26 de out. de 2011

PESADELO

Essa faculdade de ter múltiplas personalidades que eu trouxe ao mundo quando vim à luz, me dá direito e licença de cultivar os mais estranhos companheiros. E contra isso não luto, porque afinal se me dou mal aqui, logo me dou bem ali. É que eu sou meio Pagodinho e deixo a vida me levar..

Outro dia eu trocava umas boas idéias sabe com quem? Sabe, não? Pois é, com ele mesmo. Ninguém mais nem menos que meu amigo, meu irmão, meu líder, o Seu Encarnado, aquele que não desencarna.

E entre mais umas e mais outras, acabei com a língua solta e lhe confidenciei que não tinha dormido bem à noite. Ele pronto quis saber:

- Teve azia?
- Quê nada, mermão, tive um pesadelo.
- Ora, pesadelo todo mundo tem, Garanhão.
- Mas eu sonhei que era você...
- Como assim, pesadelo?
- Se avexe, não. Era um baile lá na Venezuela, na casa de Hugo Chávez...
- Ah bom, aí já tá ficando feio.
- Pior, só tinha uma dama com quem ninguém dançava...
- Se não é quem eu tô pensando, pelo menos você se deu bem...
- Bem, o cacete! Era a Marta...
- Nããão... Era nela mesma que eu tava pensando – mentiu meu amigo, irmão e líder.
- E ela me tirou pra dançar!

Ao silêncio que se seguiu se juntaram muitas umas que outras. Já alta madrugada, nos despedimos. Estávamos cambaleantes de sono. Juro, eu tinha bebido para esquecer. Nessa eu dancei.

MORAL DA HISTÓRIA – Se estivesse perto quando Homero escreveu na Ilíada que “os sonhos vêm de Deus”, eu lhe diria na hora “vá pro diabo que o carregue”!

25 de out. de 2011

FAZENDO GREVE

Pois quem é daqui dessa terra se lembra bem, o país estava nos estertores do governo Jango, bem do jeito que a Última Hora estava às vésperas de virar um pirão sem sal na mão dos donos do que já era o tablóide Zero Hora. Eu era repórter da sucursal que ficava ali, bem pertinho de algumas fronteiras com o Uruguai.

Dali era um pulo passar para o lado de lá, onde se esbaldavam os tupamaros. Dois pulos. A gente podia escolher como entrar: indo por Jaguarão, ou por Santa Vitória, pela reta do Taím, paraíso ecológico nunca respeitado. Sarará era o inquieto fotógrafo daquela pequena casa de notícias de Samuel Wainer, no extremo Sul, às beiradas castelhanas.

Era uma segunda-feira fria de agosto, mês de enchentes. Bom para mandar notícias pelo teletipo, ou pelo maldito telefone que falava para o mundo, mas cochichava para Porto Alegre, ainda cidade-sede da Última Hora gaúcha.

Mais da metade daquela primeira manhã da semana e nem um pingo de chuva. Nem de chuva nem de novidade. Eu levava um cafezinho escaldante à boca, feito na espiriteira da agência, quando Sarará dá um salto na cadeira, vai à janela do edifício, tira-me a xícara da mão, bebe o meu café e diz com um sorriso sacana na cara branca e franca:

- Eu mereço. Tenho notícia! Você quer notícia?
- Merece... É, se tem notícia, merece mesmo.
- Peraí, só um pouquinho...

Se mandou para o telefone. Pediu para a central da CTMR - Companhia Telefônica Melhoramentos e Resistência, de Pelotas, fazer uma ligação para Pedro Osório:

- Por favor, dona, me liga aí com a Estação Ferroviária de Pedro Osório... É. Pedro Osório, Cerrito, Olimpo... É tudo a mesma coisa, o rio Piratini é que separa uma vila da outra, dona... E então deu um número para a telefoinista.

Sarará esperou coisa de meio minuto, não mais, com o fone na orelha, enquanto já preparava os apetrechos de fotografia.

Operou-se então um verdadeiro milagre de agilidade, posto que naqueles tempos uma ligação interurbana poderia levar horas e, não raro, um dia ou dois.  Logo retomou o contato:

- Brigadinho, moça... Alô, alô é da Estação Ferroviária?!? O presidente do Sindicato dos ferroviários taí? Posso falar com ele? Brigadinho...

E, enquanto aguardava impaciente e com medo que caísse a ligação, ainda me pegou pra peteca:

- Garanhão, me faz outro cafezinho que a notícia vem aí. Aquele seu tava gostoso...
E logo voltou ao fone:
- Oi, Pedrão! Aqui é do Sindicato de Porto Alegre! Vocês já entraram em greve aí?!?

Fui obrigado a deixar o café na espiriteira a querosene e me aprochegar do maluco:

- Cara, o que é que você tá fazendo?...
- Psiu, fale baixo...

Interrompeu-se para orientar o "companheiro" sindicalista lá do outro lado da linha:

- Que bosta, meu chapa! Aqui, na Grande Porto Alegre nós já deflagramos a greve. Tá tudo parado aqui, Viamão, São Leopoldo, Novo Hamburgo, desde as cinco da madrugada! Hein?... Não, não. Nós só vamos descruzar os braços se nos derem aumento e melhores condições de trabalho!

Falou curto, grosso e cheio de convicção. Bateu o telefone. E pronto ligou de novo para a CTMR:

- Oi, moça, sou eu de novo. A senhora quer me ligar agora com Porto Alegre? Sim, por favor, é urgente! Brigadinho.

Ele estava estourando de sorte para telefonemas naquela manhã. Não cheguei nem a saber direito o que ele estava fazendo, quando o telefone tilintou. Açanhado, Sarará atendeu:

- Alô. É da sede Central do Sindicato dos Ferroviários?... Oi, companheiro, quem tá falando aí?

Eu não acreditava no que estava vendo e ouvindo. Entreguei a alma ao diabo. Sarará, completou o plano:

- E aí, companheiro. Aqui é do Sindicato de Pedro Osório! É. Vocês já paralisaram? Estão em greve? O que é isso, companheiro?!? Que bosta, meu chapa! Aqui, na Zona Sul nós já deflagramos a greve.

Deu uma breve parada, meteu um gole de café pra dentro, enquanto ouvia qualquer coisa do lado de lá. Retomou a enrolação em seguida:

- Tá tudo parado aqui, Pedro Osório, Cerrito, Olimpo, Pelotas, Rio Grande,.. Hein?... É, desde as cinco da madrugada! Hein?... Não, não. Nós só vamos descruzar os braços se nos derem aumento e melhores condições de trabalho! Tá bom, brigadinho. Boa greve, companheiro!

Desligou. Pegou suas mochilas de fotografia e ainda me deu uma chamada:

- O que é que cê tá fazendo parado aí, com essa cara de bundão? Vamos pra Pedro Osório, cobrir a nossa área de greve. Vambora, Garanhão, vamo!

Você pode não acrediutar, mas no meio do caminho, ele parou o DKW do jornal, foi até um poste desligou um tareco qualquer naquela caixa telefonica chei de fios de tudo quanto é cor e feitio. As ligações com a capital ficaram mais difíceis e demoradas do que de costume.

No dia seguinte, a greve dos ferroviários era uma realidade. Um sucesso de mobilização. A Última Hora furou todo mundo. Não havia um trem se mexendo sobre os trilhos... Era tudo dormente no Rio Grande do Sul. Os outros jornais - Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Tarde - comeram barriga.

Só começaram, a dar notícia no segundo dia da paralisação. O movimento durou a semana toda. Parece que não deu em nada.

Mas me deu trabalho. Tive que mandar boletim atrás de boletim para a matriz da Última Hora. Sarará ganhou um prêmio pela série de fotografias do movimento grevista. E eu, a obrigação de fazer cafezinho pra ele até a outra segunda-feira.

MORAL DA HISTÓRIA - Nessa horas em que o Garanhão perdia o caráter ele não levava em conta que uma reportagem pudesse se parecer com um livro mal feito, um livro de páginas escritas em laudas corridas e muito às pressas. Tá bom, confesso, hoje esse velho Garanhão de redações não poderia - sem uma pontinha de cinismo - reclamar contra a eterna campanha do PT a favor da censura à liberdade de imprensa.

24 de out. de 2011

PANDILHA DE SEVANDIJAS

Juliné da Costa Siqueira, pai do meu amigo e ghostwriter para muitas ah/venturas e redator do livro O Garanhão de Pelotas, em que sou o principal, uno e indivisível protagonista, era uma astuta Raposa dos Tribunais do Júri. Já falei dele em outros capítulos. Ele daria, mais que um livro, uma coleção completa.

Era mais uma sessão do Júri. Corria o julgamento nos salões da Biblioteca Pública de Pelotas. O caso era escabroso para a época, meados dos Anos-50, e absolutamente corriqueiro e banal como qualquer escândalo ministerial de hoje: dois tarados tinham estuprado e matado uma menina de nove anos de idade. O crime convulsionou a cidade.

Juliné era advogado dos pais da vítima. O júri era presidido por um juiz que o velho raposão detestava pela arrogância, pelos maneirismos, pela soberba, pela empáfia, pela prolixidade e pelo pernoicismo. Não, não se engane, não era nenhum ministro desses que hoje são emoldurados nos programas da TV Justiça. Era só um prenúncio pedante do que seriam esses magistrados ungidos pela Presidência da República.

O criminalista meio lenda-viva das barras dos tribunais daquela região tinha como companheiro de defesa um jovem e promissor advogado, recém saído dos cueiros da faculdade, este seu Garanhão de Pelotas.

A casa da Justiça estava cheia, lotada de assistentes de todas as camadas da sociedade: jornalistas, radialistas, acadêmicos de direito, figuras populares, representantes das forças-vivas da comunidade...

A sessão do júri corria normal e os defensores dos réus já tinham falado. Chegou a hora da Defesa. Logo depois da saudação inicial, sob a expectativa silenciosa de todos, Juliné abriu sua peça de oratória com uma solene e instigante provocação ao juiz presidente da sessão:

- Infelizmente, as togas da Magistratura escondem uma pandilha de sevandijas...

Não se ouvia uma mosca voando. O juiz bateu com o martelo e interrompeu o discurso:

- Modere seu linguajar. Esta presidência não aceitará ofensas...
- Ofensas, Meritíssimo?!? Que ofensas? A Magistratura esconde sim, uma pandilha de sevandijas!
- Isso é uma ofensa! - retrucou o juiz, sem mostrar muita segurança quanto ao significado daquilo.
- Vossa Excelência sabe, por acaso, o que é uma pandilha de sevandijas?
- Vou cassar sua palavra! - desconversou o magistrado.
- Vossa Excelência teria todo o direito, desde que me explicasse porque se julga ofendido, e por que acha que não faz parte dessa pandilha de sevandijas.
- Não tenho que lhe explicar nada...

A esta altura a platéia inquieta, já percebera que o juiz não sabia o que significavam aquelas palavras que tomara como chulas e ofensivas. O juiz notou que os presentes já o olhavam como se fosse um despreparado, um burro, dirigindo um julgamento.

- Não me admiraria, Meritíssimo que mesmo sem saber o que é uma pandilha de sevandijas, Vossa Excelência arrepiasse a lei e me silenciasse.
- Se Vossa Excelência insistir nesses termos, será cassado e convidado a se retirar desta sala.

Eu também sem saber o que queria dizer aquilo, cutucava meu parceiro e sussurrava:

- Ei, Juliné, o que é pandilha de sevandijas? Por que você não pára de implicar com o juiz?
- Ora, meu caro Garanhão de Pelotas, pandilha de sevandijas é pandilha de sevandijas. E não paro porque não gosto desse bodoso...

