27 de nov de 2011

RELATÓRIO DO MINISTRO GARANHÃO

Eu era ministro do Trabalho do primeiro governo de uma primeira mulher eleita presidenta do Brasil.  Eu era bom ministro. O ministério é que era uma porcaria tão grande que, quando meus pensamentos voavam pelo meu gabinete, sobressaía a minha porção mosca-varejeira.

Eu me sentia muito bem no meio daquele monturo cercado de políticos e consultores, porque sabia que podia cometer malfeitos a torto e direito. Afinal, eu sabia que no fundo, no fundo, todos eles eram bons. Ruim mesmo é quando eles vêm à tona.

Então eu dava risada sempre que me pegavam no contrapé, toda vez que me acusavam de alguma falcatrua, que diziam que eu levava uma propina para liberar a abertura de um sindicato ou coisa que o valha. Eu morria de rir, porque eu sempre tinha alguém em quem botar a culpa.

E corria o tempo, célere rumo às festas de Natal e Novo Ano. A primeira-mulher-presidenta, a quem eu amo de paixão, pressionada por uma cascata de acusações que fez meia dúzia deles rolar por águas abaixo que nem bosta na correnteza, me mandou uma mensagem urgente, meio curta, meio grossa, como é de seu feitio: "Quero amanhã mesmo o seu relatório sobre a minha mesa"!

Achei que ela também gostava de mim. Mais que achar, eu tinha certeza. Não a fiz esperar. Mandei o relatório por escrito, carimbado em papel timbrado e assinado. Não carecia de sigilo. Não tenho, nem nunca tive segredos pra ninguém.

Meu relatório também foi meio curto e meio grosso, como é de meu feitio: "Sua mesa é de madeira de lei, rococó reformada, tem quatro pernas, duas gavetas e tampo muito bonito".

MORAL DA HISTÓRIA - É prudente em coisas do governo que nos domina que quando os erros podem ser remediados, que se os remedie; e quando não, que sejamos dissimulados.