25 de fev de 2012

Pesadelo Classe Média Nacional

Acordei de uma noite em que era sócio do conglomerado Dirceu, Calocci & Consultores Republicanos Ltda. e, ainda sem despertar de verdade, tirei o pijama de R$ 38,90 que comprei outro dia no baratilho de um rescaldo das Lojas Pernambucanas por R$ 27,99 e entrei no box para tomar uma ducha num Corona, recém adquirido por R$ 32,30 em seis vezes no cartão, na Oba-Oba Miudezas Elétricas.

Levei cinco minutos exatos - que depois disso o medidor de energia dispara - enxuguei-me com uma toalha que surrupiei depois de um pernoite bem empernado de R$ 45 no Hotel Damasco Inn, ali nas bordas da Marginal do Rio Sujeira e escovei a terceira dentição com um resto do primeiro tubo de um conjunto de três dentifrícios Sorriso Branco e Franco que me custara exatos R$ 3,97 na promoção do dia nas Casas Bahia.

Cofiei os pelos pubianos - que um Garanhão tem que ter esses gestos - e fiz a barba com a quinta geração de uma lâmina amarela de um pacote de 10 unidades, adquirido no Carrefour por módicos R$ 6,35.

Matei no bar da esquina um café com leite, pão-dormido e manteiga, por suaves R$ 4,50, peguei meu possante carrinho Ford-KA completo, com um saldo pendurado de 52 prestações de R$ 622 e fui à luta.

Cheguei no escritório, uma sala de 24 metros quadrados e um vaso sanitário que me custam um aluguel de R$ 1.250, fora o condomínio e IPTU, água, luz e telefone e me prendi a fazer negócios pelo computador, um Intelbrás de 2009 financiado em 36 meses de R$ 33,50 que, felizmente, estará pago, morto e sepultado, no mês que vem.

Ao meio-dia, bateu agrura no meu estômago sensível e fui ao almoço-executivo no restaurante ali do shopping Mar de Fora. Paguei R$ 17 por quilo na balança, uma pechincha já que o custo real era de R$ 28,50 por cabeça, com direito a peixe tipo bacalhau já deslascado e tudo mais. Batata é que não faltava.

Dali fui ao médico oftalmologista. Um luxo, posto que não tenho plano de saúde, nem ligações de qualquer grau com o Sírio-Libanês e ainda acho que o SUS é para metalúrgicos de segunda e não para grandes miniempresários como eu. O prazer de dever para o Fisco só é comparável àquelas dores de dente insuportáveis.

Paguei na bucha, com cartão de crédito estourado - que vai me custar nada menos de 240% de juro por ano, até que o coloque em dia. Lá se foram R$ 200 por uma consulta que, em novembro do ano passado me custava R$ 150.

Saí enxergando a mesma coisa. Até que tenha grana para mandar aviar os óculos que já não cabem na minha velha armação redonda. A armação de R$ 190 está agora por R$ 287 à vista, ou R$ 320 no cartão, em três vezes. As lentes, Varilux ou coisa parecida, podem ser de R$ 95 para enxergar direitinho, ou então de R$ 480 para perceber o que me aparecer pela frente.

Nem voltei para o trabalho. Estava exausto. Na verdade, exaurido. Antes de chegar em casa, passei no supermercado. Sou viciado em sonhos de consumo. Namorei as prateleiras de vinho. Achei um Marquês de Riscal, meu cabernet espanhol preferido, em oferta: R$ 184 a garrafa. Peguei um Marquês de La Colina, por R$ 8,90.

Comprei pão integral, de barbada, por R$ 5,99 quando o seu valor verdadeiro seria coisa de R$ 7,20 mais ou menos. Aduzi às compras queijo-prato numa oferta de R$ 24 por quilo, quando o preço atual seria de, pelo menos, R$ 32; juntei ainda presunto gordo e sadio por inexplicáveis R$ 19 o quilo, ao invés dos tradicionais R$ 27. Queijo e presunto, aglomerados, resultaram-me num pacote de 200 gramas de sabor inigualável.

Ah sim, paguei R$ 4,80 num saco de um quilo de café Ouro Bendito que, normalmente, custaria R$ 8,90. Só vi que a validade do produto ia até apenas até o fim do mês quando cheguei ao doce aconchego de minha cozinha-americana. Saí de lá, paguei R$ 7 de estacionamento, uma barbada, posto que qualquer flanelinha cobraria de R$ 15 a R$ 20 para cuidar do meu KA completinho e sempre bem lavadinho.

Nem passei no bar daesquina. Pô, o cara tava cobrando R$ 12,50 por uma dose de Johnnie Red, sem choro. Preço de cabaré, cara! Por esse preço quero que a mulher do dono me leve pra casa. Fui direto para o meu lar, doce lar de solteiro convicto e compulsório. Casar com quem? De que sexo? Com que rabo, pô? Só pra daqui a dez, onze anos dizer que sou um barrigudo, careca, pai de filho?!? Melhor sofrer sozinho do que dever acompanhado.

Fiz um sanduíche que me custou por baixo, por baixo, uns R$ 3 pilas, tomei um café, fui para o banho rápido e sentei-me na cadeira de balanço com assento de palhinha que herdei de meu pai, velho e sério metalúrgico e, por isso mesmo, mal-sucedido que quase não morreu, coitado, porque não tinha onde cair morto.

Sintonizei o Jornal da TV. O noticiário político estava no quadro da polícia. A informação econômica do dia deu que o dólar caiu e a inflação oficial no Brasil é de 0,7%. Desliguei. Nem vi o Neymar botar a defesa do Corinthians na fila. Fui deitar.

Não dormi até agora. Já são seis horas da madrugada de um novo dia pelo horário brasileiro de inverno. Hora de enfrentar o trânsito na capital. Pelo menos não tive outro pesadelo - penso, antes de atirar o pijama no cesto de roupa suja.

MORAL DA HISTÓRIA - Se Luiz Erário da Silva escapar dessa luta em que está metido, em 2014 voto nele. Afinal, sou o Garanhão de Pelotas, como todo e qualquer brasileiro e, de vez em quando, ou sempre que é possível, até dá gosto ficar por baixo.