6 de jan. de 2012

NEURASTÊNICO

Quando eu me atacava das lombrigas, quando me dava na telha, ninguém era capaz de ser mais intragável do que eu.

Que maus bofes! Era como se eu tivesse brigado com o cara que inventou o circo, ou com o autor do carnaval, ou aquele que descobriu a alegria. Eu reclamava de tudo, de todos; por tudo, por nada. Era quando eu endurecia e perdia a ternura.

E nem precisava de motivo para ficar neurastênico. Bastava, por exemplo, não ter dinheiro no bolso. Pronto, lá estava eu de bronca com os deuses e todo mundo. Vejam só o tamanho da minha neurastenia: ficar irritado por falta de grana... Isso lá é motivo de irritação para um brasileiro que se preza? Porra, dinheiro é bosta! Qualquer ladrão tem.

Mas sei lá, eu me encanzinava, chutava o balde, a vaca e o pau da barraca só porque a mão, às vezes, era maior que o bolso. Besteira. Dinheiro é coisa de político. Pessoas nem sabem o que é isso.
Sabe duma? Mais que falta de dinheiro só duas coisas me estragavam o fígado, me deixavam doente: uma era estar sem trabalho, outra era estar trabalhando. Mas, como disse um santo fanático ao ver lá de cima a Terra girar: - O mundo é uma bola.
Pois não é que é? E rola.

Foi assim que um dia – desempregado e deixando a vida me rolar - me irritei e resolvi ser patrão de mim mesmo. Me empreguei a fundo e montei um daqueles trailers de hot dog, cheio de bossas americanizadas, posto que se assim não o fossem se chamariam reboques de cachorro-quente. Não mais abrasileirados que isso.

Irritado por não ter dinheiro, tomei uma graninha emprestada num desses bancos de intermediação de negócios de ocasião e investi na idéia de que todo mundo é chegado num lanche de beira de calçada.

Irritado pela humilhação de me endividar para trabalhar, avisei meia-cidade que no próximo fim de semana eu e minha banca de fast food estaríamos na batalha, ali na esquina da praça central.

Dito isto, dito e feito. Fui com tudo. Não foi ninguém.

Já noite alta, o telefone tilintou dentro do trailer. Era minha mãe querida:
- Garanhão, meu filho, como foi a estréia. O movimento foi bom?
- Uma bosta, mãe! Tô aqui parado, sozinho; sem nada pra fazer... Uma bosta!

Atendi ao apelo de seu condoído coração materno para que eu fosse descansar um pouco “que amanhã é outro dia”. Fui. Dormi irritado. Acordei e fui à luta- que “não podemos se entregar pros home, de jeito nenhum, amigo e companheiro”.

Por volta de sete, sete e pouco da manhã de sábado reabri aquela espécie de gazebo de inspiração ianque, santuário moderno  “dos melhores e mais baratos lanches da praça”.

Lá pelas dez da noite, o telefone tilintou em replay ao que sucedera no dia da malfadada estréia. Atendi:

- Pai?
- É. É o seu pai, meu filho. Como tá indo o negócio aí?..
- Uma bosta, pai! Isso aqui tá uma bosta!
- Não apareceu ninguém, Garanhão?
- Tá cheio de gente, pai. Uma bosta, não paro de trabalhar desde manhãzinha.
- Então tá bom, né filho?
- Bom, uma bosta! Amanhã mesmo vou passar esse negócio adiante...
- Mas, meu filho...
- Pai, se eu não passar adiante, fecho essa bosta pra sempre. Não sou burro nem nada pra trabalhar desse jeito!

MORAL DA HISTÓRIA – Os outros vícios empurram o ânimo; a irritação os atira para longe.

5 de jan. de 2012

Nomeação

Como consultor republicano de mídias persecutórias a governos que praticam a famigerada “estratégia de coalizão pela governabilidade”, não perco a menor chance de patrulhar esses focos de domínio popular que integram o plano de poder dos seguidores de Luiz Erário Lula da Silva e suas criaturas.
A estrutura estatal que forma a máquina governamental está minada por terceirizações. Carteirinha de partido aliado vale mais que qualquer diploma. Concurso é ferramenta do passado.
Cargo se preenche com cabo-eleitoral e apaniguados em geral. Ninguém precisa saber nada para ser nomeado para tudo.
Era um dia de palanque e o prefeito da cidade, por acaso do PT – o prefeito e a cidade – entregava medalhas de grande mérito a figuras ilustres da sua base aliada. Foi o justo momento para nomear Secretária Municipal de Ensino, uma professora primária, daquelas feitas nas coxas, sem graduação e sem instrução.
Pertinho daquele palco iluminado, eu pude escutar o rápido diálogo entre a professora e o politicóide. Percebi também o murmúrio de surpresa e indignação que a abrupta nomeação causara na turma do gargarejo.
Constrangida pela honraria, a mestra de ocasião, surpresa e acanhada sussurrou sincera para o prefeito:
- Prefeito, eu não tenho nenhum requisito que me faça merecer este cargo.
O raposão político, sorriu, deu-lhe um tapinha nas costas e, impassível e solene, iniciou um breve discurso para a nova secretária municipal:
- A professora, na realidade, está fora das exigências corriqueiras para o cargo que vai ocupar... mas ela tem muito mais qualidades que o cargo exige.
Assunto encerrado. Indicação consagrada. Nunca na história daquela cidade, a carteirinha partidária tinha valido tão mais do que um diploma de magistério.
MORAL DA HISTÓRIA – Não há quem resista a um carteiraço numa democracia em que é o voto é mais que um direito, uma obrigação.

Vitupério

Sempre gostei de mesas de bar. Dali saem coisas assim de repente que qualquer divã levaria de dez a quinze sessões para fazer brotar.

Eu sorvia minha vodca finlandesa com pedaços de laranja na casca, enquanto lia o jornal do dia e escutava o papo de política que dois velhos amigos pinguços exercitavam, naquela manhã já quase meio-dia.

Em dado momento, os ânimos se exaltaram. E os dois companheiros cientificamente álcoolpolitizados perderam as estribeiras e passaram a uma audível troca de gentilezas. O mais agressivo exclamava; o outro era duro també, porém mais reticente:

- Você é um imbecil!
- E você, um idiota...
- Pulha!
- Biltre...
- Calhorda!
- Papalvo...
- Mequetrefe!

