26 de out de 2011

PESADELO

Essa faculdade de ter múltiplas personalidades que eu trouxe ao mundo quando vim à luz, me dá direito e licença de cultivar os mais estranhos companheiros. E contra isso não luto, porque afinal se me dou mal aqui, logo me dou bem ali. É que eu sou meio Pagodinho e deixo a vida me levar..

Outro dia eu trocava umas boas idéias sabe com quem? Sabe, não? Pois é, com ele mesmo. Ninguém mais nem menos que meu amigo, meu irmão, meu líder, o Seu Encarnado, aquele que não desencarna.

E entre mais umas e mais outras, acabei com a língua solta e lhe confidenciei que não tinha dormido bem à noite. Ele pronto quis saber:

- Teve azia?
- Quê nada, mermão, tive um pesadelo.
- Ora, pesadelo todo mundo tem, Garanhão.
- Mas eu sonhei que era você...
- Como assim, pesadelo?
- Se avexe, não. Era um baile lá na Venezuela, na casa de Hugo Chávez...
- Ah bom, aí já tá ficando feio.
- Pior, só tinha uma dama com quem ninguém dançava...
- Se não é quem eu tô pensando, pelo menos você se deu bem...
- Bem, o cacete! Era a Marta...
- Nããão... Era nela mesma que eu tava pensando – mentiu meu amigo, irmão e líder.
- E ela me tirou pra dançar!

Ao silêncio que se seguiu se juntaram muitas umas que outras. Já alta madrugada, nos despedimos. Estávamos cambaleantes de sono. Juro, eu tinha bebido para esquecer. Nessa eu dancei.

MORAL DA HISTÓRIA – Se estivesse perto quando Homero escreveu na Ilíada que “os sonhos vêm de Deus”, eu lhe diria na hora “vá pro diabo que o carregue”!

25 de out de 2011

FAZENDO GREVE

Pois quem é daqui dessa terra se lembra bem, o país estava nos estertores do governo Jango, bem do jeito que a Última Hora estava às vésperas de virar um pirão sem sal na mão dos donos do que já era o tablóide Zero Hora. Eu era repórter da sucursal que ficava ali, bem pertinho de algumas fronteiras com o Uruguai.

Dali era um pulo passar para o lado de lá, onde se esbaldavam os tupamaros. Dois pulos. A gente podia escolher como entrar: indo por Jaguarão, ou por Santa Vitória, pela reta do Taím, paraíso ecológico nunca respeitado. Sarará era o inquieto fotógrafo daquela pequena casa de notícias de Samuel Wainer, no extremo Sul, às beiradas castelhanas.

Era uma segunda-feira fria de agosto, mês de enchentes. Bom para mandar notícias pelo teletipo, ou pelo maldito telefone que falava para o mundo, mas cochichava para Porto Alegre, ainda cidade-sede da Última Hora gaúcha.

Mais da metade daquela primeira manhã da semana e nem um pingo de chuva. Nem de chuva nem de novidade. Eu levava um cafezinho escaldante à boca, feito na espiriteira da agência, quando Sarará dá um salto na cadeira, vai à janela do edifício, tira-me a xícara da mão, bebe o meu café e diz com um sorriso sacana na cara branca e franca:

- Eu mereço. Tenho notícia! Você quer notícia?
- Merece... É, se tem notícia, merece mesmo.
- Peraí, só um pouquinho...

Se mandou para o telefone. Pediu para a central da CTMR - Companhia Telefônica Melhoramentos e Resistência, de Pelotas, fazer uma ligação para Pedro Osório:

- Por favor, dona, me liga aí com a Estação Ferroviária de Pedro Osório... É. Pedro Osório, Cerrito, Olimpo... É tudo a mesma coisa, o rio Piratini é que separa uma vila da outra, dona... E então deu um número para a telefoinista.

Sarará esperou coisa de meio minuto, não mais, com o fone na orelha, enquanto já preparava os apetrechos de fotografia.

Operou-se então um verdadeiro milagre de agilidade, posto que naqueles tempos uma ligação interurbana poderia levar horas e, não raro, um dia ou dois.  Logo retomou o contato:

- Brigadinho, moça... Alô, alô é da Estação Ferroviária?!? O presidente do Sindicato dos ferroviários taí? Posso falar com ele? Brigadinho...

E, enquanto aguardava impaciente e com medo que caísse a ligação, ainda me pegou pra peteca:

- Garanhão, me faz outro cafezinho que a notícia vem aí. Aquele seu tava gostoso...
E logo voltou ao fone:
- Oi, Pedrão! Aqui é do Sindicato de Porto Alegre! Vocês já entraram em greve aí?!?

Fui obrigado a deixar o café na espiriteira a querosene e me aprochegar do maluco:

- Cara, o que é que você tá fazendo?...
- Psiu, fale baixo...

Interrompeu-se para orientar o "companheiro" sindicalista lá do outro lado da linha:

- Que bosta, meu chapa! Aqui, na Grande Porto Alegre nós já deflagramos a greve. Tá tudo parado aqui, Viamão, São Leopoldo, Novo Hamburgo, desde as cinco da madrugada! Hein?... Não, não. Nós só vamos descruzar os braços se nos derem aumento e melhores condições de trabalho!

Falou curto, grosso e cheio de convicção. Bateu o telefone. E pronto ligou de novo para a CTMR:

- Oi, moça, sou eu de novo. A senhora quer me ligar agora com Porto Alegre? Sim, por favor, é urgente! Brigadinho.

Ele estava estourando de sorte para telefonemas naquela manhã. Não cheguei nem a saber direito o que ele estava fazendo, quando o telefone tilintou. Açanhado, Sarará atendeu:

- Alô. É da sede Central do Sindicato dos Ferroviários?... Oi, companheiro, quem tá falando aí?

