15 de abr de 2010

O Garanhão em Tóquio

Lá por 1979/80, o Garanhão de Pelotas era setorista da Presidência da República, para um jornal do eixo Rio-São Paulo, de grande circulação. Cobria, no bom sentido, o presidente Figueiredo, dona Dulce e suas circunstâncias para todas as causas e todos os efeitos.

Eis que o general, filho do general Euclides queria uma folga e então inventou uma viagem de dona Dulce ao Japão. E para lá se foi então uma comitiva enorme de damas de companhia, assessores, seguranças e jornalistas. O jornal e enviou três repórteres numa viagem precursora a Tóquio. Como sempre o grande matutino nacional queria chegar antes. E chegou, num voo da Real Aerovias, com Fernando Granada, Moreno da Silva e o Garanhão de Pelotas.

Eles se hospedaram no hotel Nikko, ou coisa parecida, onde estava dona Dulce e seu séquito, para ficar um período de cinco dias - sem contar o fim de semana que ninguém é de ferro. O apartamento reservado para a trinca era lá pelo 80° andar, pertinho do Sol Nascente.

Depois de lerem a versão japonesa da revista Fairplay, de melhorarem a imagem da TV com um Bombril na antena, pegaram uma folha de papel almaço, acionaram o mimeógrafo a álcool e redigiram a primeiro release para distribuir à imprensa, no saguão do hotel.

Moreno, ainda passou Glostora nas madeixas que ajeitou com um pente Flamengo, enquanto Fernando fumava o seu primeiro Mistura Fina do dia e o Garanhão vestia seus carpins de buclê, adequados aos sapatos Vulcabrás. A trinca entrou no elevador e Fernando dedilhou o botão que parava no restaurante para o Café da Manhã sem o Presidente - programa de índio já naquela época.

Lá pelo 67° andar, o elevador estanca. Entram duas senhoras. Uma jovem, bonita, de corpo mais bonito ainda; outra já carcomida pelos anos, magra, de pele flácida sobrando pelos braços e sinais de muitos anos de vida disseminados pelo rosto. Decerto, mãe e filha.

Educadas, elas cumprimentaram com um silencioso e gentil meneio de cabeça. Os repórteres, loucos para dar emoção ao dia que começava,  trataram de fazer brincadeiras de mau gosto e comentários impróprios e descabidos, em português e com sorrisos cínicos que disfarçavam o papo digno de uma arquibancada de Fla-Flu. Diz Moreno, sorridente e hipócrita para o Garanhão:

- A bonequinha é minha; eu vi primeiro!
- Aqui ó! Pega você essa balzaqueana. Se não quiser, dá pro Fernando, ele adora sobra-de-guerra.
- E no buzanfan não vai nada, seu Amigo da Onça - retrucou o indicado, rescendendo a Aqua Velva - o brotinho é meu, olha só como está me olhando. Tá gamada em mim...

Tudo isso falado no mais sujo idioma da nossa pátria-mãe gentil, acobertado por risinhos simpáticos, gestos enganadores e disfarçadamente tranchans.

Não demorou nada e a velhota apertou o botão. O elevador parou no andar seguinte. Elas desceram rumo ao corredor. A garota nem olhou para trás. A idosa enfiou o braço na jovem, fulminou os três com um olhar de bomba de Flit e exclamou entre dentes: - Só podia ser coisa de brasileiro, mesmo!

E sem esperar mais nada, as duas turistas lisboetas, afastaram-se à espera de um outro elevador que não conduzisse nenhum gajo parecido com aqueles estupores.

Quando o Garanhão chegou ao salão de refeições, todo garboso, sacudindo seu chaveirinho de pé de coelho, não havia nenhum sinal de imprensa por lá. O encontro de dona Dulce, a primeira-dama brasileira com os jornalistas japoneses fora realizado na sala de brifing, mais de uma hora atrás.