Porra, mequetrefe?!? Aí lembrou petismo. O reticente, inspirou-se e diante daquela ofensa, não admitiu a pecha de vagabundo, tomou fôlego e despejou em cascata para acabar com o duelo verbal:

- Zé Dirceu! Delúbio! Lula!!!

Deu as costas e foi para o lado de lá do balcão falar de praia, churrasco, festas de fim de ano, numa roda mais calma e serena de companheiros de birita. Seu olhar revelava a empáfia dos vencedores. Mesmo que o duelo fosse só um vitupério

MORAL DA HISTÓRIA - Até mesmo entre dois amigos de copo, uma mesa de bar tem limites para as coisas do mundo politizado.

4 de jan. de 2012

Premonição

Por capricho do destino, estavam naquele mesmo vôo da Transbrasil de Brasília para Porto Alegre, com escala em São Paulo, Zé Dirceu, Nelson Jobim e Pedro Simon. A bem da verdade, diga-se que cada um deles entrou por seu turno e cada qual foi se encontrando com os outros pelo corredor da aeronave.

O mesmo corredor de passageiros comuns, por onde eu me acomodava com Silvinha, minha noiva de weekends nos Pampas. Embora com larga milhagem e velha macaquice em viagens aéreas, nunca deixei de sentir aquele certo friozinho no estômago a cada decolagem.

Muito mais perspicaz do que supersticioso, ronronei para a minha gatinha ruiva, já dona de seu assento ao lado da janela:

- É muito político para um só avião... Não deve ser a vez de todos deles baterem as botas.
- É pouco provável – filosofou Silvinha – esse vôo é seguro.

Eu já estava me aprumando para sentar-me a seu lado, quando um arrepio de premonição me cutucou a imaginação:

- Mas e se for a vez do Piloto?!?

Saí do avião com Silvinha e fui refazer o check-in. Viajamos menos de duas horas depois, pela Varig. Voo direto, sem baldeação em Congonhas. Chegamos a Porto Alegre na mesma hora em que chegaríamos pela Transbrasil.

Do saguão do aeroporto Salgado Filho, olhamos para o campo de pouso. Carros de bombeiro, ambulâncias e um grupo de paramédicos se movimentavam na cabeceira e às marginais da pista, voltados com uma enorme expectativa para o céu de brigadeiro do Rio Grande do Sul.

Um Boeing-737 com o prefixo e as cores da Transbrasil descia em velocidade bem acima do que ordenam os manuais para realizar o que seria uma aterrissagem de procedimento normal.

MORAL DA HISTÓRIA – A presunção de saber o futuro é uma espécie de rebeldia contra os deuses e uma competência louca que se transforma em prudência.

Alcoólatra

Aquele meu vizinho não podia beber. Toda vez que tomava um pileque ficava, digamos, dadivoso. Concedia. Principalmente para jovens e robustos mancebos.

Sua sina começou nas noites de sábado. No domingo remordia a ressaca desabafando ardilosamente para os amigos e toda a vizinhança:

- Tomei um porre de matar, ontem. Nem sei o que aconteceu comigo...

A cena se repetia todo fim de semana. Na segunda-feira era sempre a mesma ladainha:

- Sei lá o que foi que eu fiz... Caí de bêbado sábado à noite.

Com enorme rapidez os porres passaram a acontecer às terças  e quintas-feiras também. E logo se sucediam às sextas e domingos, fechando a semana.

Um dia, ele veio me falar de suas contínuas crises de amnésia:

- Pô Garanhão, não sei o que se passa comigo...
- Mas, eu sei. Você virou alcoólatra!

MORAL DA HISTÓRIA – É prudente quando a emenda sai pior que o soneto, que a gente a remende, caso contrário então que a gente a dissimule.

Alfajores no ar

Agente secreto do Departamento Internacional de Combate a Presidentes Analfabetos (DiCopa), eu viajava disfarçado de turista incidental rumo a Amsterdã. A meu lado, numa estrinicada poltrona de classe executiva, uma lourinha estagiária de jornalismo esportivo curtia o seu primeiro voo internacional.

Embarcáramos - cada um a seu modo e seu lugar - em Guarulhos, num voo da carcomida Alitália. Coube-lhe o lugar a meu lado. Que bom, foi agraciada com a janela.

Ao natural e com o espírito aguçado dos espiões internacionais, fiquei sabendo assim como quem não quer nada, que a garota viajava para cobrir um Mundial de Hipismo, em Heindhoven, na Holanda.

Comme d'habitude em aviões de carreira, reclinei-me para encerrar o papo fingindo que adormecia - mantendo-a, no entanto e de soslaio, com um olho no padre e outro na missa, como faz bem aos que trabalham em sigilo.

Concluídos os procedimentos para decolagem, as aeromoças já circulavam lépidas e faceiras pelos corredores da aeronave. Distribuíam jornais, revistas, leituras de bordo e uma coisinha lá que outra: mantas térmicas, travesseirinhos e agradinhos assim.

Dentre tantos mimos, a jovem estagiária de primeira viagem ganhou o que identificou logo como dois minúsculos alfajores. Retirou-os da embalagem de papel celofane e prontamente e sem cerimônia colocou-os na boca.

Na primeira mordida sentiu que precisava ter estômago para engolir aqueles achocolatados holandeses. Não conseguiu digerir aquilo.

Disfarçadamente retirou os alfajores da boca. Sem se deixar notar, examinou-os atentamente. Corou. Dissimulada, guardou-os no bolso da jaqueta de reportagem que estava estreando.

Só depois de meia hora de voo é que voltou a usá-los. Aí, sim, de maneira correta. Colocou um em cada lado de sua linda cabecinha, no lugar para o qual aqueles pequenos artefatos tinham sido criados com a moderna tecnologia que os fones de ouvido ostentam nessas linhas aéreas internacionais. Seu sabor era péssimo, mas para ouvir aqueles alfajores eram ótimos.

MORAL DA HISTÓRIA - Em qualquer ocasião, mesmo sendo uma loirinha estagiária de jornalismo, todo apressado come cru.

3 de jan. de 2012

Eu, O Detetive

Eu iniciava minha vidinha de repórter. Na verdade, repórter, repórter mesmo eu nunca fui. Perguntava por perguntar, nunca furunguei as fontes. Sempre fui mais de salas de redação, hoje virtuais e sonoplasticamente menos poluídas.

E, porque começava e tinha jeito de foca, fui escalado para fazer um plantão policial como repórter da sucursal pelotense do tablóide Zero Hora. Fiz. Foi o único de minha carreira pelos caminhos da notícia.