Esse nosso breve e susssurrante diálogo foi interrompido por mais uma ordem do juiz que pediu silêncio aos circunstantes e autorizou o raposão implicante a prosseguir:

- Continue em outros termos, ou Vossa Excelência será obrigado a se retirar do recinto.
- Obrigado, Excelência... Infelizmente, as togas da Magistratura escondem uma pandilha de sevandijas...

Foi o que deu. A paciência do magistrado esgotou. Ele decidiu. E, usando sua prerrogativa de dono da lei e da ordem naquele momento, ordenou a saída do advogado do processo e do salão do julgamento. Juliné levantou-se e foi acompanhado por mim até à porta de saída do tribunal.

Juliné, de braço dado comigo, ainda tinha um brilho de satisfação nos olhos que refletiam a admiração da platéia que chegou a ensaiar uma salva de palmas para ele e uma vaia para a confessada ignorância do juiz, mas conteve-se pelo som das tradicionais batidas de martelo e da voz tonitruante do eminente presidente da já tumultuada sessão:

- Silêncio, Silêncio no recinto! Ou mando evacuar a sala!

Nem um pio. Silêncio sepulcral. Quase... O pessoal, já com jeito de torcida à espera de um gol, escutou a rápida conversa entre nós dois:

- Pronto, Juliné, sei que você conseguiu o queria...
- E o que é que eu queria, Garanhão?
- Fazer o juiz passar por burro na frente dessa gente toda.
- E Fiz - sorriu glorificado, olhando para o mundaréu de gente que se aproximavam, quase pedindo autógrafos, afagando-o com olhares e expressões de parceria.

- Tá bem, tá bem, mas agora me diga, por favor, o que é pandilha de sevandijas? É insulto, é elogio?
- Ora bolas, meu bom Garanhão, pandilha de sevandijas é exatamente tudo o que esse juizinho bobo está pensando. Grupo de safados, aproveitadores, gangue fuleira, sanguessugas...
- Mas, então...
- Então, ele não sabe disso. É um burro. E todo mundo aqui ficou sabendo disso.
- Ora...
- Vai lá e acaba com ele, Garanhão.

O julgamento dos dois assassinos estupradores durou pouco. Foram condenados por sete a zero. Pegaram 30 anos de cadeia, cada um. No outro dia, os jornais deram o resultado do julgamento num rodapé. A manchete falava de outra coisa: Juiz não sabe o que é pandilha de sevandijas.

RODAPÉ - Juizes despreparados condenam o que não entendem.Todo aquele que julga sobre dúvida, precisa estar isento de ira ou de misericórdia.

23 de out. de 2011

DE CALÇAS NA MÃO

Era pouco menos de 1982. O Tribunal Eleitoral nem tinha reconhecido ainda a ficha de filiação número um do PT, assinada por Apolonio de Carvalho, quando essa des/ventura me aconteceu.

Já disse e repito: de vez em quando eu não passo de uma pessoa normal. À miúde, sou um simples brasileiro, nada a ver com sarneys, dirceus, lulas, paloccis e demais blindados.

Falo nessa fundação do PT porque ele, logo mais adiante de especializou no produto que aparece no meio da pequena história. Por enquanto, vamos apenas voltar juntos aos Anos 80.

Sei, sei vou parecer um pavão, mas como Garanhão de Pelotas, não posso deixar de exaltar meus próprios feitos. Os piores deles, nem chegam aos pés dos “malfeitos” do Brasil de hoje. Em todo caso, são casos.

Sempre fui um irrecuperável boêmio, chegava em casa altas horas da madrugada. Trôpego e cambaleante, no mais possível silêncio para não acordar minha mulher de então.

Depois de mais uma gandaia, cheguei em casa naquele meio de madrugada. Luzes apagadas, fui tirando cuidadosamente as calças para enfiar-me primeiro no pijama e depois na cama.

A Operação Silêncio - não são só os Intocáveis da PF que botam título nas suas manobras - estava quase terminada quando, para meu azar, um monte de moedas caiu de um dos meus bolsos estrepitosamente no chão do quarto.

Rosa Linda – a terna dona do meu lar, doce lar da época - acordou-se em sobressalto e, vendo este seu maridão naquela situação, perguntou-me ainda sonoleta, tomada de surpresa:

- Garanhão! Cadê sua cueca???
- Hein, cueca?... Pô, me roubaram a cueca!

O casamento nunca mais foi o mesmo. Como jamais esse PT foi o mesmo também para o verdadeiro Partido dos Trabalhadores criado por Apolonio Carvalho, Mário Pedrosa, Antônio Cândido, Sérgio Buarque de Hollanda.

MORAL DA HISTÓRIA – Nunca deixe que o peguem de calças na mão. Sem cueca é pior que cueca com mancha de batom.

TELEMARKETING

Você já sabe como eu sou. Às vezes estou casado, às vezes não. Sempre sou meio solteiro em qualquer ocasião. Volta e meia, tenho que exercitar meus neurônios de Garanhão para escapulir de uma saia justa.

Outro dia, lá vou eu pela estrada que leva às fronteiras com a Argentina, na agradável e aconchegante companhia de uma das minhas eventuais e sempre fiéis esposas. Sentindo a vida fluir bonita, dirigindo meu Range Rover Evoque, da Land Rover, tocando em frente sem me preocupar com o consumo de combustível, eis que vibra e grita meu celular. Nefando artefato moderno, esse!

Soar assim, sem mais nem menos, dentro de um utilitário leve e esportivo como esse meu Rover zerinho a caminho de um formidando weekend  é despertar suspeitas em qualquer esposa, amada, amante por mais loira que ela seja.

Tirei o celular do bolsinho superior da camisa pólo - todas as minhas Lacoste têm bolso - e, de relance registrei na retina o nome de Mellanie. Com a rapidez de um flash e sob a curiosidade penetrante de minha parceira ao lado, atendi:

- Osvaldo? Aqui não tem nenhum Osvaldo!

Encerrei o papo. Desliguei o celular e expliquei para a minha doce companheira:

- Não atendo mais essa porcaria. Esse telemarketings não tem noção. Onde já se viu telefonar em fins de semana...

Ela sorriu compreensiva e manhosa aconchegou-se a meu ombro. Só acordou de seus justos sonhos quando pararamos en una gasolinera, para saborear una medialuna com cafezinho brasileiro, mas com jeito argentino de servi-los: con caramelos de café, azúcar y edulcorantes.

MORAL DA HISTÓRIA - Nunca dê o número do seu celular para alguém que se chame Mellanie. Ela vai querer falar com você nas horas mais impróprias.

22 de out. de 2011

O VALOR DAS RUGAS

Quanta coisa se pode encontrar nas rugas de alguém. Com boa vontade, é claro. Elas podem, em certos casos, mostrar que já passamos da metade do caminho de nossas vidas. Se isso é bom, ou ruim, tanto faz como tanto fez.

As rugas podem dizer, por exemplo, que cada um tem a idade do seu próprio coração. Podem revelar para quem vê a vida com bons olhos, que não raro é muito mais agradável e esperançoso ser um jovem de setenta anos do que um velho de quarenta.

Pois, eu já tinha mais que a idade do meu coração quando me engracei pra cima de uma diarista linda que minha tia Margarida, uma flor de pessoa, havia contratado para assumir as tarefas da sua casa de veraneio, em Playa Del Carmen, a 70 km ao sul de Cancun, no tal de Caribe mexicano.

De diarista, Libertad logo foi promovida a governanta, com direito a casa, comida e regalias condizentes a quem era tiquitita pero cumplidora.

Como sobrinho mais chegado, eu tirava temporadas praianas por lá. E foi numa dessas que não resisti aos encantos, sorrisos e meneios daquela gatinha manhosa de trinta e dois, trinta e três anos, se muito. Tia Margarida era o máximo. Que tia maravilhosa... Botar pra dentro de casa uma preciosidade daquelas. Pediu, levou.

Não vou me perder em detalhes. Pulo todas as pequenas cantadas que dei em Libertad, para lhes repassar a que calou fundo no seu coração.

Com o dobro e mais um pouco de sua idade, me foi fácil perceber as rugas que nos separavam. Meu caráter, no entanto, não tinha nada a ver com a vergonha dessa defasagem de tempo entre nós. Bolas, eu não queria seu amor, nem casar com Libertad; queria entrar na sua vida. Quer dizer, vida mesmo não é nome da rosa. Queria entrar, entrar e pronto. Vocês já sabem como e onde.

Era um entardecer de sonho. De sol saindo para dar lugar à lua que já mergulhava nas águas do mar das Caraíbas. E eu ali, de frescura com Libertad que já tinha vencido as lidas da casa.

A cada frase murmurada, passava-lhe a mão pela morenice de seus braços, sem que ela mostrasse rejeição. Ao contrário, seus pelinhos se eriçavam. Ela era quente. E eu fui conversando. E abusando devagar e sempre. Libertad me deu entrada. Com vozinha rouca e cálida me animou:

- Sabe, siempre me ha gustado los hombres mayores ...
- Você gosta mesmo de homens mais velhos, meu anjo? Não acredito.
- Verdad. Los hombres mayores tienen más experiencia, son menos atrevidos.
- Mas e a pele, a diferença de maciez, as rugas?...
- Oh, sí, siempre hay alguna diferencia que hace una cierta distancia ...

Putamerda! Eu não deveria ter tocado nesse assunto. Mas, já que a coisa tinha descambado para esse lado constrangedor, mandei o caráter às favas e fui buscar a igualdade na tal experiência a que ela se referira.

- Sabe, Libertad, essa besteira de rugas é puro preconceito.
- Prejuicio, así?
- Já te explico meu anjo. Quando nasci e fiz xixi no mundo pela primeira vez, a parteira que me atendeu viu que meu pintinho já era todo enrugadinho. E achou uma beleza.

Não precisei de mais nada. Libertad sorriu e, em seguida suspirou ao sentir que minhas mãos percorriam suas pernas lisas e eriçadinhas como eu gostava de ver e de sentir.

Uns poucos minutos depois ela percebia que aquelas rugas mais sigilosas que as da minha cara de pau, se tinham tornado lisas, mais evidentes e viçosas como poucas das que ela já havia visto e sentido na vida.

MORAL DA HISTÓRIA – A idade da mulher está na cara; a do homem, no seu ânimo. (Somerset Maugham).

JOGO DE AZAR

Certa noite vagabunda, numa dessas sedes clandestinas de clubes esportivos de segunda divisão, um carteador novo, enorme, gordo, glutão e estourando de sorte, batia todas as grandes paradas. Nas pequenas rodadas daquele pife de bater com a louca, ele nem ia. O cara estava rebentando; tava com o buzanfan que era uma rosa.

Era de uma cidade-satélite de Pelotas. Chegara para fazer compras e ficara para um pernoite de final de semana. Descobrira o pequeno antro de carteado e, viciado como ele só, se abancara por ali mesmo.

Eu apenas mirolhava a jogatina, traçando um vermute com cachaça e Underberg, já que aquilo não era ambiente para Dry Martini, nem para a minha querida finlandesa com nacos de laranja. Apenas fazia tempo, para partir para as quebradas daqueles tempos, hoje tidas como baladas.

Carlito Juruá já estava cansado de sair pifado e perder todas na primeira ou na segunda volta.

