da Coca, para ela.
Antes que o garçom partisse, em busca dos filés de frango com salada à moda germânico-pioneira social, o Garanhão de Pelotas - meio em desencanto - provocou, sarcástico, o serviçal:
- Agora vamos querer refrigerante. Duas Cocas, com gelo e limão. Mas... Copo limpo, viu?
Pouco depois, o garçom chegava com o pedido: os frangos à milanesa, a salada e dois copos. Com a mesma gentil e estudada indiferença profissional que mantém os garçons à recomendável distância da clientela, ele quis saber:
- Foi o senhor, ou a senhora... Qual dos dois pediu copo limpo?
E sentindo-se vingado, afastou-se com um sorriso de hipocrisia na cara. O Garanhão e seu bem-querer tiveram ali mesmo, naquele momento, a certeza de que nem sempre o passado é teimoso quanto a sua essência e não consegue estar presente. O Fritzlang de hoje não é nem sombra do Fritz de ontem.
MORAL DA HISTÓRIA - O melhor profeta do futuro é o passado... Ou, os que não se recordam do passado, estão condenados a repeti-lo... Ou, o tempo não perdoa nada daquilo que se faz sem ele. Ou, ainda...
Entre eles, o passado relutava em manter sua verdadeira identidade, estava sempre presente. E, não raro, o melhor das recordações que repartiam, é que elas nem eram assim tão verdadeiras. Alguns sonhos, assim como alguns filmes, haviam mudado de enredo.
Muitas coisas que repassavam e até muitos lugares que revisitavam, tinham mudado de cor, de tamanho, de estilo, de clima; em alguns bares, até de dono.
O próprio Conjunto Nacional já não era mais - apesar da revitalização - o maior shopping da América Latina.
Naquele início de noite, resolveram revisitar o velho e gostoso paraíso dos salsichões bávaros, o tedesco refúgio Fritzlang - numa das reentrâncias da Asa Sul que poderia ser chamada até de uma esquina de Brasília. Escolheram a mesa do canto lá do fundo, à beira do balcão que fazia fronteira com a boca da rua de movimento escasso.
Foram lá no velho Fritz rebuscar história, revirar passados, recapturar antigos bons momentos de vida que um e outro haviam desfrutado em outras queridas companhias. O passado não lhes despertava nenhum ciume. A não ser quando se transformava em presente. Quando o ontem vira hoje, ganha vida e mexe com a gente.
Os primeiros passos no Fritzlang revelaram ao Garanhão e à Tigresa que o lugar já não era mais o mesmo: menos charme, menos gente, menos algaravia, mais restaurante do que um bar legítimo da Bavária... Os rostos já não eram mais os de ontem; o pessoal de hoje ali da casa, muito menos.
Acomodaram-se. Veio o garçom. E foi. A entrada foi de beringelas recheadas de tomates desidratados. Um uísque com três pedras de gelo em uma dose chorada acima do nível do lago Paranoá para ele; um xarope light com o sigilo da Coca, para ela.
Antes que o garçom partisse, em busca dos filés de frango com salada à moda germânico-pioneira social, o Garanhão de Pelotas - meio em desencanto - provocou, sarcástico, o serviçal:
- Agora vamos querer refrigerante. Duas Cocas, com gelo e limão. Mas... Copo limpo, viu?
Pouco depois, o garçom chegava com o pedido: os frangos à milanesa, a salada e dois copos. Com a mesma gentil e estudada indiferença profissional que mantém os garçons à recomendável distância da clientela, ele quis saber:
- Foi o senhor, ou a senhora... Qual dos dois pediu copo limpo?
E sentindo-se vingado, afastou-se com um sorriso de hipocrisia na cara. O Garanhão e seu bem-querer tiveram ali mesmo, naquele momento, a certeza de que nem sempre o passado é teimoso quanto a sua essência e não consegue estar presente. O Fritzlang de hoje não é nem sombra do Fritz de ontem.
MORAL DA HISTÓRIA - O melhor profeta do futuro é o passado... Ou, os que não se recordam do passado, estão condenados a repeti-lo... Ou, o tempo não perdoa nada daquilo que se faz sem ele. Ou, ainda...
28 de jul. de 2011
O GRANDE CAUSÍDICO
Naquele meio de manhã, no amplo gabinete de seu escritório de advocacia, o Garanhão de Pelotas teve que interromper a mais perfeita imitação de Monica Lewinsky que sua secretária ruiva para assuntos orais praticava, para atender ao interfone.
Rearranjando-se com a languidez de quem já havia seguido o velho conselho de Marta Suplicy aos infortunados habitantes de aeroportos brasileiros, o Garanhão quis saber quem estaria precisando de seus préstimos jurídicos. Enquanto a ruiva se esgueirava por uma das três portas da luxuosa sala, o grande consultor ajeitou a gravata e prestou atenção:
- É um senhor que lida com carnes de alta qualidade... Deseja uma consulta.
- Dê-me trinta segundos e faça-o entrar - ripostou, pensando tratar-se de alguém assim como um executivo da Friboi, ou uma das tantas extensões do Grupo JBS, gigante mundial do comércio de carnes, organic beefs, ou coisa que o valha.
Em meio minuto, o Garanhão de Pelotas despertou o grande causídico que existia dentro dele. Ficou logo descortinando horizontes em que se via defendendo os interesses daquela que é uma das maiores empresas do mundo em processamento de proteína animal.
Viu-se atuando na defesa das áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno e latas. E até viajou um pouco na maionese: começaria a viajar por todos os continentes; visitaria plataformas de produção e conheceria os escritórios desse novo cliente - com lobistas de quem já andara falando tempos atrás - localizados no Brasil, Argentina, Itália, Austrália, EUA, Uruguai, Paraguai, México, China, Rússia e dezenas de outros países.
Saiu do sonho para a realidade, quando viu uma figura simples, bem arrumadinha e coisa e tal adentrar o seu recinto sagrado de grandes causas e maiores negócios. Nem levantou-se da escrivaninha de madeira-de-lei. Apenas fez um sinal para que o cliente lhe dissesse o que queria. E se dispôs a ouvir a razão da consulta:
- Doutor, se um cachorro roubar uma peça de grande valor do meu açougue, o dono dele é responsável?
- É.
- Então, doutor, passe pra cá 450 reais, porque foi o seu rottweiler que roubou a carne.
- Muito bem. E o senhor, por favor, ao sair deixe um cheque de R$ 2 mil, ali com a minha ex-secretária para pagar esta consulta!