No meio da noite pegaram um suspeito. Submeteram-no a uma sessão de toma lá, toma de novo, sem nenhum dá cá. Eu saí às carreiras. Mal deixei o recinto da pauleira e granjeei a antipatia da soldadesca. Nunca mais fiz polícia.

Não fiz, como repórter. Mas o crime e o castigo me fascinavam. Na faculdade de Direito fui colega de muitos agentes policiais. Botei na cabeça que tinha pendores detetivescos. Encasquetei que era um bom detetive. Desses, tipo Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Al Wheeler – feras de almanaques policiais.

Deu-se então um crime escabroso na região. Um casal foi enterrado nas dunas do Cassino, praia de Rio Grande, cidade que é fim do mapa dos gaúchos. A polícia já não sabia o que fazer para desvendar o hediondo assassinato.

Ninguém imaginava quem poderia ser o criminoso. Pronto, um mistério de verdade para aguçar minhas aptidões de investigador. Não tive dúvidas, logo me comprometi a colaborar com as investigações policiais. De caderninho na mão, cachimbo na boca e até uma estapafúrdia luneta fui à luta.

Daí a uma semana, telefonei para a delegacia e avisei que estava na casa do assassino. Dei o endereço e fiquei à espera. Os policiais ficaram de queixo caído quando o bandido, meio no porre, se entregou sem qualquer resistência.

Era o Vicente Beleza, um cara conhecido dos Boletins de Ocorrência. Viciado em carteado, corrida de cavalos e bilhar, ele vivia aplicando pequenos golpes. Escondia coringa nas mangas, jogava no bicho, apostava em pules viciadas.

Mas ninguém diria que ele seria capaz de matar alguém. Muito menos um casal. Muito menos enterrá-los nas dunas do Cassino. Muito menos isso.

A repercussão foi um estouro. Deu capa de jornalões, de jornais locais e também dos dois tablóides de Porto Alegre. Deu mídia de montão. Rádios, TVs, revistas. Minha carreira de detetive estava definitivamente consolidada.

Quando os holofotes da mídia me deram o devido descanso, fui jogar sinuca com os parceiros de sempre no Bataclã – casa de jogatina que reunia a nata e a reborréia da cidade.

Noite altíssima, fui pagar a sopa da madrugada no Restaurante Gago, refúgio e sindicato noturno dos sócios das mesmas dores do mundo. Era o meu prêmio de consolação ao Sargento Morcilha, meu pato nas mesas de pano verde e caçapas recheadas pelo soldo do meu parceiro, péssimo jogador de snooker.

Ele, como todo mundo – de repórteres a leitores; de inspetores a delegados – queria saber que pista, que indício, que evidência eu tinha seguido para elucidar o crime e chegar ao assassino. Com pena por ter depenado uma vez mais o meu freguês de caderno, eu lhe matei a curiosidade.

- Vou te dizer, Morcilha. Mas come em tranca.
- Sou um túmulo, Garanhão.
- Olha, Morcilha, isso é segredo profissional.
- Juro por Deus e uma batata frita que o assunto morre aqui. Pra sempre, juro.
- Foi barbada. Eu tava aqui no Gago, naquela noite. Aí, o Beleza se chegou e me filou uma birita. Tomou todas. Então se embebedou e deu o serviço.
- Como assim, deu o serviço assim, na maior?
- Ele me disse que tinha sido ele. Que andava comendo a mulher do cara. O cara descobriu. E ele, de medo, matou o corno e depois apagou a mulher.
- Fácil. Fácil...

Morcilha olhou para mim e sentindo no meu olhar o perigo que a inconfidência representava agora para ele, logo se apressou a me tranqüilizar:

- Fácil, Garanhão. Mas eu já me esqueci.

Depois desse caso deixei a vida de detetive particular. Fui ser e fazer o que mais gosto de ser e fazer na vida... Descubra. A gente sempre deixa uma pista.

MORAL DA HISTÓRIA – Ninguém é tão apegado a um segredo quanto aquele que não tem intenção de guardá-lo.

A Tosse

Eu já estava na melhoridade. Bolas, o Garanhão de Pelotas não é Lula nem Sarney para ser imortal ou imune aos séculos. Por isso e pela idade, eu gozava das liberdades que o tempo nos empresta quando já se colecionou aniversários sem conta.

Flatulência, por exemplo. Flatulência, para os idosos, é uma coisa que dá e passa. Com a maior naturalidade. A qualquer momento, em qualquer lugar, em quaisquer circunstâncias.

Claro que, diante de eventuais visitas, na frente dos filhos, de convidados, necessário se faz tomar a devida precaução. E eu tomava cuidados, ora. Principalmente com os ruídos. Os odores eram disfarçados com olhares severos e denunciadores lançados maldosa e cinicamente à vitima mais próxima. O culpado era sempre aquele outro ali.

Para o som, eu tinha, digamos, uma boa saída: tossia alto e forte no exato momento do execrável pum.  E tantas vezes tossia quantos fossem os gases espúrios expelidos

E dando-me por satisfeito, eu me habituara a disfarçar meus mistérios. Toda noite, estivesse quem estivesse na sala, na cozinha, no carro, eu promovia um festival de tosse. E assim foi por muito tempo, até que uma das minhas incontáveis filhas de outros tantos casamentos, resolveu me repreeender na frente do seu namorado em plena sala de estar:

- Pai, pára de tossir. Essa sua tosse infestou a sala. Ela vai acabar nos matando!

MORAL DA HISTÓRIA - Na vida até o que se ouve pode falar mais alto do que se pensa.

2 de jan. de 2012

O Corno

Encarnar o Garanhão de Pelotas leva o sujeito a certas desventuras. O que se há de fazer? São os cavacos do ofício. Pois, naquela noite cheguei mais cedo em casa.

Pra quê?!? Dei de cara com a minha mulher de então deitada na nossa cama com um cara que não tinha nada a ver comigo.

Saquei o revólver – sempre carrego um comigo para essas ocasiões – e já ia metendo bala nos dois, quando parei para pensar.

Em frações de eternos segundos passei os últimos tempos do filme da minha vida de casado. Tive que reconhecer: minha esposa já não me pedia dinheiro para comprar carne, nem para comprar vestidos, sapatos, jóias, ainda que andasse sempre no it da moda.

E fui vendo: os meninos saíram da escola pública para a privada. Minha mulher me ajudou a trocar de carro; as compras no supermercado nunca foram tão fartas; as contas de luz, água, telefone, internet, celular, cartão de crédito, estavam todas em dia.