Naquela rodada ele saiu pelo coringa. Estradulou. Dobrou todas as apostas que se sucediam. Todos redobravam. Parecia que todo mundo estava batido. Ele seria o terceiro a jogar. Era impossível perder aquela parada. Ia tirar o pé do barro.

Feitas as apostas. O que jogava de mão foi ao jogo. Comprou a primeira, não gostou e comprou a segunda. Encaixou-a no seu buquê de cartas e largou a que não prestava em cima da mesa. Carlito – de mão cheia - moveu-se para comprar no baralho, certo de que iria aumentar sua chance, quando o mastodonte rabudo abriu o seu leque no pano verde:

- Deu pra mim!
- Quiopariu! Vai ter sorte assim na casa do cacete! – irritou-se Carlito.
- Jogo é jogo, meu. Não chia – vociferou o grandalhão, arrebanhando o bolo de fichas.
- Não te agranda, ô corno! Chifrudo! – extrapolou Carlito.
- Cumé quié?!?
- Chifrudo, sim. Quem tem sorte assim no jogo, é infeliz no amor. Corno! E daí?...

Esbravejou e se arrependeu na mesma hora. O animalão levantou da cadeira, cresceu na sua frente e mostrou na cintura um Colt 44 de dar inveja ao Clint Westwood.

- Ô bundão, tu me chamou de corno, de chifrudo?!?

A coisa ia de mal a pior. Carlito engoliu o pomo-de-adão e quase sumiu na cadeira. Ficou assim como quem queria comer a toalha. Os outros parceiros embranqueceram em efeito dominó: à medida que se olhavam, iam perdendo a cor. Deu branco total.

E foi então que eu tive que me meter. Com voz calma e serena desanuviei o ambiente:

- Ei, ei amigo... Ele te chamou de chifrudo, sim.
- O quê... – o possante já ia topando briga comigo também. Tinha peso pra isso.
- Ô amigão foi chifrudo sim... Mas chifrudo no bom sentido, cara.

O tom conciliador daquela minha ridícula intervenção desarmou a animosidade do grandalhão ofendido. Aos poucos, a mesa estava cercada de risos amarelos. Carlito foi crescendo no seu lugar, enquanto o sortudo  de testa proeminente e burrice estampada tentava resolver se aceitava aquilo como desculpa ou como brincadeira. Sentou-se. Aí, só aí então Carlito deu sinal de vida:

- É sim, chifrudo... Chifrudo no bom sentido – conseguiu murmurar amigavelmente.
- Ah, bom. Se foi no bom sentido da palavra, tá certo. Vamos pro jogo.

Carlito ainda insistiu por ali uns quinze minutos. Como a sorte não queria nada com ele, deu os trâmites por findos e foi tomar comigo a sopa da madrugada no Restaurante-35.

MORAL DA HISTÓRIA - Com o Garanhão por perto, ninguém paga vale pra ninguém.

21 de out. de 2011

TARDES DE PENSÃO

Eu já fui cabareteiro. Desde os tempos de frangote que eu gazeava as aulas da tarde e me metia nas pensões. As pensões aquelas, antigas, lugar de viração das gurias que vinham da Colônia para conhecer a vida na cidade e acabavam se promovendo de empregadinhas domésticas a mulheres de vida fácil.

Claro que eu não era o Gazeteiro Solitário. Tinha uma turma boa que juntava a mesada e os dinheiros que a gente fazia com a venda de Gibis na porta do cinema e que me estimulava a ser o Garanhão Mirim de Pelotas, muito mais do que ir às aulas de canto orfeônico, álgebra e latim.

Nossas línguas eram muito menos mortas. Pelo menos de três em três semanas, tinha matinê de fuque-fuque da nossa patota pelos bordéis vespertinos, já que os noturnos tinham as portas fechadas para a pirralhada. Mandinho não entrava.

Era bom. A gente batia educadamente à porta da pensão, usando o código de sempre: tantarantantan duas vezes e um tantarantan isolado. Pronto, era um verdadeiro “abre-te Sésamo” para o início de mais uma jornada das nossas 1001 noites às tardes.

E agente bebia cerveja, comia pipoquinha e beijava as moçoilas com cheiro de colchão e gosto de amendoim torradinho. A gente gostava, ué. E já sabia, era só bater e entrar que elas já estavam nos esperando.

Ás vezes, não é que a gente dava com a cara na porta é que elas tinham saído para fazer compras. Blusinhas, vestidos, sapatinhos novos e até coisas do armazém da esquina: lata de banha, arroz, feijão.

Massa não. Massa, elas mesmas faziam com aqueles rolos que as esposas usavam para ameaçar maridos farristas. Elas eram prendadas. Tá pensando o quê? Tinha uma, Mariana, que fazia até talharim. Ficava uma beleza.

Nós cansamos de comer, nas nossas velhas tardes, talharim na manteiga e alho, aos copos de vinho da Colônia que elas traziam, sempre que iam visitar os pais nas fazendolas rurais onde tinham nascido.

Nessas tardes de compras, a gente ficava esperando. Escolhia uma mesa redonda que coubesse a nossa turma, abríamos o frigorífico e nos servíamos de cerveja. Tudo na maior confiança. A gente já era da casa. Nunca bebemos um gole que não se pagasse por ele. O Brasil era honesto naquele tempo. Faz tempo isso. Muito tempo.

Pois naquela tarde, lá estávamos nós. Batemos na porta do que se chamava de lupanar. Não nos atenderam. Sem perda de tempo, levantamos o capacho que tinha um coração desenhado espetado por uma flecha de Cupido e superposto à saudação em relevo: “Seja Bem-Vindo”.

Pegamos a chave no inimaginável esconderijo e fomos nos adonando. Éramos seis naquela tarde antiga. O nosso time estava assim escalado: Garanhão de Pelotas, Tio Banda, Pezão, Maionese, Quimeras e um convidado, El Cantor, candidato a integrar-se à patota.

Quimeras era um baita amigão. Inteligente, bom de bola, bom de briga, piadista incurável, espírito alegre, tão alegre que era viado . Viado, porque naquela época ninguém tinha ouvido ninguém chamar ninguém de gay. Viado, e não veado. Viado, Quimeras era fresco assumido e bem-resolvido.

Tinha seus casos com todo mundo. Com quem bem ele quisesse. Menos com a nossa turma. Ali, ele era só amigo. Amigo mesmo. Gente boa. Não namorava ninguém, pois a gente entendia Quimeras, mas não entrava na dele. Nem nele.

E, então, dito isto, voltamos à pensão da Carminha. Lá estávamos nós. As gurias estavam demorando. Já tínhamos bebido uma cinco ou seis Brahmas da caixa de Antarctica que estava sob as barras de gelo.

Foi então que, nos demos conta. Fazia já quase meia hora que Quimeras e El Cantor – o garotão espadaúdo e bom de soco que estava na nossa aula, tinham sumido da mesa. Tio Banda foi o primeiro a abrir o bico:

- Ei, cadê o Quimeras e El Cantor? – perguntou como se quisesse resposta.
- Foram ver se tinha alguma guria dormindo – informou Maionese.

Eu e Pezão nos entreolhamos. Corremos os olhos para os olhos de Tio Banda e Maionese e sorrimos, somando os ares de cumplicidade... Tio Banda, expedito, baixando a voz e afastando o copo para o lado, sussurrou sugerindo:

- Eles tão muito calados. Vamos dar uma olhada no que eles estão fazendo..
- Hmm, aí tem. Acho que o El Cantor tá comendo o Quimeras... – Disse Maionese.

Pô, lobo não come lobo e a gente nunca usou as camas das gurias quando elas não estão aqui... – esbravejou Pezão.

Em seguida, nos levantamos e, sem fazer ruído, subimos a escada que levava a um mezanino cheio de portas. Nós fomos abrindo uma por uma. Nada. Lá no quarto número 5, abrimos e enfiamos a cara. Os quatro ao mesmo tempo. E não deu outra. Eles estavam mesmo fazendo o que a gente tinha pensado.

Mas, a vida não é simples assim. O que se pensou que era, não era bem assim. Eles estavam numa boa. A gente ficou até meio chateado de interromper o lufa-lufa da dupla, mas gritamos a uma só voz:

- O que é isso, companheiros?!?

Flagrados no ato. Eles desviaram a atenção um do outro e se voltaram para nós. El Cantor, forte, suado, esbaforido, estava sobre o Quimeras... Sentado no Quimeras!

E Quimeras, de peito pro ar, estava enfiado até os gorgulhos no El Cantor. Sem demonstrar espanto, El Cantor não perdeu o rebolado. Deu uma ajeitadinha na posição, acomodou-se melhor no pratilevas de Quimeras e nos surpreendeu de novo:

- Aí ó! Por essa, vocês não esperavam!
- ?!?
- Surpreeesa! Ó eu aqui ó, um baita macho, sentado na manjuba dum puto! Você já tinham visto isso na vida, um macho dando pra um viado?!?

E riu feliz e descontraído, como se aquilo fosse apenas um prêmio a nossa curiosidade. Fechamos a porta, voltamos ao salão. Deixamos o dinheiro das cervejas em cima da mesa e nos mandamos. Naquela tarde, não esperamos pelas gurias.

Levou tempo para readmitirmos Quimeras na nossa turma. El Cantor nunca mais foi convidado para as nossas gazetas de quarta-feira.

MORAL DA HISTÓRIA – E você ainda quer botar moral numa história dessas?!?

VINÍCIUS, O AUDAZ

Vinícius vendia a fama de prepotente bonito, novo-riquinho truculento, metido a valente. Comprava briga por nada. Usava seus conhecimentos de acadêmico de Direito para bancar o defensor dos mais fracos. Só encarava parada dura. Sabia brigar e gostava de brigar. Um craque em briga de rua. Seus feitos eram contados pelas rodadas de exibição de vantagens que fluíam, com freqüência, pelas mesas de bares e restaurantes da cidade.

Num desses rabos sujos de uma velha e cansativa noite de farra, ele chegara de um baile na zona rural e resolveu tomar a sopa da madrugada, no Boteco-24, um tradicional desaguadouro de tragos e mágoas noturnas.

No ranking da revista 4-Rodas, era um bar copo-sujo que parecia um vagão de trem. Havia mesas para quatro clientes, dos dois lados de um corredor que terminava no balcão, onde em banquetas de caubói, o freguês comia e bebia suas dores e suas mentiras. Os mocinhos da elite apareciam sempre por lá; as mocinhas, não.

O lugar estava cheio. A clientela tinha de tudo: garotos da alta, pés-rapados, brancos, negros, mulatos, meninas de pensão e mulheres da vida. Tudo já comido e bebido. Ou só curando o porre na base da sopa e do caldo verde.

Vinícius mal botou o pé na soleira da porta e seus ouvidos de tuberculoso, captaram uma ofensa que partira de uma mesa, bem no meio da casa na lateral esquerda do bar, ocupada por um terrificante quarteto de enormes crioulos, certamente egressos da estiva do porto de cabotagem de Realeza.

Ele os conhecia da beira do cais. Já tinha comprado confusão com um deles, num puteiro lá por perto, fazia pouco tempo. Agora, a provocação fora algo assim, parecido com:

- Ei, chegou aquele branquelo fiadaputa...

Vinícius fingiu que nada escutara. Caminhou calmo e firme, com um sorriso congelado no rosto, na direção do balcão lá no fundo. Quando chegou à mesa do provocador, encarou o quarteto.

