2 de ago de 2011

UM PORRE À MEXICANA

O Garanhão de Pelotas  estava em meio a mais uma reunião do conselho de propaganda da empresa de Joan Crawford, em Acapulco, quando o celular vibrou em seu peito fazendo o jacarezinho Lacoste saltitar no bolso da camisa esporte que o separava dos demais conselheiros.

Surpresa! Era Remi Gorga! Orra meu, Remi Figurelli Gorga Vírgula Filho! Ele estava no México. Na capital. Em missão cultural. Era adido em Quito, no Ecuador. E com ele sempre foi assim, onde há Remi há sempre algo que termina em dor. Tinha que ser Ecuador. No bom sentido, é claro.

A dor naquele caso, era de saudade dos velhos tempos de pautas jornalísticas no eixo Brasília-Porto Alegre. Fazia duas décadas que não se falavam. Combinaram logo um encontro para aquela noite e, pronto, o Garanhão  pegou um Lear-Jet da Companhia e se mandou para Mexico City.

De noite, conversaram, mentiram, mataram saudade contando histórias que nenhum dos dois lembrava mais e, evidentemente, beberam todas. Quase comeram algumas. Mas, não era noite para aquilo. Melhor tequila com sal e limão na cavidade do punho que não mata a fome, mas mitiga a sede e dá um porre que beira o coma alcoólico.

Na porta do restaurante, onde - entre tacos, champurrados, bacanoras, barbacoas, buñuelos e burritos, tinham sorvido Dry Martinis pra começar, Koskenkorvas para fartar e tequilas para terminar - orientaram em jogral o taxista da melhor maneira que a língua lhes permitia enrolar o idioma:

- Por favor, nos leve já até o hotel coisa...
- Hotel coisa, onde fica isso?
- Pô, bem ali defronte ao Palácio coisa...
- Coisa?
- É, siga em frente que quando a gente chegar a gente avisa.

Sabe-se lá como, eles chegaram. O Garanhão  e Remi ocuparam a mesma suíte no 58° ou no 92° andar do Four Seasons Hotel Mexico City - não estavam lá com muita capacidade de direção, imagine se teriam noção de altura. E aí se esbaldaram. Caiu cada um na sua cama; em cada cama um quase coma.

Correu a noite. Dormiram que nem duas pedras. Chumbaram. Desmaiaram de ebriedade. Por volta de oito horas da manhã, Remi acorda em sobressalto. E, por absoluta solidariedade, acorda também o Garanhão de Pelotas.

- Orra, Garanhão  que porre!
- É. Que porre!...
- Olha só, a suíte parece que está balançando. Tá tudo rodando.
- É. Tá tudo rodando... Tá tudo balançando...
- Tá balançando pra você também, é?!?
- Tá, cara. Tá tudo rodando e sacudindo...

Aí, Remi teve um ataque de lucidez anti-etílica e telefonou para a portaria do hotel:

- Alô.
- Alô. Que pasa señor?
- No pasa nada, señor... Es un temblor...
- Temblor? Ah bom.... Ah bom, nããão! Aaaaii ! É um terremoto!

Ele e o Garanhão não levaram mais do que dois minutos para trocarem de roupa, socarem tudo nas malas e descerem degrau por degrau quase cem andares até à porta da rua. Estavm bêbados, mas não eram loucos de entrar num elevador em dia de temblor.

Pegaram o primeiro táxi que passou e balançaram com ele pela avenida tremelicante até chegar ao aeroporto. Despediram-se rapidamente. E foi cada um pro seu canto. Remi Gorga para Quito e o Garanhão  para Acapulco.

MORAL DA HISTÓRIA - Há porres que não vêm para o bem e que fazem até mal. De qualquer maneira, aquela tremedeira toda foi culpa dos champurrados, certamente. A amizade dos dois jamais foi estremecida.