Pensei melhor. Guardei a arma na cintura e fui saindo de fininho. Pé ante pé que é melhor para uma boa análise de tudo que nos diz respeito que é bom e todo mundo gosta. E voltei pra segunda sessão do cinema da esquina que já ia começar. Voltei meditando com profundo discernimento:

- Esse idiota paga o aluguel, o supermercado, a escola dos guris, água, luz, telefone, carro, shopping, todas as despesas da minha casa e eu ainda vou pra cama com a minha esposa todas as noites...

Cheguei à bilheteria. No momento preciso de pagar o ingresso, pensei em voz alta, surpreendendo a garota atrás do guichê:

- Pô, o corno é ele!

Estupefata, ela não entendeu nada. Certamente pensou que eu talvez já soubesse o fim do filme.

MORAL DA HISTÓRIA – Aquele que se põe em guarda contra quem o trái é, cabalmente, aquele em cujo favor os traidores cometeram a traição.

O Ébrio! O Ébrio!

Lá pelo início do mundo, nos áureos tempos do auditório da Rádio Cultura de Pelotas, Victor Jascò - um cantor de enorme popularidade local, dava um show de interpretação para uma platéia fanatizada.

Cantava e encantava com seu potente e afinado vozeirão os sucessos de Cauby Peixoto, Francisco Carlos, Jorge Goulart e outros ídolos da incrível e carioca rádio Nacional que ricochetava para os brasís atentos o roteiro musical das chanchadas da Atlântida.

Tanto era aplaudido que Victor Jacó ficou exibido, se entusiasmou e liberou geral:

- Podem pedir o que quiserem ouvir...

Como aprendiz de sonosplasta, eu sabia que Jacó não tinha o dó de dpeito nbecessário para algumas canções da época. Como eu não perdia nenhuma audição dominical da emissora mais pontente do interland gaúcho, lá estava eu na turma do gargarejo. Não resisti à tentação de armar uma boa pra cima do cantor mais popular da casa e, no meio do vozerio ensandecido das macacas de auditório, aprontei pra cima dele pedindo a plenos pulmões:

- Canta O Ébrio! O Ébrio, canta O Ébrio!

Victor Jacó, sentiu os cutupicos. Virou-se para o Jazz Estrela e disse para o maestro, fora do microfone:

- Isso é coisa do Garanhão... Segue o roteiro. Toca Blue Gardenia.

E, aos primeiros acordes de mais um hit parade, me fuzilou com o olhar, enquanto voltava a encantar as moçoilas fanáticas deixando Vicente Celestino pra lá.

MORAL DA HISTÓRIA - O calor da emoção não pode ser tanto que te faça oferecer aquilo que não tens.

O Sovina

Estancieiro conhecido por seu sucesso, seu dinheiro e sua sovinice, o cordial pagador de cafezinho no Aquário, cafeteria das gabolices citadinas, era outra pessoa, bem outra, na lida diária da administração de suas fazendas na zona rural de Pelotas.

Como seu convidado, eu conversava com ele de tudo um pouco ali na sala de uma suas estâncias, quando bateram na porta. Era o Seu Malaquias, capataz de respeito e confiança.

Ele entrou e respeitosamente com o chapéu nas mãos coladas ao peito, nos cumprimentou e, de imediato, foi dizendo ao patrão com voz melindrada:

- Patrão preciso de R$ 50 pra comprar remédio...
- Não tenho...
- ...O dinheiro é pras vacas, patrão.
- ...Não tenho trocado. Pega R$ 100 e compra o que for preciso. Traz o troco.

MORAL DA HISTÓRIA – Patrão sovina fica doente quando lhe pedem dinheiro. A menos que seja para tratar de negócios agropeculiares.

O Resmungão

Fernandinho, o Conde Xixi, era um dos pavios mais curtos da minha patota dos Anos-50. Tinha sempre um palavrão na ponta língua. Seu mau-humor servia para todas as ocasiões.

Estava de mal com mundo em qualquer situação. Pró ou contra. Não era bom e batuta, mas era um bom companheiro. Parceiro para o que desse e viesse. Mas neurastênico a dar com um pau. Para ele, Sal de Fruta Eno era refresco.

Sei do seu pessimismo crônico porque a gente habitava o mesmo cômodo de uma república estudantil. Naquele dia esplendoroso de verão, Fernandinho levantou-se do seu beliche, lá pelas oito horas de um novo amanhecer. Abriu a janela que dava para o jardim do antigo e respeitável prédio, nas cercanias da universidade e encontrou-se com a vida.

Inspirou profundamente e espreguiçou-se com enorme e calculada lentidão. E aí, eu o assisti pensando em voz alta:

- Que dia bonito!

Nem tive tempo de me surpreender com o seu rasgo de otimismo e bom humor. Ele completou sem tomar fôlego:

- É, mas isso não vai durar muito... Que merda de dia bonito!

MORAL DA HISTÓRIA – Para um pessimista ver a vida com bons olhos é coisa de hipocondríaco.

23 de dez. de 2011

A um passo da eternidade

E então, certa feita - não dista isso muito tempo - estava eu à margem direita do arroio Pelotas, na antiga Colônia de Férias Mazza, junto à ponte que leva ao balneário do Laranjal, às frondes de uma centenária figueira ao lado da casa onde morou e conspirou Bernardino Rodrigues Barcellos, quando fiquei sabendo por Ricardo Ramos - senhor de engenho e arte daquele recanto - como é que nasce, cresce e se eterniza uma daquelas maravilhas verdes profundas que dão muita sombra e poucos figos, porque surgem para dar beleza às cenas da natureza.

Aquelas figueiras nascem do cocô do passarinho que se rebusca nos frutos do butiazeiro. O desforço da diminuta ave cai sobre o solo fértil, junto ao pé de butiá e o tempo se encarrega de dar cria às portentosas árvores que emolduram os Pampas e os caminhos da pátria pequena que tenho no Sul.

A descoberta me deu uma pequena visão do que pode ser um princípio da ideia de eternidade. Quando me cansar dessa vida e pular e andar muito mais do que pulo e ando para este mundo, eu quero ser cremado.

Que me desfaçam em pó, mas que não me desperdicem assim ao léu. Quero que liberem minhas cinzas, não ao vento, menos ainda ao Minuano. Quero que me joguem a um mar, a um rio, a um arroio, a um viveiro - pouco importa, desde que seja em Pelotas e tenha camarão.