Seus membros – enormes, diga-se de passagem - tomavam uma suculenta canja em suas terrinas de cerâmica. Vinícius baixou a cara junto à cara do homenzarrão negro que o chamara de fiadaputa e, olho no olho, boca juntando o seu bafo de uísque ao bafo de comida do desafeto, perguntou com voz grave e cavernosa:

- O que tu tá fazendo aqui, no lugar dos brancos, negão feio?
- Tomando sopa, palhaço.
- Então, bom apetite! Cuida aí desse frango!

Propositadamente nojento lançou uma cusparada no prato do inimigo e, abrindo o sorriso mais branquelo que podia, retomou a passos de solene cadência a caminhada rumo ao balcão.

A meio caminho sentiu no ombro o peso da manopla do estivador. Virou-se e tomou um murro no nariz. O sangue encheu sua garganta e toldou seus olhos. Assim mesmo, reequilibrou-se e devolveu a gentileza. Pegou mal: o golpe entrou embaixo da mandíbula e derrubou o negrão.

Daí pra frente, não contou, mas deve ter levado uns vinte socos na cara; dez nas costelas e nada menos de uma dúzia de pontapés no estômago e nos escrotos que até podiam ser roxos, mas não eram de ferro. Gritou, gemeu e sentiu uma dorzinha que lhe abandonava o saco e invadia o esfíncter. Ah! Que vontade ele sentiu de dormir e ir pro céu...

Dado por vencido foi abandonado pelos estivadores que voltaram à mesa, como se nada tivesse acontecido. Pediram nova rodada de sopa e voltaram à tarefa de acabar com a ressaca.

Meio minuto depois, os dois negros que estavam de costas para Vinícius, mergulharam de cara dentro das terrinas com sopa escaldante. Os pratos se partiram. Eles quebraram a cara.

O caldo virou molho pardo. Logo Vinícius virou a mesa onde ainda estavam dois deles e chutou os dentes de um e a testa do outro, sem que ambos tivessem tempo para qualquer reação. Agora eram os estivadores que dormiam. Vinícius pegou um lenço, estancou o sangue do nariz quebrado e chutando a cabeça de um que lhe pareceu ainda acordado, saiu calmamente do boteco. Antes de chegar à rua, ainda gritou para o dono da casa:

- Bota a despesa toda na minha conta. Amanhã eu pago tudo!

Estou lhes contando assim essa historieta de bar de uma das madrugadas da minha cidade, porque foi assim que ela me foi contada pelo próprio Vinícius.

Acontece que, naqueles tempos idos, eu era médico residente de um dos hospitais privados que atendia como se fosse público.

Fui acordado no meio de um sonho divinal que me enrolava nos lençóis das três mulheres ideais que, muito mais tarde, seriam as minhas inseparáveis secretárias-executáveis.

Estava pronto para dizer que eu não estava, quando a enfermeira me disse que se tratava de um tal de Vinícius, um cara bonitão, meio amarrotadão, que insistia em ser meu amigo e só queria ser atendido por mim.

Daí a dez minutos, um pouco menos, Vinícius tentava me enrolar com uma daquelas histórias que só os pinguços que se metem em confusão nas madrugadas conseguem inventar.

Começou dizendo que tinha sofrido um acidente de carro e batido com a cara num poste. Pediu-me também um remédio qualquer para aquela dorzinha chata que estava sentindo no ânus. Não resisti e entrei no jogo:

- Tá doendo aí?!? – perguntei enfiando o pai-de-todos no seu orifício búndico.
. Não é bem uma dor... – Disse ele tentando escapulir do dedão.
- Ai, ei, ei Dr. Garanhão... Sai, sai. É só uma dorzinha assim ó...
- Assim, assim?... – Prossegui de dedo enfiado nele por cima das calças.
- É assim, ó. Uma vontade de ir aos pés...
- De ir aos pés?
- É. É... Vontade de cagar. Cagar, meu querido! E sai daí! Sai daí!!!

Saí. Saí e dei uma risada na sua cara, antes de ameaçar:

- Se você não me contar mais essa briga eu não tiro o dedo daqui... Vamos, desembucha Vinícius, com quem foi dessa vez?

E foi assim que eu fiquei sabendo de tudo. Ele me garantiu que só foi às vias de fato por que, bolas, fiadaputa é rapadura! Só por isso eu pude lhes contar esta aventura. Ah sim, dois anos e meio depois, Vinícius morreu de uma rapadura chamada câncer nos testículos.

MORAL DA HISTÓRIA – É na audácia que se escondem os grandes medos.
Rebeldes líbios, agora chamados de revolucionários, anunciam a prisão do filho de Kadafi
Ooops!
Era Edinho, filho de Pelé!

20 de out. de 2011

NÃO FUMO!...

Quem quiser que acredite, mas este seu Garanhão de Pelotas aqui, um dia, foi adolescente. E a minha turma era da pá virada. Eramos todos mais ou menos assim como um "pobre samba meu": sofríamos a influência do jazz. Cada um queria ser mais parecido com o James Dean. Parecido com ele, é claro, antes que se esbugalhasse com seu Porsche 550 naquele acidente contra um Ford Custom Tudor 1950 quando ia para uma corrida em Salina.

Imagine se alguém queria se parecer com Anselmo Duarte?! Não havia uma moçoila sequer que preferisse ser Eliana, ao invés de Natalie Wood.

Então, como era it da moda, todo mundo queria ser mais homem, mais rebelde sem causa, mais transviado, mais duro e dez, mais machoman, ainda que fosse nos mínimos detalhes, nos menores lances.

Era bosseiro tomar leite de madrugada no gargalo da garrafa; era tranchan usar cabelo abotoado atrás e foi aí, bem nessa época, que as camisetas Hering viraram coqueluche. A rapaziada passou a levantar ferro na moita, tinha que ficar sarado para ser durão. Era bonito fumar. Porra, o James Dean fumava.!

E foi numa daquelas tardes de matinés que a patota se reuniu, para saber quem iria azarar depois de mais uma sessão de cinema. Fernandinho, o Raposa, era um dos poucos da turma que não fumava. Não gostava. Também não dizia nada; fazia de tudo para que ninguém notasse que ele era um do time que não pita, nem na cola da cabrita. No fundo, no fundo, se sentia meio envergonhado por essa falha.

Pois, naquela tarde de domingo, estávamos em bloco defronte à entrada do cinema. Um garoto novo no grupo, com cara de Sal Míneo, tirou um maço de Colúmbia com filtro do bolso da jaqueta e, querendo agradar e criar ambiente, ofereceu um cigarro a Fernandinho Raposa:

- Você quer fumar?
- Não, brigado. Não Fumo... - E, fechando o cenho pra ficar com cara de durão, completou com uma certa vermelhidão na cara: - Não fumo... Só bebo e trepo!

MORAL DA HISTÓRIA - Quem não se encaixa nos modismos da sua turma, acaba vítima de seu próprio jeito de ser e parecer. Nem precisa ser, fundamental é parecer.

6 de out. de 2011

FLORES PARA O SOLDADO DESCONHECIDO

Esta aqui é em off. Não daqueles offs de políticos traíras que entregam o ouro pedindo sigilo só para que os jornalistas atirem a matéria na pá do ventilador sem qualquer prurido contra os odores que se espalharão. É off mesmo. Fique sabendo, pois, mas bico de siri. Tem que comer em tranca. Sigilo absoluto. Mais sigiloso que conta bancária de caseiros brasilienses.

O caso é que, neste exato momento, como repórter investigativo, estou infiltrado na comitiva de Dilma - A Bruxelante, que passeia pela Bélgica. Ela pensa que sou um dos assessores de Aninha de Hollanda - A Carioca que de holandesa não tem nada.

R. Stuckert F°/PR
Flores para o Soldado Desconhecido búlgaro.

Aninha tem é direito de achar que tem direito a diárias e hospedagens pagas pelas burras públicas pelos fins de semana que passa no Rio de Janeiro, cidade onde é residente e domiciliada desde que foi dada à luz pela mãe de Chico Buarque, seu irmão de fé, amigo e líder - sempre muito lido e ouvido pela nossa presideusa.

Dentre idas e vindas por lugares nenhuns já estivemos em Bruxelas, neste mês das bruxas, mas na ansiosa espera, na angustiante expectativa de ir à pequena Gabrovo, torrão natal de Pedro Rousseff - O Grande Pai da faxineira que no périplo entre a capital belga e Sófia, antissala do fim do mundo búlgaro, se transformou na humanitária enfermeira que se oferece para curar as dores e as crises do mundo ocidental.

Já estamos na Bulgária desde ontem. Estou aqui e agora - cale a boca, por favor! - infiltrado no grupo que segue Dilma - A Impoluta, até o Túmulo do Soldado Desconhecido. A coroa acaba de depositar uma xará de flores na tumba onde jaz tombado o herói que tombou na primeira guerra mundial, mas que recebe homenagens até hoje por todo e qualquer sinal de conflagração internacional.

Não há capital no mundo que não tenha o seu Soldado Desconhecido. O Rio de Janeiro, não tem. Ou tem. Mas isso não conta, pois se você não sabe, a capital do Brasil não é mais o Rio, desde JK que nunca foi desconhecido.

O que eu posso observar daqui detrás das lentes de minha câmera Rolleiflex é que ela já se afasta do túmulo e está com cara de guerreira ensandecida. Neste instante Dilma sussurra algumas imprecações retumbantes na orelha dos despejos de uma assessora da assessora da secretária do patriota titular da Pasta das Relações Exteriores do Brasil.

Ó, nesse momento, a servidora para assuntos de cerimonial e precedência afasta-se da primeira-presidenta. Vou ver se chego até ela. Pronto, cá estou. Ela é simpática, mas está com os olhos marejados. Vou ver se consigo alguma informação.

- Ei, gracinha, o que foi que deixou a nossa presidenta tão chateada?
- Chateada?
- É, ela tá com cara de quem levou uma sapatada, uma bengalada, sei lá...
- Nada demais. Ela só ficou puta da cara porque não compareceu ninguém da família do Soldado Desconhecido à solenidade... Ela achou isso uma desfeita, uma desconsideração, um desaforo.
- E daí?
- Daí que ela não adimite falhas no cerimonial. Está pensando seriamente em exonerar o Antonio Patriota assim que voltar ao Brasil.

Pronto. Valeu a pena vir até esta solenidade boba, criada só para preencher espaços vazios de agendas oficiais de quem não tem mais o que fazer na terra dos outros. Mas, por favor, não conte nada pra ninguém. Do contrário, vou ter que ir a Ancara, na Turquia, em avião de carreira.

De qualquer maneira, acho que tenho a manchete de hoje para os meus jornais: Soldado Desconhecido búlgaro derruba mais um ministro de Dilma!

MORAL DA HISTÓRIA - O Garanhão de Pelotas também é cultura. E não acredita em off.

25 de set. de 2011

O DIA DA PROSTRAÇÃO

Eu vi no sorriso agradável da secretária que me encaminhou para a sala de consultas do Dr. Proctógenes Dédalo, um sinal evidente de que ela percebera o brilho de avidez nos meus olhos. Capitulei diante do ar irônico que ela não conseguia esconder ao encaminhar-me para o imediato atendimento.

Aquela bonita macaca velha sabia do que se tratava. Não era nenhuma pitonisa. Ali só se tratava daquilo. E a minha ansiedade estava na cara. Era o rosto de quem se deixaria manipular no mais recôndito espaço vital da virilidade de um verdadeiro garanhão.

Passei com meu salvo conduto de cliente Vip pelos três ou quatro pacientes que aguardavam a sua vez de sentir os cutupicos, fazendo força para que não notassem no meu semblante qualquer vestígio de emoção.

