22 de out de 2011

O VALOR DAS RUGAS

Quanta coisa se pode encontrar nas rugas de alguém. Com boa vontade, é claro. Elas podem, em certos casos, mostrar que já passamos da metade do caminho de nossas vidas. Se isso é bom, ou ruim, tanto faz como tanto fez.

As rugas podem dizer, por exemplo, que cada um tem a idade do seu próprio coração. Podem revelar para quem vê a vida com bons olhos, que não raro é muito mais agradável e esperançoso ser um jovem de setenta anos do que um velho de quarenta.

Pois, eu já tinha mais que a idade do meu coração quando me engracei pra cima de uma diarista linda que minha tia Margarida, uma flor de pessoa, havia contratado para assumir as tarefas da sua casa de veraneio, em Playa Del Carmen, a 70 km ao sul de Cancun, no tal de Caribe mexicano.

De diarista, Libertad logo foi promovida a governanta, com direito a casa, comida e regalias condizentes a quem era tiquitita pero cumplidora.

Como sobrinho mais chegado, eu tirava temporadas praianas por lá. E foi numa dessas que não resisti aos encantos, sorrisos e meneios daquela gatinha manhosa de trinta e dois, trinta e três anos, se muito. Tia Margarida era o máximo. Que tia maravilhosa... Botar pra dentro de casa uma preciosidade daquelas. Pediu, levou.

Não vou me perder em detalhes. Pulo todas as pequenas cantadas que dei em Libertad, para lhes repassar a que calou fundo no seu coração.

Com o dobro e mais um pouco de sua idade, me foi fácil perceber as rugas que nos separavam. Meu caráter, no entanto, não tinha nada a ver com a vergonha dessa defasagem de tempo entre nós. Bolas, eu não queria seu amor, nem casar com Libertad; queria entrar na sua vida. Quer dizer, vida mesmo não é nome da rosa. Queria entrar, entrar e pronto. Vocês já sabem como e onde.

Era um entardecer de sonho. De sol saindo para dar lugar à lua que já mergulhava nas águas do mar das Caraíbas. E eu ali, de frescura com Libertad que já tinha vencido as lidas da casa.

A cada frase murmurada, passava-lhe a mão pela morenice de seus braços, sem que ela mostrasse rejeição. Ao contrário, seus pelinhos se eriçavam. Ela era quente. E eu fui conversando. E abusando devagar e sempre. Libertad me deu entrada. Com vozinha rouca e cálida me animou:

- Sabe, siempre me ha gustado los hombres mayores ...
- Você gosta mesmo de homens mais velhos, meu anjo? Não acredito.
- Verdad. Los hombres mayores tienen más experiencia, son menos atrevidos.
- Mas e a pele, a diferença de maciez, as rugas?...
- Oh, sí, siempre hay alguna diferencia que hace una cierta distancia ...

Putamerda! Eu não deveria ter tocado nesse assunto. Mas, já que a coisa tinha descambado para esse lado constrangedor, mandei o caráter às favas e fui buscar a igualdade na tal experiência a que ela se referira.

- Sabe, Libertad, essa besteira de rugas é puro preconceito.
- Prejuicio, así?
- Já te explico meu anjo. Quando nasci e fiz xixi no mundo pela primeira vez, a parteira que me atendeu viu que meu pintinho já era todo enrugadinho. E achou uma beleza.

Não precisei de mais nada. Libertad sorriu e, em seguida suspirou ao sentir que minhas mãos percorriam suas pernas lisas e eriçadinhas como eu gostava de ver e de sentir.

Uns poucos minutos depois ela percebia que aquelas rugas mais sigilosas que as da minha cara de pau, se tinham tornado lisas, mais evidentes e viçosas como poucas das que ela já havia visto e sentido na vida.

MORAL DA HISTÓRIA – A idade da mulher está na cara; a do homem, no seu ânimo. (Somerset Maugham).