Um deles há de me provar. E me parir de novo. E então estarei de volta à terra dos homens de todas as vontades. Com a mesma coisa que tenho hoje na cabeça. E vai ser bom uma vez mais. E o seu Garanhão de Pelotas será eterno.

MORAL DA HISTÓRIA - Todo ateu, porque não consegue provar que Deus não existe, tem seu dia de crédulo e fica a um passo da eternidade.

22 de dez. de 2011

Eia, pois!

Eia, pois! O Garanhão de Pelotas, duas semanas de férias depois, é aquela que renasce das cinzas, que ressurge das brumas. Qual Fênix, como disse o faraó Beherensdorf há dois mil anos. O Garanhão é aquele que tenta esquecer todos os dias a sua paixão mais fresca. Mais fresca, no bom sentido. Mais recente. Mais profunda. Mais dorida pela descontinuidade. Pela despedida que não houve. Pelo adeus que não aconteceu. Pela perspectiva de que amanhã é outro dia. Outro começo de tudo quanto nem bem começou, já muito mal nem terminou. Pela saudade hoje do que será o amanhã. Pelos medos de não saber trilhar o chão que lhe faltou.

2 de dez. de 2011

NEURO MORDAZ

Fernando Costa sempre foi meu neurologista. Meu e de todo o Cone Sul. Seu idioma clínico é e sempre foi de uma precisão suiça e de uma frieza patagônica. Nunca fez rodeios. Disse sempre na lata o que o paciente tinha. De bom ou de ruim.

Eu era seu parceiro de aventuras esportivas pelas quadras do Dunas Clube. Quadras de tênis e de pádel, já que de futebol ele não manjava nada. Era mais perna de pau do que cadeira dura em modalidades de raquete.

O melhor de todos os certames era sempre a rodada de uísque e acepipes de depois. As melhores jogadas eram as que ninguém tinha visto e as histórias eram todas verdadeiras, disfarçadas de mentira.

Fernando não se continha. Um dia notei marcas vermelhas nos meus braços. Onde eu batia com a raquete, ou onde quer que eu levasse uma pancada, logo ficava uma nódoa feia que persistia por meia dúzia de dias para depois sumir como que por encanto.

Eu quis saber de Fernado o que era aquilo:

- Fernando o que é isso aqui.
- Nada, Garanhão. Isso é bobagem.

Quinze, vinte dias depois. De novo as manchas apareceram. Voltei à carga:

- Fernando, e essas manchas?
- Nada, Garanhão, nada... Não dá bola pra isso.
- Para com isso. Diz logo do que se trata..
- Bem, já que você quer saber, isso é... Púrpura senil.
- Púrpura... Púrpura senil?!?
- É, só dá em quem tem mais de sessenta anos.

Bem feito. Quem me mandou ser curioso. Curioso e medroso. Eu achava que poderia ser aquilo que Lula tem hoje na garganta, ou coisa que o valha. Não era. Ora, púrpura senil eu tirava de letra.

E Fernando Costa, meu neurologista meio pisquiatra, analista e parceiro de jornadas clubísticas, era bem assim. Sua linguagem clínica era um estilete; tinha a precisão de um bisturi.

De outra feita, eu andei fazendo um regime de matar. Não deixava de comer nada do que eu gostava. Mas contava calorias. Não absorvia mais do que 900 por dia. Emagreci uns 12 ou 13 quilos.

Numa dessas saídas de quadra, gelinhos tilintando em copos atopetados de Chivas Regal, Fernando - vingativo como ele só e brabo porque havia perdido mais uma partida para mim, olhou-me e com a mordacidade que tirava dos confins da Patagônia, me disse entredentes:

- Todos os meus amigos que emagreceram desse jeito, foi sempre por duas únicas razões...
- Duas razões?
- É. Estavam com câncer ou arrumaram uma amante.

Calei-me. Fingi que me preocupava com uísque em minhas mãos, quando ele - com olhos de freguês de caderno - não me perdoou:

- Garanhão, você... Eu garanto, não tem câncer.

MORAL DA HISTÓRIA - As coisas que ouvimos quando as provocamos são sempre mais verossímeis do que as que escutamos antes de nos irritarmos.

27 de nov. de 2011

RELATÓRIO DO MINISTRO GARANHÃO

Eu era ministro do Trabalho do primeiro governo de uma primeira mulher eleita presidenta do Brasil.  Eu era bom ministro. O ministério é que era uma porcaria tão grande que, quando meus pensamentos voavam pelo meu gabinete, sobressaía a minha porção mosca-varejeira.

Eu me sentia muito bem no meio daquele monturo cercado de políticos e consultores, porque sabia que podia cometer malfeitos a torto e direito. Afinal, eu sabia que no fundo, no fundo, todos eles eram bons. Ruim mesmo é quando eles vêm à tona.

Então eu dava risada sempre que me pegavam no contrapé, toda vez que me acusavam de alguma falcatrua, que diziam que eu levava uma propina para liberar a abertura de um sindicato ou coisa que o valha. Eu morria de rir, porque eu sempre tinha alguém em quem botar a culpa.

E corria o tempo, célere rumo às festas de Natal e Novo Ano. A primeira-mulher-presidenta, a quem eu amo de paixão, pressionada por uma cascata de acusações que fez meia dúzia deles rolar por águas abaixo que nem bosta na correnteza, me mandou uma mensagem urgente, meio curta, meio grossa, como é de seu feitio: "Quero amanhã mesmo o seu relatório sobre a minha mesa"!

Achei que ela também gostava de mim. Mais que achar, eu tinha certeza. Não a fiz esperar. Mandei o relatório por escrito, carimbado em papel timbrado e assinado. Não carecia de sigilo. Não tenho, nem nunca tive segredos pra ninguém.

Meu relatório também foi meio curto e meio grosso, como é de meu feitio: "Sua mesa é de madeira de lei, rococó reformada, tem quatro pernas, duas gavetas e tampo muito bonito".

MORAL DA HISTÓRIA - É prudente em coisas do governo que nos domina que quando os erros podem ser remediados, que se os remedie; e quando não, que sejamos dissimulados.

19 de nov. de 2011

ASSOCIAÇÃO DE IMAGEM

Quando eu não havia completado ainda 200 anos de idade, tinha um neto, esperto e bonito como são todos os netos de todos os avós do mundo. Mais que isso, ele era inteligente. Isso sempre faz a diferença.

