Repórter de rádio feito a martelo, Coutinho de Assis procurava prestar atenção em tudo que acontecia a sua volta. Virou um chato de galocha. Não podia ver uma roda de amigos que se chegava pra perto, querendo agradar. E furungar notícias.
O Garanhão de Pelotas, quando estava na cidade, tinha encontro marcado com os jornalistas de algumas emissoras e dos dois jornais citadinos, à beira do balcão do Cruz de Malta - bar e restaurante com as melhores lascas de porco rodeadas de caipirinha e outros bebericos de ocasião.
Era um sábado, perto de meio-dia. As biritas e os beliscões já tinham começado, quando o foca se aprochegou. Sentindo o gelo do pessoal, afastou-se de leve, pediu um cafezinho e uma empada e ficou por ali mordiscando uma e bebendo o outro, de olhos e ouvidos atentos.
Behrensdorf, macaco velho, começou com a maldade. Assim como quem não quer nada, voltou-se para Edgard Laurent, então diretor da TV Tuiuti, e perguntou num tom alto o suficiente para ser escutado pelo furungador:
- E aí, Laurent, vais cobrir a chegada do novo reitor da Universidade Federal?
- Claro, já mandei minha equipe lá pro Aeroporto - respondeu, malandro, ao perceber a jogada.
- A que horas ele chega?
- Daqui a pouco. Vem de Brasília, o pouso do avião está previsto para às 13h.
Henrique Coutinho deu um pulo. Quase engoliu a empadinha de uma só dentada. Apenas babou-se com o café quente. Aconchegou-se à turma de pinguços convictos e, como quem não tinha escutado nada, foi metendo o bedelho:
- Ei, ouvi dizer que vamos ter um novo reitor na cidade...
- É verdade - disse o Garanhão de Pelotas.
- E já se sabe o nome dele?
- Claro! Mas não se pode falar isso em voz alta. Vou dizer só pra você... - Behrensdorf adiantou-se e segredou o nome do novo reitor no ouvido direito do bisbilhoteiro.
- Ah, já ouvi falar nesse cara.
Logo afastou-se. Naquelas priscas eras não havia celular, então a menos de quinze segundos e três metros da roda de amigos, pegou o telefone de parede do bar e ligou para a Rádio Cultura:
- Ei, Marcos bota aí o prefixo do Correspondente Extra. Tenho um furo para dar no ar...
- Furo, do que se trata?
- De educação superior. Da Universidade Federal. É bomba!
O sonoplasta cortou a programação normal, meteu a chamada de notícia no ar e Coutinho de Assis entrou num fôlego só, com toda a bossa e imponência que a informação exigia:
- Boa tarde, amigos. Dentro de exatamente 22 minutos estará pousando no aeroporto da cidade o avião que traz de Brasília o novo reitor da Universidade Federal de Pelotas. Ele vem para o lugar do Doutor Dagoberto Vieira X. de Andrade que pediu aposentadoria. O novo reitor é de outra cidade e muito conhecido nos meios educacionais. Logo daremos mais detalhes. Por enquanto podemos adiantar que o novo reitor se chama Dr. Honóris... Doutor Honóris Causa.
O boletim foi interrompido. O Grande Bailado Eletrônico de Sábado foi retomado. E só se falava nisso nos bastidores da emissora, dona de enorme sintonia.
Na segunda-feira, o Garanhão de Pelotas, Behrensdorf e Laurent dissuadiram o diretor da rádio de botar o repórter no olho da rua. Assumiram a culpa pela brincadeira e prometeram não fazer nunca mais nada parecido com o perguntão. E não fizeram mesmo. Dali em diante, todas as frias em que o colocavam eram diferentes. Não tinha uma igual, nem parecida.
MORAL DA HISTÓRIA - Do que se diz em sociedade - numa redação de jornal, num balcão de bar, no microfone de uma rádio - o que mais importa é que seja engraçado; o de menos é que seja verdade.
28 de fev. de 2011
14 de fev. de 2011
O Catedrático Presunçoso
Se existe no mundo alguma coisa mais impertigada, pernóstica e prolixa do que uma reunião de Conselho Universitário, o Garanhão de Pelotas desconhece. É, mais do que um encontro entre as cabeças pensantes do Ensino superior, um confronto de vaidades que mistura os corpos docente e discente.
Pois, naquele tempo, o Garanhão era catedrático de alguma coisa e era conselheiro. E, a reunião começara, como é de bom alvitre nessas ocasiões, com um lauto café da manhã. Logo depois, lida a pauta, o encontro parou para o cofee break - que ninguém ali era de ferro.
Retomados os trabalhos, um circunspecto professor resolveu pensar em voz alta, para que os ínclitos conselheiros todos soubessem que ele estava ali para decidir os destinos da universidade.
Fez pose de intelectual, reclinou-se na cadeira de espaldar alto e, com o olhar perdido pela ampla sala de decisões, empertigou o tom de sua disposição falando para que, além dos meros circunstantes, o chanceler e o reitor também o escutassem:
- Aqui na universidade, precisamos parar para pensar...
Uma advertência absolutamente dispensável, mas com o impacto de um cerebral ponto de partida para qualquer assunto que surgisse a partir dali. O Garanhão de Pelotas não deixou aquilo passar em brancas nuvens. Com afetada solenidade no falar, dirigiu-se em tom filosofal concreto para o posudo Dr. Honóris Causa:
- Pois de minha parte, professor Honóris, acho que ainda somos capazes de fazer as duas coisas...
- Fazer as duas coisas, como assim? - espantou-se o presunçoso conselheiro.
- Ora, caminhar e pensar ao mesmo tempo.
O pedante correu os olhos pela mesa oval das decisões universitárias e percebeu um leve esgar de ironia no canto da boca de cada participante da reunião. O encontro foi, digamos, profícuo. Pelo menos não foi interrompido em momento algum pelo afetado conselheiro.
MORAL DA HISTÓRIA - Há momentos em que é tão natural quanto oportunista a presunção de alguns que, se os outros mostrarem humildade, vai ficar parecendo que não valem grande coisa.
Pois, naquele tempo, o Garanhão era catedrático de alguma coisa e era conselheiro. E, a reunião começara, como é de bom alvitre nessas ocasiões, com um lauto café da manhã. Logo depois, lida a pauta, o encontro parou para o cofee break - que ninguém ali era de ferro.
Retomados os trabalhos, um circunspecto professor resolveu pensar em voz alta, para que os ínclitos conselheiros todos soubessem que ele estava ali para decidir os destinos da universidade.
Fez pose de intelectual, reclinou-se na cadeira de espaldar alto e, com o olhar perdido pela ampla sala de decisões, empertigou o tom de sua disposição falando para que, além dos meros circunstantes, o chanceler e o reitor também o escutassem:
- Aqui na universidade, precisamos parar para pensar...
Uma advertência absolutamente dispensável, mas com o impacto de um cerebral ponto de partida para qualquer assunto que surgisse a partir dali. O Garanhão de Pelotas não deixou aquilo passar em brancas nuvens. Com afetada solenidade no falar, dirigiu-se em tom filosofal concreto para o posudo Dr. Honóris Causa:
- Pois de minha parte, professor Honóris, acho que ainda somos capazes de fazer as duas coisas...
- Fazer as duas coisas, como assim? - espantou-se o presunçoso conselheiro.
- Ora, caminhar e pensar ao mesmo tempo.
O pedante correu os olhos pela mesa oval das decisões universitárias e percebeu um leve esgar de ironia no canto da boca de cada participante da reunião. O encontro foi, digamos, profícuo. Pelo menos não foi interrompido em momento algum pelo afetado conselheiro.
MORAL DA HISTÓRIA - Há momentos em que é tão natural quanto oportunista a presunção de alguns que, se os outros mostrarem humildade, vai ficar parecendo que não valem grande coisa.
11 de fev. de 2011
Mucréia!!!
Nos tempos das vacas magras, quando o Garanhão de Pelotas ainda trabalhava como chefe do setor de contas correntes no falecido Banco da Província do Estado do Rio Grande do Sul, Clarinda foi, disparada, a mais extrovertida e gozadora colega de serviço que ele teve na sua tão árdua quanto breve carreira de bancário.
Tinha sempre uma piada, um chiste, um comentário, uma resposta na ponta da língua. Seu temperamento alegre e comunicativo dava margem a pequenas liberdades, rápidos retruques, ágeis brincadeiras inocentes e respeitáveis. E até, não raro, a alguns certos descalabros de linguagem e tratamento.
O Garanhão também cultivava o hábito de àquela hora dar uma saidinha para espichar as pernas, endireitar a coluna e fazer um lanche rápido, coroado com um bom sorvete a título de sobremesa.
Naquele dia, Clarinda exagerara no visual: cabelos ruivos, à la homem; blusa floridíssima de fundo vermelho berrante, calças brancas tipo slack, justas, inacreditáveis, incríveis, extraordinárias que se deixavam desenhar pelas bordas salientes de uma lingerie vermelha com ares de fio-dental. Ninguém no mundo da moda imaginaria outra figura igual, com aquele design, com aquele layout. Um espanto.
Quase uma hora da tarde, o Garanhão saía do restaurante, já comido, quando, nas proximidades da sorveteria deparou, poucos passos à frente, com Clarinda desfilando sua beleza pelas ruas centrais da cidade. Decerto esperava pelo maridão. O Garanhão, não resistiu. Resolveu fazer uma brincadeirinha com a enfeitadíssima colega. Acelerou o passo e deu-lhe um toque no ombro pelas costas, ao tempo em que lhe bafejava pelos arredores da nuca:
- Úúúúú... Mucréia!
A mucréia virou-se mais do que surpresa, assustada. Mais surpreso e assustado ficou o Garanhão... Não era a Clarinda. Por incrível que pudesse parecer, não era a Clarinda. Era uma senhora absolutamente desconhecida. Eles nunca tinham se visto na vida.
Ligeiro, como se fosse Lula diante de um escândalo qualquer do seu saudoso governo, o Garanhão não demonstrou qualquer sinal de rubor armou um sorrisinho amarelo e foi logo dizendo:
- Hi, pensei que era a minha mulher. A minha esposa tem uma roupa igualiznha a esta. Desculpe, por favor, desculpe.
Tinha sempre uma piada, um chiste, um comentário, uma resposta na ponta da língua. Seu temperamento alegre e comunicativo dava margem a pequenas liberdades, rápidos retruques, ágeis brincadeiras inocentes e respeitáveis. E até, não raro, a alguns certos descalabros de linguagem e tratamento.
O Garanhão também cultivava o hábito de àquela hora dar uma saidinha para espichar as pernas, endireitar a coluna e fazer um lanche rápido, coroado com um bom sorvete a título de sobremesa.
Naquele dia, Clarinda exagerara no visual: cabelos ruivos, à la homem; blusa floridíssima de fundo vermelho berrante, calças brancas tipo slack, justas, inacreditáveis, incríveis, extraordinárias que se deixavam desenhar pelas bordas salientes de uma lingerie vermelha com ares de fio-dental. Ninguém no mundo da moda imaginaria outra figura igual, com aquele design, com aquele layout. Um espanto.
Quase uma hora da tarde, o Garanhão saía do restaurante, já comido, quando, nas proximidades da sorveteria deparou, poucos passos à frente, com Clarinda desfilando sua beleza pelas ruas centrais da cidade. Decerto esperava pelo maridão. O Garanhão, não resistiu. Resolveu fazer uma brincadeirinha com a enfeitadíssima colega. Acelerou o passo e deu-lhe um toque no ombro pelas costas, ao tempo em que lhe bafejava pelos arredores da nuca:- Úúúúú... Mucréia!
A mucréia virou-se mais do que surpresa, assustada. Mais surpreso e assustado ficou o Garanhão... Não era a Clarinda. Por incrível que pudesse parecer, não era a Clarinda. Era uma senhora absolutamente desconhecida. Eles nunca tinham se visto na vida.
Ligeiro, como se fosse Lula diante de um escândalo qualquer do seu saudoso governo, o Garanhão não demonstrou qualquer sinal de rubor armou um sorrisinho amarelo e foi logo dizendo:
- Hi, pensei que era a minha mulher. A minha esposa tem uma roupa igualiznha a esta. Desculpe, por favor, desculpe.
MORAL DA HISTÓRIA - Existem pequenas mentiras que diante da força dos exageros se transformam em grandes e salvadoras verdades, ou... sempre é melhor uma boa desculpa do que nenhuma.
9 de fev. de 2011
O filme de sábado
Naquele entardecer de sábado, o Garanhão de Pelotas tava nem aí para a perspectiva de domingo. Não queria nem saber do ronronar da secretária executável que resolvera não aproveitar o weekend que o galante Cavaleiro dos dois Pampas havia concedido ao trio maravilhoso de pau, melhor, de mão pra toda obra que sempre o acompanhava aonde quer que ele estivesse, ou fosse. A loira resolvera ficar para fazer nada o tempo todo com ele.
