14 de jul de 2011

BRASIL 4 X 2 EQUADOR


Bem que o Garanhão de Pelotas  queria estar em outra companhia. Mas, por esses bloqueios da vida, estava chargeado e sem ânimo para qualquer outra coisa que não fosse sua solidão, munido de pipoca e guaraná diante da TV de sua sala, de frente para as luzes da noite de lua cheia.

Antes do início do jogo Brasil x Equador, contemplou a deusa astral da poesia que, estasiada, bailava nua, inteiramente nua ao som da flauta embriagadora de sua bruxa bonita e distante. E assim, ao luar das solidões, viu passar de carona na amplidão daquele esvoaçar de sua fada rumo à lua, a figura das suas melhores ilusões.

Pronto, sorveu um uísque solitário, deixou o Cousino Macoul para o balcão acolhedor de sua bruxita e pespegou-se à pipoca e ao guaraná de torcedor em franca solidão. Pronto, estava pronto para assistir ao jogo até à meia-noite e depois, deixar-se dormir ali no sofá, até o amanhecer desta quinta dos infernos para redigir e contar o que viu do futebol brasileiro.

FOME DE BOLA
Então, estádio cheio, na hora aprazada entra Mano Menezes de terno e gravata, vestido para um baile no Equador... Era Córdoba, na Argentina e a festa era de futebol. Talvez Mano não soubesse.

Os hinos nacionais com aquela falta de ritmo de sempre serviram de alerta para o treinador brasileiro que só então se deu conta de que o traje que usava era uma espécie de ultraje a rigor. Em todo caso, bola pra frente que aí vem gente!

Pela primeira vez nessa Copa América, Mano quase acertou a escalação inicial. Maicon no lugar do loiro Daniel Alves dava mais inteligência à lateral. Em compensação, Lucas Leivas e Ramires lá estavam para atrapalhar Paulo Henrique Ganso no meio-de-campo. Sorte que o time deles era todo equatoriano.

Achando que era pouco aquele brado retumbante que deu durante uma coletiva na véspera, Lúcio - o vetusto zagueiro brasiliense ainda resolveu bancar o xerife bafejando no cangote de Ganso segundos antes do início do jogo. Ganso bateu asas e voou deixando o capitão à deriva. Grosso, como é desde os tempos de Dunga, Lúcio certamente gostaria de ter Julio Batista no lugar de Ganso.

Um bom prenúncio: o Equador tinha um jogador chamado Caicedo que atua no Levante, time da Espanha. Caicedo corria um sério risco em Cordoba: joga ao lado do Arroyo.

Aos oito minutos, Maicon fez afinal a primeira jogada de linha de fundo pós-180 minutos de Daniel Alves na lateral da Seleção. Cá pra nós, sem preconceito, Daniel Alves depois que ficou loiro desoxigenou o cérebro e desaprendeu o que sabia naquela posição.

Aos 13 minutos, Ramires tocou pela primeira vez na bola. Fez tudo o que dele se esperava: estragou o ataque do Brasil. Enquanto isso, no Equador só o cabelo de Caicedo fazia frente ao penteado de Neymar.

Aos 22 minutos, mão de Lúcio, o xerife da melhoridade... na beira da área, de frente pro crime. Primeira ameaça equatoriana. Mas, para o bem de todos e felicidade geral da nação de Ricardo Teixeira, o futebol do Ecuador tem no próprio nome tudo o que ele joga.

Aos 28 minutos, alegria, alegria! Ainda desperta, a filha do Berlusconi não cabia em si de tanta brasilidade: gol de Pato! Dessa vez, para espanto geral, Ganso não participou do lance.

Pensando bem, para um time que tem Pato e Ganso, só falta um Richarlyson para ser um zoológico.

Aos 36 minutos, Robinho chuta na trave. Para Lúcio, ele chutou irresponsavelmente. Deveria ter batido com mais seriedade. Meio minuto depois, o xerife que só sabe jogar sério provocou frouxos de riso na platéia.

Foi assim, o idoso Lúcio caiu sentado e, desse jeito mal-acomodado nos altos e baixos de sua velhice, viu Caicedo chutar mal para o gol e Júlio Cesar sair-se pior. Assim é que os dois - Lúcio e Júlio Cesar - continuaram tão "afinados" em campo quanto nas entrevistas em que entregaram os companheiros. Dessa vez, os dois veteranos não reclamaram dos mais jovens. Os jovens, sorrisos contidos, não deram bola pra eles. Foi bem como dizia o mestre Didi, bicampeão do mundo: - Deus não joga, mas fiscaliza.