Naquela manhã de férias do Jardim de Infância, ele saía de casa, acompanhado por seu pai, para dar um voltinha no parque da cidade, andar de balanço, gangorra, traçar um sorvetão, um algodão doce, pipoca e essas coisinhas que os pais sempre provam antes de dar a metade que sobra para os filhos.

Estavam no umbral da porta, quando bem à frente de meu neto de cinco anos, passa pela calçada, rente à parede da casa, um anãozinho, de cabelinho penteado, bem arrumadinho, de andar lépido e faceiro.

O pequeno transeunte não estava nem a um metro de distância, quando meu neto - encantado pela inusitada imagem do nanico - sugeriu na hora ao meu genro:

- Pai, me leva ao circo?!?

O anão estancou a caminhada. Voltou-se como se fosse dar um tabefe no guri atrevido. Viu que não era nada disso. Deu meia volta e se mandou. Lépido, mas já nem tão faceiro assim.

MORAL DA HISTÓRIA - Quando o sonho se reflete na realidade, não há razão para conflito. Mas que a gente perde o rebolado, perde.

16 de nov. de 2011

COMIA, SIM

Eu também fui guri medonho, daqueles de esperar a saída dos colégios das freiras e dar piadinhas sensuais e provocativas para a virgenzinhas da cidade.

Um dia, eu estava com a minha turma numa das calçadas estreitas, pela qual as moçoilas tinham que passar depois de mais um dia estafante de aula.

Eu mais que sozinho, estava mal acompanhado por Peteleco, um colega de ginásio que, como eu metera uma gazeta, só para ver a fauna escolar passar.

E lá vinham duas delas. Pelo jeito, capricornianas ou piscianas, virgens é que não tinham mais jeito de ser.Uma aparentava ser um pouco mais experiente que a outra. E eu querendo me exibir mais do que precisava, segredei para o parceiro ao lado:

- Essa é feia. Eu não comia nem que ela me pagasse.
- Qual delas, a de cá ou a de lá?
- A quem vem pela beirada da calçada.
 - Pô, Garanhão, essa é minha irmã.
- Não, não, a de lá, a veterana.
- Pois essa é a minha mãe...
- Ah é, então eu comia. Comia sim!

MORAL DA HISTÓRIA – Com excesso de confiança e sem dobrar a língua você acaba não comendo, nem agradando ninguém.

BEDEUZINHO

Joguei futebol muito tempo. Não é para me gabar, mas fui craque do Brasil, do Pelotas, do Farroupilha, do Bancário, do Paulista, do Estrela, do Huracán, do Santa Fé, do Danúbio, do Ponte Preta, do Liverpool às vezes, Racing, da Portuguesa do Patê, do Naoli, do Santa Tecla, do Arranca-Toco. Fui um prostituto de camisetas esportivas.
Só não joguei pelo Fiateci, porque ele já havia fechado as portas e nem no Cometa, dos irmãos Caveira porque eu gostava de ganhar deles. Lá jogavam o Rato, o Diabinho, o Jorginho Spilmann, o Carioquinha, todos bons de bola. Não tem graça ganhar de quem não sabe nada.

Um dos grandes craques com quem tive o prazer de jogar foi Bedeuzinho, grande craque da velha Boca do Lobo. Mas ele já não anda mais por aí.

Quando abandonou a carreira profissional, Bedeuzinho permaneceu pelas cercanias do time da Avenida, como se fosse uma peça do s móveis e utensílios, um patrimônio do clube.

Era uma figura fácil e carimbada nas redondezas áureo-cerúleas. Tinha sempre histórias pra contar. A vida lhe foi ingrata. Saiu dos gramados com a família meios desmanchada, as finanças meio abaladas, na verdade, sem um tostão no bolso.

Nem com tudo que passou, seu espírito perdeu a ginga nem a malandragem que só os vestiários do futebol ensinam. Era um anedotário ambulante. Protagonizava a maioria das façanhas que contava e inventava. Tinha presença de espírito e tiradas incríveis; não perdia uma...

Esta que conto agora, eu vi de perto. Paulo de Souza Lobo – o Galego era o treinador do Pelotas que fazia, naquela temporada, uma campanha sofrível no Gauchão. Certo sábado, o time jogaria à tarde em Novo Hamburgo, contra o Floriano, time do goleiro Periquito – uma muralha.

A comitiva estava entrando no ônibus, com Galego organizando o embarque. Os atletas se encaminhavam, em fila indiana, para seus lugares. Bedeuzinho – que já era carta fora do baralho – furou a fila e foi se infiltrando. Galego deu-lhe um basta. Colocou-lhe a mão no peito e preveniu:

- Peraí, Bedeu, primeiro entram os que jogam.
- Ah é?!? Então desce todo mundo! – indignou-se Bedeuzinho.

Eu quis saber do que se tratava:

- O que é que houve Bedeuzinho?
- O home aí disse que só entra quem joga...
- Tá certo, ele, Bedeu.
- Tá nada. Ali só tem cabeça-de-bagre. Se é por jogar bola mesmo, então eu vou sozinho nesse ônibus.

E há muitas outras. Uma delas foi comigo mesmo. Ele ainda tentava manter no caminhar certa fidalguia de Zumbi dos Palmares.

E botava banca sempre que podia. Eu entrava naquela tarde de muitos anos que já se foram na sala da diretoria do Pelotas para uma reunião negocial. Dei de cara com Bedeuzinho, todo engravatado como gostava de andar, ainda que de colarinho branco amarrotado e poído e, de passagem já fui logo, em voz alta, simulando que o provocava:

- Bedeu, você não jogava nada.
- E você, Garanhão, nunca vai ser treinador de futebol!

Ele era assim mesmo. Tinha raciocínio rápido e agudo como era seu jogo. O recado espirituoso, fingidamente irado que me atirou de volta foi claro: um cara que não reconhecia seu futebol, não poderia mesmo entender nada de bola. O sorriso vitorioso em seu semblante quase feliz me valeu o dia. Era como se Bedeuzinho tivesse marcado mais um de seus gols de placa.
Bedeuzinho continuava sabendo driblar a vida como poucos são capazes de fazer nos lances mais retrancados desse duro campeonato que é a existência.

MORAL DA HISTÓRIA – Aquele que muda quando perdeu a sorte e a fortuna, mostra que não as havia merecido.

13 de nov. de 2011

O PULO DO GATO

E então, de repente, não mais que de repente, a mídia - sempre a mídia - descobre que o patrimônio de Agnelo Queiroz, perfeito substituto de Zé Arruda no governo do Distrito Federal, subiu 413% em quatro anos. De R$ 224.350 declarados à Receita em 2006 seus ganhos foram para R$ 1.150.322 em 2010.