Entediado, o Garanhão cutucou a secretária N° 1, uma da Sete Maravilhas da vida contemporânea, desligou a TV e, num instantinho estavam no Jaguar XF-2009 rumo a uma locadora de DVDs.
Chegaram logo, a locadora ficava por perto da residência do nobre filho da Princesa do Sul, bem no centro da cidade. O Garanhão ficou no carro, enquanto a loira foi à loja de filmes alugar a encomenda do seu amo e senhor.
Um minutinho depois, nem isso, e o sábado modorrento explodiu de emoção. O Garanhão deparou na janela a seu lado com a figura de um crioulo senegalesco, cavalar, tridimensional que lhe apontava uma faca desse tamanhão e fazia gestos indecorosos de que queria grana.
- Perdeu, mano. Perdeu. Dá o que tem aí!..
Coração batendo mais que bongô, olhos esbulgalhados como se fossem os dois faróis do Jaguar, o Garanhão manteve serenidade aparente e, com um esgar tipo sorriso, espalmou-lhe a mão esquerda como se fosse um guarda de trânsito pedindo calma. Um gesto assim como se tudo estivesse bem; que ele faria tudo que o assaltante queria...
Pura encenação. O larápio piscou e o Garanhão arrancou, com um torque de cantar pneu, saindo do zero para 150km num átimo de segundo, deixando o assalto pra trás e o assaltante estatelado no meio-fio da calçada. Teve um transeunte que ainda escutou o bandido cuspir entre dentes uma imprecação:
- Safado! Mauricinho bem fiadaputa, esse!
Envergonhado e fracassado, o ladrão se levantou, guardou a faca e saiu de fininho. Aquela quase noite de sábado não estava começando para bem para ele.
A Um quarteirão dali, o Garanhão arriscou os olhos no retrovisor. Pra quê?!? Estava sendo seguido. Era sequestro. Vingança, quem sabe, da gangue do assaltante que deixara esparramado no meio da rua. Acelerou mais, atravessou todos os sinais fechados. Por azar, entrou num beco sem saída, ao lado da praça municipal.
O carro que o perseguia, estancou num freada maluca, a poucos centímetros do Jaguar. O Garanhão já se recriminava por ter saído sem a sua Beretta .30, quando viu a sua loiríssima secretária correndo aflita ao seu encontro. Ela estava acompanhada do primo-irmão que, por benesses do destino, encontrara na locadora. O carro era dele.
- Calma, meu amor, calma. Sou eu. Nós vimos tudo. Só queremos saber se você está bem...
Bolas, era ela; sempre ela. Lépida e diligente. Mas, a constatação de que se tratava dela e não de uma nova tentativa de ataque, chegara um pouco tarde demais. O que tinha que acontecer com os nervos e as reações intestinais do nosso herói, já tinha acontecido.
- Obrigado. Muito obrigado, mas podem ir pra casa. Eu...eu vou ali no banheiro da praça.
E foi. Bom tempo depois pegou o caminho de casa. Lá encontrou a secretária N° 1 completamente concentrada no maior sucesso daquele ano nas locadoras: "Uma mente brilhante". O filme já estava pra lá da metade. O Garanhão foi tomar uma ducha antes de revigorar-se numa demorada seção de hidromassagem.
MORAL DA HISTÓRIA - É bom temer sempre o pior; o melhor acabará se salvando por si mesmo. Mas é miserável o estado daquele que, à vezes, está querendo poucas coisas, quando tem muitas a temer.
Entediado, o Garanhão cutucou a secretária N° 1, uma da Sete Maravilhas da vida contemporânea, desligou a TV e, num instantinho estavam no Jaguar XF-2009 rumo a uma locadora de DVDs.
Chegaram logo, a locadora ficava por perto da residência do nobre filho da Princesa do Sul, bem no centro da cidade. O Garanhão ficou no carro, enquanto a loira foi à loja de filmes alugar a encomenda do seu amo e senhor.
Um minutinho depois, nem isso, e o sábado modorrento explodiu de emoção. O Garanhão deparou na janela a seu lado com a figura de um crioulo senegalesco, cavalar, tridimensional que lhe apontava uma faca desse tamanhão e fazia gestos indecorosos de que queria grana.
- Perdeu, mano. Perdeu. Dá o que tem aí!..
Coração batendo mais que bongô, olhos esbulgalhados como se fossem os dois faróis do Jaguar, o Garanhão manteve serenidade aparente e, com um esgar tipo sorriso, espalmou-lhe a mão esquerda como se fosse um guarda de trânsito pedindo calma. Um gesto assim como se tudo estivesse bem; que ele faria tudo que o assaltante queria...
Pura encenação. O larápio piscou e o Garanhão arrancou, com um torque de cantar pneu, saindo do zero para 150km num átimo de segundo, deixando o assalto pra trás e o assaltante estatelado no meio-fio da calçada. Teve um transeunte que ainda escutou o bandido cuspir entre dentes uma imprecação:
- Safado! Mauricinho bem fiadaputa, esse!
Envergonhado e fracassado, o ladrão se levantou, guardou a faca e saiu de fininho. Aquela quase noite de sábado não estava começando para bem para ele.
A Um quarteirão dali, o Garanhão arriscou os olhos no retrovisor. Pra quê?!? Estava sendo seguido. Era sequestro. Vingança, quem sabe, da gangue do assaltante que deixara esparramado no meio da rua. Acelerou mais, atravessou todos os sinais fechados. Por azar, entrou num beco sem saída, ao lado da praça municipal.
O carro que o perseguia, estancou num freada maluca, a poucos centímetros do Jaguar. O Garanhão já se recriminava por ter saído sem a sua Beretta .30, quando viu a sua loiríssima secretária correndo aflita ao seu encontro. Ela estava acompanhada do primo-irmão que, por benesses do destino, encontrara na locadora. O carro era dele.
- Calma, meu amor, calma. Sou eu. Nós vimos tudo. Só queremos saber se você está bem...
Bolas, era ela; sempre ela. Lépida e diligente. Mas, a constatação de que se tratava dela e não de uma nova tentativa de ataque, chegara um pouco tarde demais. O que tinha que acontecer com os nervos e as reações intestinais do nosso herói, já tinha acontecido.
- Obrigado. Muito obrigado, mas podem ir pra casa. Eu...eu vou ali no banheiro da praça.
E foi. Bom tempo depois pegou o caminho de casa. Lá encontrou a secretária N° 1 completamente concentrada no maior sucesso daquele ano nas locadoras: "Uma mente brilhante". O filme já estava pra lá da metade. O Garanhão foi tomar uma ducha antes de revigorar-se numa demorada seção de hidromassagem.
MORAL DA HISTÓRIA - É bom temer sempre o pior; o melhor acabará se salvando por si mesmo. Mas é miserável o estado daquele que, à vezes, está querendo poucas coisas, quando tem muitas a temer.
3 de fev. de 2011
Quem sabe, sabe...
A última inovação tática no futebol brasileiro se deu há quase 25 anos. Não demora nada, está celebrando bodas de prata. Em 1978, na Argentina, Cláudio Coutinho - que nunca jogou bola - apelidou de overlaping o que Nilton Santos já fazia em 1962.
Aí, nos especializamos em cobrar faltas. Até goleiro bate. E bate como ninguém. No Brasil, afora José da Cruz e Souza - campeão de tênis sem rede e sem bolinha - todo mundo nasce craque e nem precisa ter, só para desdizer Ronaldinho, "um pouquinho de Flamengo". No Brasil até a mãe do Garanhão de Pelotas tem bola no Pé.
Reprodução/Blog JovemPan
Pois agora, vésperas de 9 de fevereiro, dia de amistoso com a França, o Garanhão rememora o glorioso 10 de agosto do ano passado, data de estréia de Mano Menezes na Seleção contra um conjunto dos Estados Unidos, em Nova Jersey. Mano entrou de pé direito: 2 a 0 numa equipe que tinha tudo para ser campeã mundial de beisebol e olímpica de natação.
E ganhamos, nós e o Mano Menezes, por 2 a 0. Foi bom, mas ficou a sensação de que poderia ter sido um pouquinho mais, coisa assim de 6 a 1, como foi aquele amistoso que o Dunga fez contra a Islândia, antes de começar a Copa da África.
Mas aí também esse 1 seria demais. Doeria, porque contra a Islândia ou aquele time dos americanos de Nova Jersey, até a mamãezinha do Garanhão jogava. Jogava mesmo. E o Garanhão mata a a cobra e mostra o pau.
Ontem mesmo - é ele quem conta - cumprindo a habitual visita de médico que o Herói dos dois Pampas faz a sua genitora, desde que ela deixou o hospital, o Garanhão foi testemunha ocular do golaço que ela marcou ali mesmo do seu lado.
Cercada de dores pela crise dos seus lúcidos e fantásticos 87 anos, ela conversava com o nobre filho, atilada e dorida, sobre futilidades, coisas genéricas: tempo, netos, receitinhas caseiras, remédios...
O Garanhão se distraía com o papo e com uma bola de plástico das crianças da casa. A bola - leve como uma jabulani - fugiu do seu controle e foi cair aos pés da mãe convalescente, na cadeira ortopédica. Ela não desperdiçou a chance: por reflexo, expedita e esperta com a mobilidade de um Romário na área de risco, ela bateu na peronha, de pé direito.
A bola foi em cheio na tela da TV, bem no meio do Globo Esporte. Ironia: o goleiro dos Estados Unidos estava no ar. Ele nem viu por onde a bola passou. A assessoria de Barak Obama jura que o goleiro era aquele da Islândia.
MORAL DA HISTÓRIA - O Futebol, tá no sangue do brasileiro. Basta saber bater na bola que nem precisa de treinador. Muito menos de 200 amistosos até à próxima Copa do Mundo. Ainda mais que ela já tá no papo... Vai ser aqui em casa.
Aí, nos especializamos em cobrar faltas. Até goleiro bate. E bate como ninguém. No Brasil, afora José da Cruz e Souza - campeão de tênis sem rede e sem bolinha - todo mundo nasce craque e nem precisa ter, só para desdizer Ronaldinho, "um pouquinho de Flamengo". No Brasil até a mãe do Garanhão de Pelotas tem bola no Pé.
Reprodução/Blog JovemPan
Pois agora, vésperas de 9 de fevereiro, dia de amistoso com a França, o Garanhão rememora o glorioso 10 de agosto do ano passado, data de estréia de Mano Menezes na Seleção contra um conjunto dos Estados Unidos, em Nova Jersey. Mano entrou de pé direito: 2 a 0 numa equipe que tinha tudo para ser campeã mundial de beisebol e olímpica de natação.E ganhamos, nós e o Mano Menezes, por 2 a 0. Foi bom, mas ficou a sensação de que poderia ter sido um pouquinho mais, coisa assim de 6 a 1, como foi aquele amistoso que o Dunga fez contra a Islândia, antes de começar a Copa da África.
Mas aí também esse 1 seria demais. Doeria, porque contra a Islândia ou aquele time dos americanos de Nova Jersey, até a mamãezinha do Garanhão jogava. Jogava mesmo. E o Garanhão mata a a cobra e mostra o pau.
Ontem mesmo - é ele quem conta - cumprindo a habitual visita de médico que o Herói dos dois Pampas faz a sua genitora, desde que ela deixou o hospital, o Garanhão foi testemunha ocular do golaço que ela marcou ali mesmo do seu lado.
Cercada de dores pela crise dos seus lúcidos e fantásticos 87 anos, ela conversava com o nobre filho, atilada e dorida, sobre futilidades, coisas genéricas: tempo, netos, receitinhas caseiras, remédios...
O Garanhão se distraía com o papo e com uma bola de plástico das crianças da casa. A bola - leve como uma jabulani - fugiu do seu controle e foi cair aos pés da mãe convalescente, na cadeira ortopédica. Ela não desperdiçou a chance: por reflexo, expedita e esperta com a mobilidade de um Romário na área de risco, ela bateu na peronha, de pé direito.
A bola foi em cheio na tela da TV, bem no meio do Globo Esporte. Ironia: o goleiro dos Estados Unidos estava no ar. Ele nem viu por onde a bola passou. A assessoria de Barak Obama jura que o goleiro era aquele da Islândia.
MORAL DA HISTÓRIA - O Futebol, tá no sangue do brasileiro. Basta saber bater na bola que nem precisa de treinador. Muito menos de 200 amistosos até à próxima Copa do Mundo. Ainda mais que ela já tá no papo... Vai ser aqui em casa.
Weekend na Mansão do Garanhão
A mansão do Garanhão de Pelotas, no Lago Sul, em Brasília era um verdadeiro clube. Aos fins de semana, velhos amigos do peito e os parentes de dias prósperos, começavam a baixar, na maior sem-cerimônia.