Eu não acreditava no que estava vendo e ouvindo. Entreguei a alma ao diabo. Sarará, completou o plano:

- E aí, companheiro. Aqui é do Sindicato de Pedro Osório! É. Vocês já paralisaram? Estão em greve? O que é isso, companheiro?!? Que bosta, meu chapa! Aqui, na Zona Sul nós já deflagramos a greve.

Deu uma breve parada, meteu um gole de café pra dentro, enquanto ouvia qualquer coisa do lado de lá. Retomou a enrolação em seguida:

- Tá tudo parado aqui, Pedro Osório, Cerrito, Olimpo, Pelotas, Rio Grande,.. Hein?... É, desde as cinco da madrugada! Hein?... Não, não. Nós só vamos descruzar os braços se nos derem aumento e melhores condições de trabalho! Tá bom, brigadinho. Boa greve, companheiro!

Desligou. Pegou suas mochilas de fotografia e ainda me deu uma chamada:

- O que é que cê tá fazendo parado aí, com essa cara de bundão? Vamos pra Pedro Osório, cobrir a nossa área de greve. Vambora, Garanhão, vamo!

Você pode não acrediutar, mas no meio do caminho, ele parou o DKW do jornal, foi até um poste desligou um tareco qualquer naquela caixa telefonica chei de fios de tudo quanto é cor e feitio. As ligações com a capital ficaram mais difíceis e demoradas do que de costume.

No dia seguinte, a greve dos ferroviários era uma realidade. Um sucesso de mobilização. A Última Hora furou todo mundo. Não havia um trem se mexendo sobre os trilhos... Era tudo dormente no Rio Grande do Sul. Os outros jornais - Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Tarde - comeram barriga.

Só começaram, a dar notícia no segundo dia da paralisação. O movimento durou a semana toda. Parece que não deu em nada.

Mas me deu trabalho. Tive que mandar boletim atrás de boletim para a matriz da Última Hora. Sarará ganhou um prêmio pela série de fotografias do movimento grevista. E eu, a obrigação de fazer cafezinho pra ele até a outra segunda-feira.

MORAL DA HISTÓRIA - Nessa horas em que o Garanhão perdia o caráter ele não levava em conta que uma reportagem pudesse se parecer com um livro mal feito, um livro de páginas escritas em laudas corridas e muito às pressas. Tá bom, confesso, hoje esse velho Garanhão de redações não poderia - sem uma pontinha de cinismo - reclamar contra a eterna campanha do PT a favor da censura à liberdade de imprensa.

24 de out de 2011

PANDILHA DE SEVANDIJAS

Juliné da Costa Siqueira, pai do meu amigo e ghostwriter para muitas ah/venturas e redator do livro O Garanhão de Pelotas, em que sou o principal, uno e indivisível protagonista, era uma astuta Raposa dos Tribunais do Júri. Já falei dele em outros capítulos. Ele daria, mais que um livro, uma coleção completa.

Era mais uma sessão do Júri. Corria o julgamento nos salões da Biblioteca Pública de Pelotas. O caso era escabroso para a época, meados dos Anos-50, e absolutamente corriqueiro e banal como qualquer escândalo ministerial de hoje: dois tarados tinham estuprado e matado uma menina de nove anos de idade. O crime convulsionou a cidade.

Juliné era advogado dos pais da vítima. O júri era presidido por um juiz que o velho raposão detestava pela arrogância, pelos maneirismos, pela soberba, pela empáfia, pela prolixidade e pelo pernoicismo. Não, não se engane, não era nenhum ministro desses que hoje são emoldurados nos programas da TV Justiça. Era só um prenúncio pedante do que seriam esses magistrados ungidos pela Presidência da República.

O criminalista meio lenda-viva das barras dos tribunais daquela região tinha como companheiro de defesa um jovem e promissor advogado, recém saído dos cueiros da faculdade, este seu Garanhão de Pelotas.

A casa da Justiça estava cheia, lotada de assistentes de todas as camadas da sociedade: jornalistas, radialistas, acadêmicos de direito, figuras populares, representantes das forças-vivas da comunidade...

A sessão do júri corria normal e os defensores dos réus já tinham falado. Chegou a hora da Defesa. Logo depois da saudação inicial, sob a expectativa silenciosa de todos, Juliné abriu sua peça de oratória com uma solene e instigante provocação ao juiz presidente da sessão:

- Infelizmente, as togas da Magistratura escondem uma pandilha de sevandijas...

Não se ouvia uma mosca voando. O juiz bateu com o martelo e interrompeu o discurso:

- Modere seu linguajar. Esta presidência não aceitará ofensas...
- Ofensas, Meritíssimo?!? Que ofensas? A Magistratura esconde sim, uma pandilha de sevandijas!
- Isso é uma ofensa! - retrucou o juiz, sem mostrar muita segurança quanto ao significado daquilo.
- Vossa Excelência sabe, por acaso, o que é uma pandilha de sevandijas?
- Vou cassar sua palavra! - desconversou o magistrado.
- Vossa Excelência teria todo o direito, desde que me explicasse porque se julga ofendido, e por que acha que não faz parte dessa pandilha de sevandijas.
- Não tenho que lhe explicar nada...

A esta altura a platéia inquieta, já percebera que o juiz não sabia o que significavam aquelas palavras que tomara como chulas e ofensivas. O juiz notou que os presentes já o olhavam como se fosse um despreparado, um burro, dirigindo um julgamento.

- Não me admiraria, Meritíssimo que mesmo sem saber o que é uma pandilha de sevandijas, Vossa Excelência arrepiasse a lei e me silenciasse.
- Se Vossa Excelência insistir nesses termos, será cassado e convidado a se retirar desta sala.