Isso só pode ser intriga da oposição. Vai ver, ele apenas se esqueceu de contar ao Leão do governo que aprendeu com o nanico João Alves, de triste memória, a acertar uma vez por ano nas Loterias da Caixa. Ainda tem muito sorteio pela frente.

Mas esta patacoada só vem parar aqui, porque demonstra que a vida é uma piada pronta. E como o Garanhão de Pelotas perde o amigo mas não perde a piada, eu tenho frouxos de riso quando vejo na política casos tão antigos e hilários quanto as mais velhas conversas moles para boi dormir.

Naquelas priscas eras eu era um colono matuto lá do interior das pradarias do Rio Grande. Tinha coisa de vinte e poucos anos e trabalhava com meus pais e minha penca de irmãos na nossa pequena lavoura de arroz, ali pelas bordas do Taím.

Trabalho duro, de sol a sol, a semana inteira. Menos sábado e domingo, folga que a gente já começava a curtir nas noites de sextas-feiras pelos bolichos da campanha.

Eu era bem comportado. Bebia e comia menos do que namorava. Preferia carne tenra, in natura. Pois então, eu tinha uma namoradinha, bonita pra burro. Uma colonazinha que nem eu. E a gente namorava na sala, sentadinhos no sofá de palhinha colonial.

Os avanços já iam bem adiantados entre nós. A gente já se bolinava há mais de seis meses. Sempre ali na sala e, na hora da saída, no portão, onde as suas bochechas ficavam mais vermelhas e seus recôndidos mais bem humorados. Humor aquoso, é claro. Minhas glandulas inferiores ficavam a ponto de estourar.

Naquela sexta, coisa de nove horas da noite, ela tirava meu saltitante artefato de prazer para fora da braguilha quando, de inopino e impertinente, entra na sala o bagual inconveniente e inxerido do seu pai. Um gauchão de faca na bota, bigodes que parecim um rebenque horizontal sobre as ventas fumegantes...

Nem precisava ser daquele tamanho. Bastava aquela carantonha para matar qualquer um de susto. Vi que ele vira tudo. Seus olhos até me pareceram meio gulosos com relação à minha intimidade exposta. Coisa de gaúcho, sei lá. Mas, a bem da verdade, o que senti mesmo no seu emblante foi o ar de decepção diante da quebra da confiança que ele depositara em nós.

Nãolhe dei tempo algum. Dei curso, isto sim, à única desculpa que me veio à cabeça.

Levantei-me de repente e, no meu pulo do gato, atravessando a sala rumo à patente lá fora, com o instrumento viril e erecto na mão, me dirigi ao sogrão mal encarado:

- Bueno, vou dar uma mijadinha...

E diante de sua estupefação, com um sorriso amarelo aproveitei para alongar a constrangedora e ocasional conversa:

- E talvez inté faça um cocozinho.

O que a desculpa esfarrapada e imoral produziu naquele ambiente, nem quero lembrar. O que importa agora é que o pulo do gato cabe hoje como uma luva na mão de Agnelo Queiroz, flagrado numa brutal quebra da confiança dos seus eleitores.

O sucessor de Arruda dos Panetones é bem capaz de, a exemplo dos R$ 5 mil que lhe foram devolvidos pelo lobista laboratorial, pode muito bem imitar a cena deste seu Garanhão aqui e sair de fininho abandonando o governo, como eu abandonei pra sempre a namoradinha bonita pra burro.

Só falta agora Agnelo se levantar da cadeira no gabinete do governo e dar o pulo do gato na direção dos seus eleitores:

- Bueno, vou devolver os premios das loterias pra Caixa... E talvez inté lhes empreste algum do que tá sobrando.

MORAL DA HISTÓRIA - Nem sempre as necessidades fisiológicas são satisfeitas com  fezes e urina. Podem, no entanto e invariavelmente, ser feitas de imoralidade e sem-vergonhice.

11 de nov. de 2011

FIM DE CASO

Àquelas alturas eu estava convencido: eu era um tarado. Estou falando de coisas de alcova. E já vou pelo atalho para que a gente não se perca com mais delongas nesse caminho tortuoso.
Cheguei ao Solar Branco, um bordel decadente dos Anos-60, época em que a meninada fazia no colégio e atrás das portas o que levaria anos a fio para aprender nas pensões até que virassem mulheres de vida fácil.

Era coisa de 10 horas de uma noite de inverno, cheguei de gabardine tipo Jean Gabin, gola levantada cobrindo metade da cara, chapéu de aba encostada na testa, um Colúmbia com filtro no canto da boca, com pose de Humphrey Bogart.

Varri com os olhos o salão habitado por uma falange de meia dúzia de marafonas desencantadas pela espera da clientela que não aparecia para dar movimento à casa de prostituição que um dia fora um sucesso de arromba.
As prostiputas não me deram a mínima atenção. Olharam e continuaram como estavam. Uma fumando uma piteira, ao mais puro estilo Marlene Dietrich; outra estirada no sofá esfarrapado, como se fosse a Cleóptara que ela vira no cinema da esquina.

A loirinha mais bonitinha daquela legião de desesperanças levantou-se e, quando pensei que se encaminharia para mim, deu meia volta e foi para a sala dos fundos, onde ficavam a cozinha e a patente.
Patente, se você não sabe é, para os contemporâneos deste seu Garanhão de Pelotas, o quarto de banho, o popular WC.

Uma delas, mais expedita, foi à eletrola Telefunken e botou um long play do Glenn Miller. Os acordes de Mooonlight Serenade povoaram o salão. O resto era silêncio e fumacê.
Uma gorducha bonitona, de olhos esgarçados e boca tão proeminente quanto seu ventre usado e abusado pela corrida do tempo e das batalhas de lençóis, aproximou-se com um sorriso simpático e pretensamente encantador:

- Paga uma Cuba, bem?
- Eu sou tarado! - Grunhi em sua direção.
- Tá bom, mas tu me paga um cocrete também?
- Eu sou tarado! Se valer a pena, eu pago a Cuba, o croquete e o michê...

Ela olhou para as outras. Nenhuma delas mostrou qualquer interesse. A gordinha quis saber mais. E já, em tom de consentimento, foi se chegando:
- E qual é a tua tara?

