13 de jul de 2011

A PEÇA DO GARANHÃO DE PELOTAS

O AMANTE

Tudo parece só conversa jogada fora. Essa é uma característica dos textos do britânico Harold Pinter. O Amante transporta o espectador para uma situação enganadoramente prosaica. Em uma elegante casa do subúrbio, um casal se despede. Sorridente, a mulher deseja ao marido um bom dia de trabalho. Ali mesmo, no entanto, lhe conta que deve passar a tarde com seu amante. Ele sabe que é dele que ela está falando. O tom é cortês, amigável, coisa de sempre. Eles falam como se estivessem a falar do tempo. Tudo acontece como se o drama não fosse mais que uma comédia de costumes.

Eis que a vida imita a arte. A vida do Garanhão de Pelotas, por suposto.
Afinal, quem é Harold Pinter para pensar que seu enredo ficaria limitado às ribaltas quando a vida não é mais que um palco iluminado para o nosso intimorato lorde falido?!?

Peralá! Lorde falido, uma pinóia! Falido quando se trata de ir aos próprios fundos... Já em caso de heranças públicas e notórias é o Rei das Gastanças, o próprio soberano de todas as heranças. O mais conhecido e famoso mão aberta e pé ligeiro da nobreza desse mundo que ainda nos resta por viver.

Pois, além disso tudo e até por tudo isso mesmo é que o Garanhão  se surpreendeu sentindo na própria pele que a vida imita a arte.

Suddenly in the last summer - quando fala de si mesmo, o nosso herói fica meio adamado e se expressa em outras línguas - num fortuito churrasquito entre amigos e amigas, admira-se com um beijo roubado e uma breve confissão de uma paixão que guardava a sete chaves em seu coração desprevenido. 

Orra! E eu que não sabia!... - lamentou-se o nosso rei pelo tempo perdido. E quis logo voltar para mais um beijo de breve despedida daquela ação entre amigos. Quer dizer, entre amigo e amiga mais que do peito, agora também de coração.

Aquela descoberta despertou-lhe uma paixão instantânea, um amor tipo assim resumo da natureza feito pela imaginação. Daquela candura de um adeus tão lépido, foi cada um para seu canto e, em cada canto uma dor de amor. Dorzinha, só dorzinha que logo se fez encanto; encanto que se fez encontro. Encontro de beijos curiosos e carícias leves e ligeiras. E a coisa andou. Andou e foram se apaixonando...

O Garanhão de Pelotas descobriu que sua amada era mais que isso. Tinha ramos, ramificações... Era Maria Rita num dia; Fada Raínha no outro. Em certos momentos, Maria Fada; noutros, Rainha Rita. Ele próprio, Garanhão  quase sempre tinha horas de Sir  Harold, um nobre apaixonado por suas Marias, todas elas: a Rita, a Fada, a Rainha...

E alimentou-se de tal forma com esse amor desmesurado que hoje sua vida imita a arte. Eles dois, o Garanhão  e Sir  Harold, não passam mais um momento sequer de seu dia sem encontrar-se, mesmo quando estão longe um do outro - melhor, uns das outras - com suas múltiplas personalidades.

Agora mesmo, o Garanhão de Pelotas, Sir Harold, Maria Rita, Maria Fada e Raínha Rita, estão entregues, por inteiro, de corpo e alma, coluna com coluna, no maior sonho horizontal, um interminável e apaixonadíssimo ménage à trois ou à cinc. Mas só entre eles. Sem qualquer ciúme nem pressa desmedida, a vida imita a arte.

MORAL DA HISTÓRIA - A arte está consumada quando se parece com a natureza. E/ou o Garanhão de Pelotas  é, antes de tudo, um forte. Não desiste nunca.