3 de abr de 2010

AH...VENTURAS DO GARANHÃO

Ainda que, lá pelos dias de 1980 ou por aí, naquela antiga noite carioca de chopinho gelado, à orla de uma mesa no bar Garota de Ipanema, Fausto Wolf, um dos rebeldes do Pasquim tenha proclamado sob a euforia de mais um colarinho maduro que "esse cara existe! O Garanhão de Pelotas existe!", eu garanto e juro por tudo que é mais sagrado que ele não passa de ficção.

É cria dos mordazes e implicantes feitores de apelidos; nasceu daqueles que botam rótulo em tudo e em todos, só pelo prazer de cutucar leões com vara curta. E todo mundo sabe: apelido só pega quando incomoda. Reclamou... pegou. Pelotas tem a fama que tem, porque teima em dizer que não é nada disso que andam falando a vida inteira, pelo Brasil adentro, mundão afora.

Falo de cadeira. No meu primeiro dia de Colégio Gonzaga, um grandalhão cercado de sua ganguezinha de maus alunos me chamou de Narigudo. Fiquei furioso, me incomodei e pedi briga. Briguei e apanhei. E o pior: fiquei sendo Sérgio Narigudo até o curso ginasial, quando saí de lá - imagine! - para o Santa Margarida, até então um educandário luterano só de meninas. Aí, meu codinome foi outro. Tinha mais a ver com o título do blog. O que as meninas conversavam em toillets davam descarga por lá mesmo. Não reclamei. Não pegou.

Neste espaço, sempre que possível haverá Ah...Venturas do Garanhão. Mesmo que o herói não seja ele, invariável e compulsoriamente o protagonista será o Garanhão de Pelotas.

SURPRESA!!!
(Adaptação de uma história do livro "Dentro do Aquário")

Era uma tarde de gazeta. Assim que os sinos dobraram para a primeira aula da tarde, a turma saiu pela porta lateral do colégio - que nunca ficava trancada, para facilitar a tarefa dos entregadores de material escolar e de mercadorias para o barzinho que funcionava durante a hora do recreio.

Eram cinco, ao todo. Amigos de sempre. Bolota, Pé de Chinelo, Chapeleta, Garanhão e Lulu do Areal. Fiéis imitadores de James Dean e sua "Juventude Transviada". Os quatro primeiros, típicos rebeldes sem causa; o último, sempre que podia, mordia a fronha. Mas era bom de briga, bom companheiro, bom e batuta.

Sem mais o que fazer, foram até à velha e boa praça Julio de Castilhos esconder os livros numa moita segura, bem defronte ao portão de entrada lateral do estádio do Esporte Clube Pelotas que, naquele tempo, ainda não era Lobão, apenas o Veterano áureo-cerúleo.

Decidiram que iriam tomar umas Brahmas que a Antárctica distribuía lá no cabaré da Aydée, onde à noite não entravam porque, ainda frangotes, não tinham idade para passar pelo porteiro. À tarde, era barbada. Pegavam as gurias desprevenidas, ainda dormitando em plena ressaca de ontem.


Tipo Assim Caminha a Humanidade, chegaram ao seu destino. Bateram na porta, usando o velho código de quatro pancadinhas rápidas e uma mais demorada. Marininha Morena foi quem os acolheu com um sorriso cansado e maroto.

A casa dormia o sono profundo das merecidas tardes de folga das meninas. Eles, nem aí: pediram logo três cervejas, sentaram na melhor mesa da casa vazia, de luz escassa e ficaram por ali, conversando bosta nenhuma, na expectativa de que as primeiras a se acordar viessem pra perto, pro seu aconchego, querendo agradar.

Papo daqui, papo dali, o tempo foi passando. As gurias, nada. De repente, Lulu do Areal se levantou e foi ao banheiro. Bolota, Pé de Chinelo e Chapeleta ficaram sózinhos jogando conversa fora, quando o Garanhão também se mandou no rumo do sanitário.

Coisa de dez minutos depois, Chapeleta estranhou a ausência dos dois mijões. Empinou o copo de ceva quase gelada e sussurrou desconfiança pros parceiros:
- Esses dois tão fazendo xixi demais...
- Aí tem... - disse entredentes Pé de Chinelo.
- Qué sabê duma coisa, o Garanhão tá faturando o Lulu - concluiu Bolota.
Aquilo não era coisa que se pensasse entre eles, amigos, camaradas, irmãos por parte de Adão e Eva... Mas, por via das dúvidas, pé ante pé, excursionaram até o banheiro. Abriram a porta e... Suspeitas confirmadas. Pegaram os dois em flagrante delito toma lá, dá cá. Era bem o que tinham pensado. Quer dizer, quase.... Quem estava levando a pior não era Lulu. Era o Garanhão!

Pego com a boca na botija. O Garanhão não perdeu a graça, nem a presença de espírito que a turma do ramo costuma guardar no armário. Livrou os lábios do que fazia e com um sorriso cheio de dentes, brincou faceiro e com vozinha propositadamente gaiata e macia: - Surpresa... Olha aqui, ó! Eu sugando uma bichona... Cês já tinham visto isso, já?!?

Não obteve resposta da trinca. A porta do banheiro foi fechada lenta e sem rangido na sua cara. Cinco ou seis minutos depois, Lulu e o Garanhão voltavam para a mesa. Só beberam. Cada um no seu copo. A partir dali, naquele grupo, nunca mais um bebeu no copo do outro.

RODAPÉ - Os apelidos não fazem jus aos verdadeiros nomes dos personagens. Mas, como se vê, é assim que a coisa foi pegando.