Eu também sem saber o que queria dizer aquilo, cutucava meu parceiro e sussurrava:

- Ei, Juliné, o que é pandilha de sevandijas? Por que você não pára de implicar com o juiz?
- Ora, meu caro Garanhão de Pelotas, pandilha de sevandijas é pandilha de sevandijas. E não paro porque não gosto desse bodoso...

Esse nosso breve e susssurrante diálogo foi interrompido por mais uma ordem do juiz que pediu silêncio aos circunstantes e autorizou o raposão implicante a prosseguir:

- Continue em outros termos, ou Vossa Excelência será obrigado a se retirar do recinto.
- Obrigado, Excelência... Infelizmente, as togas da Magistratura escondem uma pandilha de sevandijas...

Foi o que deu. A paciência do magistrado esgotou. Ele decidiu. E, usando sua prerrogativa de dono da lei e da ordem naquele momento, ordenou a saída do advogado do processo e do salão do julgamento. Juliné levantou-se e foi acompanhado por mim até à porta de saída do tribunal.

Juliné, de braço dado comigo, ainda tinha um brilho de satisfação nos olhos que refletiam a admiração da platéia que chegou a ensaiar uma salva de palmas para ele e uma vaia para a confessada ignorância do juiz, mas conteve-se pelo som das tradicionais batidas de martelo e da voz tonitruante do eminente presidente da já tumultuada sessão:

- Silêncio, Silêncio no recinto! Ou mando evacuar a sala!

Nem um pio. Silêncio sepulcral. Quase... O pessoal, já com jeito de torcida à espera de um gol, escutou a rápida conversa entre nós dois:

- Pronto, Juliné, sei que você conseguiu o queria...
- E o que é que eu queria, Garanhão?
- Fazer o juiz passar por burro na frente dessa gente toda.
- E Fiz - sorriu glorificado, olhando para o mundaréu de gente que se aproximavam, quase pedindo autógrafos, afagando-o com olhares e expressões de parceria.

- Tá bem, tá bem, mas agora me diga, por favor, o que é pandilha de sevandijas? É insulto, é elogio?
- Ora bolas, meu bom Garanhão, pandilha de sevandijas é exatamente tudo o que esse juizinho bobo está pensando. Grupo de safados, aproveitadores, gangue fuleira, sanguessugas...
- Mas, então...
- Então, ele não sabe disso. É um burro. E todo mundo aqui ficou sabendo disso.
- Ora...
- Vai lá e acaba com ele, Garanhão.

O julgamento dos dois assassinos estupradores durou pouco. Foram condenados por sete a zero. Pegaram 30 anos de cadeia, cada um. No outro dia, os jornais deram o resultado do julgamento num rodapé. A manchete falava de outra coisa: Juiz não sabe o que é pandilha de sevandijas.

RODAPÉ - Juizes despreparados condenam o que não entendem.Todo aquele que julga sobre dúvida, precisa estar isento de ira ou de misericórdia.

23 de out de 2011

DE CALÇAS NA MÃO

Era pouco menos de 1982. O Tribunal Eleitoral nem tinha reconhecido ainda a ficha de filiação número um do PT, assinada por Apolonio de Carvalho, quando essa des/ventura me aconteceu.

Já disse e repito: de vez em quando eu não passo de uma pessoa normal. À miúde, sou um simples brasileiro, nada a ver com sarneys, dirceus, lulas, paloccis e demais blindados.

Falo nessa fundação do PT porque ele, logo mais adiante de especializou no produto que aparece no meio da pequena história. Por enquanto, vamos apenas voltar juntos aos Anos 80.

Sei, sei vou parecer um pavão, mas como Garanhão de Pelotas, não posso deixar de exaltar meus próprios feitos. Os piores deles, nem chegam aos pés dos “malfeitos” do Brasil de hoje. Em todo caso, são casos.

Sempre fui um irrecuperável boêmio, chegava em casa altas horas da madrugada. Trôpego e cambaleante, no mais possível silêncio para não acordar minha mulher de então.

Depois de mais uma gandaia, cheguei em casa naquele meio de madrugada. Luzes apagadas, fui tirando cuidadosamente as calças para enfiar-me primeiro no pijama e depois na cama.

A Operação Silêncio - não são só os Intocáveis da PF que botam título nas suas manobras - estava quase terminada quando, para meu azar, um monte de moedas caiu de um dos meus bolsos estrepitosamente no chão do quarto.

Rosa Linda – a terna dona do meu lar, doce lar da época - acordou-se em sobressalto e, vendo este seu maridão naquela situação, perguntou-me ainda sonoleta, tomada de surpresa:

- Garanhão! Cadê sua cueca???
- Hein, cueca?... Pô, me roubaram a cueca!

O casamento nunca mais foi o mesmo. Como jamais esse PT foi o mesmo também para o verdadeiro Partido dos Trabalhadores criado por Apolonio Carvalho, Mário Pedrosa, Antônio Cândido, Sérgio Buarque de Hollanda.

MORAL DA HISTÓRIA – Nunca deixe que o peguem de calças na mão. Sem cueca é pior que cueca com mancha de batom.

TELEMARKETING

Você já sabe como eu sou. Às vezes estou casado, às vezes não. Sempre sou meio solteiro em qualquer ocasião. Volta e meia, tenho que exercitar meus neurônios de Garanhão para escapulir de uma saia justa.

Outro dia, lá vou eu pela estrada que leva às fronteiras com a Argentina, na agradável e aconchegante companhia de uma das minhas eventuais e sempre fiéis esposas. Sentindo a vida fluir bonita, dirigindo meu Range Rover Evoque, da Land Rover, tocando em frente sem me preocupar com o consumo de combustível, eis que vibra e grita meu celular. Nefando artefato moderno, esse!