Nem o time todo do Peru - que joga na outra chave - tinha visto um galináceo tão grande como aquele do Júlio Cesar. Caicedo atirou e Júlio Cesar caiu tarde. E quanto ao xerifão, ficou evidente que o esquema de Mano começa falhando com Mano e fica pior ainda quando Lúcio fica mano a mano com qualquer atacantezinho adversário.

Pronto, acabou a primeira etapa. Um honroso 1 x 1 contra o Equador.

Eis que volta o Brasil para o segundo tempo com a mesma formação. Tudo igualzinho, nem sequer Mano Menezes foi substituído. O pior de tudo é que Lúcio continuou jogando sério. E com a solidariedade de Júlio Cesar. Coisas da terceira idade.

Aos quatro minutos Neymar recebe um merengue de Ganso e mete uma bucha no ângulo esquerdo. Para azar do torcedor brasileiro: 2 x 1 para o Brasil. Mano Menezes vai continuar no emprego.

Jogo que segue. E pelo andar da carruagem, quando Lúcio parar de jogar vai abrir uma rede de casas de bingo. Ele ficou "rifando" bolas o tempo todo.

Aos 13 minutos Ramires conseguiu desarmar Neymar e estragar mais um ataque do Brasil. Tinha acertado até então 15 passes errados para trás e não errara nenhuma passe à frente, já que nem sequer pensara em enfiar uma bola para alguém lá no ataque - aquela linha distante, pertinho do horizonte.

Um segundinho depois, Ramires conseguiu desarmar Neymar e frustrar o avanço do garoto bom de bola. Em seguidinha, Caicedo descobriu o mapa da mina, entrou pelo miolo da zaga, bateu forte e a bola passou lépida e faceira por baixo do corpo de Júlio Cesar que se refestelava num noite de grande inspiração.

Nuncanahistoriadessepaís um goleiro tinha atuado de maneira tão convincente e tão favorável à Seleção. Agora, todo mundo sabe que qualquer um pode ser goleiro titular do Brasil. Menos ele.

Aos 15 minutinhos, Neymar bochou de fora da área, o goleiro do Equador bancou Júlio César e bateu roupa. Pato chegou junto e foi às redes. Brasil 3 x 2. A filha de Berlusconi, já dormia a sono solto.

Aí, o jogo ficou sério. Todo time do Brasil resolveu brincar. E nesse renha-renha quer saber de uma coisa? Não se metam a trocar um Arouca sozinho por Ramires e Lucas Leivas juntos.

Aos 26 minutos e meio, Maicon ensinou a Daniel Alves como é que se faz e cruzou da linha de fundo... Neymar só não entrou com bola e tudo porque teve humildade: goooool!

Aos 31, Mano Menezes começa a se consagrar: deixa Ramires e tira Paulo Henrique Ganso. Para completar, escalou um ex-corintiano. Isso também não é pouco.

Aos 34 minutos, Mano não gostou que Neymar estava aparecendo mais que o Messi no último jogo da Argentina e o substitutiu. Lucas, menino são-paulino, não teve culpa nenhuma.

Aos 39 e um pouquinho, Mano mais uma vez demonstra toda a sua loirice. Tira Pato e bota Fred. Mano Menezes mostra claramente que precisa urgente de uma peruca loira como aquela do Daniel Alves. Depois dessa, a minha TV perdeu a cor.

Ah sim, o placar foi Brasil 4 x 2 Equador. Os jovens irreverentes, irrequietos, irresponsáveis tiveram que fazer quatro gols lá na frente, porque logo ali atrás os idosos Lúcio e Julio Cesar tomaram dois - sabe de quem?!? - dos equatorianos!

Fim de festa. Acabou o baile no Equador. Mano Menezes, enfim, pôde tirar o terno e a gravata, vestir bermuda e chinelo de dedo para ir ao restaurante. Futebol dá uma fome...

Dá mesmo, tanto é que acabou o estoque de pipoca e guaraná do Amazonas de Muricy, Luxemburgo e Felipão. Mas, suas assessorias já mandaram avisar que na tarde de domingo tem mais, no mata-mata com o Paraguai.

Quanto ao Garanhão de Pelotas, sobrou pipoca e guaraná. Olhou para o vinho e guardou-o carinhosa e ternamente para a próxima lua cheia. Afinal, a gente tem fome de quê?!?