O Garanhão desviou os olhos do grande cliente para a tela do computador, deu-lhe as costas e ainda escutou a porta do gabinete se fechar abafando o som de uma imprecação indignada. Esperou um minuto. Usou o interfone:
- Dona Maria Auxiliadora!
- Pois não, doutor...
- Você está despedida!!!
Em seguida, comunicou-se com a sala ao lado. Coisa de cinco minutos, não mais, a secretária ruiva era nomeada para o lugar de Maria Auxiliadora. Enquanto ela se acomodava nas novas funções, uma secretária morena escultural se encaminhava para o gabinete do chefe. O Garanhão queria falar com ela.
Segundo a morena susssurrou en passant para a nova secretária, o assunto tinha alguma coisa a ver com um cliente que lidava com cavalinhos aloprados e ele precisava praticar um pouco, antes de tratar diretamente com o patrocinador da ação.
MORAL DA HISTÓRIA - Onde e quando não há negócio, nasce a libertinagem.
Rearranjando-se com a languidez de quem já havia seguido o velho conselho de Marta Suplicy aos infortunados habitantes de aeroportos brasileiros, o Garanhão quis saber quem estaria precisando de seus préstimos jurídicos. Enquanto a ruiva se esgueirava por uma das três portas da luxuosa sala, o grande consultor ajeitou a gravata e prestou atenção:
- É um senhor que lida com carnes de alta qualidade... Deseja uma consulta.
- Dê-me trinta segundos e faça-o entrar - ripostou, pensando tratar-se de alguém assim como um executivo da Friboi, ou uma das tantas extensões do Grupo JBS, gigante mundial do comércio de carnes, organic beefs, ou coisa que o valha.
Em meio minuto, o Garanhão de Pelotas despertou o grande causídico que existia dentro dele. Ficou logo descortinando horizontes em que se via defendendo os interesses daquela que é uma das maiores empresas do mundo em processamento de proteína animal.
Viu-se atuando na defesa das áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno e latas. E até viajou um pouco na maionese: começaria a viajar por todos os continentes; visitaria plataformas de produção e conheceria os escritórios desse novo cliente - com lobistas de quem já andara falando tempos atrás - localizados no Brasil, Argentina, Itália, Austrália, EUA, Uruguai, Paraguai, México, China, Rússia e dezenas de outros países.
Saiu do sonho para a realidade, quando viu uma figura simples, bem arrumadinha e coisa e tal adentrar o seu recinto sagrado de grandes causas e maiores negócios. Nem levantou-se da escrivaninha de madeira-de-lei. Apenas fez um sinal para que o cliente lhe dissesse o que queria. E se dispôs a ouvir a razão da consulta:
- Doutor, se um cachorro roubar uma peça de grande valor do meu açougue, o dono dele é responsável?
- É.
- Então, doutor, passe pra cá 450 reais, porque foi o seu rottweiler que roubou a carne.
- Muito bem. E o senhor, por favor, ao sair deixe um cheque de R$ 2 mil, ali com a minha ex-secretária para pagar esta consulta!
O Garanhão desviou os olhos do grande cliente para a tela do computador, deu-lhe as costas e ainda escutou a porta do gabinete se fechar abafando o som de uma imprecação indignada. Esperou um minuto. Usou o interfone:
- Dona Maria Auxiliadora!
- Pois não, doutor...
- Você está despedida!!!
Em seguida, comunicou-se com a sala ao lado. Coisa de cinco minutos, não mais, a secretária ruiva era nomeada para o lugar de Maria Auxiliadora. Enquanto ela se acomodava nas novas funções, uma secretária morena escultural se encaminhava para o gabinete do chefe. O Garanhão queria falar com ela.
Segundo a morena susssurrou en passant para a nova secretária, o assunto tinha alguma coisa a ver com um cliente que lidava com cavalinhos aloprados e ele precisava praticar um pouco, antes de tratar diretamente com o patrocinador da ação.
MORAL DA HISTÓRIA - Onde e quando não há negócio, nasce a libertinagem.
27 de jul. de 2011
O GARANHÃO DÁ AS CARTAS EM MONACO
No pub do Luxury Hotel, no Principado de Mônaco, o Garanhão de Pelotas e a ruiva de suas três inseparáveis secretárias executáveis, encontaram os amigos Henry e Colette que haviam conhecido em Paris, na semana anterior.
Sorveram seus Dry Martinis como se fossem os últimos e resolveram ir para o Cassino Monte Carlo. Pouco depois, lá estavam jogando black jack e, um pouco de bacarat, para depois se dedicarem a um carteado a quatro, numa digníssima e exclusiva mesa redonda.
De repente, o Garanhão deixa cair umas cartas no chão. Ele se dobra pra baixo da mesa para pegar as cartas. Confirma o que já suspeitava: Colette, mulher de Henry não está usando calcinha.
O Garanhão emerge à mesa do carteado e, sem demonstrar qualquer sinal de distração ao jogo, segue a parada. Pouco depois, dirige-se ao balcão do bar com a desculpa de pegar mais um Martini. Colette, logo surgiu ao seu lado. Antes de pedir seu drink ela sussurrou coquete:
- Você viu algo interessante debaixo da mesa?
- Eu pagaria 50 mil dólares para ter o que vi.
- Pode ser seu, por 50 mil dólares!
O nosso espadachim de folheto confessa o seu interesse. Logo combinam um encontro para a tarde de sexta-feira da semana seguinte, quando - eles sabiam - o Garanhão estaria na dele e Henry num encontro marcado com o príncipe Louis Maxence Bertrand, no castelo das Grinaldas.
Na sexta-feira marcada, o Garanhão vai com tudo e, depois de fazer coisas do arco da velha e de muito roncar e fuçar por entre os lençóis de percal, pagou e não bufou a Colette os 50 mil dólares combinados. Despediram-se apaixonados, como se nunca mais fossem protagonizar um novo encontro.
Lá por volta das sete horas da tarde já com jeito de noite, Henry chega à suíte presidencial que ocupava com sua Colette no Luxury e, ainda na sacada de sua suíte, esbraveja e grita com a mulher:
- O Garanhão esteve com você, hoje de tarde?
Colette, relutante e quase indecisa, responde que sim. O marido quis saber mais:
- E ele lhe pagou 50 mil dólares?
- Quiospariu! Ele sabe de tudo - pensou Colette. E sentindo-se perdida, não se animou a negar:
- Sim, ele pagou. Pagou 50 mil e de boa vontade.