Convidavam-se para os sábados pela manhã, jogavam futebol soçaite, caiam na piscina, davam raquetadas na quadra de tênis, comiam a feijoada mais carioca da Corte, ficavam para o café da tarde, carteavam, jantavam, esperavam o carreteiro e, de carta em carta, chegavam ao café da manhã do domingo na pérgula da piscina, iam a mais um jogo de bola, nadavam de novo e se atracavam no churrasco dominical à moda saideira.
De repente, sumiram todos. Assim, como que por encanto. Simplesmente deixaram de freqüentar a mansão que voltou à placidez e à calmaria das tardes de folga às margens mais nobres do Paranoá. O vizinho da frente, atônito diante da repentina mudança de hábitos, quis saber o que havia acontecido:
- Ei, Garanhão, como foi que você se livrou da turba?
- Barbada... Pedi dinheiro emprestado pros amigos ricos e emprestei algum para os parentes pobres.
- Simples assim?
- Assim... Não paguei aos que me emprestaram e lhes disse que os pobres honrariam minha dívida.
O vizinho entendeu. Porque eram todos muito honrados, morriam de vergonha uns dos outros. Alguns por quê não se animavam a cobrar, os demais porque não podiam e nem pensavam pagar. Esse tipo de notícia se espalha mais que leptospirose depois da chuva em áreas de risco. A churrascalhada no Lago Sul nunca mais foi a mesma.
MORAL DA HISTÓRIA - Feliz é todo aquele que nas coisas desse mundo não se vê obrigado, pelas manhas do destino, a colocar à prova a lealdade dos amigos.
Convidavam-se para os sábados pela manhã, jogavam futebol soçaite, caiam na piscina, davam raquetadas na quadra de tênis, comiam a feijoada mais carioca da Corte, ficavam para o café da tarde, carteavam, jantavam, esperavam o carreteiro e, de carta em carta, chegavam ao café da manhã do domingo na pérgula da piscina, iam a mais um jogo de bola, nadavam de novo e se atracavam no churrasco dominical à moda saideira.- Ei, Garanhão, como foi que você se livrou da turba?
- Barbada... Pedi dinheiro emprestado pros amigos ricos e emprestei algum para os parentes pobres.
- Simples assim?
- Assim... Não paguei aos que me emprestaram e lhes disse que os pobres honrariam minha dívida.
O vizinho entendeu. Porque eram todos muito honrados, morriam de vergonha uns dos outros. Alguns por quê não se animavam a cobrar, os demais porque não podiam e nem pensavam pagar. Esse tipo de notícia se espalha mais que leptospirose depois da chuva em áreas de risco. A churrascalhada no Lago Sul nunca mais foi a mesma.
MORAL DA HISTÓRIA - Feliz é todo aquele que nas coisas desse mundo não se vê obrigado, pelas manhas do destino, a colocar à prova a lealdade dos amigos.
2 de fev. de 2011
Música e Futebol de Fina Estampa
Grande cantor, bailarino e craque de bola, de tudo quanto lhe foi dado ver e viver por aí, o Garanhão de Pelotas seleciona três coisas na vida: as outras duas são música e futebol.
Da primeira não vai revelar nada do que chegou a catalogar como pilares fundamentais de mudança de hábitos, mas do dossiê de música e futebol, ele hoje tira do armário o que viu e viveu de melhor.
Então - diz ele - a música ia e vinha muito bem. Aí surgiu Glenn Miller e sua orquestra. O mundo que já escutava Benny Goodman, aprendeu a dançar.
Eis que aparece Frank Sinatra e, com a Voz, o mundo aprende a namorar. Foi assim, até que surgiu o rock 'n roll com Bill Haley e seus Cometas. Foi legal e coisa e tal até que Elvis Presley botou pelvis na Terra. Reinou e se foi embora cedo demais para dar vez aos Beatles.
Revirando o baú, o Garanhão rememora que por aqui, o samba de Cartola tirou o chapéu pra a bossa de Tom Jobim que pegou a poesia de Vinícius e saiu por aí de barquinho levando a Garota de Ipanema para os quatro cantos do planeta.
Foi mais ou menos o que Astor Piazzolla fez com o tango de Gardel que já chorava suas mágoas para os boleros de Ravel a Manzanero que inventou o mexicano Luiz Miguel.
Pelo dossiê - que prefere chamar de banco de dados - o Garanhão relembra que foi assim, como a brisa na preamar, que se deu no futebol.
Ia tudo pra lá de muito bem de Yachin a Frendereich, até que nasceu a bola e com ela, Pelé e seus fantásticos coadjuvantes: Garrincha, Didi, Gerson, Nilton Santos.
O futebol teve então que esperar muito tempo até que a mesmice ganhasse alegria nos pés cheios de novidades de um guri medonho, de firulas novas, cheio de charme e matador como um James, James Bond. Seu nome, Ronaldinho - Ronaldinho Gaúcho. Muito prazer...
Quando já estava ficando chato dividir bolas de ouro com o Fenomeno e com Romário, eis que aparece Robinho - o desconcertante, repleto de talento, mas de reduzida persistência. Pronto, era o que faltava para que o terceiro milênio fosse invadido por Neymar e sua geração de moleques.
Neymar não precisa se meter de Pato a Ganso, basta que jogue como Neymar e que possa mostrar o seu futebol de fina estampa. A bola de Neymar é fina; ele é fino. Cavaleiro de fina estampa, Neymar monta e desmonta marcadores. Ainda vai levar muita patada.
Tomara que a grossura de um zagueiro 007 não libere o código de matar jogadas para acabar com o seu futebol antes do tempo. Neymar é fino demais pra bolinha que andam jogando por aí.
Da primeira não vai revelar nada do que chegou a catalogar como pilares fundamentais de mudança de hábitos, mas do dossiê de música e futebol, ele hoje tira do armário o que viu e viveu de melhor.
Então - diz ele - a música ia e vinha muito bem. Aí surgiu Glenn Miller e sua orquestra. O mundo que já escutava Benny Goodman, aprendeu a dançar.
Eis que aparece Frank Sinatra e, com a Voz, o mundo aprende a namorar. Foi assim, até que surgiu o rock 'n roll com Bill Haley e seus Cometas. Foi legal e coisa e tal até que Elvis Presley botou pelvis na Terra. Reinou e se foi embora cedo demais para dar vez aos Beatles.
Revirando o baú, o Garanhão rememora que por aqui, o samba de Cartola tirou o chapéu pra a bossa de Tom Jobim que pegou a poesia de Vinícius e saiu por aí de barquinho levando a Garota de Ipanema para os quatro cantos do planeta.
Foi mais ou menos o que Astor Piazzolla fez com o tango de Gardel que já chorava suas mágoas para os boleros de Ravel a Manzanero que inventou o mexicano Luiz Miguel.
Pelo dossiê - que prefere chamar de banco de dados - o Garanhão relembra que foi assim, como a brisa na preamar, que se deu no futebol.
Ia tudo pra lá de muito bem de Yachin a Frendereich, até que nasceu a bola e com ela, Pelé e seus fantásticos coadjuvantes: Garrincha, Didi, Gerson, Nilton Santos.
O futebol teve então que esperar muito tempo até que a mesmice ganhasse alegria nos pés cheios de novidades de um guri medonho, de firulas novas, cheio de charme e matador como um James, James Bond. Seu nome, Ronaldinho - Ronaldinho Gaúcho. Muito prazer...
Quando já estava ficando chato dividir bolas de ouro com o Fenomeno e com Romário, eis que aparece Robinho - o desconcertante, repleto de talento, mas de reduzida persistência. Pronto, era o que faltava para que o terceiro milênio fosse invadido por Neymar e sua geração de moleques.
Neymar não precisa se meter de Pato a Ganso, basta que jogue como Neymar e que possa mostrar o seu futebol de fina estampa. A bola de Neymar é fina; ele é fino. Cavaleiro de fina estampa, Neymar monta e desmonta marcadores. Ainda vai levar muita patada.
Tomara que a grossura de um zagueiro 007 não libere o código de matar jogadas para acabar com o seu futebol antes do tempo. Neymar é fino demais pra bolinha que andam jogando por aí.
1 de fev. de 2011
O N° 1 do Mundo!
Era uma vez... o tempo em que o Garanhão de Pelotas, em mais uma de suas notáveis transformações de personalidade, se deixou encarnar num cara bom de papo e ruim de colégio. Foi quando ele concluiu que trabalhar era o caminho mais curto para subir na vida. E se convenceu que era um tremendo vendedor. Seria capaz até de vender notas de 50 por 100 reais.
Tinha sempre uma boa história pra contar. Cada caso era um causo. Sempre alguém, ou alguma empresa lhe devia dinheiro de comissões e vendas realizadas em lugares e datas sempre incertos e não sabidos.
Pois, naquele dia deu de cara com um cartaz na vitrine de uma loja de eletroeletrônicos e outras quinquilharias anunciando que tinham vagas.
Decidido, foi entrando, arrancou o cartazete e se dirigiu ao primeiro vivente por ali que tinha cara de gerente.
Entregou-lhe o anúncio impresso e, transbordando auto-suficiência já foi logo dizendo:
- Pronto, tá aqui o melhor vendedor do mundo. Eu sou o N° 1.
- Número 1 do mundo?
- É, o N° 1... O quié que vocês querem que eu venda?
- Olha, temos estas telas coloridas de galalite para usar na TV...
- Deixa comigo. Quanto tempo eu tenho pra vender essa meia dúzia aqui?
- Uma semana, tá bom?
- Deixa comigo.
O Garanhão pegou a embalagem com umas vinte telas de superposição a visores de tevê em preto e branco e, cheio de confiança, foi à luta. Dez dias depois, apareceu na loja, com a mesma empáfia. O gerente festejou:
- Salve o N° 1. Salve o maior vendedor do mundo! Salve o N° 1...
- Número 2! Número 2, por favor... O N° 1 é o cara que vendeu essa telas pra vocês!
Entregou a mercadoria e foi para os bares da vida vender alhos por bugalhos. Cheio ainda de comissões por receber, o Garanhão de Pelotas acabou voltando para o colégio. Formou-se no fim do ano, com louvor. Pra burro ele não servia. Mas deve as mensalidades daquele ano letivo até hoje.
MORAL DA HISTÓRIA - A inclinação de confiar naqueles a quem não conhecemos tem razão de ser: é que até então não tinham nos enganado.
Tinha sempre uma boa história pra contar. Cada caso era um causo. Sempre alguém, ou alguma empresa lhe devia dinheiro de comissões e vendas realizadas em lugares e datas sempre incertos e não sabidos.
Decidido, foi entrando, arrancou o cartazete e se dirigiu ao primeiro vivente por ali que tinha cara de gerente.
Entregou-lhe o anúncio impresso e, transbordando auto-suficiência já foi logo dizendo:
- Pronto, tá aqui o melhor vendedor do mundo. Eu sou o N° 1.
- Número 1 do mundo?
- É, o N° 1... O quié que vocês querem que eu venda?
- Olha, temos estas telas coloridas de galalite para usar na TV...
- Deixa comigo. Quanto tempo eu tenho pra vender essa meia dúzia aqui?
- Uma semana, tá bom?
- Deixa comigo.
O Garanhão pegou a embalagem com umas vinte telas de superposição a visores de tevê em preto e branco e, cheio de confiança, foi à luta. Dez dias depois, apareceu na loja, com a mesma empáfia. O gerente festejou:
- Salve o N° 1. Salve o maior vendedor do mundo! Salve o N° 1...
- Número 2! Número 2, por favor... O N° 1 é o cara que vendeu essa telas pra vocês!
Entregou a mercadoria e foi para os bares da vida vender alhos por bugalhos. Cheio ainda de comissões por receber, o Garanhão de Pelotas acabou voltando para o colégio. Formou-se no fim do ano, com louvor. Pra burro ele não servia. Mas deve as mensalidades daquele ano letivo até hoje.
MORAL DA HISTÓRIA - A inclinação de confiar naqueles a quem não conhecemos tem razão de ser: é que até então não tinham nos enganado.
30 de jan. de 2011
Olho por Olho
O que não falta nesse paraíso de bananas e bananões é balaqueiro. Brasileiro é gabola por natureza. De jogador de futebol a presidente da República, todo mundo é fanfarrão. O próprio Garanhão de Pelotas é um farofeiro vocacionado, um parlapatão de alta linhagem.
Nesse Brasil que vai se criando, mentir é sempre um prazer. O Garanhão sabe, talvez melhor do que ninguém, que a fanfarronice está intimamente ligada à punição de ter que aturar mentiras e seus mentirosos. Faz parte.
Pois, numa dessas tardes jogadas fora numa quadra de tênis com amigos, entre um set e outro, o Garanhão parou para uma boa dose de água tônica com gelo e limão enquanto se queixava de um pequeno assédio de hipoglicemia. Havia dezenas de bolinhas escuras pululando ao redor de seus olhos. A visão estava turva. Mas, com o quinino refrescante, tudo já voltaria ao normal em seguidinha.
- Lá em Gênova, onde meus pais nasceram, você não teria esse problema...
- Perturbação nos olhos?