Vá que um daqueles leguelhés tivesse boas idéias a respeito de minha visita ao doutor. Presumiriam, decerto, minhas tendências para a vida boa, vida alegre. De minha parte, notei de relance que havia uma espécie de felicidade conformada e contida em cada um deles.

Esses caras, eu manjo. Mal podiam esperar por mais uma sessão de uma boa massagem no esfíncter e suas redondezas. Tinham todos cara de um último tango em Paris.

O doutor me recebeu de braços abertos e um riso de dentes bonitos; tão bonitos que combinavam com seus olhos verdes que ladeavam um nariz bem feito para um rosto de meninão do Rio, de corpo sarado que vestia um jaleco de fina estampa que lhe caía como uma luva!

Nossa! Só aquilo já me causava arrepio. Mas tinha um pouco mais. Senti que tinha bem mais quando ele me segurou a mão com suas duas manoplas quentes e macias, num cumprimento que era, na verdade, uma agradável recepção, uma acolhedora manifestação de boas-vindas.

Mantive a devida distância. Não entreguei o ouro. Sentei-me diante de sua mesa de consultas e, enquanto eu lhe confirmava os dados contidos em minha ficha pessoal de estréia, eu não conseguia desviar a atenção do pai-de-todos da sua mão direita

Aquilo não era um dedo; era um instrumento fálico de conquista acostumado a corriqueiras incursões aos mais diversos bastiões de masculinidade. Minha cabeça conseguiu entrar no foco da complementação do cadastro médico:

- É a primeira vez?
- Como assim?
- Que você se dispõe a...
- Que fico prostrado? É sim, doutor.
- Não se assuste.
- Imagine.
- Você tem alguma preocupação?
- Assim, de ordem psicológica, não. Talvez de cunho corporal.
- Como assim, digo eu agora...
- É que eu gostaria de saber, doutor: depois do exame minucioso que eu sei que o senhor vai fazer, eu voltarei a ser o mesmo?
- O mesmo?
- É. Vou poder continuar desafiando meus amigos a fazer a prova da farinha? Terei as mesmas 30 pregas, ou ficarei com algum vestígio de que já levei ferro na vida?
- Ferro na vida?
- É. Bola nas costas.
- Nem se preocupe. Essas coisas são como crimes de colarinho branco, não deixam pistas. E se deixam, ninguém dá bola.
- Ah bom. Então tô prontinho pra você, meu doutor.

Ele não perdeu tempo. Encaminhou-me para trás de um biombo de luxo, com voz macia e quente me orientou sobre a melhor posição. Meio acanhado baixei as calças, deitei-me de peito para cima, joelhos dobrados e as pernas em V... V de vencido.

Minha posição majestosa parecia-se com o jeito que as grávidas adotam para um exame ginecológico. O proctológico é só a versão masculina da caprichosa invasão de privacidade.

Pois ele se aproximou. Seu dedo infiltrou-se pelos meus caminhos nunca dantes percorridos. E, de frente pro crime, olhando-me nos olhos, foi fundo. Cheio de curiosidades. Rodopiou lá dentro, pelas reberbelas e intertelas. Sem um naco de emoção.

Quando estava ficando bom, terminou. Sem qualquer sentimento. Sem um pingo de dor. Vai ver que é por isso, por não doer, que há tanta gente viciada em exame de próstata.

Extremamente profissional aquele rapagão saiu-se de mim. Livrou-se da luva e com o desdenhoso e tradicional sorriso do dever cumprido, me deixou à vontade. Sua voz já não era de um proctologista; tinha mais o som gutural de um oculista.

- Sentiu alguma coisa, Garanhão?
- Senti que foi rápido, meu doutor...
- Ah, sim. Acontece. Agora, fique à vontade e, se quiser, pode usar o sanitário aí ao lado.

Aí gelou geral. Ainda de calças meio arriadas, dirigi-me para o luxuoso lavado do consultório. Enquanto me higienizava, remordia-me de desilusão:

- Putamerda, borrei o dedão dele!

E foi assim, sem mais nem menos, que tudo terminou. O diagnóstico me foi repassado pela recepcionista quando eu já me encaminhava para um dos elevadores que serviam aquela torre do prédio de clínicas da saúde. Eu não tinha absolutamente nada. Minha próstata estava zerada.

O que me carcomia era aquele desejo intenso que, desde então, carrego até hoje comigo. É uma vontade de fazer loucuras que me faz cócegas irresistíveis bem naquele lugar que não dou para ninguém. Só empresto.

É uma crise crônica que me acometeu depois daquele exame inaugural. Bem que me avisaram que esse caminho não tinha volta. A próstata está ótima, cada vez melhor.

O problema agora é que não consigo passar duas semanas sem ir a um proctologista. Conheço todos nos eixos Rio-São Paulo e Brasília-Nova Iorque- Paris-Londres. Consulto com um de cada vez. Não repito nunca. Ninguém fica sabendo dessa minha adorável síndrome. E você aí, cale a boca que eu sei o que você fez no último verão.

MORAL DA HISTÓRIA – É muito, vale muito e pode muito o coração que sente as coisas como homem e as dissimula como discreto. Quem não sabe dissimular, não sabe o que é viver.

23 de set. de 2011

A VOZ ROUCA DAS RUAS

Eu hoje enfiei o pé no urinol e, antes que o dia começasse, já fiz do amanhecer uma grande meleca, bem ao gosto do país que vou enfrentar até que seja meia-noite outra vez.

Sou desastrado assim quando não ouço o galo cantar e, ao invés de ser um metalúrgico a caminho do metrô, me espreguiço bem mais tarde, como faz bem a um cientista político com modos e costumes de sociólogo. Hoje, pois, sou doutor em sociologia. Uma espécie de Honóris Causa Própria da política.

E cá estou eu, diante do desjejum, lendo os jornalões sem qualquer azia e pensando com meus botões de madrepérola. Se você quer saber, não tô nem aí pra você. Se quiser, acompanhe o meu raciocínio. Seja um pouco assim como eu: pense...

De todas as heranças malditas que os dois governos Lula deixaram para Dilma, o pior legado foi ter estabelecido a cultura imoral da "estratégia da coalizão pela governabilidade". Isso quer dizer apenas que basta saber o preço para se ganhar um aliado. Um governo que tem amigos assim, custa caro. Pode-se pagá-lo com moeda sonante, ou cargos retumbantes.

Imagine, no tempo de colégio, você ter que dar caderno, lápis, borracha para o colega da carteira ao lado, para que ele em troca ficasse seu amigo. Se você fez isso, decerto, ele comeu você primeiro e depois não lhe deu. É que no dele, arde. Pois Lula se fortaleceu assim, sondando o valor de cada um e prometendo dar o que eles quisessem. Nada foi por amor e graça, nem de graça. Foi tudo só uma questão de preço.

Esse costume implantado na in/consciência coletiva pela era lulática desmantelou a estrutura do Estado. O conceito de nação hoje no Brasil é que o Estado é uma grande ação entre "amigos". A população foi rifada e não teve sorte. Caiu no conto de um pacote que embrulha falta de pudor e nenhum respeito à ética. As leis são apenas instrumentos para mostrar quem é que manda; quem é que pode e quem é que se sacode.

Mais que governo isso é poder. Coisa antiga, do tempo de se escrever farmácia com PH. E quem phode mais chora menos. Mais que isso, quem phode mais dá risada, debocha, gargalha. A herança deixada para o governo da primeira-presidenta ensina que o phoder consiste em saber que o povo é mais covarde que os governantes.

Os que tocam esse sistema de governo que se estabeleceu há pouco mais de oito anos, ainda não entenderam que depois de estabelecido o poder, nada é mais grandioso do que saber usar com dignidade o poder. O que nos resta ainda de consolo é o que a história da humanidade comprova: todo poder excessivo tem vida curta.

O mal do brasileiro engambelado, embasbacado é a aceitação da opressão por parte do oprimido. Isso termina em cumplicidade. Você vai se acovardando, se acostumando e consentindo. Quando você menos espera vive uma espécie de solidariedade notável e uma sem-vergonhice compartilhada entre o governo que lhe faz mal e você, o povo que o aguenta.

Ainda há tempo, no entanto, para elevar o tom da voz rouca das ruas. Cuide-se, porém, já que não é apenas com a ira das desigualdades sociais que se processa a verdadeira mudança de uma nação. Sem um verdadeiro ideal de justiça, um povo é capaz de fazer um motim, uma passeata, jamais uma revolução.

Bem, até aqui você me acompanhou. O que você vai fazer com essas minhas elucubrações sociológicas, pouco se me dá. Tô me lixando. Sou um metalúrgico que virou cientista político, um sociólogo, uma "pessoa não-comum" você é um reles popular que nem sequer anda à cata de uma doutrina.

Faça o seguinte: esqueça o que eu pensei. Agora, dê licença, saia das minhas idéias que eu ainda nem botei o pé na cozinha e não quero entornar o urinol outra vez.

MORAL DA HISTÓRIA - Um urinol chutado pela manhã pode espelhar a face matinal de uma nação. Não é um aparelho fora de moda, posto que os ouvidos de qualquer brasileiro têm servido de penico para os discursos de seus amos e senhores - os governantes, políticos e seus coalizados dos três Poderes da República.

20 de set. de 2011

UM OLHAR NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA

Eis que este seu Garanhão de Pelotas  tinha mandado o mundo parar pra dar uma decidinha, cofiar os pelos de um cavanhaque mal aparado - eis que andava meio troncho de saudade, meio macambúzio, de bofes virados, de saco cheio de, uma vez mais na vida, ter bolado as trocas e me aperreado por coisa pouca, bobagem.

Causo é que nem me dei conta de que, mais do que primavera, o dia bonito que nem gaúcha faceira era 20 de Setembro. Porra! Uma data, galo véio! Dia 20 de Setembro, um naco da história bem contada; talvez um pouco aumentada... Mas um bocado, um fatiaço de um baita bolo, uma tremenda guerra intestina que botou muito cabreiro a correr.

Dia 20 de Setembro, tchê! Revolução Farroupilha! Sabe lá o quiéisso, guampudo? Dia da Revolução e eu aqui, com saudade da chinoca, com ciúme dos que foram seus maridos. Sabe lá do que foi que me esqueci? Botei as minhas dores na frente dos ais e dos requebros de bota e espora dos colorados e dos maragatos!

Pois me separei dos separatistas e nem dei pelas quebradas que há coisas na vida, sob o céu dos Pampas e o zunir do Minuano que são maiores que as tristezas de um caboclo que, desde mandinho, se vestiu de rendas e calças justas, que nunca matou passarinho - a não ser bentevi a soco - que trocou as pradarias pelos pátios de colégio...

Tinha minhas razões para fugir da raia, afinal eram 40 mil separatistas republicanos contra 60 mil soldados imperiais. E eu queria ser separatista. Achei que era mais que tempo, guerra perdida. Não fui. Mas o que passou, passou. Voltemos, pois, ao dia de ontem.

Pombas! Era Dia 20 de Setembro. Revolução Farroupilha. Guerra dos Farrapos. Revolta para instalação da República Rio-Grandense! Mas tem uma coisa: isso tudo já faz tempo. Minha memória não é mais lá essas coisas. Só sei que tudo começou no 20 de setembro de 1835 e se foi até março de 1845.

Não é nada, não é nada, lá se foram 10 anos de baionetas muito mais berrantes do que caladas. E eu não estava lá. E se estivesse daria no pé. E a pé, pois jamais caí de égua porque nunca montei um cavalo. Como um nobre e requintado Garanhão de Pelotas eu tinha mais o que fazer.