- Orra, que alivio! Na semana passada ele me pediu 50 mil dólares emprestados e me prometeu de pé junto que os pagaria hoje mesmo, sem falta. Passe, passe pra cá logo os meus 50 mil.
MORAL DA HISTÓRIA - Business is business, ou em matéria de dinheiro, engana os demais, porque senão eles te enganarão.
Sorveram seus Dry Martinis como se fossem os últimos e resolveram ir para o Cassino Monte Carlo. Pouco depois, lá estavam jogando black jack e, um pouco de bacarat, para depois se dedicarem a um carteado a quatro, numa digníssima e exclusiva mesa redonda.
De repente, o Garanhão deixa cair umas cartas no chão. Ele se dobra pra baixo da mesa para pegar as cartas. Confirma o que já suspeitava: Colette, mulher de Henry não está usando calcinha.
O Garanhão emerge à mesa do carteado e, sem demonstrar qualquer sinal de distração ao jogo, segue a parada. Pouco depois, dirige-se ao balcão do bar com a desculpa de pegar mais um Martini. Colette, logo surgiu ao seu lado. Antes de pedir seu drink ela sussurrou coquete:
- Você viu algo interessante debaixo da mesa?
- Eu pagaria 50 mil dólares para ter o que vi.
- Pode ser seu, por 50 mil dólares!
O nosso espadachim de folheto confessa o seu interesse. Logo combinam um encontro para a tarde de sexta-feira da semana seguinte, quando - eles sabiam - o Garanhão estaria na dele e Henry num encontro marcado com o príncipe Louis Maxence Bertrand, no castelo das Grinaldas.
Na sexta-feira marcada, o Garanhão vai com tudo e, depois de fazer coisas do arco da velha e de muito roncar e fuçar por entre os lençóis de percal, pagou e não bufou a Colette os 50 mil dólares combinados. Despediram-se apaixonados, como se nunca mais fossem protagonizar um novo encontro.
Lá por volta das sete horas da tarde já com jeito de noite, Henry chega à suíte presidencial que ocupava com sua Colette no Luxury e, ainda na sacada de sua suíte, esbraveja e grita com a mulher:
- O Garanhão esteve com você, hoje de tarde?
Colette, relutante e quase indecisa, responde que sim. O marido quis saber mais:
- E ele lhe pagou 50 mil dólares?
- Quiospariu! Ele sabe de tudo - pensou Colette. E sentindo-se perdida, não se animou a negar:
- Sim, ele pagou. Pagou 50 mil e de boa vontade.
- Orra, que alivio! Na semana passada ele me pediu 50 mil dólares emprestados e me prometeu de pé junto que os pagaria hoje mesmo, sem falta. Passe, passe pra cá logo os meus 50 mil.
MORAL DA HISTÓRIA - Business is business, ou em matéria de dinheiro, engana os demais, porque senão eles te enganarão.
26 de jul. de 2011
O GARANHÃO ADOLESCENTE NO EGITO
Sabe-se lá como e quando - que faz muito tempo, faz - o Garanhão de Pelotas foi parar no Egito. Era adolescente ainda. Suas mãos eram maiores do que seus bolsos. Gostou tanto daquelas paragens que resolveu ficar um bom tempo mais lá pelo Cairo. Queria exercitar seu jeito árabe de ser. A capital da República era um verdadeiro harém a céu aberto. Para ficar, vendeu a passagem de volta da Egipt Air e garantiu uma vaga de guia num dos museus da cidade.
Pouca prática, mas expedito comme d'habitude, não se apertava no fino trato que dispensava aos turistas. No fundo, no fundo sabia que os visitantes, por mais que soubessem da história daquele mundo fascinante, sabiam ainda menos, muito menos do que ele.
Não se apertava em nada. Se os turistas queriam saber se ele sabia falar francês, ele perguntava se eles não sabiam falar espanhol, inglês, árabe, ou coisa que valha. Usava um lenço para cada choro. Quanto à história antiga, então, era um mestre.
Certo dia, uma turista lisboeta quis saber do simpático e atencioso guia que figuras eram aquelas que ali estavam em seus esquifes, uma ao lado da outra:
- Que múmia é esta?
- Esta é a múmia de Cleópatra, minha senhora.
- E aquela menorzinha ali?
- Ah sim, aquela é a mesma Cleóptara, quando era criança.
E assim, saltitante e esperto, conseguiu manter-se no Cairo por uns bons dois ou três anos de sua juventude transviada. Dali foi para o Marrocos, mas isso já outra história que só quem pode contar é o pessoal da Legião Estrangeira.
MORAL DA HISTÓRIA - Para o Garanhão de Pelotas, a História sempre foi, na verdade, o reino da mentira.
Pouca prática, mas expedito comme d'habitude, não se apertava no fino trato que dispensava aos turistas. No fundo, no fundo sabia que os visitantes, por mais que soubessem da história daquele mundo fascinante, sabiam ainda menos, muito menos do que ele.
Não se apertava em nada. Se os turistas queriam saber se ele sabia falar francês, ele perguntava se eles não sabiam falar espanhol, inglês, árabe, ou coisa que valha. Usava um lenço para cada choro. Quanto à história antiga, então, era um mestre.
Certo dia, uma turista lisboeta quis saber do simpático e atencioso guia que figuras eram aquelas que ali estavam em seus esquifes, uma ao lado da outra:
- Que múmia é esta?
- Esta é a múmia de Cleópatra, minha senhora.
- E aquela menorzinha ali?
- Ah sim, aquela é a mesma Cleóptara, quando era criança.
E assim, saltitante e esperto, conseguiu manter-se no Cairo por uns bons dois ou três anos de sua juventude transviada. Dali foi para o Marrocos, mas isso já outra história que só quem pode contar é o pessoal da Legião Estrangeira.
MORAL DA HISTÓRIA - Para o Garanhão de Pelotas, a História sempre foi, na verdade, o reino da mentira.
25 de jul. de 2011
O GARANHÃO NO COQUETEL
O coquetel no Centro das Indústrias estava em plena efervescência. Como sempre, para marcar sua presença, o Garanhão de Pelotas estava chegando propositadamente atrasado a mais um encontro da alta roda citadina.
Elegante, bem trajado, boa pinta, charmoso e com o seu mais tradicional andar de nobreza displicente, atraía os olhares encantados das mulheres e uma ponta de inveja dos senhores dos anéis daquela boa parte da elite esfusiante.