- É. Lá a oftalmologia está muito avançada. Imagine que minha avó ficou cega e os médicos fizeram dois olhos com bolas de gude e ela agora enxerga que é uma beleza!...
O Garanhão bebericou o refrigerante reparador, mas não engoliu a lorota de Paulino. Não perdeu tempo:
- Pois, aqui mesmo em Brasília, no Setor Industrial, meu irmão perdeu a mão esquerda numa prensa hidráulica e hoje não tem problema nenhum;
- Não tem?
- Nenhum. Os médicos do Hospital de Base botaram uma teta de vaca no lugar da mão dele. Agora, quando ele quer tomar leite, só espreme um dedo e pronto...
- Mas úberes só tem quatro tetas... Falta um dedo.
- Pois ele está até pensando em ser candidato a presidente da República nas próximas eleições...
Paolino Michelleto quase caiu para trás. Manteve-se em pé apenas porque sabia que mentira é assim mesmo, uma puxa a outra. Mas reclamou:
- Essa, não. Essa é demais. Eu quero ver para crer. Traga ele aqui que eu quero ver...
- Ele até pode vir, mas antes, você vai ter que trazer a sua avó com os olhos de bola de gude que aí eu mostro pra ela o meu irmão tomando leite.
Antes que a coisa fosse mais longe, a hipoglicemia tinha passado e o Garanhão já foi logo se dirigindo para a quadra. Precisava meter um 6 a 0 naquele balaqueiro, só pra ele ver o que é bom pra tosse.
MORAL DA HISTÓRIA - Tanto a mentira é melhor quanto mais parece verdadeira; tanto ela agrada mais quanto mais tenha de duvidosa.
Nesse Brasil que vai se criando, mentir é sempre um prazer. O Garanhão sabe, talvez melhor do que ninguém, que a fanfarronice está intimamente ligada à punição de ter que aturar mentiras e seus mentirosos. Faz parte.
Pois, numa dessas tardes jogadas fora numa quadra de tênis com amigos, entre um set e outro, o Garanhão parou para uma boa dose de água tônica com gelo e limão enquanto se queixava de um pequeno assédio de hipoglicemia. Havia dezenas de bolinhas escuras pululando ao redor de seus olhos. A visão estava turva. Mas, com o quinino refrescante, tudo já voltaria ao normal em seguidinha.Seu parceiro, Paolino Micheletto - filho de pais italianos - não perdia oportunidade para empurrar em qualquer conversa um toque de fanfarronice. Aquela coisa de olhos o transportou logo para o mundo da imaginação e cutucou o Garanhão, ao enxugar o suor do rosto com uma toalha felpuda:
- Lá em Gênova, onde meus pais nasceram, você não teria esse problema...
- Perturbação nos olhos?
- É. Lá a oftalmologia está muito avançada. Imagine que minha avó ficou cega e os médicos fizeram dois olhos com bolas de gude e ela agora enxerga que é uma beleza!...
O Garanhão bebericou o refrigerante reparador, mas não engoliu a lorota de Paulino. Não perdeu tempo:
- Pois, aqui mesmo em Brasília, no Setor Industrial, meu irmão perdeu a mão esquerda numa prensa hidráulica e hoje não tem problema nenhum;
- Não tem?
- Nenhum. Os médicos do Hospital de Base botaram uma teta de vaca no lugar da mão dele. Agora, quando ele quer tomar leite, só espreme um dedo e pronto...
- Mas úberes só tem quatro tetas... Falta um dedo.
- Pois ele está até pensando em ser candidato a presidente da República nas próximas eleições...
Paolino Michelleto quase caiu para trás. Manteve-se em pé apenas porque sabia que mentira é assim mesmo, uma puxa a outra. Mas reclamou:
- Essa, não. Essa é demais. Eu quero ver para crer. Traga ele aqui que eu quero ver...
- Ele até pode vir, mas antes, você vai ter que trazer a sua avó com os olhos de bola de gude que aí eu mostro pra ela o meu irmão tomando leite.
Antes que a coisa fosse mais longe, a hipoglicemia tinha passado e o Garanhão já foi logo se dirigindo para a quadra. Precisava meter um 6 a 0 naquele balaqueiro, só pra ele ver o que é bom pra tosse.
MORAL DA HISTÓRIA - Tanto a mentira é melhor quanto mais parece verdadeira; tanto ela agrada mais quanto mais tenha de duvidosa.
O Ronda
Era uma vez o Grupo Garanhão & Cia. Ltda. Um conglomerado de iniciativas empresariais de considerável porte. Seus negócios flutuavam da revenda de automóveis importados, peças, acessórios, serviços de oficina, até casas de móveis, decoração, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, consórcios, materiais de construção.
O Garanhão era o grande patriarca daquela família de lucrativos empreendimentos. Empreendedor, afável, determinado, tolerante e, acima de tudo, um homem bom e justo. Um patrão como poucos. Era sempre o primeiro a chegar na firma. Cedo tratava de tudo e de todos.
Certa manhã, quase meia hora antes do horário de expediente, abriu a loja de eletrodomésticos. O ronda, pessoa humilde e necessitada do emprego, chegou-se lépido e bajulador ao chefe. Deu-lhes as boas-vindas matinais e querendo agradar, puxou assunto e revelou-se:
Reprodução
- Bom dia, patrão.
- Bom dia.
- Que bom ver o senhor aqui, já tão cedo. Sabe, eu sonhei a noite inteirinha com o senhor...
O que mais disse nem foi ouvido pelo Garanhão. No dia seguinte o segurança foi transferido para o turno da tarde e designado para a função de conferente de estoque. Como vigilante, o Garanhão achava que ele tinha o sono muito pesado.
MORAL DA HISTÓRIA - A justiça não é outra coisa do que senão a conveniência de quem pode mais.
O Garanhão era o grande patriarca daquela família de lucrativos empreendimentos. Empreendedor, afável, determinado, tolerante e, acima de tudo, um homem bom e justo. Um patrão como poucos. Era sempre o primeiro a chegar na firma. Cedo tratava de tudo e de todos.
Certa manhã, quase meia hora antes do horário de expediente, abriu a loja de eletrodomésticos. O ronda, pessoa humilde e necessitada do emprego, chegou-se lépido e bajulador ao chefe. Deu-lhes as boas-vindas matinais e querendo agradar, puxou assunto e revelou-se:
Reprodução
- Bom dia, patrão.
- Bom dia.
- Que bom ver o senhor aqui, já tão cedo. Sabe, eu sonhei a noite inteirinha com o senhor...
O que mais disse nem foi ouvido pelo Garanhão. No dia seguinte o segurança foi transferido para o turno da tarde e designado para a função de conferente de estoque. Como vigilante, o Garanhão achava que ele tinha o sono muito pesado.
MORAL DA HISTÓRIA - A justiça não é outra coisa do que senão a conveniência de quem pode mais.
28 de jan. de 2011
Férias na Aldeia Javaé
Depois de uma gélida aventura na Tanzânia, sob as neves do Kilimandjaro, o Garanhão de Pelotas curtia uma temporada de merecido descanso no interior do Brasil. Para ele e duas de suas três secretárias-executáveis, todo dia estava sendo dia de índio. A outra, a ruiva, viajara para Uganda, lugar desse mundo onde foram parar as malas e bagagens da comitiva garanhense, extraviadas no voo de Dar Salaam para Kampala, capital do Congo.
O herói de todos os Pampas deixou que a loira e a morena se vestissem à moda da casa para que todos melhor aproveitassem os raios de sol senegalesco de Formoso do Araguaia, um paraíso rústico no sudeste do Tocantins, a 500 quilômetros de Palmas. Sentia-se como um nativo daquela aldeia javaé, etnia rica em caça, pesca e boa comida da flora que descobrira no meio do mapa brasileiro.
Por volta de meio-dia, antes de banquetear-se com os índios já seus amigos do peito há quase uma semana, o Garanhão resolveu aplacar o calor banhando-se nas águas plácidas, refrescantes do rio convidativo e sereno que acariciava as margens do pequeno e hospitaleiro conglomerado indígena.
Descamisado e pés descalços, assim como se livrara por momentos da dupla de secretárias, destrinchou-se das bermudas e, do jeito que viera ao mundo mergulhou feliz de nádegas às escâncaras, penduricalho solto e balacochetas livres. Abraçou-se ao rio que o acolheu com aquele tipo de ternura que só a natureza pode dar aqui na terra aos homens de boa vontade.
E assim nadava à la grande. Entre braçadas e pequenos mergulhos, boiava de quando em vez, refazendo-se do calor inclemente.
Eis que então, surge de canoa, o amigo Kupakã - o Casca de Cipó, na verdade Álvaro Pedreira, um fotógrafo especializado em imagens e flagrantes indígenas. O amigo que conhecera na taba, vinha acompanhado pelo índio Kosuti - o Pequeno, parceiro de outras jornadas de fotografias de Álvaro Kupakã lá por aquelas bandas.
Feliz pela companhia dos dois tranquilos canoeiros, o Garanhão ficou mais contente ainda quando o experiente Kosuti puxou assunto em domesticado idioma silvícola:
- Rio bom de tomá banho, né?
- É. Bom, sim...
- Água gostosa. Bom de nadar, né?
- Uma beleza... Venha, mergulhe logo; nade um pouco.
- Vô, não sinhô... Aí tá cheio de piranha e sucuri.
O Garanhão virou Namor, o Príncipe Submarino. Nadou de costas num arrancada a 200 km por hora até saltar daquela aventura de Gibi para dentro da canoa.
Cozinhou as costas ao sol até que ele, Kupakã e Kosuti chegaram sãos e salvos à margem do rio. Nunca antes nesse país o Garanhão de Pelotas imaginara como é bom um calorão assim nas costas... No bom sentido, é claro; em determinadas circunstâncias.
O herói de todos os Pampas deixou que a loira e a morena se vestissem à moda da casa para que todos melhor aproveitassem os raios de sol senegalesco de Formoso do Araguaia, um paraíso rústico no sudeste do Tocantins, a 500 quilômetros de Palmas. Sentia-se como um nativo daquela aldeia javaé, etnia rica em caça, pesca e boa comida da flora que descobrira no meio do mapa brasileiro.
Por volta de meio-dia, antes de banquetear-se com os índios já seus amigos do peito há quase uma semana, o Garanhão resolveu aplacar o calor banhando-se nas águas plácidas, refrescantes do rio convidativo e sereno que acariciava as margens do pequeno e hospitaleiro conglomerado indígena.
Descamisado e pés descalços, assim como se livrara por momentos da dupla de secretárias, destrinchou-se das bermudas e, do jeito que viera ao mundo mergulhou feliz de nádegas às escâncaras, penduricalho solto e balacochetas livres. Abraçou-se ao rio que o acolheu com aquele tipo de ternura que só a natureza pode dar aqui na terra aos homens de boa vontade.
E assim nadava à la grande. Entre braçadas e pequenos mergulhos, boiava de quando em vez, refazendo-se do calor inclemente.
Eis que então, surge de canoa, o amigo Kupakã - o Casca de Cipó, na verdade Álvaro Pedreira, um fotógrafo especializado em imagens e flagrantes indígenas. O amigo que conhecera na taba, vinha acompanhado pelo índio Kosuti - o Pequeno, parceiro de outras jornadas de fotografias de Álvaro Kupakã lá por aquelas bandas.
Feliz pela companhia dos dois tranquilos canoeiros, o Garanhão ficou mais contente ainda quando o experiente Kosuti puxou assunto em domesticado idioma silvícola:
- Rio bom de tomá banho, né?
- É. Bom, sim...
- Água gostosa. Bom de nadar, né?
- Uma beleza... Venha, mergulhe logo; nade um pouco.
- Vô, não sinhô... Aí tá cheio de piranha e sucuri.
O Garanhão virou Namor, o Príncipe Submarino. Nadou de costas num arrancada a 200 km por hora até saltar daquela aventura de Gibi para dentro da canoa.
Cozinhou as costas ao sol até que ele, Kupakã e Kosuti chegaram sãos e salvos à margem do rio. Nunca antes nesse país o Garanhão de Pelotas imaginara como é bom um calorão assim nas costas... No bom sentido, é claro; em determinadas circunstâncias. A menos de dez passos dali, uma sucuri de quase cinco metros de comprimento dormitava enrolada num tronco de árvore que se debruçava sobre o rio. Ela já tinha almoçado.
MORAL DA HISTÓRIA - Em rio que tem piranha o Garanhão de Pelotas nada de costas, tira o dele fora antes e mostra a cobra em cima do pau.
MORAL DA HISTÓRIA - Em rio que tem piranha o Garanhão de Pelotas nada de costas, tira o dele fora antes e mostra a cobra em cima do pau.
27 de jan. de 2011
O Fornecedor de Perfume
Sempre fiel a seus amigos, o Garanhão de Pelotas toda vez que podia, dava uma mãozinha e empurrava a caixa pro porão quando eles mais precisavam.