Era só o que me faltava tomar chimarrão com o tal de Bento Gonçalves, eu queria mais era saber de Anita. Imagine-me num churrasco de chão com Giuseppe, tão Garibaldi quanto Anitinha - aquilo sim é que era guerrilheira, não essas que andam por aí de bolsa família à tiracolo.

Pense um pouco, tenha juízo: eu seria macho bastante para trocar idéias com Antônio Souza Neto, Davi Canabarro, Manuel Marques de Souza, Lima e Silva, Bento Manuel Ribeiro, Pedro II e outros nomes de rua?!? Macho eu sei que sou, sempre fui. Pero no mucho; nem tanto assim.

Aqueles guascas eram bons de briga, tchê. Toscos, rudes, chucros e valentes, eles gostavam dum entrevero. Disso eu também gosto. Mas tem que ter no meio, lençol e uma prenda bonita, de boca pintada e olhar guarani.

Pois então, como eu ia dizendo lá no princípio de tudo: eu me esqueci do 20 de Setembro. Me esqueci, da Revolução Farroupilha. Estava - disse e me garanto - macambúzio, cabisbaixo, de maus bofes, meio desesperado, depauperado, depau... Deixa pra lá.

Me esqueci, chinoca. E foi por causa tua! Estavas por perto. Mas eu tava longe. Me afastei até de mim mesmo, só pra ver se sozinho eu ficava bem acompanhado. Aí, me veio um lembrete. E eu, macanudo véio, me lembrei de tudo. Acho que ainda dá tempo de chegar pra algum desfile.

Vou pegar meu pingo, minha cúia, minha bomba, meus pedaços de carne e me aprochegar do meu rincão. Lá sou amigo do rei... Epa, não é lá que o rei é meu compadre, é em Pasárgada. Mas, vou agora mesmo botar sebo nas canelas e me mandar pra lá, acho que ainda vejo alguma parada de gaúchos e prendas, vestidos a caráter - que caráter é o que não lhes falta. Dá licença, que tô indo.

Ala putcha, tchê! Cai do cavalo. Esqueci que nunca montei na vida. Nem um alazão, um baio sequer. Sou Garanhão de Pelotas, porque nasci assim, o Patrão Velho lá de cima, me inventou desse jeito... Tô bem de Inventor, hein tchê?!?

Tô bem de Inventor, mas muito mal de montaria... E de memória. Ontem era Dia 20 de Setembro. E hoje, esse animalão aqui me olhando como se eu fosse um gaúcho bunda-mole... Bunda mole, doída e estatelada no chão da pátria neste instante. Sabe dum causo triste? Se há coisa que não agüento na vida é o olhar emburrecido de um cavalo!

Ei, táxi! Táxi!

MORAL DA HISTÓRIA - Se não é a alma de uma chinoca aconchegante, uma nação não vale uma guerra. Inda mais quando a prenda nos deixa em farrapos.

3 de set. de 2011

ÀS MARGENS DO BAILE


Era um daqueles bailes bissextos do Clube Náutico Gaúcho, ou do Regatas Pelotense, não me lembro bem, afinal estávamos ainda no limiar da era da juventude transviada. Só sei que estávamos todos lá. E como sempre, no meio do baile, armamos uma tremenda confusão.

Sei mais um pouquinho. Lembro-me bem de cada um da nossa turma: eu, Bandeira, Pé de Anjo, Sérgio Siqueira – o que estas mal traçadas linhas subscreve – Petiz, Careca, Fervido, Fernandinho Leal e Patê. Tudo boa gente.

Sem dinheiro para pagar as despesas, armamos uma brigalhada de mentira entre nós mesmos. Os sopapos eram todos nossos velhos conhecidos. Até que, de repente, quem não era do bando já estava também batendo e levando. Uma zorra. Soco daqui, cadeira dali, tabefe pra lá, bofetão pra cá, acabamos encurralados pelos sócios de verdade e pela diretoria em peso.

Fomos levados aos tropeções e empurrões – uns bicos na bunda também - para uma sala que tinha apenas uma porta para o salão de festas e dois janelões que davam para dentro d’água. Os dirigentes além de nos proteger, nos davam também um corretivo: avisaram que já tinham chamado a polícia.

Estávamos todos enfurnados lá naquele galpão, quando resolvemos dar no pé. Escaparíamos pelas janelas. Diz então o Pé de Anjo:

- Vamos fugir logo.
- É pra já – disse Bandeira já enrolando os sapatos na camisa.
- Vou nessa – gritou Petiz.
- Tô me mandando – falou o veloz Fernandinho.

Aí, o Patê deu uma de bom:

- Eu fico. Vou encarar! Se vocês quiserem podem ir. Eu fico!
- Quié isso – reclamou Fervido – vamos fugir duma vez.
- Não, eu fico e vou bater de frente com esses bolhas – teimou Patê.
- Ei Garanhão, diz pro Patê que ele não é o John Wayne – ponderou Careca.

Quando eu ia argumentar com o irredutível audaz, Patê abriu o jogo:

- Eu fico! – gritou – Eu fico... Porque não sei nadar! – sussurrou.

Aí, pronto! Dramatizamos: se fosse para o Patê morrer afogado, então morreríamos todos lutando. Ficamos todos. Confinados ali mesmo. Até o fim do baile que foi até o sol raiar. Lá pelas seis e meia da matina levamos um sermão dos diretores e, depois de darmos nossos endereços, saímos com o rabo entre as pernas. A polícia não tinha sido chamada.

RODAPÉ – Os abusados são todos compadres uns dos outros e vivem da proteção que mutuamente se proporcionam.

UMA QUESTÃO DE ÓTICA

Por um bom tempo fui assessor de imprensa do deputado Pedrinho Germano que, além de político astuto era um bom parceiro das rodas de beliscatessens. Tinha grandes tiradas. Enorme presença de espírito. E estava sempre querendo fazer o melhor pra todo mundo.

Um dia, numa visita a um bairro de Cachoeira do Sul, sua terra e reduto eleitoral, Pedrinho aceitou da dona da casa o que tinha pra comer: uma tripinha de patê, um caqui e um refresco de limão ao natural. O limão e a temperatura.

Bebeu e comeu se aquela mistura estapafúrdia fosse uma lauta ceia, devolveu o copo design requeijão e agradeceu a preferência.

Durante a mesma campanha para reeleição, Pedrinho atacava - num salão paroquial da periferia – a inércia do prefeito da cidade:

- Na minha ótica – disse olhando para a platéia – é possível combinar o corte das despesas com o crescimento da cidade!

Mal disse aquilo e foi interrompido por um dos votantes que tinha cara e jeito de ser partidário do intendente municipal:

- O senhor poderia me conseguir um par de óculos?
- Como assim? Não, meu caro, não posso.
- Mas o senhor não acabou de dizer que tem uma ótica?!?

Pegou mal. Pedrinho ficou no contrapé. Sentiu que perdeu aquele voto. O mini comício durou pouco por ali. Mais tarde, conferindo o mapa das votações, Pedrinho Germano ficou sabendo que não tinha ido muito bem naquela urna. De qualquer maneira, foi reeleito. Com folga.

RODAPÉ – Nem sempre o eleitor vê o candidato com bons olhos.

21 de ago. de 2011

RECORDISTA MUNDIAL

Usando um dos meus múltiplos e bem dotados personagens, fiz história no futebol como Aranha Negra, o melhor goleiro de todos os tempos nas tardes de sábado da Charqueada São João.

Como se não bastassem as inigualáveis temporadas invictas consecutivas, de 1990 a 1999, levei meu time à vitória no torneio início do glorioso ano 2000, conquistando nos pênaltis, o primeiro título do terceiro milênio da humanidade.

Um feito que só poderá ser superado depois de passados esses próximos mil anos e, assim mesmo, se alguém repetir a façanha de pegar, como eu peguei, os cinco pênaltis da primeira série e os outros dois que foram cobrados contra mim, até que eu mesmo, bancando o Rogério Ceni, fosse lá cobrar a penalidade que, já no papel de Garanhão de Pelotas converti no gol da vitória que os atacantes saladeiros até então não tinham conseguido marcar.

Pronto, eu acabara de me consagrar como Aranha Negra, o primeiro goleiro do mundo a segurar, uma atrás da outra sete penalidades máximas. Conta de mentiroso, mas um feito memorável, um recorde mundial insuperável.

Na semana seguinte, diante do tédio de carregar nas costas a proeza de ser o único guarda-valas a defender sete penalidades consecutivas na história do futebol, resolvi deixar o gol e o Aranha Negra para trás, para desempenhar a função de center forward já como Garanhão de Pelotas.

Era a primeira partida pra valer do terceiro milênio. A um minuto de jogo, meti um golaço de calcanhar. Nem o hoje combalido Sócrates faria igual. Pronto, outra façanha imbatível. Só daqui a mil anos, alguém terá chance de superar meu desempenho, e ainda assim terá que ser com um gol de letra marcado antes dos primeiros 60 segundos da competição.

Diante daquele empate em um gol e como estava em disputa o Troféu Carlinhos Mazza, eterno patrono da Charqueada São João, a posse da taça seria decidida em cobrança de pênaltis.

Tantas quantas fossem necessárias para apontar o vencedor. Como reconhecido atacante matador, eu fui escalado para ser o único e indivisível cobrador.

Naquele tempo, um só atleta - na verdade, o craque do time - cobrava as penalidades máximas. Mais que justo, posto que sempre e isso perdura até hoje, foi só um goleiro, nada mais que um único arqueiro, o encarregado de dar conta do recado.

Pelo sorteio, eu fui encarregado de bater primeiro as cinco penalidades. Fui lá e bati. Errei todas, uma atrás da outra.

Como o atrevido goleiro deles tinha agarrado os três primeiros pênaltis, eu bati os outros dois para fora, de propósito. Aqui ó, que ele iria igualar o recorde do Aranha Negra!

Até hoje eu não sei se o ponta-de-lança deles lá converteu algum dos pênaltis que bateu contra nós. Só sei que tão cedo não vai aparecer um craque com a devida estatura para quebrar o meu segundo recorde mundial no futebol de todos os tempos.

A não ser que algum Elano seja escalado por alguém parecido com um Mano Menezes para decidir alguma competição pela seleção brasileira.

MORAL DA HISTÓRIA – Triunfar é tirar partido das debilidades humanas e jamais compartilhá-las.

20 de ago. de 2011

GARANHÃO DE PURA ESTAMPA
Os ventos que movem hoje os moínhos do Garanhão de Pelotas
são apenas tornados.

5 de ago. de 2011

A SURDEZ DO RICAÇO ESPERTO

Te mete! Ninguém dava nada por ele, quando - com um diploma embaixo do braço - o Garanhão de Pelotas  virou otorrinolaringologista. Virou otorrino mais por se deliciar ao ver seus pacientes não pronunciarem direito o nome completo de sua especilização do que por vocação e profissão.

Montou uma clínica no centro da metropole da Zona Sul - paraíso de compras e vendas dos moradores de pelo menos 20 cidades ali das redondezas. Só atendia gente rica. É que rico também tem dor de ouvido, de cabeça e gargantilha.

Naquele tarde, sua agenda de consultas reservava para a última hora do expediente - trinta minutos antes do happy hour - uma sessão de revisão geral nos ouvidos de Dom Pérrignon XVI, já com 72 anos de idade, vetusto descedente do monge aquele que "sorvia estrelas".