Duas socialites interromperam as futricas que permeavam seus Dry Martinis e, sem dar qualquer importância para os respectivos maridos a seu lado, voltaram sua atenção para o nobre que adentrava o salão. Foi quando se deu o lépido e faceiro comentário:
- O Garanhão de Pelotas se veste bem, não?
- E depressa, também...
Um dos maridos escutou os fuxicos das duas damas. Seu casamento nunca mais foi o mesmo.
MORAL DA HISTÓRIA - Não fales, de maneira alguma, a não ser que tenhas algo que não podes calar.
Elegante, bem trajado, boa pinta, charmoso e com o seu mais tradicional andar de nobreza displicente, atraía os olhares encantados das mulheres e uma ponta de inveja dos senhores dos anéis daquela boa parte da elite esfusiante.- O Garanhão de Pelotas se veste bem, não?
- E depressa, também...
Um dos maridos escutou os fuxicos das duas damas. Seu casamento nunca mais foi o mesmo.
MORAL DA HISTÓRIA - Não fales, de maneira alguma, a não ser que tenhas algo que não podes calar.
24 de jul. de 2011
UMA ESPINGARDA POR UM ROLEX
O Garanhão de Pelotas morou muitos anos cercado pelo Mediterrâneo, mais precisamente em Palermo, por acaso capital da Sicília, por pura coincidência berço da Máfia. Foi lá que aprendeu o ofício de ser consultor de grande porte dos governos brasileiros desses últimos anos.
Por isso mesmo, nuncanahistoriadessepaís ele deixou de ser um pai zeloso e guardador de seus filhos, seus heróis, seus herdeiros. Sempre que descansava do duro ofício de lobista das coisas da vida pública que botava na privada, o Garanhão se recolhia ao doce aconhego do lar.
Sempre volteado por sua esposa de ocasião, suas indefectíveis três secretárias executáveis e pela filharada que produzia aos borbotões, posto que grana para a sua manutenção não era problema, o Garanhão era um exemplar chefe-de-famiglia.
Quando seu filho mais moço - naturalizado italiano como toda a prole - completou a maioridade, o nosso corruptível consultor republicano, deu-lhe de presente, como era hábito em Palermo, uma espingarda calibre 12 de cano serrado.
Passado bom tempo, libertando-se momentaneamente, num desses finais de semana, da azáfama de agradar a gregos e troianos nesse Brasilzão que os últimos governos transformaram num enorme cabungo, o Garanhão de Pelotas, a bem de conversa com seu caçula bem educado, quis saber por onde andava a espingarda.
O garotão, sempre delicado demais para o gosto paterno, disse com voz fina e melodiosa, cheia de admiração e certos temores pelo duro genitor:
- Troquei por um Rolex, meu pai.
O Garanhão saltou fora das calças, perdeu as estribeiras e só não livrou-se das cuecas porque, mais do que um trabuco ou coisa parecida, podia haver restos de dólares por ali que ainda não tinham sido encaminhados aos devidos destinos:
- Desgraciato! Uma espingarda por um relógio!
- Ma é de oro, signore.
- É um relógio, porca pipa! Quero só ver o quê você vai fazer no dia em que um patife qualquer le chiama putana la tua mama. Que cosa fa?!? Em vez de lhe dar um tiro, você vai dizer pra ele que são 3 horas da tarde?!?
MORAL DA HISTÓRIA - Nada mostra melhor a pesonalidade de cada um do que a maneira de comportar-se.
Por isso mesmo, nuncanahistoriadessepaís ele deixou de ser um pai zeloso e guardador de seus filhos, seus heróis, seus herdeiros. Sempre que descansava do duro ofício de lobista das coisas da vida pública que botava na privada, o Garanhão se recolhia ao doce aconhego do lar.
Sempre volteado por sua esposa de ocasião, suas indefectíveis três secretárias executáveis e pela filharada que produzia aos borbotões, posto que grana para a sua manutenção não era problema, o Garanhão era um exemplar chefe-de-famiglia.
Quando seu filho mais moço - naturalizado italiano como toda a prole - completou a maioridade, o nosso corruptível consultor republicano, deu-lhe de presente, como era hábito em Palermo, uma espingarda calibre 12 de cano serrado.
Passado bom tempo, libertando-se momentaneamente, num desses finais de semana, da azáfama de agradar a gregos e troianos nesse Brasilzão que os últimos governos transformaram num enorme cabungo, o Garanhão de Pelotas, a bem de conversa com seu caçula bem educado, quis saber por onde andava a espingarda.
O garotão, sempre delicado demais para o gosto paterno, disse com voz fina e melodiosa, cheia de admiração e certos temores pelo duro genitor:
- Troquei por um Rolex, meu pai.
O Garanhão saltou fora das calças, perdeu as estribeiras e só não livrou-se das cuecas porque, mais do que um trabuco ou coisa parecida, podia haver restos de dólares por ali que ainda não tinham sido encaminhados aos devidos destinos:
- Desgraciato! Uma espingarda por um relógio!
- Ma é de oro, signore.
- É um relógio, porca pipa! Quero só ver o quê você vai fazer no dia em que um patife qualquer le chiama putana la tua mama. Que cosa fa?!? Em vez de lhe dar um tiro, você vai dizer pra ele que são 3 horas da tarde?!?
MORAL DA HISTÓRIA - Nada mostra melhor a pesonalidade de cada um do que a maneira de comportar-se.
TEMPORADA RURAL DO GARANHÃO
O Garanhão de Pelotas dedicou mesmo esta semana para as suas vicissitudes ruralistas. Depois de aturar os discursos de palanque, das tradicionais aberturas políticas das feiras de gado que rondam o país, o nosso herói circundava os estandes de produtos em consreva, compotas e outras delícias da terra expostos à visitação pública.
O Garanhão passeava pelos caminhos da Expo-Feira citadina sob a escolta de sua loira secretária executável. A ruiva e a morena tinham ficado na Estância do Garanhuns-Bem-Querer, cuidando dos preparativos para mais uma churrascada de fogo de chão, prevista para o dia de amanhã. Coisa de 500 espetos para mais de 2 mil convidados da mais fina flor da sociedade - que o Garanhão não mija em guampa, tchê.