Tinha o Alemão, um antigo colega de classes colegiais que, por não ter continuado os estudos, acabou fornecedor de uísques legítimos do Paraguai e perfumarias de sotaque francês e de desembarques clandestinos no cais do porto da Raínha do Mar.
O Garanhão sabia muito bem que o ambulante não era trigo limpo. Mas era velho parceiro, daqueles dos tempos de matar passarinho - não, a soco não! - com bodoque e de soltar pandorga nas cercanias da praça municipal. Então, merecia todo respeito e toda força.
Era do Alemão que o Garanhão comprava, sistematicamente - quando pela terra natal aparecia - sempre o mesmo perfume de fragrância densa que lhe dava a sensação de estar pronto para um clima de competitividade sem limites.
O Garanhão comprava o produto por duas razões: um empurrãozinho nos negócios do velho amigo e como uma espécie de homenagem ao criador daquele olor provocativo, o histrionico Jean Paul Gaultier, que estava na platéia do show "Brasiliah!" realizado pelo Garanhão em Monastiraki, ao sopé da Acrópole, em Atenas. Foi num bom período do Garanhão à Grega.
Jean Paul quase foi às lágrimas diante da performance do nosso herói pampesino cantando Garota de Ipanema em ingles, com sotaque de Santa Vitória do Palmar. De lá para cá, o Garanhão de Pelotas só usa o perfume de Gaultier.
Pois, o Alemão sempre tinha a mercadoria. E, naquele entardecer, na esquina do Aquário - o café onde passa a vida da cidade, ele chegou com a muamba acondicionada em um pacote parecido com uma caixa de Sedex. Com ares furtivos e precavidos contra olhares estranhos, foi passando aquilo como se fosse por encomenda:
- Garanha, tá aqui a mercadoria.
- Boa, Alemão, passa um frasco desses pra cá.
- São cinco, Garanha - o diminuitivo era para dar mais intimidade à transação.
- Alemão, eu tenho uns dez ainda lá em casa...
- Quié isso, Garanha, encomendei esse lote só pra você. De barbadinha, ó: 115 dólares cada um.
- Ei, eu compro nas perfumarias por 85 a unidade...
- Não chora as pitangas, Garanha. Vou fazer a 100 dólares pra você.
Sabendo que o amigo estava com a corda no pescoço o requintado apreciador de perfumes mostrou que aceitava a oferta como precinho de ocasião.
- Tá legal... Quanto vai me sair isso?
- Barbadinha... Cinco frascos a 100 cada um, dá um total de... 850 dólares.
- Tá bom, tá bom... Tome aí 900 dólares.
- Tá certinho... Valeu, Garanhão.
E sem dar tempo para o freguês de caderno lhe pedir pelo menos os cinquentinha de diferença para tomar um cafezinho, ou coisa que o valha, o Alemão saiu separando um bolo de notas que enfiou no bolso direito, justo aquele que usava para guardar os lucros.
No lado esquerdo, embolsou 200 dólares para pagar ao fornecedor do cais, em Rio Grande - um explorador ganancioso que ousava lhe cobrar 40 dólares por um vidrinho de nada daquele perfume abichalhado.
MORAL DA HISTÓRIA - O que encontra um amigo, encontra um tesouro. (Sagrada Bíblia - Eclesiastes)
Tinha o Alemão, um antigo colega de classes colegiais que, por não ter continuado os estudos, acabou fornecedor de uísques legítimos do Paraguai e perfumarias de sotaque francês e de desembarques clandestinos no cais do porto da Raínha do Mar.
Era do Alemão que o Garanhão comprava, sistematicamente - quando pela terra natal aparecia - sempre o mesmo perfume de fragrância densa que lhe dava a sensação de estar pronto para um clima de competitividade sem limites.
O Garanhão comprava o produto por duas razões: um empurrãozinho nos negócios do velho amigo e como uma espécie de homenagem ao criador daquele olor provocativo, o histrionico Jean Paul Gaultier, que estava na platéia do show "Brasiliah!" realizado pelo Garanhão em Monastiraki, ao sopé da Acrópole, em Atenas. Foi num bom período do Garanhão à Grega.
Jean Paul quase foi às lágrimas diante da performance do nosso herói pampesino cantando Garota de Ipanema em ingles, com sotaque de Santa Vitória do Palmar. De lá para cá, o Garanhão de Pelotas só usa o perfume de Gaultier.
Pois, o Alemão sempre tinha a mercadoria. E, naquele entardecer, na esquina do Aquário - o café onde passa a vida da cidade, ele chegou com a muamba acondicionada em um pacote parecido com uma caixa de Sedex. Com ares furtivos e precavidos contra olhares estranhos, foi passando aquilo como se fosse por encomenda:
- Garanha, tá aqui a mercadoria.
- Boa, Alemão, passa um frasco desses pra cá.
- São cinco, Garanha - o diminuitivo era para dar mais intimidade à transação.
- Alemão, eu tenho uns dez ainda lá em casa...
- Quié isso, Garanha, encomendei esse lote só pra você. De barbadinha, ó: 115 dólares cada um.
- Ei, eu compro nas perfumarias por 85 a unidade...
- Não chora as pitangas, Garanha. Vou fazer a 100 dólares pra você.
Sabendo que o amigo estava com a corda no pescoço o requintado apreciador de perfumes mostrou que aceitava a oferta como precinho de ocasião.
- Tá legal... Quanto vai me sair isso?
- Barbadinha... Cinco frascos a 100 cada um, dá um total de... 850 dólares.
- Tá bom, tá bom... Tome aí 900 dólares.
- Tá certinho... Valeu, Garanhão.
E sem dar tempo para o freguês de caderno lhe pedir pelo menos os cinquentinha de diferença para tomar um cafezinho, ou coisa que o valha, o Alemão saiu separando um bolo de notas que enfiou no bolso direito, justo aquele que usava para guardar os lucros.
No lado esquerdo, embolsou 200 dólares para pagar ao fornecedor do cais, em Rio Grande - um explorador ganancioso que ousava lhe cobrar 40 dólares por um vidrinho de nada daquele perfume abichalhado.
MORAL DA HISTÓRIA - O que encontra um amigo, encontra um tesouro. (Sagrada Bíblia - Eclesiastes)
Hierarquia
Como, naqueles bons tempos, o serviço militar era obrigatório para todo e qualquer varão brasileiro que chegasse aos 18 anos de idade, o Garanhão de Pelotas foi cumprir com seu dever cívico: servir à Pátria. Nem de longe sonhou em escapar da farda.
Não alegou, como era costume dentre os filhos das elites, doença no pulmão nem pé-chato, muito menos isso, marca de qualquer lhegalhé, filho de ralé. O Garanhão tinha berço, era egresso da nobreza, não se tratava de nenhum berdamerda.
Para ele, embora não confessasse pra ninguém, o quartel era a sua primeira grande experiência longe das saias da mãe. Mais tarde ele reconheceu que foi na caserna que aprendeu os primeiros passos da própria independência.
Adaptou-se à vida da caserna. Guardou os coturnos sob encomenda na mochila; cumpria as ordens de comando de cabos e sargentos até a majores e coronéis. General, ainda não tinha nenhum por aquele Regimento de Infantaria.
Com arte e manha, conseguia manter a sua pose de nariz chimbé. Olhava - embora disfarçadamente - os seus compulsórios superiores com olhar superior também que, afinal, era um recruta de linhagem, não era um mocorongo que precisasse da bóia insossa do rancho e nem tampouco se prestava a serviços de mandalete.
Num quartel tem de tudo. Ele precisou de pouco tempo para identificar um cabo de caserna, desses feitos a martelo que, por antiguidade, ascendem à patente de cabo. Era um macaco velho, sempre precisado de grana e que, pelos anos de casa, sabia que duas divisas bastavam para meter medo em cada nova geração de recrutas.
Tinha o mau e lucrativo hábito de pedir dinheiro emprestado para sempre aos aprendizes de soldado. Não pagava nunca as contas. Dívida, ele botava no prego.
Não pagava, mas mantinha o ar de comando sempre que falava com os subalternos; guardava distância, que respeito é bom e todo mundo gosta.
Eram propinas tão pequenas que, no particular, não chegavam a doer no soldo de ninguém. Mas, no varejo, era um ótimo negócio: aquele Regimento tinha dois batalhões, com mais de mil recrutas cada um. Um cruzeiro - moeda de então - por cabeça dava um salário maior que o soldo dos quatro coronéis que mandavam no quartel.
Um dia, assim de passagem pela avenida central do quartel, o cabo pedinchão exigiu continência do recruta Garanhão e já foi lhe perguntando com voz de quem manda:
- Soldado, você tem um cruzeiro pra me emprestar?
- Tenho sim, peraí...
- Tenho sim, peraí... Isso é jeito de responder a um superior?!?
- Hein?...
- Hein, não! Cabo é cabo, soldado é soldado. Pra você eu sou senhor, senhor cabo!
- Ah sim... Senhor.
- Agora melhorou. Então, você tem ou não tem um cruzeiro pra me emprestar, soldado?
- Não, não tenho... Senhor cabo!
O Garanhão bateu continência, deu meia volta e volveu rumo à Sargenteação onde prestava serviços burocráticos a sua Companhia de Comando do 2° Batalhão de Infantaria. Livrou-se do assédio do cabo propineiro até o fim do ano, quando expirou o seu tempo de Exército. É até hoje reservista de primeira categoria.
MORAL DA HISTÓRIA - O Garanhão aprendeu ali que o menosprezo pela autoridade quebra a hierarquia e pode ser o princípio das revoluções.
Não alegou, como era costume dentre os filhos das elites, doença no pulmão nem pé-chato, muito menos isso, marca de qualquer lhegalhé, filho de ralé. O Garanhão tinha berço, era egresso da nobreza, não se tratava de nenhum berdamerda.
Para ele, embora não confessasse pra ninguém, o quartel era a sua primeira grande experiência longe das saias da mãe. Mais tarde ele reconheceu que foi na caserna que aprendeu os primeiros passos da própria independência.
Adaptou-se à vida da caserna. Guardou os coturnos sob encomenda na mochila; cumpria as ordens de comando de cabos e sargentos até a majores e coronéis. General, ainda não tinha nenhum por aquele Regimento de Infantaria.
Com arte e manha, conseguia manter a sua pose de nariz chimbé. Olhava - embora disfarçadamente - os seus compulsórios superiores com olhar superior também que, afinal, era um recruta de linhagem, não era um mocorongo que precisasse da bóia insossa do rancho e nem tampouco se prestava a serviços de mandalete.
Num quartel tem de tudo. Ele precisou de pouco tempo para identificar um cabo de caserna, desses feitos a martelo que, por antiguidade, ascendem à patente de cabo. Era um macaco velho, sempre precisado de grana e que, pelos anos de casa, sabia que duas divisas bastavam para meter medo em cada nova geração de recrutas.
Tinha o mau e lucrativo hábito de pedir dinheiro emprestado para sempre aos aprendizes de soldado. Não pagava nunca as contas. Dívida, ele botava no prego.
Não pagava, mas mantinha o ar de comando sempre que falava com os subalternos; guardava distância, que respeito é bom e todo mundo gosta.
Eram propinas tão pequenas que, no particular, não chegavam a doer no soldo de ninguém. Mas, no varejo, era um ótimo negócio: aquele Regimento tinha dois batalhões, com mais de mil recrutas cada um. Um cruzeiro - moeda de então - por cabeça dava um salário maior que o soldo dos quatro coronéis que mandavam no quartel.
Um dia, assim de passagem pela avenida central do quartel, o cabo pedinchão exigiu continência do recruta Garanhão e já foi lhe perguntando com voz de quem manda:
- Soldado, você tem um cruzeiro pra me emprestar?
- Tenho sim, peraí...
- Tenho sim, peraí... Isso é jeito de responder a um superior?!?
- Hein?...
- Hein, não! Cabo é cabo, soldado é soldado. Pra você eu sou senhor, senhor cabo!
- Ah sim... Senhor.
- Agora melhorou. Então, você tem ou não tem um cruzeiro pra me emprestar, soldado?
- Não, não tenho... Senhor cabo!
O Garanhão bateu continência, deu meia volta e volveu rumo à Sargenteação onde prestava serviços burocráticos a sua Companhia de Comando do 2° Batalhão de Infantaria. Livrou-se do assédio do cabo propineiro até o fim do ano, quando expirou o seu tempo de Exército. É até hoje reservista de primeira categoria.
MORAL DA HISTÓRIA - O Garanhão aprendeu ali que o menosprezo pela autoridade quebra a hierarquia e pode ser o princípio das revoluções.
24 de jan. de 2011
Negócios de Feira
Apesar da crise que os mais espertos que os outros chamavam de "marolinha", a Sociedade Agrícola bancava mais um grande feira internacional de bovinos, ovinos, equinos e hinos de tudo quanto era louvor. Inter assim, meio que pelas rebarbas, já que de fora vinha só urugauios e alguns argetinos. Mas negociar era preciso.