Soar assim, sem mais nem menos, dentro de um utilitário leve e esportivo como esse meu Rover zerinho a caminho de um formidando weekend  é despertar suspeitas em qualquer esposa, amada, amante por mais loira que ela seja.

Tirei o celular do bolsinho superior da camisa pólo - todas as minhas Lacoste têm bolso - e, de relance registrei na retina o nome de Mellanie. Com a rapidez de um flash e sob a curiosidade penetrante de minha parceira ao lado, atendi:

- Osvaldo? Aqui não tem nenhum Osvaldo!

Encerrei o papo. Desliguei o celular e expliquei para a minha doce companheira:

- Não atendo mais essa porcaria. Esse telemarketings não tem noção. Onde já se viu telefonar em fins de semana...

Ela sorriu compreensiva e manhosa aconchegou-se a meu ombro. Só acordou de seus justos sonhos quando pararamos en una gasolinera, para saborear una medialuna com cafezinho brasileiro, mas com jeito argentino de servi-los: con caramelos de café, azúcar y edulcorantes.

MORAL DA HISTÓRIA - Nunca dê o número do seu celular para alguém que se chame Mellanie. Ela vai querer falar com você nas horas mais impróprias.

22 de out de 2011

O VALOR DAS RUGAS

Quanta coisa se pode encontrar nas rugas de alguém. Com boa vontade, é claro. Elas podem, em certos casos, mostrar que já passamos da metade do caminho de nossas vidas. Se isso é bom, ou ruim, tanto faz como tanto fez.

As rugas podem dizer, por exemplo, que cada um tem a idade do seu próprio coração. Podem revelar para quem vê a vida com bons olhos, que não raro é muito mais agradável e esperançoso ser um jovem de setenta anos do que um velho de quarenta.

Pois, eu já tinha mais que a idade do meu coração quando me engracei pra cima de uma diarista linda que minha tia Margarida, uma flor de pessoa, havia contratado para assumir as tarefas da sua casa de veraneio, em Playa Del Carmen, a 70 km ao sul de Cancun, no tal de Caribe mexicano.

De diarista, Libertad logo foi promovida a governanta, com direito a casa, comida e regalias condizentes a quem era tiquitita pero cumplidora.

Como sobrinho mais chegado, eu tirava temporadas praianas por lá. E foi numa dessas que não resisti aos encantos, sorrisos e meneios daquela gatinha manhosa de trinta e dois, trinta e três anos, se muito. Tia Margarida era o máximo. Que tia maravilhosa... Botar pra dentro de casa uma preciosidade daquelas. Pediu, levou.

Não vou me perder em detalhes. Pulo todas as pequenas cantadas que dei em Libertad, para lhes repassar a que calou fundo no seu coração.

Com o dobro e mais um pouco de sua idade, me foi fácil perceber as rugas que nos separavam. Meu caráter, no entanto, não tinha nada a ver com a vergonha dessa defasagem de tempo entre nós. Bolas, eu não queria seu amor, nem casar com Libertad; queria entrar na sua vida. Quer dizer, vida mesmo não é nome da rosa. Queria entrar, entrar e pronto. Vocês já sabem como e onde.

Era um entardecer de sonho. De sol saindo para dar lugar à lua que já mergulhava nas águas do mar das Caraíbas. E eu ali, de frescura com Libertad que já tinha vencido as lidas da casa.

A cada frase murmurada, passava-lhe a mão pela morenice de seus braços, sem que ela mostrasse rejeição. Ao contrário, seus pelinhos se eriçavam. Ela era quente. E eu fui conversando. E abusando devagar e sempre. Libertad me deu entrada. Com vozinha rouca e cálida me animou:

- Sabe, siempre me ha gustado los hombres mayores ...
- Você gosta mesmo de homens mais velhos, meu anjo? Não acredito.
- Verdad. Los hombres mayores tienen más experiencia, son menos atrevidos.
- Mas e a pele, a diferença de maciez, as rugas?...
- Oh, sí, siempre hay alguna diferencia que hace una cierta distancia ...

Putamerda! Eu não deveria ter tocado nesse assunto. Mas, já que a coisa tinha descambado para esse lado constrangedor, mandei o caráter às favas e fui buscar a igualdade na tal experiência a que ela se referira.

- Sabe, Libertad, essa besteira de rugas é puro preconceito.
- Prejuicio, así?
- Já te explico meu anjo. Quando nasci e fiz xixi no mundo pela primeira vez, a parteira que me atendeu viu que meu pintinho já era todo enrugadinho. E achou uma beleza.

Não precisei de mais nada. Libertad sorriu e, em seguida suspirou ao sentir que minhas mãos percorriam suas pernas lisas e eriçadinhas como eu gostava de ver e de sentir.

Uns poucos minutos depois ela percebia que aquelas rugas mais sigilosas que as da minha cara de pau, se tinham tornado lisas, mais evidentes e viçosas como poucas das que ela já havia visto e sentido na vida.

MORAL DA HISTÓRIA – A idade da mulher está na cara; a do homem, no seu ânimo. (Somerset Maugham).

JOGO DE AZAR

Certa noite vagabunda, numa dessas sedes clandestinas de clubes esportivos de segunda divisão, um carteador novo, enorme, gordo, glutão e estourando de sorte, batia todas as grandes paradas. Nas pequenas rodadas daquele pife de bater com a louca, ele nem ia. O cara estava rebentando; tava com o buzanfan que era uma rosa.

Era de uma cidade-satélite de Pelotas. Chegara para fazer compras e ficara para um pernoite de final de semana. Descobrira o pequeno antro de carteado e, viciado como ele só, se abancara por ali mesmo.