Conselheiro da Associação Inter-americana Aberdeen Angus, ao sair daquele pavilhão, rumo ao circuíto dos leiloeiros, pronto para dar o maior e melhor lance pelo Touro Sentado, campeão mundial da nobre raça bovina - melhor, taurina - o Garanhão segurou sua loira acompanhante pelo braço, salvando-a de ser atropelada por uma carroça cheia de adubo que se dirigia, já atrasada, para um dos locais de exposição-viva de produção agrícola. Um canteiro de produtos da terra que, tal e qual uma obra do PAC, não fora concluído a tempo.
Ela, ainda que agradecida, não deixou de ser crítica e curiosa:
- Que coisa horrível. Que cheiro pavoroso é esse, meu amo?!?
- É esterco para pôr nos morangos.
- Nooossa! Lá em casa a gente usa chantily!!!
MORAL DA HISTÓRIA - Quando uma loira é bonita, ainda que seja só isso, já é dotada o quanto basta para ser uma boa e vistosa secretária.
O Garanhão passeava pelos caminhos da Expo-Feira citadina sob a escolta de sua loira secretária executável. A ruiva e a morena tinham ficado na Estância do Garanhuns-Bem-Querer, cuidando dos preparativos para mais uma churrascada de fogo de chão, prevista para o dia de amanhã. Coisa de 500 espetos para mais de 2 mil convidados da mais fina flor da sociedade - que o Garanhão não mija em guampa, tchê.
Conselheiro da Associação Inter-americana Aberdeen Angus, ao sair daquele pavilhão, rumo ao circuíto dos leiloeiros, pronto para dar o maior e melhor lance pelo Touro Sentado, campeão mundial da nobre raça bovina - melhor, taurina - o Garanhão segurou sua loira acompanhante pelo braço, salvando-a de ser atropelada por uma carroça cheia de adubo que se dirigia, já atrasada, para um dos locais de exposição-viva de produção agrícola. Um canteiro de produtos da terra que, tal e qual uma obra do PAC, não fora concluído a tempo.
Ela, ainda que agradecida, não deixou de ser crítica e curiosa:
- Que coisa horrível. Que cheiro pavoroso é esse, meu amo?!?
- É esterco para pôr nos morangos.
- Nooossa! Lá em casa a gente usa chantily!!!
MORAL DA HISTÓRIA - Quando uma loira é bonita, ainda que seja só isso, já é dotada o quanto basta para ser uma boa e vistosa secretária.
23 de jul. de 2011
AMY WINEHOUSE ENCONTRADA MORTA
A cantora mais poplouca da música britânica tinha 27 anos foi encontrada morta às quatro da tarde (horário local) na sua casa, em Londres. Isso mesmo, assim como você, todos acham que foi por overdose. Winehouse veio uma única vez ao Brasil. Foi em janeiro para realizar uma série de shows. Deixou por aqui um rastro de bons espetáculos, droga, bebida e rock'n roll.
O GARANHÃO NA SUA EXPO-FEIRA
O Garanhão de Pelotas amanheceu com pendores rurais. Levantou-se, abriu o janelão do quarto e foi para a sacada olhar de frente o dia nascer fulgurante, com cheiro de pasto, de flores silvestres naquele seu recanto colonial, onde o galo véio já tinha dado o ar da graça e permitido que o sol nascesse uma vez mais.
Essa sensação de campanha, de vida rural; essa vontade de tomar leite quente saído dos úberes de sua Clarabela, paixão do Rocambole, seu touro premiado, tinha razão de ser: era dia de abertura de mais uma Expo-Feira no seu torrão natal.
Rocambole
Pronto, o Garanhão vestira a carapuça. Sentia que estava despertando apenas porque era dia de feira. Sem mais delongas, cometeu o rito sagrado de seu quebra-jejum e foi ao banho de espuma... Lá pelas dez horas daquela manhã radiosa já ultrapassara a porteira do salão de exposições da Sociedade Agrícola, promotora do evento.
Sua cidade era mesmo uma gauchinha bem-querer, de nariz impinado e coluna vertebral inquebrantável. Mesmo com toda a crise, fingia anos dourados; mesmo com ameaças veladas de aftosa, mesmo com os bancos estrinicando juros e financiamentos, ainda assim ela insistia nas suas origens telúricas. Jamais deixava de realizar, religiosa e anualmente, a sua grande expo-feira. Não fazia mal nenhum que os compradores e vendedores fossem sempre os mesmos.
Eis que, de repente, o Garanhão se encontra com um velho conhecido, grande ruralista regional e bom de negócios. Sem mais o que fazer, enquanto o primeiro leilão não começava, a bem de conversa os dois passaram a avaliar os resultados de alguns antigos negócios bem feitos. Note que o Garanhão é tão compenetrado nesses momentos que muda até o sotaque:
- Tchê, tu te lembras daquele cavalo crioulo que eu rematei por R$ 50 mil, na feira do ano passado?
- Mas bah, claro que me lembro. Tô sabendo que tu o vendeste pelo dobro do preço.
- Pois é verdade, tchê. Eu comprei por 50 mil e vendi por 100.
- À las pombas, mas que negócio loco de bom...
- Quê nada, não ganhei nem perdi.
- Mas, como se deu isso, meu galo?...
- É que com o financiamento eu comprei o cavalo e não paguei. Aí, vendi e não me pagaram.
O Garanhão nem se abalou. Sabia que era assim mesmo. Há muitos e muitos anos que a expo-feira era uma grande vitrine para grandes transações na base do faz-de-conta que se realizavam sempre entre os mesmos compradores e vendedores. Mantinha o status e a peladura.
Ele mesmo estava ali só pra isso. E já inscrevera a sua cabanha em mais aquela edição da tradicional grande feira. Ia dar negócio. A agricultura e a pecuária se prestam para essas coisas.
O Garanhão de Pelotas abraçou o ruralista amigo e, juntos, foram para a praça central da feira, um local apropriado para garden parties negociais, onde havia um palanque montado à espera de um tal de Rossi que, se eles não estavam enganados, era até ministro da Agricultura. Pompa e circunstância é o que não falta nessas horas.
MORAL DA HISTÓRIA - Oh! Que formosa aparência tem a falsidade! (William Shakespeare - The Merchant of Venice)
Essa sensação de campanha, de vida rural; essa vontade de tomar leite quente saído dos úberes de sua Clarabela, paixão do Rocambole, seu touro premiado, tinha razão de ser: era dia de abertura de mais uma Expo-Feira no seu torrão natal.