Mesmo com uma mão na frente e outra atrás, os balaqueiros de sempre não se deixavam intimidar pelos juros escorchantes e os financiamentos impagáveis. Quê aftosa quê nada; quê vaca louca o quê?!?... Remate na comunidade ruralista é isso mesmo, uma espécie de religião. Só que ninguém é santo.
O Garanhão de Pelotas foi lá, de bota e espora; de mala e cuia. Leilão daqui, leilão dali, o fim de semana até que foi bom. Até porque, depois das rodadas de compra e venda, de oferta e procura, sempre tinha um uísquinho amigo e uns salgadinhos que preparava as gandaias com, as gurias mais doces que vinham pra assistir os shows de canto e dança. Naquela feira até a Elba Ramalho veio pro aconchego musical, trazendo na mala bastante saudade... Claro, teve o Gaúcho da Fronteira também. Era só o que faltava, ele faltar. E teve chula e sapateado, até malambo pintou no rodeio.
O bom de tudo é que saiu negócio. Quando a exposição terminou, todo mundo voltou pras estâncias a fim de tratar da vida que a lida do campo não pode esperar.
Tres ou quatro meses depois, o Garanhão se pechou no centro da cidade com um ruralista daqueles criadores que sempre encontrava pelas exposições-feira. Foram tomar um café na esquina. No balcão, recordaram alguns lances do último remate:
- Tu te lembras daquele cavalo crioulo que eu rematei?
- Lembro, foi por R$ 50 mil, não foi?...
- Pois foi. Comprei por 50 mil e vendi por 100.
- A las pucha...
- Las pucha mesmo, não ganhei nem perdi.
- Capaz! Tu tens um parafuso frouxo, tchê? Compraste por 50 contos e vendeste pelo dobro...
- É que eu comprei e não paguei. Vendi e não me pagaram.
- Mas, então te sobra 50 de crédito.
- Tô contando com isso. Fim de agosto tem remate lá em Bagé...
A conversa se perdeu pela invernada. Como o basofeiro não se coçava, o Garanhão pagou o cafezinho. Em setembro, os dois inscreveram suas cabanhas na tradicional grande feira da Rainha da Fronteira. Mas lá se aprecataram, pois cavalo se compra fiado, mas as gurias de vida fácil, cobram tudo na bucha, na boca da guaiaca.
MORAL DA HISTÓRIA - Aquele que perde a honra por um negócio, perde o negócio e a honra.
Mesmo com uma mão na frente e outra atrás, os balaqueiros de sempre não se deixavam intimidar pelos juros escorchantes e os financiamentos impagáveis. Quê aftosa quê nada; quê vaca louca o quê?!?... Remate na comunidade ruralista é isso mesmo, uma espécie de religião. Só que ninguém é santo.
O Garanhão de Pelotas foi lá, de bota e espora; de mala e cuia. Leilão daqui, leilão dali, o fim de semana até que foi bom. Até porque, depois das rodadas de compra e venda, de oferta e procura, sempre tinha um uísquinho amigo e uns salgadinhos que preparava as gandaias com, as gurias mais doces que vinham pra assistir os shows de canto e dança. Naquela feira até a Elba Ramalho veio pro aconchego musical, trazendo na mala bastante saudade... Claro, teve o Gaúcho da Fronteira também. Era só o que faltava, ele faltar. E teve chula e sapateado, até malambo pintou no rodeio.
O bom de tudo é que saiu negócio. Quando a exposição terminou, todo mundo voltou pras estâncias a fim de tratar da vida que a lida do campo não pode esperar.
Tres ou quatro meses depois, o Garanhão se pechou no centro da cidade com um ruralista daqueles criadores que sempre encontrava pelas exposições-feira. Foram tomar um café na esquina. No balcão, recordaram alguns lances do último remate:
- Tu te lembras daquele cavalo crioulo que eu rematei?
- Lembro, foi por R$ 50 mil, não foi?...
- Pois foi. Comprei por 50 mil e vendi por 100.
- A las pucha...
- Las pucha mesmo, não ganhei nem perdi.
- Capaz! Tu tens um parafuso frouxo, tchê? Compraste por 50 contos e vendeste pelo dobro...
- É que eu comprei e não paguei. Vendi e não me pagaram.
- Mas, então te sobra 50 de crédito.
- Tô contando com isso. Fim de agosto tem remate lá em Bagé...
A conversa se perdeu pela invernada. Como o basofeiro não se coçava, o Garanhão pagou o cafezinho. Em setembro, os dois inscreveram suas cabanhas na tradicional grande feira da Rainha da Fronteira. Mas lá se aprecataram, pois cavalo se compra fiado, mas as gurias de vida fácil, cobram tudo na bucha, na boca da guaiaca.
MORAL DA HISTÓRIA - Aquele que perde a honra por um negócio, perde o negócio e a honra.
Honestidade
Parece até mentira, mas o Garanhão de Pelotas sempre teve, dentre suas amizades, algumas bem cholas, fuleiras, quase muquiranas. Imagine que muitos de seus amigos até trabalhar em banco, eles trabalhavam.
Fiel as suas relações sociais e sem mais o que fazer, o Garanhão - com frequência - interrompia suas tardes de dolce far niente para bater papo com Zé Genoíno, íntegro funcionário do Banco Agrícola e velho companheiro de infância, daqueles amigões tipo assim que se entendem até quando estão só de cuecas.
Naquele tempo, o expediente era vespertino e tinha folga de quinze minutos para lanche e descanso dos bancários. Normalmente, a turma toda aproveitava para tomar um café expresso, fumar um cancerzinho e ficar lagarteando na frente do banco, falando mal de uns e bem de outros até voltar à azáfama.
Naquela tarde, Zé Genoíno se queixava para o Garanhão de que alguém, com ares de cliente, o colocara numa fria:
Tempo regulamentar esgotado. Zé Genoíno deu tchau pro amigo e voltou para o atendimento no setor de Contas Correntes. Ainda havia muito por fazer naquele fim de tarde de mais uma sexta-feira, antes de se reencontrarem em mais um happy hour no bar do Grande Hotel - pérola arquitetônica com ares monásticos.
MORAL DA HISTÓRIA - As pessoas honradas sempre resultam menos canalhas que as outras.
Fiel as suas relações sociais e sem mais o que fazer, o Garanhão - com frequência - interrompia suas tardes de dolce far niente para bater papo com Zé Genoíno, íntegro funcionário do Banco Agrícola e velho companheiro de infância, daqueles amigões tipo assim que se entendem até quando estão só de cuecas.
Naquele tempo, o expediente era vespertino e tinha folga de quinze minutos para lanche e descanso dos bancários. Normalmente, a turma toda aproveitava para tomar um café expresso, fumar um cancerzinho e ficar lagarteando na frente do banco, falando mal de uns e bem de outros até voltar à azáfama.
Naquela tarde, Zé Genoíno se queixava para o Garanhão de que alguém, com ares de cliente, o colocara numa fria:- Pô, Garanha véio, me passaram uma nota falsa de 100 cruzeiros.
- Ah é?... Deixa eu ver.
- Não tá mais comigo, já passei adiante.
MORAL DA HISTÓRIA - As pessoas honradas sempre resultam menos canalhas que as outras.
Affair em Gramado
Tremendo espadachim, o Garanhão de Pelotas sempre que começa um affair tira uma temporada, onde possa escapar dos paparazzi e do assédio dos fãs para curtir à la frouxée uma boa lua de mel. O cara não é fraco, não. Note que só nesse começo de caso, a descrição foi feita com vocábulos em portugues, ingles, italiano e frances. Um preciosismo vernacular que só as raízes da sua recôndida nobreza podem explicar.
- Por favor, quem é o casal naquela mesa; é gente importante?
Reprodução/Site Estalagem St. Hubertus
Na realidade o Garanhão não só fugia do assédio de tietes, ele se esgueirava também das cenas de ciúme do seu trio de secretárias-executáveis diante de mais um caso sério do seu honorável amo e senhor.
Depois de muito relaxar e gozar ao crepitar da lareira que aquecia a suíte colonial da Estalagem St. Hubertus, na bucólica e acolhedora Gramado, o nosso Herói Pampesino foi com sua deslumbrante segunda pele, uma morena de olhos verdes mais profundos que o mar das Antilhas, para o bem frequentado Belle du Vallais Restaurant.
É que essas coisas de andar para cima e para baixo, despertam o apetite. Na verdade, lua de mel à boca de uma chama ardente, dá cio no estômago. E lá estava o elegante casal na mesa cinco do badalado Belle du Vallais, o restaurante mais suiço do Brasil.
Casa cheia, gente de fino trato em todas as mesas. Depois de sorver um premiadíssimo vinho da região, o Garanhão fez a pedida simples: truta com amêndoas.
Aquele clima fazia bem ao ego do garboso e lendário gaúcho pelotense. Gente bonita, rica, cara de importante, pessoas "não comuns", decerto formadoras de opinião. Era bom um certo anonimato, em ocasiões como aquela fugidinha do cotiano e das maledicências citadinas. Mas, nem tanto. A fogueira das vaidades já começava a lambiscar a alma do Garanhão.
Reprodução/site Belle Du Vallais
Eis que seus olhos varriam o ambiente quando bateram na figura do garçom que os atendera, prestando serviço à mesa de um jovem e elegantérrimo casal, de maneiras finas e gestos nobres até para destrinchar o suculento pato com laranja que tinham diante de si.
Nesse instante, o maitre aproximou-se para fazer as honras da casa aqui, na mesa do Garanhão.
O nosso intimorato galã, não resistiu à tentação e aproveitou a ocasião para tirar do public relations do restaurante uma pequena e inocente in/confidência:
- Por favor, quem é o casal naquela mesa; é gente importante?
- Quê nada... Eles agora mesmo perguntaram que são os senhores...
O Garanhão e seu bem-querer venceram com paz e amor aquele início de noite deliciando-se com a culinária da Serra gaúcha. Dia seguinte, no breakfast, o nosso galante Cavaleiro do Extremo Sul lia o Jornal de Gramado, com vasta circulação na região das hortências. Sua foto ocupava meia página da coluna social. A mesa daquele outro lindo par de pombinhos não foi captada pelas lentes do colunista do hight society serrano.
MORAL DA HISTÓRIA - A virtude não caminharia muito longe se a vaidade não fosse sua companheira.
22 de jan. de 2011
Feijoada na Maloca Querida
Lá pelo fim dos anos 70, agonizava a Redentora como hoje anda em estertores a democracia nacionalizada. Foi então que, naquela manhã de sábado, bem ali onde quem vive no planalto central olha de cima para o que sobra do Brasil, o Garanhão de Pelotas se espraiava diante de um chopázio pra lá de bem-tirado, numa mesa do já falecido "Maloca Querida", bar e restaurante encravado na 108-Sul, a Rua da Igrejinha.
Tinha por parceiro de espera pela feijoada mais carioca daqueles anos em Brasília, um conterrâneo amigo velho, dos tempos de furar brincadeira e bancar o peru de banquete nas festas de aniversário lá em Pelotas, terra distante nas beiradas do Sul que vive a olhar de frente pro Norte.
Cinco, seis chopes depois, a espera dos dois amigos pelo feijão acabou caindo no caldeirão da política. O Garanhão, destituído de vocação partidária, era um livre atirador; politizado por implicância, sua veia política era o conduto à anarquia - no bom sentido.
Já seu amigo do peito era um chato de galocha. Um petista militante. De carteirinha que, a bem da verdade, naquelas priscas, não tinha o valor de um diploma como tem hoje.
O Garanhão não podia perder aquela chance. Tomou mais um golaço de chope, mordiscou um torresminho e provocou:
- Eu sou de direita...
- E eu sou esquerda e sei por quê... Tu sabes por quê és da direita?
- Tchê, meu pai é de direita, meu avô era de direita, meu bisavô foi de direita. Então, eu sou de direita!
- Ah, é hereditário, é?... E se o teu pai fosse um idiota, teu avô um idiota e o teu bisavô um idiota?!?
- Bom, nesse caso, eu seria de esquerda... Seria um PT bem assim que nem tu!
Nesse momento solene chegou o garçom com a feijoada completa, mais nobre e mais carioca de Brasília. Os dois comeram e beberam até às cinco da tarde. Sem trocar uma só palavra.
MORAL DA HISTÓRIA - Falar de boca cheia é falta de educação. Mesmo com sotaque de gaúcho.
Tinha por parceiro de espera pela feijoada mais carioca daqueles anos em Brasília, um conterrâneo amigo velho, dos tempos de furar brincadeira e bancar o peru de banquete nas festas de aniversário lá em Pelotas, terra distante nas beiradas do Sul que vive a olhar de frente pro Norte.O rio-grandino Golbery do Couto e Silva - modelo de Maquiavel que os dirceus de agora não conseguem imitar - acabara de soterrar o bipartidarismo.