Eu apenas mirolhava a jogatina, traçando um vermute com cachaça e Underberg, já que aquilo não era ambiente para Dry Martini, nem para a minha querida finlandesa com nacos de laranja. Apenas fazia tempo, para partir para as quebradas daqueles tempos, hoje tidas como baladas.

Carlito Juruá já estava cansado de sair pifado e perder todas na primeira ou na segunda volta.

Naquela rodada ele saiu pelo coringa. Estradulou. Dobrou todas as apostas que se sucediam. Todos redobravam. Parecia que todo mundo estava batido. Ele seria o terceiro a jogar. Era impossível perder aquela parada. Ia tirar o pé do barro.

Feitas as apostas. O que jogava de mão foi ao jogo. Comprou a primeira, não gostou e comprou a segunda. Encaixou-a no seu buquê de cartas e largou a que não prestava em cima da mesa. Carlito – de mão cheia - moveu-se para comprar no baralho, certo de que iria aumentar sua chance, quando o mastodonte rabudo abriu o seu leque no pano verde:

- Deu pra mim!
- Quiopariu! Vai ter sorte assim na casa do cacete! – irritou-se Carlito.
- Jogo é jogo, meu. Não chia – vociferou o grandalhão, arrebanhando o bolo de fichas.
- Não te agranda, ô corno! Chifrudo! – extrapolou Carlito.
- Cumé quié?!?
- Chifrudo, sim. Quem tem sorte assim no jogo, é infeliz no amor. Corno! E daí?...

Esbravejou e se arrependeu na mesma hora. O animalão levantou da cadeira, cresceu na sua frente e mostrou na cintura um Colt 44 de dar inveja ao Clint Westwood.

- Ô bundão, tu me chamou de corno, de chifrudo?!?

A coisa ia de mal a pior. Carlito engoliu o pomo-de-adão e quase sumiu na cadeira. Ficou assim como quem queria comer a toalha. Os outros parceiros embranqueceram em efeito dominó: à medida que se olhavam, iam perdendo a cor. Deu branco total.

E foi então que eu tive que me meter. Com voz calma e serena desanuviei o ambiente:

- Ei, ei amigo... Ele te chamou de chifrudo, sim.
- O quê... – o possante já ia topando briga comigo também. Tinha peso pra isso.
- Ô amigão foi chifrudo sim... Mas chifrudo no bom sentido, cara.

O tom conciliador daquela minha ridícula intervenção desarmou a animosidade do grandalhão ofendido. Aos poucos, a mesa estava cercada de risos amarelos. Carlito foi crescendo no seu lugar, enquanto o sortudo  de testa proeminente e burrice estampada tentava resolver se aceitava aquilo como desculpa ou como brincadeira. Sentou-se. Aí, só aí então Carlito deu sinal de vida:

- É sim, chifrudo... Chifrudo no bom sentido – conseguiu murmurar amigavelmente.
- Ah, bom. Se foi no bom sentido da palavra, tá certo. Vamos pro jogo.

Carlito ainda insistiu por ali uns quinze minutos. Como a sorte não queria nada com ele, deu os trâmites por findos e foi tomar comigo a sopa da madrugada no Restaurante-35.

MORAL DA HISTÓRIA - Com o Garanhão por perto, ninguém paga vale pra ninguém.

21 de out de 2011

TARDES DE PENSÃO

Eu já fui cabareteiro. Desde os tempos de frangote que eu gazeava as aulas da tarde e me metia nas pensões. As pensões aquelas, antigas, lugar de viração das gurias que vinham da Colônia para conhecer a vida na cidade e acabavam se promovendo de empregadinhas domésticas a mulheres de vida fácil.

Claro que eu não era o Gazeteiro Solitário. Tinha uma turma boa que juntava a mesada e os dinheiros que a gente fazia com a venda de Gibis na porta do cinema e que me estimulava a ser o Garanhão Mirim de Pelotas, muito mais do que ir às aulas de canto orfeônico, álgebra e latim.

Nossas línguas eram muito menos mortas. Pelo menos de três em três semanas, tinha matinê de fuque-fuque da nossa patota pelos bordéis vespertinos, já que os noturnos tinham as portas fechadas para a pirralhada. Mandinho não entrava.

Era bom. A gente batia educadamente à porta da pensão, usando o código de sempre: tantarantantan duas vezes e um tantarantan isolado. Pronto, era um verdadeiro “abre-te Sésamo” para o início de mais uma jornada das nossas 1001 noites às tardes.

E agente bebia cerveja, comia pipoquinha e beijava as moçoilas com cheiro de colchão e gosto de amendoim torradinho. A gente gostava, ué. E já sabia, era só bater e entrar que elas já estavam nos esperando.

Ás vezes, não é que a gente dava com a cara na porta é que elas tinham saído para fazer compras. Blusinhas, vestidos, sapatinhos novos e até coisas do armazém da esquina: lata de banha, arroz, feijão.

Massa não. Massa, elas mesmas faziam com aqueles rolos que as esposas usavam para ameaçar maridos farristas. Elas eram prendadas. Tá pensando o quê? Tinha uma, Mariana, que fazia até talharim. Ficava uma beleza.

Nós cansamos de comer, nas nossas velhas tardes, talharim na manteiga e alho, aos copos de vinho da Colônia que elas traziam, sempre que iam visitar os pais nas fazendolas rurais onde tinham nascido.

Nessas tardes de compras, a gente ficava esperando. Escolhia uma mesa redonda que coubesse a nossa turma, abríamos o frigorífico e nos servíamos de cerveja. Tudo na maior confiança. A gente já era da casa. Nunca bebemos um gole que não se pagasse por ele. O Brasil era honesto naquele tempo. Faz tempo isso. Muito tempo.