Rocambole
Pronto, o Garanhão vestira a carapuça. Sentia que estava despertando apenas porque era dia de feira. Sem mais delongas, cometeu o rito sagrado de seu quebra-jejum e foi ao banho de espuma... Lá pelas dez horas daquela manhã radiosa já ultrapassara a porteira do salão de exposições da Sociedade Agrícola, promotora do evento.
Sua cidade era mesmo uma gauchinha bem-querer, de nariz impinado e coluna vertebral inquebrantável. Mesmo com toda a crise, fingia anos dourados; mesmo com ameaças veladas de aftosa, mesmo com os bancos estrinicando juros e financiamentos, ainda assim ela insistia nas suas origens telúricas. Jamais deixava de realizar, religiosa e anualmente, a sua grande expo-feira. Não fazia mal nenhum que os compradores e vendedores fossem sempre os mesmos.
Clarabela
Pois, ali estava a Sociedade Agrícola a bancar, uma vez mais, o circuíto regional de bovinos, ovinos, equinos e hinos de tudo quanto era louvor. Negociar era preciso; sempre foi. A feira repercutia pelas campinas adentro e pelos anos afora. Virava assunto pro ano todo, todos os anos.Eis que, de repente, o Garanhão se encontra com um velho conhecido, grande ruralista regional e bom de negócios. Sem mais o que fazer, enquanto o primeiro leilão não começava, a bem de conversa os dois passaram a avaliar os resultados de alguns antigos negócios bem feitos. Note que o Garanhão é tão compenetrado nesses momentos que muda até o sotaque:
- Tchê, tu te lembras daquele cavalo crioulo que eu rematei por R$ 50 mil, na feira do ano passado?
- Mas bah, claro que me lembro. Tô sabendo que tu o vendeste pelo dobro do preço.
- Pois é verdade, tchê. Eu comprei por 50 mil e vendi por 100.
- À las pombas, mas que negócio loco de bom...
- Quê nada, não ganhei nem perdi.
- Mas, como se deu isso, meu galo?...
- É que com o financiamento eu comprei o cavalo e não paguei. Aí, vendi e não me pagaram.
O Garanhão nem se abalou. Sabia que era assim mesmo. Há muitos e muitos anos que a expo-feira era uma grande vitrine para grandes transações na base do faz-de-conta que se realizavam sempre entre os mesmos compradores e vendedores. Mantinha o status e a peladura.
Ele mesmo estava ali só pra isso. E já inscrevera a sua cabanha em mais aquela edição da tradicional grande feira. Ia dar negócio. A agricultura e a pecuária se prestam para essas coisas.
O Garanhão de Pelotas abraçou o ruralista amigo e, juntos, foram para a praça central da feira, um local apropriado para garden parties negociais, onde havia um palanque montado à espera de um tal de Rossi que, se eles não estavam enganados, era até ministro da Agricultura. Pompa e circunstância é o que não falta nessas horas.
MORAL DA HISTÓRIA - Oh! Que formosa aparência tem a falsidade! (William Shakespeare - The Merchant of Venice)
20 de jul. de 2011
O Garanhão e o Peru
O Garanhão de Pelotas, todo mundo sabe, foi craque de bola. Meio de campo elegante, cabeça em pé, solidário, armador dadivoso na distribuição de passes e, além disso, um goleador implacável, um matador de primeira linha.
Até hoje é fanático por futebol. Como o Brasil de Mano foi pras cucuias, nem pegou pipoca ou guaraná para assistir os urugauios pegando o Peru. Foi lá, simplesmente, e viu. Feliz da vida, pois para sua alegria, Mano Menezes não estava na orla do gramado.
Sabe-se lá por quê, o Garanhão fixou-se no Peru. E só vai falar nisso. Vai demonstrá-lo em frases curtas, quase desconexas. Sinta você agora o que é um Peru no dia seguinte:
Antes de mais nada é bom que se registre: ver Uruguai x Peru sem ter na arquibancada aquelas torcedoras paraguaias de seios legítimos, não tem a menor graça. O Garanhão não sentiu a menor atração o tempo todo.
Deu para ver que os uruguaios gostaram de pegar o Peru.
A torcida feminina foi ao delírio quando o Peru entrou. Ao começar o aquecimento, então, nem se fala.
Os urugauios não esperavam que o Peru fosse endurecer daquela maneira.
A zaga uruguaia começou fechadinha, mas aos poucos foi cedendo e deixou o Peru entrar à vontade.
A torcedora para a amiga: - O que você achou do Peru?
A amiga para a torcedora: - Queria que ele fosse mais ousado.
A defesa uruguaia se abriu de tal maneira que o Peru entrou fácil pelo meio.
O Peru entrou com tudo e os ourugauios se acomodaram.
Já nos movimentos preliminares os urugauios perceberam: o Peru é mole.
O Peru era insistente queria, porque queria, jogar enfiado no meio.
A torcedora paraguaia de seios plásticos se desiludiu ao sentir que o Peru não jogava chongas. Viu que o Peru é só uma rima.
O técnico do Peru entrou na casamata só para dar peruada.
Aí, o árbitro endureceu com o técnico peruano: - O quê que há com o teu Peru?!?
Viu-se logo: o perigo do Peru está na ponta.
A bem da verdade, os uruguaios aguentaram com galhardia o Peru. Tanto é que quando cansaram do assédio do Peru... sentaram.
Durante o tempo todo o Peru só enfiou duas bolas no fundo.
Suárez furou o Peru aos 8 minutos do segundo ato; aos 13 minutos, gostou de judiar do Peru e meteu de novo: 2 x 0.
Só então o Peru começou a mostrar virilidade.
E, sem mais delongas, o Peru não conseguiu ficar e nem sair de cima. E acabou no encontro com os ururguaios. Foi bom para os dois... Os uruguaios, no entanto, gostaram mais; aproveitaram muito mais...
De qualquer forma, confirmou-se a tradição: o Peru morreu na véspera.
Da parte do Garanhão de Pelotas... Sabe-se lá por quê cargas d'água, ele saiu da sala e foi para a frente do computador com uma vontade esquisita... Hoje, ele resolveu meter o Peru de tudo que é jeito.
Até hoje é fanático por futebol. Como o Brasil de Mano foi pras cucuias, nem pegou pipoca ou guaraná para assistir os urugauios pegando o Peru. Foi lá, simplesmente, e viu. Feliz da vida, pois para sua alegria, Mano Menezes não estava na orla do gramado.
