9 de fev de 2011

O filme de sábado

Naquele entardecer de sábado, o  Garanhão de Pelotas  tava nem aí para a perspectiva de domingo. Não queria nem saber do ronronar da secretária executável que resolvera não aproveitar o weekend que o galante Cavaleiro dos dois Pampas havia concedido ao trio maravilhoso de pau, melhor, de mão pra toda obra que sempre o acompanhava aonde quer que ele estivesse, ou fosse. A loira resolvera ficar para fazer nada o tempo todo com ele.

Entediado, o Garanhão  cutucou a secretária N° 1, uma da Sete Maravilhas da vida contemporânea, desligou a TV e, num instantinho estavam no Jaguar XF-2009 rumo a uma locadora de DVDs.

Chegaram logo, a locadora ficava por perto da residência do nobre filho da Princesa do Sul, bem no centro da cidade. O Garanhão  ficou no carro, enquanto a loira foi à loja de filmes alugar a encomenda do seu amo e senhor.

Um minutinho depois, nem isso, e o sábado modorrento explodiu de emoção. O Garanhão  deparou na janela a seu lado com a figura de um crioulo senegalesco, cavalar, tridimensional que lhe apontava uma faca desse tamanhão e fazia gestos indecorosos de que queria grana.

- Perdeu, mano. Perdeu. Dá o que tem aí!..

Coração batendo mais que bongô, olhos esbulgalhados como se fossem os dois faróis do Jaguar, o Garanhão  manteve serenidade aparente e, com um esgar tipo sorriso, espalmou-lhe a mão esquerda como se fosse um guarda de trânsito pedindo calma. Um gesto assim como se tudo estivesse bem; que ele faria tudo que o assaltante queria...

Pura encenação. O larápio piscou e o Garanhão  arrancou, com um torque de cantar pneu, saindo do zero para 150km num átimo de segundo, deixando o assalto pra trás e o assaltante estatelado no meio-fio da calçada. Teve um transeunte que ainda escutou o bandido cuspir entre dentes uma imprecação:

- Safado! Mauricinho bem fiadaputa, esse!

Envergonhado e fracassado, o ladrão se levantou, guardou a faca e saiu de fininho. Aquela quase noite de sábado não estava começando para bem para ele.

A Um quarteirão dali, o Garanhão arriscou os olhos no retrovisor. Pra quê?!? Estava sendo seguido. Era sequestro. Vingança, quem sabe, da gangue do assaltante que deixara esparramado no meio da rua. Acelerou mais, atravessou todos os sinais fechados. Por azar, entrou num beco sem saída, ao lado da praça municipal.

O carro que o perseguia, estancou num freada maluca, a poucos centímetros do Jaguar. O Garanhão já se recriminava por ter saído sem a sua Beretta .30, quando viu a sua loiríssima secretária correndo aflita ao seu encontro. Ela estava acompanhada do primo-irmão que, por benesses do destino, encontrara na locadora. O carro era dele.

- Calma, meu amor, calma. Sou eu. Nós vimos tudo. Só queremos saber se você está bem...

Bolas, era ela; sempre ela. Lépida e diligente. Mas, a constatação de que se tratava dela e não de uma nova tentativa de ataque, chegara um pouco tarde demais. O que tinha que acontecer com os nervos e as reações intestinais do nosso herói, já tinha acontecido.

- Obrigado. Muito obrigado, mas podem ir pra casa. Eu...eu vou ali no banheiro da praça.

E foi. Bom tempo depois pegou o caminho de casa. Lá encontrou a secretária N° 1 completamente concentrada no maior sucesso daquele ano nas locadoras: "Uma mente brilhante". O filme já estava pra lá da metade. O Garanhão foi tomar uma ducha antes de revigorar-se numa demorada seção de hidromassagem.

MORAL DA HISTÓRIA - É bom temer sempre o pior; o melhor acabará se salvando por si mesmo. Mas é miserável o estado daquele que, à vezes, está querendo poucas coisas, quando tem muitas a temer.