28 de jul de 2011

O GRANDE CAUSÍDICO

Naquele meio de manhã, no amplo gabinete de seu escritório de advocacia, o Garanhão de Pelotas  teve que interromper a mais perfeita imitação de Monica Lewinsky que sua secretária ruiva para assuntos orais praticava, para atender ao interfone.

Rearranjando-se com a languidez de quem já havia seguido o velho conselho de Marta Suplicy aos infortunados habitantes de aeroportos brasileiros, o Garanhão  quis saber quem estaria precisando de seus préstimos jurídicos. Enquanto a ruiva se esgueirava por uma das três portas da luxuosa sala, o grande consultor ajeitou a gravata e prestou atenção:

- É um senhor que lida com carnes de alta qualidade... Deseja uma consulta.
- Dê-me trinta segundos e faça-o entrar - ripostou, pensando tratar-se de alguém assim como um executivo da Friboi, ou uma das tantas extensões do Grupo JBS, gigante mundial do comércio de carnes, organic beefs, ou coisa que o valha.

Em meio minuto, o Garanhão de Pelotas  despertou o grande causídico que existia dentro dele. Ficou logo descortinando horizontes em que se via defendendo os interesses daquela que é uma das maiores empresas do mundo em processamento de proteína animal.

Viu-se atuando na defesa das áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno e latas. E até viajou um pouco na maionese: começaria a viajar por todos os continentes; visitaria plataformas de produção e conheceria os escritórios desse novo cliente - com lobistas de quem já andara falando tempos atrás - localizados no Brasil, Argentina, Itália, Austrália, EUA, Uruguai, Paraguai, México, China, Rússia e dezenas de outros países.

Saiu do sonho para a realidade, quando viu uma figura simples, bem arrumadinha e coisa e tal adentrar o seu recinto sagrado de grandes causas e maiores negócios. Nem levantou-se da escrivaninha de madeira-de-lei. Apenas fez um sinal para que o cliente lhe dissesse o que queria. E se dispôs a ouvir a razão da consulta:

- Doutor, se um cachorro roubar uma peça de grande valor do meu açougue, o dono dele é responsável?
- É.
- Então, doutor, passe pra cá 450 reais, porque foi o seu rottweiler que roubou a carne.
- Muito bem. E o senhor, por favor, ao sair deixe um cheque de R$ 2 mil, ali com a minha ex-secretária para pagar esta consulta!

O Garanhão  desviou os olhos do grande cliente para a tela do computador, deu-lhe as costas e ainda escutou a porta do gabinete se fechar abafando o som de uma imprecação indignada. Esperou um minuto. Usou o interfone:

- Dona Maria Auxiliadora!
- Pois não, doutor...
- Você está despedida!!! 

Em seguida, comunicou-se com a sala ao lado. Coisa de cinco minutos, não mais, a secretária ruiva era nomeada para o lugar de Maria Auxiliadora. Enquanto ela se acomodava nas novas funções, uma secretária morena escultural se encaminhava para o gabinete do chefe. O Garanhão  queria falar com ela.

Segundo a morena susssurrou en passant para a nova secretária, o assunto tinha alguma coisa a ver com um cliente que lidava com cavalinhos aloprados e ele precisava praticar um pouco, antes de tratar diretamente com o patrocinador da ação.

MORAL DA HISTÓRIA - Onde e quando não há negócio, nasce a libertinagem.