Sabe-se lá por quê, o Garanhão fixou-se no Peru. E só vai falar nisso. Vai demonstrá-lo em frases curtas, quase desconexas. Sinta você agora o que é um Peru no dia seguinte:
Antes de mais nada é bom que se registre: ver Uruguai x Peru sem ter na arquibancada aquelas torcedoras paraguaias de seios legítimos, não tem a menor graça. O Garanhão não sentiu a menor atração o tempo todo.
Deu para ver que os uruguaios gostaram de pegar o Peru.
A torcida feminina foi ao delírio quando o Peru entrou. Ao começar o aquecimento, então, nem se fala.
Os urugauios não esperavam que o Peru fosse endurecer daquela maneira.
A zaga uruguaia começou fechadinha, mas aos poucos foi cedendo e deixou o Peru entrar à vontade.
A torcedora para a amiga: - O que você achou do Peru?
A amiga para a torcedora: - Queria que ele fosse mais ousado.
A defesa uruguaia se abriu de tal maneira que o Peru entrou fácil pelo meio.
O Peru entrou com tudo e os ourugauios se acomodaram.
Já nos movimentos preliminares os urugauios perceberam: o Peru é mole.
O Peru era insistente queria, porque queria, jogar enfiado no meio.
A torcedora paraguaia de seios plásticos se desiludiu ao sentir que o Peru não jogava chongas. Viu que o Peru é só uma rima.
O técnico do Peru entrou na casamata só para dar peruada.
Aí, o árbitro endureceu com o técnico peruano: - O quê que há com o teu Peru?!?
Viu-se logo: o perigo do Peru está na ponta.
A bem da verdade, os uruguaios aguentaram com galhardia o Peru. Tanto é que quando cansaram do assédio do Peru... sentaram.
Durante o tempo todo o Peru só enfiou duas bolas no fundo.
Suárez furou o Peru aos 8 minutos do segundo ato; aos 13 minutos, gostou de judiar do Peru e meteu de novo: 2 x 0.
Só então o Peru começou a mostrar virilidade.
E, sem mais delongas, o Peru não conseguiu ficar e nem sair de cima. E acabou no encontro com os ururguaios. Foi bom para os dois... Os uruguaios, no entanto, gostaram mais; aproveitaram muito mais...
De qualquer forma, confirmou-se a tradição: o Peru morreu na véspera.
Da parte do Garanhão de Pelotas... Sabe-se lá por quê cargas d'água, ele saiu da sala e foi para a frente do computador com uma vontade esquisita... Hoje, ele resolveu meter o Peru de tudo que é jeito.
18 de jul. de 2011
AS SAÍDAS DO GARANHÃO
Há pequenas aventuras no cotidiano do Garanhão de Pelotas que ele gosta de viver até um certo ponto. Pequenas coisas que significam muito. Por exemplo: gosta de escrever, mas... Ai de quem se meta a ficar do seu lado tamborilando com um lápis, ou uma canetinha Bic no tampo da mesa de reunião. Ele sobe nas tamancas. Tem vontade de deixar a vida de escritor.
Nada melhor para ele do que, no meio do dia, tomar um bom banho de ducha, mais para quente do que para morno. Adora el tintineo da água no seu corpo. Pero, no mucho! Detesta a lida da vida de ter que se enxugar. Pô que dose aquela esfregação onânica e felpuda em suas costas que, invariavelmente, ficam úmidas e mal enxutas.
Gosta de se sentir magrão e esbelto. Mas gosta mais dos prazeres da mesa, do aroma e do sabor dos vinhos espanhóis e chilenos. E de conversar com os rótulos que procedem das margens do Reno, ou dos vinhedos italianos. E fica gordo.
Outra mania do seu modus vivendi: não sabe ser feliz sozinho. Volta e meia casa. Casa despapelado, sem cartório; só para carimbar... E já sabe, tem que descasar. É que ele precisa encontrar a sua alma nem tão gêmea assim, mas uma alma que o contrarie só um pouquinho e de vez em quando; uma alma que seja o seu espírito de porco; o seu espírito e o seu corpo.
Para todas as a/venturas o Garanhão de Pelotas tem suas próprias soluções. Às vezes dá com os burros n'água. Mas - você já sabe - água é um troço que lhe cai bem. Num banho a dois, numa banheira de espuma então... Nada melhor para rejuntar colunas, desdobrar pequenos prazeres, limpar as agruras do dia, limpar a barra.
Pois, olha o que ele inventa... Para o caso das canetinhas incomodativas, ele determinou que anotações nas reuniões de suas empresas, sejam feitas apenas a lápis. Por isso, já tratou de proibir apontadores manuais e mandou quebrar todas as pontas de grafite que surjam por acaso nesses encontros negociais.
No que tange às enxugações compulsórias pós-banho, ele resolveu a questão: faz do banheiro uma verdadeira peça de academia, mais que enxugar-se, ele se deixa massagear - no bom sentido - por uma de suas três secretárias executáveis, sempre disponíveis para serviços de qualquer natureza humana.
Já para o último casamento, tipo assim aberto, ele andou quebrando a cabeça. Queria sair daquilo em razão de ter sentido no latir de su corazón o aviso de que uma bruxa boa lhe trazia bons fados e lhe despertava, de repente, a quase esquecida alegria de viver.
Queria, mas tinha cutucões de dó e piedade que lhe provocavam lembrancinhas bobas. Recordou-se de quando, ao trocar de moradia - saía de uma mansão em Montevidéu para um confortável apartamento na Gorlero, rua que leva ao Conrad Resort, capital de Punta del Este que, por sua vez, é a única e verdadeira capital do Uruguai, teve que se desfazer de Gato, o seu cãozinho de estimação.
Deu uma dor do cão no Garanhão. Gato era só um bichinho, mas a separação foi doída. Como tudo na vida, deu, doeu e... passou.
E foi assim, pensando nessas dores de partidas para sempre, que o Garanhão foi procurar a solução para desfazer aquela união já desgastada. Uma união aberta - como já se sabe.
Ela, Zuleide - seu nome era Zuleide, desde que que nascera até o primeiro encontro com o Garanhão - tirava temporadas longe de casa. Passava um, dois mêses, ou mais, na sua própria casa, num desses interiores do mundo. E ele, feliz da vida, ficava na dele. Muito na dele.
Pois, foi nisso, exatamente nisso e nessas alturas que o Garanhão encontrou o jeito nobre que lhe vai na alma de dar um fim ao que já estava terminado há muito tempo e, no entanto, ainda junto, teimosamente unido, apegado - quem sabe até - colado, demasiadamente colado.