Aí começou a tragédia do fisiologismo: o MDB já era PMDB, Brizola rasgara a ficha do PTB de Getúlio Dornelles Vargas e fundara o PDT, Tancredo idealizou o PP; a UDN virou banco de guardachuva e até o PT estava na praça, nascido já com o jeito que tem hoje.
Cinco, seis chopes depois, a espera dos dois amigos pelo feijão acabou caindo no caldeirão da política. O Garanhão, destituído de vocação partidária, era um livre atirador; politizado por implicância, sua veia política era o conduto à anarquia - no bom sentido.
Já seu amigo do peito era um chato de galocha. Um petista militante. De carteirinha que, a bem da verdade, naquelas priscas, não tinha o valor de um diploma como tem hoje.
O Garanhão não podia perder aquela chance. Tomou mais um golaço de chope, mordiscou um torresminho e provocou:
- Eu sou de direita...
- E eu sou esquerda e sei por quê... Tu sabes por quê és da direita?
- Tchê, meu pai é de direita, meu avô era de direita, meu bisavô foi de direita. Então, eu sou de direita!
- Ah, é hereditário, é?... E se o teu pai fosse um idiota, teu avô um idiota e o teu bisavô um idiota?!?
- Bom, nesse caso, eu seria de esquerda... Seria um PT bem assim que nem tu!
Nesse momento solene chegou o garçom com a feijoada completa, mais nobre e mais carioca de Brasília. Os dois comeram e beberam até às cinco da tarde. Sem trocar uma só palavra.
MORAL DA HISTÓRIA - Falar de boca cheia é falta de educação. Mesmo com sotaque de gaúcho.
O Antiquário e o colecionador
Naquele tempo, o Garanhão de Pelotas era um antiquário. Estava a ver navios em meio a um dia de pouco movimento. Nada demais, dia de negócios com coisas antigas é assim mesmo, um pinga pinga... Mas sempre pinga. E como é assim, eis que entra um freguês, vestido de preto, com algo que parecia um evangelho, ou uma bíblia, embaixo do braço. Usava um barrete na cabeça de cabelos caídos em cachos laterais, emoldurando uma extensa barba. Não, não era um português.
O visitante entrou e foi bisbilhotando o que havia em oferta por ali. Num canto da loja, atulhada de badulaques, um gato lambia leite numa tigela.
O homem - um dissimulado colecionador - botou o olho na vasilha e viu logo que se tratava de uma raríssima peça de porcelana chinesa. Dinastia Ming, com certeza; coisa do reinado de Jiajing.
O Garanhão aproximou-se para melhor atender o cliente. E ganhou sua atenção:
- Que gatinho lindo. O senhor quer vender?
- Vendo sim, por R$ 2.500 o senhor pode levar...
- Tá caro, mas meu filho vive me chateando por um gatinho... Vou levar. Pode ser cheque?
- Pode sim.
- Então, tome...
- Muito obrigado... Ó, o gatinho é seu.
- Posso levar a tigelinha onde ele está acostumado a tomar leite?
- Ah, infelizmente não... Não posso lhe dar a tigela.
- Ora, por quê não?
- É que ela me dá muita sorte. Por causa dela já vendi mais de vinte gatinhos lindos como esse aí.
O rabino saiu com o rabo do gato entre as pernas. Antes mesmo de chegar em casa, deu o bichano de presente para uma vizinha que lhe disse ter uma filha louca por gatos.
MORAL DA HISTÓRIA - Nunca deve se julgar enganado aquele que reconhece o seu engano.
O visitante entrou e foi bisbilhotando o que havia em oferta por ali. Num canto da loja, atulhada de badulaques, um gato lambia leite numa tigela.
O homem - um dissimulado colecionador - botou o olho na vasilha e viu logo que se tratava de uma raríssima peça de porcelana chinesa. Dinastia Ming, com certeza; coisa do reinado de Jiajing.
O Garanhão aproximou-se para melhor atender o cliente. E ganhou sua atenção:
- Que gatinho lindo. O senhor quer vender?
- Vendo sim, por R$ 2.500 o senhor pode levar...
- Tá caro, mas meu filho vive me chateando por um gatinho... Vou levar. Pode ser cheque?
- Pode sim.
- Então, tome...
- Muito obrigado... Ó, o gatinho é seu.
- Posso levar a tigelinha onde ele está acostumado a tomar leite?
- Ah, infelizmente não... Não posso lhe dar a tigela.
- Ora, por quê não?
- É que ela me dá muita sorte. Por causa dela já vendi mais de vinte gatinhos lindos como esse aí.
O rabino saiu com o rabo do gato entre as pernas. Antes mesmo de chegar em casa, deu o bichano de presente para uma vizinha que lhe disse ter uma filha louca por gatos.
MORAL DA HISTÓRIA - Nunca deve se julgar enganado aquele que reconhece o seu engano.
21 de jan. de 2011
Um despertar do Garanhão
O propagandista Garanhão de Pelotas acordou com os bofes virados. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho, não gostou do que viu e resmungou para o lorde amarrotado que o encarava lá de dentro: - Vê se te enxerga... vai te lixar!
Não foi por nada, nem mesmo por conta da ressaca da gandaia de ontem, mas ele teve a nítida impressão de que ouviu o almofadinha do lado de lá responder na mesma moeda: -Vai te deitar, vinagre!
Só pra não deixar barato, passou um pito no reflexo:
- Pra mim tu acóca na boneca! Tu descabela a bruxa.
Antes de pegar a escova de dentes, o sabonete Lifebuoy e o pente Flamengo, tem certeza que ainda escutou a teimosa figura lhe dar o troco: - E tu, seu bocó duma figa, senta no pepino e diz que é verdureiro...
O Garanhão dessa vez arrolhou, acabou de arear os dentes, desistiu de brigar consigo mesmo, entregou os pontos e zuniu dali. Já na cozinha, deu bomba no fogareiro primus, fez uma torrada de presunto e queijo e foi tratar de ganhar a vida.
Quando saiu para a rua, vestia-se como um dandy: calça preta de nylon, paletó cinza-xadrezinho Príncipe de Gales, camisa volta-ao-mundo, gravata italiana e sapatos tanque das Lojas Clark. Claro, Gumex no cabelo abotoado - que o topete não podia desandar.
Chaveou a porta do bangalô de cimento penteado, entrou no seu flamante Austin A-40 e saiu cantando pneu, fazendo murisqueta pela alameda que levava até sua agência de propaganda. Tinha que gravar, ainda naquele pedaço de manhã que lhe sobrava, um acetato com dois reclames - um, do Galenogal; o outro, do Pó Pelotense.
MORAL DA HISTÓRIA - Toda consciência digna e pura padece de um amargo remorso quando não resiste a uma recaída.
Não foi por nada, nem mesmo por conta da ressaca da gandaia de ontem, mas ele teve a nítida impressão de que ouviu o almofadinha do lado de lá responder na mesma moeda: -Vai te deitar, vinagre!
Só pra não deixar barato, passou um pito no reflexo:
- Pra mim tu acóca na boneca! Tu descabela a bruxa.
Antes de pegar a escova de dentes, o sabonete Lifebuoy e o pente Flamengo, tem certeza que ainda escutou a teimosa figura lhe dar o troco: - E tu, seu bocó duma figa, senta no pepino e diz que é verdureiro...
O Garanhão dessa vez arrolhou, acabou de arear os dentes, desistiu de brigar consigo mesmo, entregou os pontos e zuniu dali. Já na cozinha, deu bomba no fogareiro primus, fez uma torrada de presunto e queijo e foi tratar de ganhar a vida.
Quando saiu para a rua, vestia-se como um dandy: calça preta de nylon, paletó cinza-xadrezinho Príncipe de Gales, camisa volta-ao-mundo, gravata italiana e sapatos tanque das Lojas Clark. Claro, Gumex no cabelo abotoado - que o topete não podia desandar.
Chaveou a porta do bangalô de cimento penteado, entrou no seu flamante Austin A-40 e saiu cantando pneu, fazendo murisqueta pela alameda que levava até sua agência de propaganda. Tinha que gravar, ainda naquele pedaço de manhã que lhe sobrava, um acetato com dois reclames - um, do Galenogal; o outro, do Pó Pelotense.
MORAL DA HISTÓRIA - Toda consciência digna e pura padece de um amargo remorso quando não resiste a uma recaída.
Excelências identificadas
O Garanhão de Pelotas - então douto magistrado, presidia uma concorrida seção do Tribunal do Júri.
O embate entre o promotor de justiça - famoso defensor do Estado e o advogado de defesa - um temido criminalista, era o grande campeão da audiência popular.
Os dois eram tidos e havidos como brilhantes oradores, ainda que sem papas na língua. Duas grandes raposas das lides forenses.
O confronto, mais do que o caso em julgamento, era a grande atração do júri. E não deu outra: nem bem os trabalhos começaram e, diante da primeira discordância, foram ganhando foros de acalorado bate-boca:
- Meu caro e ilustre promotor, o senhor é um biltre!
- E vossa excelência, um reles calhorda!
O Garanhão de Pelotas, ajeitou a toga, bateu o martelo, tilintou a campaínha de alerta às partes e ponderou com firme ironia:
Ao fim de oito horas de trabalho, o julgamento chegou ao final sem que os dois precisassem usar de sua verborragia escancarada para convencer o corpo de jurados. O calhorda conseguiu que o réu fosse condenado. Mas o biltre vai recorrer.
MORAL DA HISTÓRIA - Na justiça sempre há perigo: ou por parte da lei, ou por parte dos juizes. No fundo, no fundo, a justiça é a verdade em ação.
20 de jan. de 2011
Briga parelha
Na plácida tarde de segunda-feira, de um ensolarado dia 20 de janeiro, o Garanhão de Pelotas andava calmamente por uma rua do interland paulista quando viu um advogado cadeirante ser agredido por um delegado de polícia. Ele viu tudo, mas já disse que não é testemunha nem de Jeová. A briga, nada desigual, começou por causa de uma vaga especial para deficientes físicos.
Por ouvir dizer, ele ficou sabendo que o advogado, de 35 anos, se dirigira de carro a um cartório no centro da cidade. À cata de uma vaga exclusiva na rua, encontrou outro veículo estacionado nela.
O motorista deficiente encontrou um lugar mais à frente, coisa assim de 200 metros, estacionou e, em seguida, seguiu em sua cadeira de rodas até o cartório. Quando se aproximou da entrada, viu o homem que não tem deficiência aparente, caminhando até o carro parado na vaga especial.
As pessoas que passavam pela rua saíram correndo de cena. Mas, um cara lhe disse que ouviu o cadeirante relatando o susto: “Quando ele mirou na direção da minha cabeça, só consegui virar o rosto”. O Garanhão ficou sabendo que o rapaz da cadeira ficou paraplégico aos 17 anos após levar um tiro na coluna durante um assalto.
Os populares contaram para o curioso Garanhão de Pelotas que o advogado garante que recebeu uma coronhada na cabeça e que teve o rosto atingido pela ponta da arma. Disseram também que o delegado negou ter sacado a pistola.
O Garanhão ficou sabendo que sobre o fato de o policial ter estacionado em uma vaga exclusiva, o causídico defensor do invasor de estacionamentos privativos afirmou que a noiva do seu delegado, grávida de 4 meses, não se sentia bem.
Foi então que, do alto de sua longa experiência como criminalista de escol, o Garanhão de Pelotas discursou, para uma pequena platéia que já o cercava, que tudo aquilo se tratava de um lamentável engano:
- Elementar, meus caros que estacionar o carro na vaga para deficientes é infração desalmada à lei de acessibilidade; elementar que puxar um revólver para um paraplégico é um absurdo; elementar que apontar a arma pra cabeça do desafeto é um crime anunciado; elementar que dar duas bofetadas num cadeirante é uma covardia; elementar que o delegado jamais deveria ter deixado a noiva grávida em um cartório...
- Para mim - sentenciou então o Garanhão de Pelotas - nada disso teria acontecido se, ao invés de levá-la ao cartório o delegado tivesse encaminhado sua noiva para um teste de BNH...
- BNH?!? - espantou-se um transeunte - Não seria um teste de DNA?...
- Quê DNA quê nada... Teste de BNH! O exame iria mostrar se o filho da noiva era dele, ou do vizinho que mora na casa ao lado.
E dando as costas ao grupo que se aglomerava a sua volta, tomou o rumo inverso ao da confusão. Entrou no primeiro Cyber Café que encontrou. Dizia de si para si mesmo: - O delegado deveria estar furioso por causa disso. Essas dúvidas de paternidade são terríveis. E ainda pensou pra terminar o assunto, antes de ser servido pela linda garçonete:
- Elementar que a briga não era desigual. Eram dois deficientes. Um, paraplégico; o outro, deficiente mental.
Por ouvir dizer, ele ficou sabendo que o advogado, de 35 anos, se dirigira de carro a um cartório no centro da cidade. À cata de uma vaga exclusiva na rua, encontrou outro veículo estacionado nela.
