1 de ago de 2011

O LÍDER

Por mais que lute e relute consigo mesmo, o Garanhão de Pelotas  tem uma coisa assim por dentro que não o deixa mentir. Não é sempre. Mas há dias em que ele é assim e pronto.

Estava o nosso nobre numa daquelas noites de happy hour interminável em Brasília. Tinha começado a bebericar com os colegas deputados, senadores e lobistas, desde cedo. Saíra de um dos Ministérios em que mandava e desmandava por volta de seis e meia da tarde já com espírito de porco.

Passou pela Churrascaria do Lago, se esbaldou numa Koskenkorva com nacos de laranja em casca, sentiu-se mais líder do que nunca e, abandonando suas cansativas amizades resolveu ir sozinho e mal acompanhado ao Gaf - um bunker, boate-bar-restaurante da moda, lá nos escurinhos do Gilberto Salomão - ilhota de grandes aventuras pretéritas na Capital da República.

Um pouco antes, passou pelo restaurante e choperia Bierfass na esquina daquela antiga vida agitada brasiliense, deu uma canja ao piano da casa, cantando Night and Day à moda Sammy Davis, bem melhor que Frank Sinatra homenageando Cole Porter.

Encaminhou-se para o Gaf. Entrou com seu mais despojado ar de nobreza e, só por isso, a boate se iluminou como se lua crescente tivesse ficado prenhe e, assim, cheia de si mesma tivesse invadido o salão. Seu olhar de lince caiu numa mesa redonda ocupada por quatro amigas estonteantes, alegres, descontraídas, bonitas, cercadas de queijos e vinhos.

O Garanhão  dirigiu-se garboso e tentador para o balcão, onde já o esperava uma finlandesa Koskenkorva congelada, rodeada por laranjas in natura. O olhar do quarteto arrasador convergiu todinho para a figura de displicente elegância. Um par de olhos, no entanto, sobrepujou aos outros. Eram os olhos de Maria Rita. Olhos vivos, espertos que a levaram a tomar a dianteira sobre as demais companheiras sequiosas por aquele bom-partido:

- Gurias, olhali, olhali o meu ídolo! É ele! O Garanhão de Pelotas!!!!!!
- Quiéisso, menina?!? - espantou-se Dolores Sierra.
- É eeele, é eeele, meu ídolo, meu líder! Não acredito. Ele está aqui. Minha paixão.
- Você endoidou, guria - disse Isabel, moderadora.
- Quê quieu faço? Não posso perder essa chance... E ele tá me olhando, me olhaaaando!!!
- Então, dá um jeito. Chama o garçom e manda um torpedo - aconselhou Maria Joana.

Não demorou nada o torpedo foi detonado. Enquanto acertava o alvo, Maria Rita disse que para motel não iria com aquele seu ídolo maravilhoso, líder fantástico de suas jornadas de juventude rebelde com causa, de sonhos revolucionários e coisas assim que mudariam o Brasil se tivessem dado certo.

Isabel, louca para acabar com aquele mini-escândalo, foi lépida e faceira:

- Tome, pegue aqui a chave do meu apartamento. Eu e Maria Joana dormiremos nop apê da Dolores e você carrega o seu líder para o meu refúgio. Fique lá até a hora que quiser. Amanhã no almoço a gente se fala. E você nos conta as novidades.
- Combinado - disse Maria Rita, agradecida.

Passaram-se duas ou dez vodcas para o Garanhão  e uma garrafa e meia de vinho para Maria Rita e suas amigas, até que o torpedo fez efeito. Consumada a aproximação, Maria Rita e o Garanhão de Pelotas  saíram de braço dado e muito íntimos, pela porta principal do Gaf, deixando a noite quase sem brilho para trás.

As outras três amigas ainda estavam imaginando loucuras à bordo da mesinha de degustações, namoriscos alhures e mais vinho de idioma chileno com sotaque do Vale de Maipo, quando o telefone de uma delas tocou. Não eram duas horas da madrugada, ainda. A voz de Maria Rita reverberava nos ouvidos de Dolores Sierra:

- Gurias, gurias... Você não vão acreditar... Venham pra cá, venham pra cá - apelava a namoradeira.
- Mas, o que foi que houve?
- Nem conto nada procês... Venham, venham pra cá. Vamos terminar a noite por aqui.

Logo as três amigas se mandaram para a Asa Norte, morrendo de curiosidade. Loucas para saber as novidades. Invadiram o apartamento e ficaram frente a frente com Maria Rita, sozinha, vestida dos pés à cabeça e morrendo de rir no enorme sofá da confortável sala. Morria de riso nervoso.

- O que foi, sua maluca; o que foi que aconteceu? - quiseram saber as três.
- O meu líder é um horrooooor!
- Como assim? - tentou saber Isabel.
- Um horror, esse líder é um pavoooor!
- Brochou? - perguntou Maria Joana
- Pior... Que líder de merda!
- É picorrucho; tem aquilo roxo?... - tentou adivinhar Dolores.
- Quê nada. Que nada, não! Quê tudo! O cara é brocha; é picorrucho e grosso, sem noção!
- O que foi, então, conta logo - implorou o trio afinado e a uma só voz.

Aí, Maria Rita não aguentou e, aos risos largos e nervosos, contou o diálogo que mandou para os porões das mais frias noites de desilusão o que nem bem tinha começado a acontecer e já terminara:

- Chegamos aqui abraçados. Caímos nesse tapete aqui ó. Nos beijamos, meio que nos mordemos devagarinho, fomos tirando as roupas e eu, eu enloqueci nos braços daquele meu herói da juventude; aquele meu ídolo; meu líder...
- E aí, aí?... - quiseram saber mais.
- Aí eu consegui falar com ele... Quase sufocando.
- O cara é tardo, te bateu? Conta logo, porra!

E ela então descreveu a cena. Ele já estava sentado no sofá. Aquele homão, seu ídolo, seu líder.. E ela não resistiu. Ela própria que ronrornou para o líder:

- Vem, meu líder... Vem me faz sentir mulher.

O Garanhão de Pelotas  prontamente tirou a roupa e jogou-a para os seus braços abertos:

- Toma! Amanhã de manhã, você as lava e passa pra mim.

Seu mundo caiu. Maria Rita só lhe deu tempo para enfiar-se de novo nas calças e sair porta afora. Escatafedera-se ali o sonho de uma revolucionária. Seu líder era um ídolo de pés de barro.

MORAL DA HISTÓRIA - Você pensa o quê? Que o Garanhão  é que nem o Didi Mocó aquele dos Trapalhões que não perde nunca?!?