Pois naquela tarde, lá estávamos nós. Batemos na porta do que se chamava de lupanar. Não nos atenderam. Sem perda de tempo, levantamos o capacho que tinha um coração desenhado espetado por uma flecha de Cupido e superposto à saudação em relevo: “Seja Bem-Vindo”.

Pegamos a chave no inimaginável esconderijo e fomos nos adonando. Éramos seis naquela tarde antiga. O nosso time estava assim escalado: Garanhão de Pelotas, Tio Banda, Pezão, Maionese, Quimeras e um convidado, El Cantor, candidato a integrar-se à patota.

Quimeras era um baita amigão. Inteligente, bom de bola, bom de briga, piadista incurável, espírito alegre, tão alegre que era viado . Viado, porque naquela época ninguém tinha ouvido ninguém chamar ninguém de gay. Viado, e não veado. Viado, Quimeras era fresco assumido e bem-resolvido.

Tinha seus casos com todo mundo. Com quem bem ele quisesse. Menos com a nossa turma. Ali, ele era só amigo. Amigo mesmo. Gente boa. Não namorava ninguém, pois a gente entendia Quimeras, mas não entrava na dele. Nem nele.

E, então, dito isto, voltamos à pensão da Carminha. Lá estávamos nós. As gurias estavam demorando. Já tínhamos bebido uma cinco ou seis Brahmas da caixa de Antarctica que estava sob as barras de gelo.

Foi então que, nos demos conta. Fazia já quase meia hora que Quimeras e El Cantor – o garotão espadaúdo e bom de soco que estava na nossa aula, tinham sumido da mesa. Tio Banda foi o primeiro a abrir o bico:

- Ei, cadê o Quimeras e El Cantor? – perguntou como se quisesse resposta.
- Foram ver se tinha alguma guria dormindo – informou Maionese.

Eu e Pezão nos entreolhamos. Corremos os olhos para os olhos de Tio Banda e Maionese e sorrimos, somando os ares de cumplicidade... Tio Banda, expedito, baixando a voz e afastando o copo para o lado, sussurrou sugerindo:

- Eles tão muito calados. Vamos dar uma olhada no que eles estão fazendo..
- Hmm, aí tem. Acho que o El Cantor tá comendo o Quimeras... – Disse Maionese.

Pô, lobo não come lobo e a gente nunca usou as camas das gurias quando elas não estão aqui... – esbravejou Pezão.

Em seguida, nos levantamos e, sem fazer ruído, subimos a escada que levava a um mezanino cheio de portas. Nós fomos abrindo uma por uma. Nada. Lá no quarto número 5, abrimos e enfiamos a cara. Os quatro ao mesmo tempo. E não deu outra. Eles estavam mesmo fazendo o que a gente tinha pensado.

Mas, a vida não é simples assim. O que se pensou que era, não era bem assim. Eles estavam numa boa. A gente ficou até meio chateado de interromper o lufa-lufa da dupla, mas gritamos a uma só voz:

- O que é isso, companheiros?!?

Flagrados no ato. Eles desviaram a atenção um do outro e se voltaram para nós. El Cantor, forte, suado, esbaforido, estava sobre o Quimeras... Sentado no Quimeras!

E Quimeras, de peito pro ar, estava enfiado até os gorgulhos no El Cantor. Sem demonstrar espanto, El Cantor não perdeu o rebolado. Deu uma ajeitadinha na posição, acomodou-se melhor no pratilevas de Quimeras e nos surpreendeu de novo:

- Aí ó! Por essa, vocês não esperavam!
- ?!?
- Surpreeesa! Ó eu aqui ó, um baita macho, sentado na manjuba dum puto! Você já tinham visto isso na vida, um macho dando pra um viado?!?

E riu feliz e descontraído, como se aquilo fosse apenas um prêmio a nossa curiosidade. Fechamos a porta, voltamos ao salão. Deixamos o dinheiro das cervejas em cima da mesa e nos mandamos. Naquela tarde, não esperamos pelas gurias.

Levou tempo para readmitirmos Quimeras na nossa turma. El Cantor nunca mais foi convidado para as nossas gazetas de quarta-feira.

MORAL DA HISTÓRIA – E você ainda quer botar moral numa história dessas?!?

VINÍCIUS, O AUDAZ

Vinícius vendia a fama de prepotente bonito, novo-riquinho truculento, metido a valente. Comprava briga por nada. Usava seus conhecimentos de acadêmico de Direito para bancar o defensor dos mais fracos. Só encarava parada dura. Sabia brigar e gostava de brigar. Um craque em briga de rua. Seus feitos eram contados pelas rodadas de exibição de vantagens que fluíam, com freqüência, pelas mesas de bares e restaurantes da cidade.

Num desses rabos sujos de uma velha e cansativa noite de farra, ele chegara de um baile na zona rural e resolveu tomar a sopa da madrugada, no Boteco-24, um tradicional desaguadouro de tragos e mágoas noturnas.

No ranking da revista 4-Rodas, era um bar copo-sujo que parecia um vagão de trem. Havia mesas para quatro clientes, dos dois lados de um corredor que terminava no balcão, onde em banquetas de caubói, o freguês comia e bebia suas dores e suas mentiras. Os mocinhos da elite apareciam sempre por lá; as mocinhas, não.

O lugar estava cheio. A clientela tinha de tudo: garotos da alta, pés-rapados, brancos, negros, mulatos, meninas de pensão e mulheres da vida. Tudo já comido e bebido. Ou só curando o porre na base da sopa e do caldo verde.

Vinícius mal botou o pé na soleira da porta e seus ouvidos de tuberculoso, captaram uma ofensa que partira de uma mesa, bem no meio da casa na lateral esquerda do bar, ocupada por um terrificante quarteto de enormes crioulos, certamente egressos da estiva do porto de cabotagem de Realeza.

