23 de jul de 2011

O GARANHÃO NA SUA EXPO-FEIRA

O Garanhão de Pelotas  amanheceu com pendores rurais. Levantou-se, abriu o janelão do quarto e foi para a sacada olhar de frente o dia nascer fulgurante, com cheiro de pasto, de flores silvestres naquele seu recanto colonial, onde o galo véio já tinha dado o ar da graça e permitido que o sol nascesse uma vez mais.

Essa sensação de campanha, de vida rural; essa vontade de tomar leite quente saído dos úberes de sua Clarabela, paixão do Rocambole, seu touro premiado, tinha razão de ser: era dia de abertura de mais uma Expo-Feira no seu torrão natal.

Rocambole
Pronto, o Garanhão  vestira a carapuça. Sentia que estava despertando apenas porque era dia de feira. Sem mais delongas, cometeu o rito sagrado de seu quebra-jejum e foi ao banho de espuma... Lá pelas dez horas daquela manhã radiosa já ultrapassara a porteira do salão de exposições da Sociedade Agrícola, promotora do evento.

Sua cidade era mesmo uma gauchinha bem-querer, de nariz impinado e coluna vertebral inquebrantável. Mesmo com toda a crise, fingia anos dourados; mesmo com ameaças veladas de aftosa, mesmo com os bancos estrinicando juros e financiamentos, ainda assim ela insistia nas suas origens telúricas. Jamais deixava de realizar, religiosa e anualmente, a sua grande expo-feira. Não fazia mal nenhum que os compradores e vendedores fossem sempre os mesmos.

Clarabela
Pois, ali estava a Sociedade Agrícola a bancar, uma vez mais, o circuíto regional de bovinos, ovinos, equinos e hinos de tudo quanto era louvor. Negociar era preciso; sempre foi. A feira repercutia pelas campinas adentro e pelos anos afora. Virava assunto pro ano todo, todos os anos.

Eis que, de repente, o Garanhão  se encontra com um velho conhecido, grande ruralista regional e bom de negócios. Sem mais o que fazer, enquanto o primeiro leilão não começava, a bem de conversa os dois passaram a avaliar os resultados de alguns antigos negócios bem feitos. Note que o Garanhão  é tão compenetrado nesses momentos que muda até o sotaque:

- Tchê, tu te lembras daquele cavalo crioulo que eu rematei por R$ 50 mil, na feira do ano passado?
- Mas bah, claro que me lembro. Tô sabendo que tu o vendeste pelo dobro do preço.
- Pois é verdade, tchê. Eu comprei por 50 mil e vendi por 100.
- À las pombas, mas que negócio loco de bom...
- Quê nada, não ganhei nem perdi.
- Mas, como se deu isso, meu galo?...
- É que com o financiamento eu comprei o cavalo e não paguei. Aí, vendi e não me pagaram.

O Garanhão  nem se abalou. Sabia que era assim mesmo. Há muitos e muitos anos que a expo-feira era uma grande vitrine para grandes transações na base do faz-de-conta que se realizavam sempre entre os mesmos compradores e vendedores. Mantinha o status e a peladura.

Ele mesmo estava ali só pra isso. E já inscrevera a sua cabanha em mais aquela edição da tradicional grande feira. Ia dar negócio. A agricultura e a pecuária se prestam para essas coisas.

O Garanhão de Pelotas  abraçou o ruralista amigo e, juntos, foram para a praça central da feira, um local apropriado para garden parties negociais, onde havia um palanque montado à espera de um tal de Rossi que, se eles não estavam enganados, era até ministro da Agricultura. Pompa e circunstância é o que não falta nessas horas.

MORAL DA HISTÓRIA - Oh! Que formosa aparência tem a falsidade! (William Shakespeare - The Merchant of Venice)