Era um produtor de vinho da colônia, concorrente direto do Emílio Ribas, senhor de um vinhedo que não dava bola, nem bolinha para Champagne - uma região francesa que emprestava o nome para uma bebida bem parecida com o vinho em garrafão colonial.

Pois, por pura sorte, Dom Pérrignon XVI ficou bilionário. mais até do que esses consultores republicanos que fazem negócios de botar dinheiro da vida pública na privada. Com seus 72 anos bem vividos, estava casado já há seis meses com uma jovem de 20 anos, perdidamente apaixonada por ele.

No horário marcado, em pontinho, o paciente chegou, para a revisão dos aparelhos auriculares que lhe enganavam a surdez. O galante otorrino, atendeu-o com a gentileza que sempre dispensava aos portadores de polpudos talões de cheque. Todo sorrisos e afabilidades. Assim que o ancião entrou, o médico foi puxando conversa:

- E aí Dom Pérrignon, o senhor vai bem? E sua jovem esposa, como vai?
- Tudo bem, tudo bem...
- E o aparelho auricular fez efeito?
- Fez. Uma beleza!
- E sua esposa já sabe disso?
- Quê nada...
- Você não disse nada, não fez nada?
- Fiz. Já mandei alterar o testamento.

O Garanhão  fingiu-se surpreso. E logo aproximando-se do ouvido do velhote ricaço, disse-lhe em tom de confidência:

- Sabe, Dom Perrignon, eu nunca entendi como o senhor conquistou o coração daquela menina...
- Barbada, meu bom doutor, eu menti pra ela que tinha 87 anos.

Pronto. Desfeitos todos os mistérios. A revisão nos aparelhos foi minuciosa e Dom Pérrignon saiu dali escutando melhor do que nunca.

MORAL DA HISTÓRIA - Só cai no conto do vigário aquele que pretende passar o vigário para trás.

O ASSALTO

Faz tempo isso, mas como sempre, o parque de estacionamento estava lotado. O Garanhão de Pelotas  resolveu usar suas credenciais de lobista oficial de negócios relacionados com coalizão pela governabilidade e dirigiu-se ao estacionamento interno do ministério.

Não era mais do que três e meia da tarde. O nosso grande executivo, hábil piloto de um silencioso Honda Civic Hybrid mal encaixara a máquina vermelho-sanguessuga na vaga, quando viu que algo de estranho acontecia naquele lugar escuro e desértico do órgão público.

Estrategicamente, escondeu-se atrás da primeira coluna da garagem próxima ao veículo que lhe parecia familiar e, em silêncio, conseguiu observar o estranho acontecimento. Viu tudo. Era um assalto-relâmpago. Escutou direitinho:

- Mãos ao alto! Passe todo o seu dinheiro!
- Você sabe a quem está assaltando?
- Não.
- Eu sou o ministro dos Transportes.
- Então, passe todo o meu dinheiro!

O Garanhão, trancando o riso, deixou que aflorasse o ímpeto do grande herói que há dentro dele. Saltou de trás da coluna e gritou alguma coisa assim como "você está preso!". Foi o que bastou.

O bandido saiu em desabalada carreira deixando para trás a idéia do assalto. O ministro não sabia como agradecer ao seu providencial salvador. Isso, no entanto, não foi problema. Graças àquele ato de bravura, os tempos que se seguiram foram todos de vacas gordas. E muito bons e rentáveis, enquanto o ministro foi ministro.

Claro, o Garanhão religiosamente, pagava os tradicionais 10% do que recebia por seus prestimosos serviços como mais um dos grandes consultores da Esplanada dos Ministérios, para o assaltante frustrado que, ao primeiro grito de "teje preso!" fugira desabaladamente pela rampa do estacionamento oficial.

MORAL DA HISTÓRIA - Ambos estão perdoados por 100 anos.

4 de ago. de 2011

GORDO - O CONSELHEIRO

Em matéria de política, o Garanhão de Pelotas sempre contou com um grande consultor para assuntos de qualquer natureza - de rombo a roubo; de atalhos a desvios; de malversação a boa conversação: O Gordo - seu irmão de fé, amigo e camarada para todas as jornadas.

Quando abriu sua empresa de Consultoria "Programa de Aceleração e Crescimento", seu patrimônio só aumentou graças aos conselhos e ao jogo de cintura que o Gordo lhe repassava.

Certa feita, desencantado da vida e desiludidio com algumas atitudes do Pai dos Pobres como proprietário intocável e mandachuva absoluto do governo da sua pátria amada, o Garanhão  estava decidido a largar tudo e voltar a ser um outro personagem qualquer desse enorme sítio de pica-paus, tucanos, picaretas e outras aves raras.

Andava chateado, com as frequentes explosões de mau humor e grossura que o Cara distribuía a torto e direito pra cima de todo mundo. Foi quando ouviu os conselhos do notável, mas não imortal, conselheiro Gordo:

- Garanhão, mermão... Tenha calma. O homem é bom.
- Como assim?!?
- Ele é que nem o Hitler, pô.
- Não tô entendendo.
- Seguinte: o Hitler era um cara bom...
- Bom?!?
- Era. O Hitler era um cara bom... Só não gostava de ser contrariado.

Dito isto, sorveu um bom gole da cervejinha de sempre e foi tratar da vida que a noite era sempre criança para ele. Ele adorava criança. Gostava de todo mundo. Do Hitler, do Cara... E do Garanhão que, por causa dele, ganhou muita grana como um dos grandes magos da consultoria republicana.

MORAL DA HISTÓRIA - Há alguns defeitos tão estreitamente relacionados com algumas virtudes que, às vezes, até podemos extirpar os vícios e as maldades, sem arrancar o que há de bom em uma lá que outra criatura "não comum".

GARANHA'S SOUTH LAKE CLINIC

Logo que deixou a presidência da República, o Dr. Honório Card começou a sentir-se meio deprê, meio depauperado. Antes mesmo de começar a provar que o mensalão foi "uma farsa", ele resolveu procurar um psiquiatra. Algumas sessões não lhe fariam mal nenhum.

Mesmo sem desencarnar do governo, descartou logo os médicos do corpo oficial do Palácio do Planalto. Já bastava a azia que estava sentindo diante dos que os jornais escreviam a respeito dos quatro guarda-costas que os cofres públicos lhe garantem.

Correu o dedo na lista telefônica - ele ainda não descobriu o Google - e parou no Garanhão de Pelotas. Encantou-se.

- Taí ó, esse cara eu já ouvi falar dele. Eu mesmo, uma vez até falei pra um prefeito de lá que esse Garanhão  fazia parte de uma fábrica de sapecas - falou Dr. Honório para si mesmo.

Acionou sua legião de assessores e porta-vozes e logo, logo a primeira sessão estava marcada. Deu-se numa sexta-feira, no complexo clínico "Garanha's South Lake Clinic". Sem espera alguma - que o Garanhão não dá bola para o SUS - foi atendido em seguidinha.

- Dr. Honório, pode começar pelo princípio.
- No princípio eu criei o céu e a terra...

Aquilo foi só o início. A clínica do Garanhão  ganhou muito dinheiro; cresceu e multiplicou-se. O Garanhão  é que, por muito tempo, precisou de um cuidadoso tratamento psiquiátrico

MORAL DA HISTÓRIA - Quando é assim, o melhor é contrariar!

OPS! MUITO PRAZER.

Cena de balada. Clima de boate desse terceiro milênio, onde até os mais jovens são do século passado. Pois o Garanhão de Pelotas fez o seu primeiro xixi no mundo 21 anos antes que irrompesse a aurora do primeiro dia do ano 2000. Não é nada, não é nada, ele é de 1989 - quase uma lenda viva.

E lá estava ele com seu chopinho bem-tirado na mão, atravessando a pista congestionada por aves raras de todas as espécies - homens e mulheres de todos os sexos e aniversários - quando esbarrou inadivertidamente num baladeiro parrudão. Molhou a camisa do cara que, por sua vez, emborcou a própria tulipa de chope no chão...

- Ops, desculpe - disse amável o Garanhão.

A resposta foi um muchocho à beira de um rosnar e de um olhar fulminante em sua direção. O Garanhão não se abalou. Estava ali pra se divertir. Tentou mostrar que era de boa paz. Colocou amigavelmente a mão sobre o ombro do irrascível boêmio de arrabalde e convidou-o com um sorriso conciliador:

- Foi mal, cara. Venha comigo até o balcão, vou te pagar um chopinho novinho em folha...
- Sai de mim, cara... Eu queria tomar é aquele ali que você jogou fora...
- Quiéisso, parceiro... Faço questão, te pago um geladinho de colarinho maduro...
- Sai pra lá, eu quero é aquele ali no chão.
- Não faz assim, cara. Não procura encrenca, eu não sou de briga.
- Olhaqui, babaca! Você não é, mas eu sou. Tu sabe com quem cê tá falando?- indagou dizendo o truculento, já enrolando a língua e triturando o português.
- Sei não, amigo. Mas...
- Eu sou polícia. Polícia federal!
- Pô, parceirão, polícia federal? E além desse, quê outro defeito tu tem?! - debochou o Garanhão.
- Tu não entendeu, mané? Sou polía federal!
- Muito prazer, eu cheguei ontem do Japão...
- E eu com isso, por que ocê não ficou por lá?!? - continuou o implicante.
- Porque eu vim comemorar com a minha turma o título de campeão mundial de kickboxer que acabei de ganhar em Tokio!

Deliciou-se com a cara do provocador, deu meia volta, não pagou chope nenhum para o pitbundão e foi gozar as delícias de mais uma festa no Brasil, antes de voar na manhã seguinte para a Lituânia, onde tinha mais um torneio internacional pela frente. Um torneio de... Golfe.

MORAL DA HISTÓRIA - A cortesia é é um artifício das pessoas de boa paz para manter à devida distância os estúpidos e brutamontes.

CORREDOR DE MINISTÉRIO

Já faz algum tem o Garanhão de Pelotas  cumpria a sua rotina de lobista pelos corredores do Ministério dos Transportes de Valores do Brasil. Andava ali pelo terceiro andar quando, de repente, saíram de braço dado do gabinete o ministro e um deputado que mandava e desmandava na pasta.

Nem se deram ao desplante de reparar na presença do Garanhão. Seguiram batendo um papo descontraído na direção do elevador. Era mais de cinco da tarde e o happy hour não podia esperar. O nobre frequentador dos corredores ministeriais escutou a conversa que os dois ilustres senhores jogavam fora:

- Ministro, você viu o relógio que o Pagot estava usando?
- Não, não vi... Me mostra.

MORAL DA HISTÓRIA - Nos corredores dos ministérios os bastidores andam de braço dado. Mais do que ouvido é preciso ter olho vivo.

3 de ago. de 2011

O FISCAL E O PESCADOR

O Garanhão de Pelotas  cumpria mais uma missão ministerial, como fiscal federal do Departamento de Escoamento da Produção do Ministério da Agricultura. Andava pelas beiradas da ponte da Amizade que liga o Brasil ao fim da picada, logo ali depois da Foz do Iguaçu.

Foi pelas quebradas - que ele não é maluco nem nada para seguir aquele caminho natural da rota da produção. Pelas cercanias da ponte, ele deu de cara um muambeiro que, mesmo sem saber de quem se tratava aquela figura imponente que se aproximava com pés de algodão, fingiu que estava pescando.

O Garanhão aprochegou-se do pescador e puxou conversa mole:.


