14 de mai de 2010

Pobre Bebeth!!!

Com um tracanaz de pão cacete no bolso esquerdo do seu puído paletó de riscas brancas sobre um cinza profundo e um exemplar do jornal a Opinião Pública emergindo do bolso direito, Zé Amaro deixou o Café Aquário naquele final de manhã, rumo à redação do ainda não-oxigenado Diário Popular.


Tinha algumas boas razões para ir até lá: rever bons e gentís amigos; filar o jornal do dia; reencontrar seu benfeitor predileto, o diretor do matutino, Clayr Rochefort de quem, com toda certeza, ganharia atenção suficiente para salvar mais um suculento completo no Mercado Municipal.


Era uma segunda-feira. Zé Amaro ainda trazia na alma, alguns arranhões que o cronista mais famoso da cidade havia lhe deixado, numa escaramuça de uma briga rápida de rua, em plena esquina do Aquário na manhã daquele domingo recente. Uma troca de tentaivas inglórias de tabefes por alegres implicâncias.


Foi uma briguinha muquirana. Daquelas de quem não foi feito para brigar. Mas, escandalosa: tinha sido o filho da consagrada soprano internacional Zola Amaro contra o cronista citadino do soçaite e da champanhota. E Zé Amaro reconhecia dele para ele mesmo: - Acho que exagerei um pouco; impliquei demais com a dondoca.


No fundo, no fundo - remordia-se - ele tinha ciúme do sucesso e da beleza daquele rival de namoriscos com jovens alcoviteiros bem dotados. Era uma concorrência desleal, pensava: -  Essa nojenta, exibida e colorida tem uma página diária e inteira de jornal para fazer propaganda de si mesmo.


E ruminava: - Um descalabro, um desaforo! E outra coisa: essa biba freqüenta o Clube da Chave; eu tenho que me contentar com o Miloca!


Confessou de si para si que merecera levar umas unhadas. Mas - dizia para seus poucos botões - adorava inticar com o cronista que, se não chegava a ser enrustido, não andava por aí assim a bandeiras despregadas, como ele que ao lado de Ruizinho fazia furor nas rodas da juventude transviada daqueles anos dourados. E como o seu era dourado! E adorado.


Tanto era que Zé perdera os hotéis que sua família lhe deixara como herança e agora vivia de óbulos em troca de ósculos de rufiões desalmados e ambiciosos.


Por isso mesmo, sempre que tivesse oportunidade - dizia de si para si - implicaria com o o seu desafeto que, assumia mas não saía do armário. E Zé resmungava: - Até casada essa bichona é. E com uma mulher linda de morrer; Bebeth é podre de chique! 


Com meio charuto apagado entre os dentes gastos e cheios de picumã, Zé Amaro, no meio do caminho para o jornal - bem defronte onde sempre foi o Garbo Magazine - levantou os olhos e deu com eles na figura elegante e esbelta do cronista que deixara sua página de terça para ser baixada pela redação e agora se dirigia para sua butique ali naquelas cercanias.


Não houve como evitar. Ambos trocaram a imediata sensação de que um novo bafafá poderia eclodir. O colunista social, manteve-se na dele. Passou, lado a lado por Zé Amaro. Fingiu que não o tinha visto; na maior dignidade. Zé, menosprezado, estanca no meio da calçada. Vira-se irreverente para trás, coloca as mãos nas cadeiras e juntando o joelho direito ao menisco da rótula esquerda, exclama alto e bom som, no tom mais irônico, atrevido e penalizado que conseguiu imprimir a sua potente voz de tenor:


- Pobre Bebeth!!! Huuuui!


E assim, na certeza de ter inticado uma vez mais com seu duelista e ter revelado a todos seu óóóódio total, seu maior e mais absoluto desdém por aquele belezinha rara, retomou seu caminho para o escritório do jornal onde, certamente, lhe obsequiariam com mais um jornal e uns providenciais trocados para  a janta.

Nem foi preciso chegar lá. Na equina seguinte, onde era o Wolens Magazine, o então repórter político Carlos Eduardo Behrensdorf, lhe passou a encomenda que o editor Clayr Rochefort tinha enviado, o jornal de terça e uma graninha suficiente para um mocotó, no Mercado, com um bilhete:

- Zé, aproveita que na Banca 7 estão fazendo uma promoção, quem achar um fio de cabelo ganha um pente de osso, marca Flamengo.