Ele os conhecia da beira do cais. Já tinha comprado confusão com um deles, num puteiro lá por perto, fazia pouco tempo. Agora, a provocação fora algo assim, parecido com:

- Ei, chegou aquele branquelo fiadaputa...

Vinícius fingiu que nada escutara. Caminhou calmo e firme, com um sorriso congelado no rosto, na direção do balcão lá no fundo. Quando chegou à mesa do provocador, encarou o quarteto.

Seus membros – enormes, diga-se de passagem - tomavam uma suculenta canja em suas terrinas de cerâmica. Vinícius baixou a cara junto à cara do homenzarrão negro que o chamara de fiadaputa e, olho no olho, boca juntando o seu bafo de uísque ao bafo de comida do desafeto, perguntou com voz grave e cavernosa:

- O que tu tá fazendo aqui, no lugar dos brancos, negão feio?
- Tomando sopa, palhaço.
- Então, bom apetite! Cuida aí desse frango!

Propositadamente nojento lançou uma cusparada no prato do inimigo e, abrindo o sorriso mais branquelo que podia, retomou a passos de solene cadência a caminhada rumo ao balcão.

A meio caminho sentiu no ombro o peso da manopla do estivador. Virou-se e tomou um murro no nariz. O sangue encheu sua garganta e toldou seus olhos. Assim mesmo, reequilibrou-se e devolveu a gentileza. Pegou mal: o golpe entrou embaixo da mandíbula e derrubou o negrão.

Daí pra frente, não contou, mas deve ter levado uns vinte socos na cara; dez nas costelas e nada menos de uma dúzia de pontapés no estômago e nos escrotos que até podiam ser roxos, mas não eram de ferro. Gritou, gemeu e sentiu uma dorzinha que lhe abandonava o saco e invadia o esfíncter. Ah! Que vontade ele sentiu de dormir e ir pro céu...

Dado por vencido foi abandonado pelos estivadores que voltaram à mesa, como se nada tivesse acontecido. Pediram nova rodada de sopa e voltaram à tarefa de acabar com a ressaca.

Meio minuto depois, os dois negros que estavam de costas para Vinícius, mergulharam de cara dentro das terrinas com sopa escaldante. Os pratos se partiram. Eles quebraram a cara.

O caldo virou molho pardo. Logo Vinícius virou a mesa onde ainda estavam dois deles e chutou os dentes de um e a testa do outro, sem que ambos tivessem tempo para qualquer reação. Agora eram os estivadores que dormiam. Vinícius pegou um lenço, estancou o sangue do nariz quebrado e chutando a cabeça de um que lhe pareceu ainda acordado, saiu calmamente do boteco. Antes de chegar à rua, ainda gritou para o dono da casa:

- Bota a despesa toda na minha conta. Amanhã eu pago tudo!

Estou lhes contando assim essa historieta de bar de uma das madrugadas da minha cidade, porque foi assim que ela me foi contada pelo próprio Vinícius.

Acontece que, naqueles tempos idos, eu era médico residente de um dos hospitais privados que atendia como se fosse público.

Fui acordado no meio de um sonho divinal que me enrolava nos lençóis das três mulheres ideais que, muito mais tarde, seriam as minhas inseparáveis secretárias-executáveis.

Estava pronto para dizer que eu não estava, quando a enfermeira me disse que se tratava de um tal de Vinícius, um cara bonitão, meio amarrotadão, que insistia em ser meu amigo e só queria ser atendido por mim.

Daí a dez minutos, um pouco menos, Vinícius tentava me enrolar com uma daquelas histórias que só os pinguços que se metem em confusão nas madrugadas conseguem inventar.

Começou dizendo que tinha sofrido um acidente de carro e batido com a cara num poste. Pediu-me também um remédio qualquer para aquela dorzinha chata que estava sentindo no ânus. Não resisti e entrei no jogo:

- Tá doendo aí?!? – perguntei enfiando o pai-de-todos no seu orifício búndico.
. Não é bem uma dor... – Disse ele tentando escapulir do dedão.
- Ai, ei, ei Dr. Garanhão... Sai, sai. É só uma dorzinha assim ó...
- Assim, assim?... – Prossegui de dedo enfiado nele por cima das calças.
- É assim, ó. Uma vontade de ir aos pés...
- De ir aos pés?
- É. É... Vontade de cagar. Cagar, meu querido! E sai daí! Sai daí!!!

Saí. Saí e dei uma risada na sua cara, antes de ameaçar:

- Se você não me contar mais essa briga eu não tiro o dedo daqui... Vamos, desembucha Vinícius, com quem foi dessa vez?

E foi assim que eu fiquei sabendo de tudo. Ele me garantiu que só foi às vias de fato por que, bolas, fiadaputa é rapadura! Só por isso eu pude lhes contar esta aventura. Ah sim, dois anos e meio depois, Vinícius morreu de uma rapadura chamada câncer nos testículos.

MORAL DA HISTÓRIA – É na audácia que se escondem os grandes medos.
Rebeldes líbios, agora chamados de revolucionários, anunciam a prisão do filho de Kadafi
Ooops!
Era Edinho, filho de Pelé!

20 de out de 2011

NÃO FUMO!...

Quem quiser que acredite, mas este seu Garanhão de Pelotas aqui, um dia, foi adolescente. E a minha turma era da pá virada. Eramos todos mais ou menos assim como um "pobre samba meu": sofríamos a influência do jazz. Cada um queria ser mais parecido com o James Dean. Parecido com ele, é claro, antes que se esbugalhasse com seu Porsche 550 naquele acidente contra um Ford Custom Tudor 1950 quando ia para uma corrida em Salina.