Calei-me, tirei a mão do bolso, livrei uma baforada brutal de fumaça e, apagando o cigarro no cinzeiro que estava na mesinha rococó ao lado do corrimão da escada que levava aos cômodos de sacanagem, abri um lado da minha capa e mostrei-lhe um relho, um rebenque desses de dar chicotada nos burros de carga.

Seus olhos ficaram maiores. E mais brilhantes. Sorriu sem mostrar os dentes. E me provocou:
- E o quê mais?...
- Mais um pelego de ovelha. Que, se é que tu topas, eu vou buscar ali fora na minha charrete...

Ela topou. Eu fui e voltei. Logo subimos, sob o olhar petrificado das outras gurias sem-vergonhas.

Pois fomos. E foi tudo muito bem. E muito bom. Deitei-a no pelego, enchi seu lordo de relhaços, mordi, usei, abusei, entrei aqui e ali, sempre com muita chicotada e muito prazer.
Antes que a madrugada desse lugar ao dia, eu paguei a Bertolina - esse era o nome da gordinha safada - uma Cuba, dois croquetes e deixei em cima do bidê uma nota de dez contos de réis.

Essa façanha se repetiu por mais de um ano. Sempre às sextas-feiras, das 10 da noite às quatro, cinco da madrugada. Eu a deitava sobre o pelego e a enchia de relhaços que deixavam marcas que subiam das nádegas até as espaldas graúdas e brancas.

Era uma felicidade só. Era bom para os dois. Eu já tinha me acostumado as suas banhas. Bertolina tinha tanto pneu na cintura que, quando ela suava, eu achava que aquilo poderia ser um viveiro de mosquitos da dengue. Mas era bom assim. E correu o tempo assim, bem assim.
Naquela outra longínqua sexta-feira eu não estava lá essas coisas. Cheguei ao Solar Branco já com o relho e o pelego embaixo do braço e subi com Bertolina para o quarto.

Ela se preparou toda para o ritual de sempre. Deitou-se no pelego e esperou as chibatadas. Eu a penetrei direto. Não bati. Fui fundo. Fui e voltei. Fui e voltei. Fui e brochei... Bertolina se encanzinou:
- Quiéisso, meu taradão. Cadê o relho?!?
- Não tô a fim de dar relhaço...
- Ah, não. Eu quero relho. Me bate, me bate!
- Não. Não vou te bater hoje. Nem hoje e nem nunca mais. Chega. Cheeega!

E logo me apressei a tirá-la do pelego e colocá-la na cama. Em seguida, me preparei para voltar à carga ligeira. Ela conformada, me aceitou assim mesmo. Sem pancada, sem pelego e sem rebenque.
No meio do ato, olhei seus olhos. Grossas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Manchavam de cima abaixo aquela sua cara larga. A curiosidade e até certo sentimento de dó e piedade me fizeram fracassar outra vez. Saí de dentro dela. Virei-me de lado. Peguei um cigarro no bidê e me dediquei então a Bertolina outra vez:

- O que é isso, guria, tá chorando por quê?!?

Seu choro era quase convulsivo. Eram lágrimas verdadeiras. Choro assim de quem está apaixonado. Não conseguia falar direito. Soluçava.
- Fala guria, que choro é esse?

Ela se aconchegou, abraçou-me com ternura e quase implorando, me disse a razão de sua tristeza:

- Snif, snif... Tu desprezou o pelego!... Snif, snif... Tu não quer mais me bater... Snif, snif... Tu brochou, tu brochou!
E aí desandou no choro:

- Ahhhh, tu não gosta mais de mim!

E foi assim que, com os erros do seu português ruim, acabou o encanto. Deixei de ser tarado naquele dia. Foi o jeito que encontrei para acabar com aquele caso que já estava ficando sério demais, já tinha virado uma paixão mal-resolvida. Nunca mais vi Bertolina na minha vida. O pelego e o rebenque ainda estão lá no porão de casa. Hoje, eu já não sou mais tarado. Virei sado-masoquista.

MORAL DA HISTÓRIA – Todas as paixões exageram alguma coisa e são paixões justamente porque exageram. (Chamfort)

A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO

Pois eu era, naqueles tempo bicudos, diretor de teatro. Bolas, o Garanhão de Pelotas já fez e já foi de tudo um pouco na vida. Diretor de teatro, sim. Teatro dos Bancários. Meu passaporte para transitar pelos camarins daqueles vocacionados artistas amadores era o balcão de Contas Correntes do Banco Agrícola e Mercantil, hoje falecido.

José Luiz Mendonça, o Joca, meu colega de datilografia na missão cotidiana de "fechar" o livro Diário, protagonizava uma adaptação da história "A Volta do Filho Pródigo". Quem fazia o filho pródigo não interessa, o importante é que Joca Mendonça desempenhava o papel de pai do filho.

O amador que bancava o filho que volta pra casa era meio tapadão. Tinha dificuldade para decorar textos, relembrar falas, inventar "cacos". Joca, não. Era bom de decoreba, de interpretação, de impostação de voz, de mise en scène.

O primeiro ato terminava com a volta do filho pródigo, uma entrada intempestiva em cena que surpreendia o pai, de pijama, sentado numa poltrona da sala, lendo um jornal. O diálogo era rápido e rasteiro. A primeira fala era uma exclamação do pai, supreendido pelo retorno inesperado. Coisa fácil para fechar o ato e cerrar as cortinas do espetáculo.

Teatro 7 de Abril lotado, silêncio da platéia atenta e o destrambelhado filho abre com estardalhaço a porta, sacudindo o cenário que quase fez desabar a rotunda. Desastrado antecipa-se ao pai, trocando as bolas e as falas. Mete a cara em cena e, com pose de grande ator, brada para o pai:

- O que vem você fazer aqui?

O cara roubou a fala do Joca. A platéia leva um susto, ri e, diante do amor ao teatro, fica na expectativa do que iria acontecer a partir dali. Silêncio, de novo. Joca, num rasgo de seu enorme talento, levanta-se, vai com ar de real indignação ao encontro do ator desastrado e conserta tudo, com presença de espírito e vasta capacidade de improvisação:

- Eu é que te pergunto, filho ingrato! O quê vem você fazer aqui?!?

E, sem complacência, coloca as duas mãos nos ombros do filho pródigo e o expulsa de cena. Bate a porta na cara dele. Volta para a poltrona, pega o jornal e finge que o lê, enquanto o pano cai.

MORAL DA HISTÓRIA - Filho que nasce pródigo, mesmo quando volta para casa continua perdulário. É capaz de jogar fora até mesmo uma peça de teatro.