- Você está fazendo o quê aí, amigo?
- Pescando…
- Já pescou alguma coisa?
- Xiiii…Uma cacetada…Peguei peixe de tudo que é espécie, tamanho e feitio!
- Você sabe quem eu sou?
- Não…
- Sou fiscal do governo e aqui é proibido pescar!
- E você, sabe quem eu sou, senhor fiscal?
- Não faço a menor idéia…
- Sou o maior mentiroso do mundo!

O Garanhão  sorriu e deixou tudo por isso mesmo, afinal, o próprio ministro da Agricultura vivia alertando que era a favor de uma viligância mais branda, por que "fiscalização é um negócio antidemocrático". Era bem como o próprio mandachuva vivia repetindo, "detesto toda e qualquer atitude que possa sequer lembrar que vivemos num regime policialesco".

A firme convicção do ministro deu ao Garanhão de Pelotas  a certeza de que o melhor mesmo era deixar pra lá. O muambeiro tinha se saído bem. E, se há uma coisa que o Garanhão  admire nas pessoas é a presença de espírito.

E, além do mais, aquilo ali não é nada, não é nada, não era nada mesmo. O que significava aquele contrabandozinho ali na fronteira de Foz do Iguaçu, diante do estouro da boiada lá na Rússia e o escândalo que fez a Conab se transformar no Denit do Ministério da Agricultura?!?

MORAL DA HISTÓRIA - Se não se pega peixe graúdo, por que vai se fisgar um lambari?!?

O CASAMENTO NA AUSTRÁLIA

Pois o Garanhão de Pelotas, depois que passou de lorde falido para o mais bem-sucedido cidadão do mundo, sempre acalentou um sonho na vida. Trocar sua solteirice bem garantida da convivência com suas três secretárias executáveis, por uma vida pacata e cheia de ternura com uma esposa, amada, amante por todo o tempo do mundo, assim eterna enquanto estivesse acesa a chama que os versos alexandrinos e as rimas espúrias de Vinícius lhe inspiravam.

Estava a um passo de fazer da quimera uma realidade. Naquele novo amanhecer, levantou-se expedito como nunca e diligente como sempre. Cumpriu seus rituais de começos cotidianos - da escova de dentes ao desjejum e à escolha do traje de alto executivo da sua multinacional australiana.

Já estava instalado confortavelmente na poltrona de seu gabinete no centro de Brisbane, na Queen Street, calçadão comercial da cidade.

Dali, vendo pessoas pelas ruas, descortinando os edifícios históricos das redondezas do porto, rememorava rápidas a/venturas por aqueles pubs antigos que apareciam ao largo do Jardim Botânico.

Deixou de lado o romantismo no meio da manhã daquela terça-feira, para organizar-se rumo à realização do seu antigo sonho. Telefonou para a secretária loira:

- 'Morning, Marilyn Lewinskovka. Você cancelou, como eu lhe pedi, todos os meus compromissos para este fim de semana?
- Oh yes, my boss...
- E está tudo bem?
- Oh yes, my lord... Só tem uma coisinha...
- Uma coisinha?
- Yes, my love... A sua noiva ficou furiosa porque eu desmarquei o casamento de vocês no sábado!
- Oh, my God!...

O Garanhão  bateu o telefone. O casamento não saiu. Passado um breve tempo, o atarefado representante da nova geração de líderes empresariais da Austrália, não só concedeu o seu perdão à diligente secretária, como a promoveu a diretora-presidente do saltitante trio de auxiliares que o acompanha até hoje a qualquer canto do planeta, para o que der e vier.

MORAL DA HISTÓRIA - O destino acaba sempre rindo das probabilidades, mas quem ri do destino descobre a fortuna e a sorte.

2 de ago. de 2011

UM PORRE À MEXICANA

O Garanhão de Pelotas  estava em meio a mais uma reunião do conselho de propaganda da empresa de Joan Crawford, em Acapulco, quando o celular vibrou em seu peito fazendo o jacarezinho Lacoste saltitar no bolso da camisa esporte que o separava dos demais conselheiros.

Surpresa! Era Remi Gorga! Orra meu, Remi Figurelli Gorga Vírgula Filho! Ele estava no México. Na capital. Em missão cultural. Era adido em Quito, no Ecuador. E com ele sempre foi assim, onde há Remi há sempre algo que termina em dor. Tinha que ser Ecuador. No bom sentido, é claro.

A dor naquele caso, era de saudade dos velhos tempos de pautas jornalísticas no eixo Brasília-Porto Alegre. Fazia duas décadas que não se falavam. Combinaram logo um encontro para aquela noite e, pronto, o Garanhão  pegou um Lear-Jet da Companhia e se mandou para Mexico City.

De noite, conversaram, mentiram, mataram saudade contando histórias que nenhum dos dois lembrava mais e, evidentemente, beberam todas. Quase comeram algumas. Mas, não era noite para aquilo. Melhor tequila com sal e limão na cavidade do punho que não mata a fome, mas mitiga a sede e dá um porre que beira o coma alcoólico.

Na porta do restaurante, onde - entre tacos, champurrados, bacanoras, barbacoas, buñuelos e burritos, tinham sorvido Dry Martinis pra começar, Koskenkorvas para fartar e tequilas para terminar - orientaram em jogral o taxista da melhor maneira que a língua lhes permitia enrolar o idioma:

- Por favor, nos leve já até o hotel coisa...
- Hotel coisa, onde fica isso?
- Pô, bem ali defronte ao Palácio coisa...
- Coisa?
- É, siga em frente que quando a gente chegar a gente avisa.

Sabe-se lá como, eles chegaram. O Garanhão  e Remi ocuparam a mesma suíte no 58° ou no 92° andar do Four Seasons Hotel Mexico City - não estavam lá com muita capacidade de direção, imagine se teriam noção de altura. E aí se esbaldaram. Caiu cada um na sua cama; em cada cama um quase coma.

Correu a noite. Dormiram que nem duas pedras. Chumbaram. Desmaiaram de ebriedade. Por volta de oito horas da manhã, Remi acorda em sobressalto. E, por absoluta solidariedade, acorda também o Garanhão de Pelotas.

- Orra, Garanhão  que porre!
- É. Que porre!...
- Olha só, a suíte parece que está balançando. Tá tudo rodando.
- É. Tá tudo rodando... Tá tudo balançando...
- Tá balançando pra você também, é?!?
- Tá, cara. Tá tudo rodando e sacudindo...

Aí, Remi teve um ataque de lucidez anti-etílica e telefonou para a portaria do hotel:

- Alô.
- Alô. Que pasa señor?
- No pasa nada, señor... Es un temblor...
- Temblor? Ah bom.... Ah bom, nããão! Aaaaii ! É um terremoto!

Ele e o Garanhão não levaram mais do que dois minutos para trocarem de roupa, socarem tudo nas malas e descerem degrau por degrau quase cem andares até à porta da rua. Estavm bêbados, mas não eram loucos de entrar num elevador em dia de temblor.

Pegaram o primeiro táxi que passou e balançaram com ele pela avenida tremelicante até chegar ao aeroporto. Despediram-se rapidamente. E foi cada um pro seu canto. Remi Gorga para Quito e o Garanhão  para Acapulco.

MORAL DA HISTÓRIA - Há porres que não vêm para o bem e que fazem até mal. De qualquer maneira, aquela tremedeira toda foi culpa dos champurrados, certamente. A amizade dos dois jamais foi estremecida.

UM AMANHECER EM ACAPULCO

O Garanhão de Pelotas  acordou achando que o mundo é um circo e a vida um carnaval. Estava com os bofes virados. Depois do desjejum foi à garagem, escolheu o Bentley Continental Supersports e saiu devagar pela rampa que cortava a grama verde-bandeira nacional e levava à alameda onde ficava o seu requintado solar, refúgio residencial de uma das regiões mais valorizadas de Acapulco.

Corria o ano douradíssimo de 1970, tão dourado que até o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, jogando em Guadalajara, no mesmo México que o nosso personagem escolhera para ser uma das mentes mais brilhantes da Diretoria Executiva de Publicidade e Marketing da Pepsico - gigante do ramo dos refrigerantes que, por capricho de Joan Crawford, combatia o império da Coca-Cola.

Na operação saída, o Garanhão interrompeu a marcha ré para não atropelar um garoto, filho do vizinho ao lado direito de sua morada. O garoto choramingava. Ao frear, o executivo dos refrigérios percebeu que a poucos passos do menino, estava a senhora que ocupava o palacete à esquerda de seu frontispício. Uma jararaca entruda que, seguidamente, bisbilhotava a vida dos outros por trás das cortinas de seus enormes janelões. Estava com cara de furiosa. E o garoto com cara de susto.

O Garanhão desceu do Bentley e resolveu entrar na sua primeira história do dia. Pegou o menino pelo braço, levou-o até onde se encontrava a vizinha enorme e pesadona, para saber do que se tratava:

- O que foi que aconteceu - perguntou ao garoto, já na frente da mulherona.
- Ela me bateu.
- Por que a senhora fez isso, madame?
- Porque ele me chamou de gorda!
- Ora, ora. E a senhora acha que batendo nele vai emagrecer?!?

Pegou o menino, conduziu-o até a porta de sua mansão e deixou a irrritadiça bisbilhoteira parada no calçadão cercado de flores. Definitivamente, o dia não começava lá essas coisas.

RODAPÉ - A conduta é um espelho em que cada um mostra a própria imagem.

O GARANHÃO E AS HARLEY DAVIDSON

O Garanhão de Pelotas  estava em plena temporada de caminhoneiro brasileiro no Texas. Queria aprender a falar a língua do Tio Sam com todos os sotaques. Cansado de ser turista, resolveu dar uma de trabalhador em busca de pequenas aventuras por grandes rodovias naqueles desertos do primeiro mundo americano.

Green card e tudo no porta-luvas, o Garanhão  resolveu dar uma parada num daqueles restaurantes de beira de estrada no meio do nada que não fosse apenas um posto de abastecimento da Texaco.

Saboreava sozinho - já que não havia sinal de mais nenhum cliente - um saudável copo de leite gelado com um farto donuts, quando entram no salão três motoqueiros típicos montadores de possantes Harley Davidson, parrudos, sujões, mal-encarados e vestidos com aquelas roupas de couro preto, cheias de penduricalhos cromados, tatuagens e piercings em profusão, coisas assim que exibem força e valentia dos que chegam em bando.

O mais feio chegou-se ao Garanhão  e apagou o cigarro no donuts dele e foi se sentar lá na ponta do balcão. O outro mais feio que o mais feio, foi até o Garanhão  cuspiu no copo de leite e sentou-se na outra ponta do balcão. Aí, o mais feio que os outros dois mais feios, aproximou-se e virou o pratinho de donuts no colo do Garanhão. Este ficou por ali mesmo, bafejando no cangote do nosso então pacato caminhoneiro incidental.

Sem dizer absolutamente nada, sem mover um só m´suculo da face, sem demonstrar qualquer reação animal, o Garanhão  levantou-se, pagou a conta, botou o boné e foi embora, na mais santa paz.

Coisa de dois ou três minutos depois, o motoqueiro mais feio disse com voz de valente para o calmo e imperturbável garçom:

- Esse cara não era homem!
- Nem homem, nem bom motorista...
- Como assim?
- Ele acabou de passar com o caminhão por cima de três motos que estavam ali fora.


MORAL DA HISTÓRIA - Não há nada melhor do que devolver àqueles que me causam algum dano, do que devolver-lhes danos muito maiores. Nem há melhor vingança do que podermos nos vingar.