Naquele dia mesmo, coisa de 45 ou 50 dias de separação consentida, o Garanhão de Pelotas telefonou para Zuleide. Ela, de pronto, atendeu:
- Olá, tudo bem, meu anjo?
- Oi tudo bem, Zuleika.
- Como foi que você me chamou?...
- Zuleika, meu bem...
- Zuleika?!?
- Zulei... Zuleide, Zuleide!
- Zuleika é a mãe, seu cretino!!!
O Garanhão nem chegou a completar a terceira cínica tentativa de chamá-la pelo nome de nascença. A batida do telefone ficou ressoando nos seus ouvidos moucos. Nunca mais o Garanhão soube de Zuleide. Nem ela, jamais, quis saber do desalmado lorde infiel. Maldito traidor!
E dessa forma solteiro e desimpedido, o Garanhão de Pelotas pôde enfim dedicar-se de alma, coração e vida à bruxa bonita, de lábios com gosto de café quentinho, de olhos curiosos que desvendavam seu mundo, de mãos macias que carregavam seu coração.
Desse jeito dedicado e entregue, o Garanhão e sua Bruxita viveram juntos por muitos e muitos anos e foram felizes para sempre.
MORAL DA HISTÓRIA - As mulheres perdoam as injúrias e as traições, mas não esquecem o desdém. E esta é uma saída para quem acha que sempre há uma forma de se resolver qualquer coisa na vida.
Nada melhor para ele do que, no meio do dia, tomar um bom banho de ducha, mais para quente do que para morno. Adora el tintineo da água no seu corpo. Pero, no mucho! Detesta a lida da vida de ter que se enxugar. Pô que dose aquela esfregação onânica e felpuda em suas costas que, invariavelmente, ficam úmidas e mal enxutas.
Gosta de se sentir magrão e esbelto. Mas gosta mais dos prazeres da mesa, do aroma e do sabor dos vinhos espanhóis e chilenos. E de conversar com os rótulos que procedem das margens do Reno, ou dos vinhedos italianos. E fica gordo.
Outra mania do seu modus vivendi: não sabe ser feliz sozinho. Volta e meia casa. Casa despapelado, sem cartório; só para carimbar... E já sabe, tem que descasar. É que ele precisa encontrar a sua alma nem tão gêmea assim, mas uma alma que o contrarie só um pouquinho e de vez em quando; uma alma que seja o seu espírito de porco; o seu espírito e o seu corpo.
Para todas as a/venturas o Garanhão de Pelotas tem suas próprias soluções. Às vezes dá com os burros n'água. Mas - você já sabe - água é um troço que lhe cai bem. Num banho a dois, numa banheira de espuma então... Nada melhor para rejuntar colunas, desdobrar pequenos prazeres, limpar as agruras do dia, limpar a barra.
Pois, olha o que ele inventa... Para o caso das canetinhas incomodativas, ele determinou que anotações nas reuniões de suas empresas, sejam feitas apenas a lápis. Por isso, já tratou de proibir apontadores manuais e mandou quebrar todas as pontas de grafite que surjam por acaso nesses encontros negociais.
No que tange às enxugações compulsórias pós-banho, ele resolveu a questão: faz do banheiro uma verdadeira peça de academia, mais que enxugar-se, ele se deixa massagear - no bom sentido - por uma de suas três secretárias executáveis, sempre disponíveis para serviços de qualquer natureza humana.
Já para o último casamento, tipo assim aberto, ele andou quebrando a cabeça. Queria sair daquilo em razão de ter sentido no latir de su corazón o aviso de que uma bruxa boa lhe trazia bons fados e lhe despertava, de repente, a quase esquecida alegria de viver.
Queria, mas tinha cutucões de dó e piedade que lhe provocavam lembrancinhas bobas. Recordou-se de quando, ao trocar de moradia - saía de uma mansão em Montevidéu para um confortável apartamento na Gorlero, rua que leva ao Conrad Resort, capital de Punta del Este que, por sua vez, é a única e verdadeira capital do Uruguai, teve que se desfazer de Gato, o seu cãozinho de estimação.
Deu uma dor do cão no Garanhão. Gato era só um bichinho, mas a separação foi doída. Como tudo na vida, deu, doeu e... passou.
E foi assim, pensando nessas dores de partidas para sempre, que o Garanhão foi procurar a solução para desfazer aquela união já desgastada. Uma união aberta - como já se sabe.
Ela, Zuleide - seu nome era Zuleide, desde que que nascera até o primeiro encontro com o Garanhão - tirava temporadas longe de casa. Passava um, dois mêses, ou mais, na sua própria casa, num desses interiores do mundo. E ele, feliz da vida, ficava na dele. Muito na dele.
Pois, foi nisso, exatamente nisso e nessas alturas que o Garanhão encontrou o jeito nobre que lhe vai na alma de dar um fim ao que já estava terminado há muito tempo e, no entanto, ainda junto, teimosamente unido, apegado - quem sabe até - colado, demasiadamente colado.
Naquele dia mesmo, coisa de 45 ou 50 dias de separação consentida, o Garanhão de Pelotas telefonou para Zuleide. Ela, de pronto, atendeu:
- Olá, tudo bem, meu anjo?
- Oi tudo bem, Zuleika.
- Como foi que você me chamou?...
- Zuleika, meu bem...
- Zuleika?!?
- Zulei... Zuleide, Zuleide!
- Zuleika é a mãe, seu cretino!!!
O Garanhão nem chegou a completar a terceira cínica tentativa de chamá-la pelo nome de nascença. A batida do telefone ficou ressoando nos seus ouvidos moucos. Nunca mais o Garanhão soube de Zuleide. Nem ela, jamais, quis saber do desalmado lorde infiel. Maldito traidor!
E dessa forma solteiro e desimpedido, o Garanhão de Pelotas pôde enfim dedicar-se de alma, coração e vida à bruxa bonita, de lábios com gosto de café quentinho, de olhos curiosos que desvendavam seu mundo, de mãos macias que carregavam seu coração.
Desse jeito dedicado e entregue, o Garanhão e sua Bruxita viveram juntos por muitos e muitos anos e foram felizes para sempre.
MORAL DA HISTÓRIA - As mulheres perdoam as injúrias e as traições, mas não esquecem o desdém. E esta é uma saída para quem acha que sempre há uma forma de se resolver qualquer coisa na vida.
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