O motorista deficiente encontrou um lugar mais à frente, coisa assim de 200 metros, estacionou e, em seguida, seguiu em sua cadeira de rodas até o cartório. Quando se aproximou da entrada, viu o homem que não tem deficiência aparente, caminhando até o carro parado na vaga especial.
O cadeirante se meteu de pato a ganso e foi chamar a atenção do motorista acima da lei de acessibilidade. O Garanhão ouviu comentarem que ele teria tentado explicar: “Fui chamar sua atenção. Mas ele me constrangeu fisicamente"...
Disseram para o Garanhão que logo eles começaram a trocar insultos e o policial xingou o outro de “aleijado fulho da pita”. Aí, revoltado, injuriado e enojado, o ofendido cuspiu na direção do delegado. Cuspiu, porque não tinha como dar uma tapopna nas fuças do outro.
A cusparada atingiu o vidro do automóvel. O vidro e suas adjascências. Uma das adjascências foi, exatamente, a cara do delegado. Uns respingos. Sabe aquela cusparada que sai em forma de paraqueda aberto? Pois é, espalhou em formas de pingos. Quem sabe até pingos e respingos merecidos. Nem tanto pela troca de gentilezas, mas pelo desrespeito à lei que ele jurou servir e fazer cumprir.
Aí, o escarrado sacou uma arma e perguntou se o cuspidor queria morrer. Foi ali que o cadeirante começou a desconfiar que o cara era policial. Virou o rosto. O Garanhão também virou. O que veio a seguir, ele só sabe mesmo de ouvir falar.
As pessoas que passavam pela rua saíram correndo de cena. Mas, um cara lhe disse que ouviu o cadeirante relatando o susto: “Quando ele mirou na direção da minha cabeça, só consegui virar o rosto”. O Garanhão ficou sabendo que o rapaz da cadeira ficou paraplégico aos 17 anos após levar um tiro na coluna durante um assalto.
Os populares contaram para o curioso Garanhão de Pelotas que o advogado garante que recebeu uma coronhada na cabeça e que teve o rosto atingido pela ponta da arma. Disseram também que o delegado negou ter sacado a pistola.
O Garanhão ficou sabendo que sobre o fato de o policial ter estacionado em uma vaga exclusiva, o causídico defensor do invasor de estacionamentos privativos afirmou que a noiva do seu delegado, grávida de 4 meses, não se sentia bem.
Foi então que, do alto de sua longa experiência como criminalista de escol, o Garanhão de Pelotas discursou, para uma pequena platéia que já o cercava, que tudo aquilo se tratava de um lamentável engano:
- Elementar, meus caros que estacionar o carro na vaga para deficientes é infração desalmada à lei de acessibilidade; elementar que puxar um revólver para um paraplégico é um absurdo; elementar que apontar a arma pra cabeça do desafeto é um crime anunciado; elementar que dar duas bofetadas num cadeirante é uma covardia; elementar que o delegado jamais deveria ter deixado a noiva grávida em um cartório...
- Para mim - sentenciou então o Garanhão de Pelotas - nada disso teria acontecido se, ao invés de levá-la ao cartório o delegado tivesse encaminhado sua noiva para um teste de BNH...
- BNH?!? - espantou-se um transeunte - Não seria um teste de DNA?...
- Quê DNA quê nada... Teste de BNH! O exame iria mostrar se o filho da noiva era dele, ou do vizinho que mora na casa ao lado.
E dando as costas ao grupo que se aglomerava a sua volta, tomou o rumo inverso ao da confusão. Entrou no primeiro Cyber Café que encontrou. Dizia de si para si mesmo: - O delegado deveria estar furioso por causa disso. Essas dúvidas de paternidade são terríveis. E ainda pensou pra terminar o assunto, antes de ser servido pela linda garçonete:
- Elementar que a briga não era desigual. Eram dois deficientes. Um, paraplégico; o outro, deficiente mental.
A verdade pura e simples do Garanhão
Meio desprovido de sentimentos de culpa quando cai em desgraça tamanha que possa ser comparado a um candidato em campanha eleitoral, o Garanhão de Pelotas, ainda assim, tem seus ataques de remorso e não consegue guardar os males que pode estar fazendo a alguém.
Nasceu para ser aberto e franco; detesta ser dissimulado. Sabe, no entanto, que o mundo não suporta a verdade verdadeira. Aguenta - e olhe lá! - a verdade, não mais que a verdade; a verdade pura e simples. A verdade por inteiro, verdadeira mesmo, é um Deus nos acuda. Ou um diabo que carregue.
O Garanhão bota pra fora. Nem tanto porque seja de uma sinceridade sem par, ou ímpar, mas muito mais porque sabe que a mentira é nanica, tem pernas curtas. Como uma boa anã, a mentira não morre. Ou você já foi, ou conhece alguém que tenha ido a um enterro de anão?!?
Chegou-se à mesa dois do Cruz de Malta, bar da esquina de todas as dores de amores da cidade. Era ali que Josué, o Zeca, seu melhor amigo sempre estava, enchendo de pedras renais - tal era a mágoa que tinha no corpo - as doses do uísquezinho que tão bem faz ao fígado de todos nós. O Garanhão chegou-se, sentou diante do amigo e pediu um Jack Daniels duplo, de caubói. Corria o anoitecer.
- Zeca, somos amigos desde guris.
- Sei, tu és meu faixa, desde mandinho.
- E tu, tu és meu mano, Zeca. Mas preciso te dizer uma coisa...
- Te abre, meu chapa.
- Tu tá aprecatado Zeca, pra qualquer coisa?
- Desembucha, tchê.
- É que a Zeneida ... Ela...
- Destranca, meu.
- Ela tá te guampeando com outro macho, tchê...
- A las pucha... Essa foi bucha!
A verdade cortou fundo a alma de Zeca. Ele nem quis saber de mais nada. Saiu da mesa, meio sem rumo, desarvorado, já com as guampas tortas, mas profundamente agradecido ao amigo de fé, irmão, camarada. Antes de chegar à porta de saída, ainda dirigiu-se ao confidente:
- Brigado, meu faixa; muito brigado pelo coice... e pela amizade.
- Não por isso, compadre... Só não me vai fazer besteira...
O Zeca já nem estava mais ali. O Garanhão sequer teve tempo de dizer mais alguma coisa. Pena, mas era verdade. Respirou aliviado pelo desabafo e pela reação do pobre Zeca. Levantou-se pagou a conta e foi para casa. Tomou um banho reparador, deitou-se de cara para o teto. Apagou a luz. Dormiu com o remorso martelando sua cabeça.
Nem era remorso. Era a verdade inteira que lhe pesava na consciência. Afinal, o macho que andava comendo a Zeneida era ele. Dói até hoje na alma do Garanhão botar guampa no Zeca. Essa verdade verdadeira vai morrer com ele. Magnânimo, não quer causar mais dor ainda ao amigo velho.
Nasceu para ser aberto e franco; detesta ser dissimulado. Sabe, no entanto, que o mundo não suporta a verdade verdadeira. Aguenta - e olhe lá! - a verdade, não mais que a verdade; a verdade pura e simples. A verdade por inteiro, verdadeira mesmo, é um Deus nos acuda. Ou um diabo que carregue.
O Garanhão bota pra fora. Nem tanto porque seja de uma sinceridade sem par, ou ímpar, mas muito mais porque sabe que a mentira é nanica, tem pernas curtas. Como uma boa anã, a mentira não morre. Ou você já foi, ou conhece alguém que tenha ido a um enterro de anão?!?
Chegou-se à mesa dois do Cruz de Malta, bar da esquina de todas as dores de amores da cidade. Era ali que Josué, o Zeca, seu melhor amigo sempre estava, enchendo de pedras renais - tal era a mágoa que tinha no corpo - as doses do uísquezinho que tão bem faz ao fígado de todos nós. O Garanhão chegou-se, sentou diante do amigo e pediu um Jack Daniels duplo, de caubói. Corria o anoitecer.
- Zeca, somos amigos desde guris.
- Sei, tu és meu faixa, desde mandinho.
- E tu, tu és meu mano, Zeca. Mas preciso te dizer uma coisa...
- Te abre, meu chapa.
- Tu tá aprecatado Zeca, pra qualquer coisa?
- Desembucha, tchê.
- É que a Zeneida ... Ela...
- Destranca, meu.
- Ela tá te guampeando com outro macho, tchê...
- A las pucha... Essa foi bucha!
A verdade cortou fundo a alma de Zeca. Ele nem quis saber de mais nada. Saiu da mesa, meio sem rumo, desarvorado, já com as guampas tortas, mas profundamente agradecido ao amigo de fé, irmão, camarada. Antes de chegar à porta de saída, ainda dirigiu-se ao confidente:
- Brigado, meu faixa; muito brigado pelo coice... e pela amizade.
- Não por isso, compadre... Só não me vai fazer besteira...
O Zeca já nem estava mais ali. O Garanhão sequer teve tempo de dizer mais alguma coisa. Pena, mas era verdade. Respirou aliviado pelo desabafo e pela reação do pobre Zeca. Levantou-se pagou a conta e foi para casa. Tomou um banho reparador, deitou-se de cara para o teto. Apagou a luz. Dormiu com o remorso martelando sua cabeça.
Nem era remorso. Era a verdade inteira que lhe pesava na consciência. Afinal, o macho que andava comendo a Zeneida era ele. Dói até hoje na alma do Garanhão botar guampa no Zeca. Essa verdade verdadeira vai morrer com ele. Magnânimo, não quer causar mais dor ainda ao amigo velho.
Pendurando a despesa
Pensa que a vida de um nobre falido é levada sempre na moleza? Ledo engano. O Garanhão de Pelotas não só já fez, como é capaz de qualquer coisa na vida. Assim que se formou em tudo - direito, jornalismo, letras portugues/ingles, psicologia, filosofia e sociologia - continuou desempregado, como senta bem no Brasil a qualquer pessoa que tenha diplomas para apresentar, ao invés de carteirinha do partido governante.
Nesse tempo, era garçom. Atuava com desenvoltura - em verdade vos digo, quase flutuava - por entre as mesas propositadamente rústicas da Taberna do Willy.
Naquela noite, lépido e gentil, apresentou a conta do lauto e requintado jantar a dois, para o elegante, bem-acompanhado e maneiroso freguês, mais conhecido nas boas casas do ramo por seus pequenos e costumeiros golpes, do que pelas gorjetas que deixava.
Ora, não seria só porque o garçom da casa era o Garanhão de Pelotas que o finório mudaria seu modus operandi. Naquele velho começo de noite ainda criança, o nosso serviçal superstar pressentiu que o caloteiro de fino trato agiria comme d'habitude. E não deu outra. Ao deparar-se com a apresentação da nota de despesas, o cliente foi direto ao assunto:
- Desculpe, moço, acho que esqueci a carteira em casa...
- Acontece, meu senhor... Mas, não faz mal, eu penduro a nota com o seu nome ali na parede e quando o senhor vier pagar a conta a gente apaga tudo. Eu mesmo tiro a nota dali.
- Nem pensar. Todo mundo vai ver meu nome aí. Isso é uma vergonha.
- Quê nada, meu senhor, eu vou pendurar o seu paletó ali ó, tapando a nota...
Assim que o Garanhão deu mostras de que pegaria mesmo o casaco no espaldar da cadeira do comensal, a carteira milagrosamente apareceu nas mãos do devedor. Até propina sobrou naquela noite, ainda criança.
Nesse tempo, era garçom. Atuava com desenvoltura - em verdade vos digo, quase flutuava - por entre as mesas propositadamente rústicas da Taberna do Willy.
Naquela noite, lépido e gentil, apresentou a conta do lauto e requintado jantar a dois, para o elegante, bem-acompanhado e maneiroso freguês, mais conhecido nas boas casas do ramo por seus pequenos e costumeiros golpes, do que pelas gorjetas que deixava.
Ora, não seria só porque o garçom da casa era o Garanhão de Pelotas que o finório mudaria seu modus operandi. Naquele velho começo de noite ainda criança, o nosso serviçal superstar pressentiu que o caloteiro de fino trato agiria comme d'habitude. E não deu outra. Ao deparar-se com a apresentação da nota de despesas, o cliente foi direto ao assunto:
- Desculpe, moço, acho que esqueci a carteira em casa...
- Acontece, meu senhor... Mas, não faz mal, eu penduro a nota com o seu nome ali na parede e quando o senhor vier pagar a conta a gente apaga tudo. Eu mesmo tiro a nota dali.
- Nem pensar. Todo mundo vai ver meu nome aí. Isso é uma vergonha.
- Quê nada, meu senhor, eu vou pendurar o seu paletó ali ó, tapando a nota...
Assim que o Garanhão deu mostras de que pegaria mesmo o casaco no espaldar da cadeira do comensal, a carteira milagrosamente apareceu nas mãos do devedor. Até propina sobrou naquela noite, ainda criança.
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