3 de jan de 2012

Eu, O Detetive

Eu iniciava minha vidinha de repórter. Na verdade, repórter, repórter mesmo eu nunca fui. Perguntava por perguntar, nunca furunguei as fontes. Sempre fui mais de salas de redação, hoje virtuais e sonoplasticamente menos poluídas.

E, porque começava e tinha jeito de foca, fui escalado para fazer um plantão policial como repórter da sucursal pelotense do tablóide Zero Hora. Fiz. Foi o único de minha carreira pelos caminhos da notícia.

No meio da noite pegaram um suspeito. Submeteram-no a uma sessão de toma lá, toma de novo, sem nenhum dá cá. Eu saí às carreiras. Mal deixei o recinto da pauleira e granjeei a antipatia da soldadesca. Nunca mais fiz polícia.

Não fiz, como repórter. Mas o crime e o castigo me fascinavam. Na faculdade de Direito fui colega de muitos agentes policiais. Botei na cabeça que tinha pendores detetivescos. Encasquetei que era um bom detetive. Desses, tipo Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Al Wheeler – feras de almanaques policiais.

Deu-se então um crime escabroso na região. Um casal foi enterrado nas dunas do Cassino, praia de Rio Grande, cidade que é fim do mapa dos gaúchos. A polícia já não sabia o que fazer para desvendar o hediondo assassinato.

Ninguém imaginava quem poderia ser o criminoso. Pronto, um mistério de verdade para aguçar minhas aptidões de investigador. Não tive dúvidas, logo me comprometi a colaborar com as investigações policiais. De caderninho na mão, cachimbo na boca e até uma estapafúrdia luneta fui à luta.

Daí a uma semana, telefonei para a delegacia e avisei que estava na casa do assassino. Dei o endereço e fiquei à espera. Os policiais ficaram de queixo caído quando o bandido, meio no porre, se entregou sem qualquer resistência.

Era o Vicente Beleza, um cara conhecido dos Boletins de Ocorrência. Viciado em carteado, corrida de cavalos e bilhar, ele vivia aplicando pequenos golpes. Escondia coringa nas mangas, jogava no bicho, apostava em pules viciadas.

Mas ninguém diria que ele seria capaz de matar alguém. Muito menos um casal. Muito menos enterrá-los nas dunas do Cassino. Muito menos isso.

A repercussão foi um estouro. Deu capa de jornalões, de jornais locais e também dos dois tablóides de Porto Alegre. Deu mídia de montão. Rádios, TVs, revistas. Minha carreira de detetive estava definitivamente consolidada.

Quando os holofotes da mídia me deram o devido descanso, fui jogar sinuca com os parceiros de sempre no Bataclã – casa de jogatina que reunia a nata e a reborréia da cidade.

Noite altíssima, fui pagar a sopa da madrugada no Restaurante Gago, refúgio e sindicato noturno dos sócios das mesmas dores do mundo. Era o meu prêmio de consolação ao Sargento Morcilha, meu pato nas mesas de pano verde e caçapas recheadas pelo soldo do meu parceiro, péssimo jogador de snooker.

Ele, como todo mundo – de repórteres a leitores; de inspetores a delegados – queria saber que pista, que indício, que evidência eu tinha seguido para elucidar o crime e chegar ao assassino. Com pena por ter depenado uma vez mais o meu freguês de caderno, eu lhe matei a curiosidade.

- Vou te dizer, Morcilha. Mas come em tranca.
- Sou um túmulo, Garanhão.
- Olha, Morcilha, isso é segredo profissional.
- Juro por Deus e uma batata frita que o assunto morre aqui. Pra sempre, juro.
- Foi barbada. Eu tava aqui no Gago, naquela noite. Aí, o Beleza se chegou e me filou uma birita. Tomou todas. Então se embebedou e deu o serviço.
- Como assim, deu o serviço assim, na maior?
- Ele me disse que tinha sido ele. Que andava comendo a mulher do cara. O cara descobriu. E ele, de medo, matou o corno e depois apagou a mulher.
- Fácil. Fácil...

Morcilha olhou para mim e sentindo no meu olhar o perigo que a inconfidência representava agora para ele, logo se apressou a me tranqüilizar:

- Fácil, Garanhão. Mas eu já me esqueci.

Depois desse caso deixei a vida de detetive particular. Fui ser e fazer o que mais gosto de ser e fazer na vida... Descubra. A gente sempre deixa uma pista.

MORAL DA HISTÓRIA – Ninguém é tão apegado a um segredo quanto aquele que não tem intenção de guardá-lo.