Imagine se alguém queria se parecer com Anselmo Duarte?! Não havia uma moçoila sequer que preferisse ser Eliana, ao invés de Natalie Wood.

Então, como era it da moda, todo mundo queria ser mais homem, mais rebelde sem causa, mais transviado, mais duro e dez, mais machoman, ainda que fosse nos mínimos detalhes, nos menores lances.

Era bosseiro tomar leite de madrugada no gargalo da garrafa; era tranchan usar cabelo abotoado atrás e foi aí, bem nessa época, que as camisetas Hering viraram coqueluche. A rapaziada passou a levantar ferro na moita, tinha que ficar sarado para ser durão. Era bonito fumar. Porra, o James Dean fumava.!

E foi numa daquelas tardes de matinés que a patota se reuniu, para saber quem iria azarar depois de mais uma sessão de cinema. Fernandinho, o Raposa, era um dos poucos da turma que não fumava. Não gostava. Também não dizia nada; fazia de tudo para que ninguém notasse que ele era um do time que não pita, nem na cola da cabrita. No fundo, no fundo, se sentia meio envergonhado por essa falha.

Pois, naquela tarde de domingo, estávamos em bloco defronte à entrada do cinema. Um garoto novo no grupo, com cara de Sal Míneo, tirou um maço de Colúmbia com filtro do bolso da jaqueta e, querendo agradar e criar ambiente, ofereceu um cigarro a Fernandinho Raposa:

- Você quer fumar?
- Não, brigado. Não Fumo... - E, fechando o cenho pra ficar com cara de durão, completou com uma certa vermelhidão na cara: - Não fumo... Só bebo e trepo!

MORAL DA HISTÓRIA - Quem não se encaixa nos modismos da sua turma, acaba vítima de seu próprio jeito de ser e parecer. Nem precisa ser, fundamental é parecer.

6 de out de 2011

FLORES PARA O SOLDADO DESCONHECIDO

Esta aqui é em off. Não daqueles offs de políticos traíras que entregam o ouro pedindo sigilo só para que os jornalistas atirem a matéria na pá do ventilador sem qualquer prurido contra os odores que se espalharão. É off mesmo. Fique sabendo, pois, mas bico de siri. Tem que comer em tranca. Sigilo absoluto. Mais sigiloso que conta bancária de caseiros brasilienses.

O caso é que, neste exato momento, como repórter investigativo, estou infiltrado na comitiva de Dilma - A Bruxelante, que passeia pela Bélgica. Ela pensa que sou um dos assessores de Aninha de Hollanda - A Carioca que de holandesa não tem nada.

R. Stuckert F°/PR
Flores para o Soldado Desconhecido búlgaro.

Aninha tem é direito de achar que tem direito a diárias e hospedagens pagas pelas burras públicas pelos fins de semana que passa no Rio de Janeiro, cidade onde é residente e domiciliada desde que foi dada à luz pela mãe de Chico Buarque, seu irmão de fé, amigo e líder - sempre muito lido e ouvido pela nossa presideusa.

Dentre idas e vindas por lugares nenhuns já estivemos em Bruxelas, neste mês das bruxas, mas na ansiosa espera, na angustiante expectativa de ir à pequena Gabrovo, torrão natal de Pedro Rousseff - O Grande Pai da faxineira que no périplo entre a capital belga e Sófia, antissala do fim do mundo búlgaro, se transformou na humanitária enfermeira que se oferece para curar as dores e as crises do mundo ocidental.

Já estamos na Bulgária desde ontem. Estou aqui e agora - cale a boca, por favor! - infiltrado no grupo que segue Dilma - A Impoluta, até o Túmulo do Soldado Desconhecido. A coroa acaba de depositar uma xará de flores na tumba onde jaz tombado o herói que tombou na primeira guerra mundial, mas que recebe homenagens até hoje por todo e qualquer sinal de conflagração internacional.

Não há capital no mundo que não tenha o seu Soldado Desconhecido. O Rio de Janeiro, não tem. Ou tem. Mas isso não conta, pois se você não sabe, a capital do Brasil não é mais o Rio, desde JK que nunca foi desconhecido.

O que eu posso observar daqui detrás das lentes de minha câmera Rolleiflex é que ela já se afasta do túmulo e está com cara de guerreira ensandecida. Neste instante Dilma sussurra algumas imprecações retumbantes na orelha dos despejos de uma assessora da assessora da secretária do patriota titular da Pasta das Relações Exteriores do Brasil.

Ó, nesse momento, a servidora para assuntos de cerimonial e precedência afasta-se da primeira-presidenta. Vou ver se chego até ela. Pronto, cá estou. Ela é simpática, mas está com os olhos marejados. Vou ver se consigo alguma informação.

- Ei, gracinha, o que foi que deixou a nossa presidenta tão chateada?
- Chateada?
- É, ela tá com cara de quem levou uma sapatada, uma bengalada, sei lá...
- Nada demais. Ela só ficou puta da cara porque não compareceu ninguém da família do Soldado Desconhecido à solenidade... Ela achou isso uma desfeita, uma desconsideração, um desaforo.
- E daí?
- Daí que ela não adimite falhas no cerimonial. Está pensando seriamente em exonerar o Antonio Patriota assim que voltar ao Brasil.

Pronto. Valeu a pena vir até esta solenidade boba, criada só para preencher espaços vazios de agendas oficiais de quem não tem mais o que fazer na terra dos outros. Mas, por favor, não conte nada pra ninguém. Do contrário, vou ter que ir a Ancara, na Turquia, em avião de carreira.

De qualquer maneira, acho que tenho a manchete de hoje para os meus jornais: Soldado Desconhecido búlgaro derruba mais um ministro de Dilma!

MORAL DA HISTÓRIA - O Garanhão de Pelotas também é cultura. E não acredita em off.